Sexta-feira, 30 de Outubro de 2015

Descomemorando o 25 de Novembro de 1975 – Data Fatídica que gerou esta democracia filofascista



Em primeiro lugar cabe-nos assinalar o êxito e a ressonância do nosso "Descomemorando" no ano 2000. Apesar do apoio de entidades oficiais (Incluindo o proprio PR, J.Sampaio) e da proteção mediática,  foi a nossa tomada de posiçao aquela  que vingou junto da opinião pública, particularmente dos trabalhadores.

O “25 Novembro”, a vitoriosa contra-revolução de 1975, aí está implantada vai para perto dos 40 anos. Mas já nao há historiador que se respeite, ou que mereça respeito, que se atreva a defender a tese absurda de um  Conselho da Revolução - na verdade constituido pelos Vencedores do 25 de Novembro- de ser considerado "O Motor da Revolução!!”.(Ignácia Rezolla,Univ.Nova, Lisboa).  

Assim ficariam absolvidos os responsáveisl pelo regime de saque e rapina de sobejo conhecido pelos portugueses, em particular os trabalhadores que são roubados nos seus direitos ano-a-ano e humilhados na sua dignidade dia-a-dia. Regime formalmente democrático, mas de efectivo compadrio partidário (PSD/ PS/ CDS) de uma burguesia exploradora cuja amoralidade total, e corrupção congénita são do conhecimento geral.

O comum e único programa do governo dos três partidos que têm repartido o poder desde a contra-revolução de Novembro 75, só pode ser lido como : “É Fartar Vilanagem”.

Considerando a evolução/realidade do regime político existente em Portugal,  de submissão e vassalagem perante o capitalismo e a  lei dos mercados internacionais, a caminho da instauração do  modelo global duma sociedade dita neo-liberal (mas de facto neo-fascista), impõe-se uma retomada de posição.

Só nos move um objectivo: Derrotar total e finalmente o Inconcebível da tirania neo-liberal  que nos asfixia e destroi o País, vai para 40 anos. Uma ditadura, em paralelo e na sequência do fascista Estado Novo de má memória. O que é feito do 25 d´Abril que tantos festejaram?! Foi apunhalado pelo Contra-Revolucionário 25 de Novembro.

 Devemos salvá-lo, se para tanto ainda houver “tomates”. Entretanto, nunca esquecendo que toda esta desgraça que está afundando/aviltando a Nação Portuguesa nestes últimos 40 anos só tem paralelo nas décadas (1580-1640) durante a dominação e dependência do reino espanhol.  Estamos vivendo num dos períodos mais negros e lastimáveis da nossa secular história. A abdicação da nossa idependencia tem a sua origem na contra-revolução do 25 Novembro 1975.

          Descomemorando na 40ª efeméride do golpe de 1975

                            Em Lisboa, Outubro de 2015

publicado por samizdat às 10:20
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Domingo, 16 de Agosto de 2015

No aniversário da morte de Ramiro Correia

- NOMEANDO O TEMPO -

 

Por J.Varela Gomes Na Sessâo de Evocação/Homenagem dedicada a RAMIRO CORREIA

Efectuada na “Associação 25 de Abril”

Em Lisboa, a 15 de Outubro 2002

 

         25 anos após a morte de Ramiro Correia (aos 40 anos de idade) estamos aqui reunidos para evocar o homem, o amigo, o companheiro; para valorizar o seu trajecto profissional, a intervenção cívica e cultural; para o homenagear como exemplo singular de dedicação à causa da libertação da pátria onde nasceu ...libertação como projecto total , isto é humanista; isto é, revolucionária .

         Penso ser redundante percorrer nesta ocasião, passo a passo, de novo, a sua trajectória biográfica. Em Agosto de 1977, na Cidade de Maputo, perante o seu caixão, o de sua mulher e o do filho mais pequeno, coube-me o triste dever de invocar os passos fundamentais da vida -tão breve !- do Ramiro. Relendo o que então disse, pareceu-me que mantém interesse actual. Decidi, portanto, transcrevê-lo agora numa pequena brochura (.....).

         Convocar hoje, em 2002, a memória de Ramiro Correia representa, indubitavelmente, convocar a memória da Revolução de Abril , ou melhor dizendo, do Período Revolucionário de 1974-75. Creio que isso está claro para toda a gente. Gostaria de enfatizá-lo. Aliás -como orador nesta sessão- sinto-me obrigado a fazê-lo.

         Desde logo, porque é contra-corrente. Ou, pegando na frase agora costumeira, porque é “politicamente incorrecto”. Trata-se pois, e também, de uma afirmação/ protesto contra a conformidade geral ... contra o “nevoeiro cinzento” em que vive mergulhada a consciência nacional. (E a imagem não é minha; aparece por aí, com frequência, na prosa avulsa).

         Quanto a mim, o diagnosticado nevoeiro não é nada mais nada menos, que a amnésia selectiva que vem afectando a memória colectiva desde a predominância do sistema partidário burguês. Não se trata de uma amnésia total, como por vezes se julga. Longe disso. Na realidade, é parcial e farisaica , tal como a classe que a pratica e exibe. Só se esquecem -e só se lembram- do que lhes convem. Eu diria que é uma amnésia reacionáriaria.

         Ramiro Correia reunia na sua pessoa - e reúne na sua memória - múltiplos motivos para ser votado ao ostracismo pelo poder político que vem dominando esta II República Democrática.

         Considerando que estamos em casa dirigida por antigos camaradas militares, devo apontar como primeiro motivo dessa atitude o facto de Ramiro Correia ter sido membro das Forças Armadas. Com a decisiva agravante de ter pertencido de corpo e alma ao movimento militar que derrubou o fascismo e abriu as portas à liberdade. De ser um dos “implicados” no 25 d’Abril, como acentuava com irónica amargura o falecido Salgueiro Maia.

         A classe burguesa - que se encobre sob o significativo eufemismo de sociedade civil, - odeia os militares. (Ou despreza-os, se preferirem). Odeia particularmente, os militares que participaram no 25 d’Abril ; e entre estes, ainda mais, aqueles que desejavam uma ruptrura revolucionária com o passado fascista. Era o caso de Ramiro Correia.

         Creio que os prezados camaradas da Associação 25 de Abril, ao fim de um quarto de século de penosa sobrevivência e desconsiderações várias, reconhecem a realidade de um clima político-partidário hostil em relação à Instituição Militar,em geral ; e, em especial, marginalizando os protagonistas da acção libertadora de Abril. Lembremos ainda, o caso de Salgueiro Maia, heroi maior do 25 de Abril, sujeito a infames humilhações até à sua prematura morte em 1992. (Com 48 anos de idade). Ou ainda Melo Antunes (m.1999), um caso clássico da ingratidão dos vencedores, pois sendo um dos militares a quem a burguesia mais deve, faleceu em 1999 quase ignorado ; e parecendo não ter deixado saudades.

         No fundo, o fantasma revolucionário -o famoso PREC- ainda hoje provoca calafrios (e diarreias) na auto-denominada sociedade civil; a qual vivia mansamente à sombra do fascismo e não perdoa aos Capitães de Abril os incómodos de 74 e o cagaço do 11 de Março 75.

         Não será este o local nem a ocasião, para averiguar as causas profundas do ressentimento da sociedade civil, em relação à sociedade militar emergente do 25 de Abril. Causas sócio-políticas (ou de opção de classe, se preferirem) existem sem dúvida e são universais. Causas específicas são decerto, as resultantes dos quase 50 anos da reles ditadura salazarenta. Com efeito, poucas famílias haverá em Portugal que não tenham sido afectadas por uma cumplicidade, uma cobardia, uma abjuração ; por servilismos, medos e cedências. Serão, essencialmente, motivações de ordem psicológica; mas de efeito sustentado, assimiladas no inconsciente, porventura originando mazelas irremediáveis na tão demandada Identidade Nacional. (Diria o outro, para os analistas angustiados : “É a espinhela partida, estúpidos !”).

         Neste enquadramento, entendo que evocar Ramiro Correia em sessão pública, nesta ano de (pouca) graça de 2002, equivale a uma Tomada de Posição. Por assim o entender aqui estou na Ass 25 de Abril, recuperando a memória do querido companheiro Ramiro, na companhia de camaradas. amigos e admiradores de várias gerações e sensibilidades ideológicas; mas que, em conjunto, não perderam o respeito pelos ideais de Abril, de ruptura com o passado fascista, de crença num futuro possível de solidariedade activa, de equidade na justiça e na distribuição da riqueza.

         Sonho e Utopia ! Ouve-se com insistência -e dissimulada zombaria- em relação ao projecto revolucionário anunciado no Programa do MFA e nascido do ventre popular nos dias de júbilo e triunfo.

         Sim, Ramiro Correia foi um cavaleiro “sans peur et sans reproche” (sem medo e sem mácula) do sonho e da utopia. Honremos nele -na sua memória- por palavras suas “o sonhador nunca vencido, que entregou intacto ao futuro, o sonho por cumprir”. Ramiro foi, perante a circunstância revolucionária, um Sonhador do Possível....da Utopia Possível. Interessa que isto fique sublinhado como correctivo ao sorriso manhoso dos idealistas pragmáticos (passe o oxímoro). Poeta também ele era , mas não sentado à beira da estrada a ouvir o vento que passava e lhe traria notícias do país. Numa decisão natural, que lhe ia ao carácter e à inteligência, pôs-se ao caminho com confiante optimismo. Desportivamente, se preferirem, para ganhar ou perder, ele que fora um atleta campeão. Soara a hora de estar à altura, de enfrentar os riscos, de jogar o destino em nome das paixões confessadas. Tinha ele escrito, a quatro anos de distância da alvorada de Abril : “Ser um homem....é recusar com coragem os caminhos aviltantes de quem mente”. Parecia adivinhar a chusma de renegados mentirosos que se refugiaram no regaço de reacção burguesa, mal o tropel   de Abril levantou a primeira poeira.

         O projecto/sonho de Ramiro Correia, e as formas de lhe dar corpo, encontram-se amplamente descritas pelo próprio em numerosas intervenções, entrevistas, etc. (Que, aliás, justificariam uma recolha antológica). Em vida, numa urgência premonitória, arranjou tempo para promover e colaborar na edição de dois livros de indispensável valor documental : MFA e Luta de Classes ; MFA - Dinamização Cultural e Acção Cívica .

         Ramiro Correia tinha perfeita consciência -e repetia-o vezes sem conta- que o caminho se faz caminhando. Isto é, que a revolução se constroi - se vai construindo- não obedecendo a certezas finalistas, ou a esquemas teóricos.   Escreveu: “A construção do socialismo não é um acto de fé, nem vive de dogmas. É um trabalho. Vive da inteligência na análise das situações” (em MFA-Luta de Classes). Ou ainda : “...a nossa acção na 5ªDivisão manifestou sempre um profundo respeito pelo povo....não procurando, portanto, controlar-lhe a vontade revolucionária, mas sim criar a consciência das necessidades estimulando a organização popular; ou seja, o efectivo avanço da revolução” (em entrevista, Out.75).

         Entendo que interessa sobremaneira sublinhar estoutra conclusão : A acção cívica e política levada a cabo pela 5ªDivisão junto das populações , foi de orientação e apoio - de dinamização, na feliz designação adoptada -; jamais se exerceram pressões intimidatórias, ou se optou pela demagogia das promessas . Orientação geral no sentido do socialismo ? Isso expressamente. O que não pode suscitar qualquer reparo, numa circunstância onde até o PPD se reclamava do socialismo ; e, mais ainda, onde a Constituição aprovada em Abril de 1976 o consagrava logo no Artº1º: uma República...empenhada na sua transformação numa sociedade sem classes. E no seu Artº2º: assegurar a transição para o socialismo.

         Podeis crer que não foram os “perigosos” revolucionários da 5ªDivisão quem escreveu ou inspirou essa I Constituição do regime democrático. Muitos de nós estavam presos ou exilados; a totalidade, excluída. Obviamente, não tivémos qualquer responsabilidade na inobservância dos princípios consignados na Lei Suprema da Nação; nem na impotência manifestada perante a sua sistemática sabotagem, a coberto dos primeiros governos constitucionais. Igualmente não fomos tidos nem achados no absoluto desrespeito do disposto no Título X da mesma Constituição, onde era estipulado (artº273º) . “As Forças Armadas têm a missão histórica de garantir as condições que permitam a transição pacífica e pluralista da sociedade portuguesa para a democracia e o socialismo” Afinal,. nem mais nem menos que a missão atribuída e desempenhada - com dedicação e sucesso - pela, entretanto extinta, 5ªDivisão / Codice.

         O facto é que dentro da estrutura militar portuguesa nunca tinha existido -nem voltou a existir- um departamento tão criativo e tão abnegadamente criador como foi a 5ªDIVISÃO/EMGFA ...de onde esteve arredado o militarismo clássico .... onde a a colaboração entre militares, artistas, literatos, músicos professores, arquitectos, cineastas e centenas de voluntários de todos as habilitações, atingisse semelhante intensidade fraternal....cuja ligação às massas populares se tenha feito através de vivência comum e continuada nos próprios locais em que habitam e labutam.

         A imagem e o nome de Ramiro Correia ficaram indissoluvelmente associados à Dinamização Cultural. Para muitos estudiosos, para muitissima gente indeferenciada, a Dinamização Cultural foi a realizaçao mais bela e simbólica da Revolução de Abril. Aquela que perdurará no tempo da história, nas memórias e nos livros...para além, muito tempo depois de ter morrido connosco o sufoco de emoção provocado pela lembrança dessa época apaixonante

         Para as hostes e partidos políticos reacionários a Dinamização Cultural e o seu mentor Ramiro Correia foram alvos prioritários a abater. Tal como o conjunto da 5ªDivisão e seus dirigentes. Eles bem perceberam ! E , dessa aversão derivamos muita honra . Triunfaram no seu propósito, como é sabido. Encontraram ressonâncias favoráveis dentro das Forças Armadas, inclusivé no MFA. Na verdade, o encerramento manu militari da 5ªDivisão, em Agosto de 1975, representa a.1ª grande vitória das forças que, por uma razão ou outra, se opunham à marcha redentora da revolução..

         O retrato de Ramiro Correia em corpo inteiro - como cidadão, médico, desportista, oficial da Arrmada, homem de cultura e de imaginação criativa , revolucionário, organizador eminente e dinamizador de vontades - tem sido desenhado, desde a sua morte trágica, por muitas mãos amigas em tributo saudoso. Vários desses depoimentos estão transcritos no meritório livro de homenagem Ramiro Correia, Soldado de Abril dos jornalistas Joaquim Vieira, E. Miragaia e M. Vieira, editado em fins de 1977.

         Creio que não melindrarei ninguém - nenhum dos camaradas e amigos que escreveram palavras admiráveis e sentidas sobre o nosso Ramiro - se destacar o texto de O mais velho , o também nosso Vasco Gonçalves. Trata-se de um texto de valioso sentido pedagógico ,que termina do seguinte modo :   Ramiro Correia viveu pouco tempo, mas não viveu em vão. A sua vida contem um alto significado humano e patriótico. Assim o atestam as grandiosas manifestações de pesar pela sua morte.

               Esta ideia de que não viveu em vão é um bálsamo para a saudade dos camaradas que com ele privaram e mais de perto acompanharam e conheceram a sua obra ..... A melhor maneira de nos mantermos fieis à memória de Ramiro Correia, ao seu trabalho pioneiro de Dinamização Cultural e Acção Cívica das Forças Armadas em Portugal, é estudarmos a sua obra, aprendermos os ensinamentos da sua experiência e du sua reflexão e levá-las à prática.

               Assim ele estará vivo entre nós e no seio do nosso Povo. (Nov.77)

 

Não podendo eu dizer, a respeito de Ramiro Correia, muito mais -e melhor-do que aquilo que já foi escrito e dito -inclusivé nesta sessão....limitar-me-ei a sublinhar dois ou três aspectos complementares que me parecem de interese .

         Evoco em primeiro lugar, a singular capacidade de Ramiro Correia em mobilizar vontades, o entusiasmo contangiante, a confiança que inspirava, a rapidez e audácia das decisões ...todo um conjunto de atributos que distinguem o “lider” natural (passe o anglicismo, na onda americanófila) Um quarto de século de democracia partidária, durante a qual assistimos ao aparecimento periódico de fornadas de centenas de “lideres”....Qual deles se avantajou à estatura de Ramiro Correia ? Qual se mostrou capaz -como ele- de galvanizar uma campanha cívica e popular de âmbito nacional e duração sustentada, como foi a Dinamização Cultural ?

         Destaco em seguida, o excepcional à-vontade que Ramiro Correia manifestava na expressão e no combate de ideias. Era para ele um terreno de eleição, de onde saía invariavelmente ganhador. Seja-me permitido dizer que nessa área, Ramiro Correia foi um lídimo representante da 5ªDivisão que, por norma, obtinha ganho de causa nos confrontos de reflexão política ou doutrinária em que intervinha, ou se via obrigada a intervir.

Notava-se em Ramiro Correia o prazer que lhe dava a esgrima da inteligência. As suas certeiras paradas e respostas advinham da mais funda honestidade de propósitos e sinceridade de convicções. Ficou célebre o debate no Centro Nacional de Cultura, em Junho de 75, com concorrida participação; e onde Ramiro Correia desfez com magistral simplicidade, os ataques de um largo sector de intelectuais, “vencidos das utopias” e já de malas aviadas para a bela sociedade liberal dos prémios e comendas. Mais uma vez se verificou a sabedoria do velho aforismo : Se a vossa moral é corrupta..... a vossa lógica corrompida está.

         Ramiro Correia foi objecto privilegeado de ataques e calúnias por parte das forças inimigas da revolução. Destruiram-lhe o carro à bomba; acusaram-no de maquievélicas intenções. De extremista, inclusivé Um homem que era a ponderação em pessoa!. Para o apoucar, uma figura grada do “socialismo em liberdade” e, na altura, “ministro em greve” (já falecido) apodava-o de “obscuro dentista”. Respondi-lhe à letra, metendo-o na ordem. Em 1985 outro puxão de orelhas tive que ministrar a um semanário do mesmo quadrante partidário, devido a mesquinharia idêntica.

         Não, não reconhecemos capacidade a nenhum turiferário do imperialismo e da governança capitalista, a nenhum rernegado com a barriga cheia de tachos e gamelas, para se atrever a rebaixar a figura e obra de Ramiro Correia ao nível dos seus míseros intuitos de carreirismo político , de ganância pelo poder, por privilégios e enriquecimento pessoal. Ramiro Correia, os seus colaboradores na Dinamização Cultural, os seus companheiros da 5ªDivisão pertencem a outro universo de valores : eram gente honrada, empenhados de corpo e alma na tarefa exaltante de libertar o sua Pátria do medo e do obscurantismo ancestral, de abrir os horizontes da civilidade e de um progresso humanizado. Sempre nos bastou o sentimento do dever cumprido. É um brasão de nobresa , que não está ao vosso alcance.

         Cabe neste momento, fazer o chamamento de outros companheiros entretanto também desaparecidos do nosso convívio, para que marquem presença na galeria onde colocámos Ramiro Correia. E pela mesma razão : porque se nobilitaram Beyond the Call of Duty .(Para Além do Cumprimento do Dever)   (Seria essa a divisa da 5ªDivisão Revolucionária).

         Chamo em primeiro lugar, o coronel Robin de Andrade. Por precedência de função, (e não só, pois era muito antiga e forte a nossa amizade e respeito mútuo). Foi chefe da 5ªDivisão de Outubro de 1974 a Junho de 1975. O seu corpo foi cremado em Maio de 1977. Sobre ele escrevi, em elogio fúnebre : “No historial de Resistência Militar Antifascista ocupa por direito próprio lugar de primeiro plano. Nesta perspectiva, ao lado dos Capitães de Abril de todas as épocas, resgatou a honra do Exército; e morreu credor de uma dívida de reconhecimento público”. Mereceu o respeito, a estima e a consideração de todo o pessoal que passou pela 5ªDivisão. Bateu-se com lealdade inexcedível , em defesa do departamento que chefiava e dos seus elementos mais revolucionários. Pagou caro essa atitude e viu ser-lhe negado o acesso ao generalato, para o que reunia todas as condições . (Aliás, o mesmo sucedeu em relação a todos os militares com ficha pidesca antifascista, nomeadamento todos os coroneis).

         Logo em seguida vamos invocar a memória dos colaboradores não-militares da 5ªDivisão, entretanto desaparecidos. Faço esta chamada com especial intençao. Eles não foram os civis que conosco trabalharam ; foram nossos camaradas, no sentido mais genuino do conceito Estão aqui presentes muitos, felizmente sobrevivos. Está aqui presente o Rodrigo de Freitas, desde a primeira hora, um dos elementos fundamentais da estrutura da CODICE, coordenador responsável do sector artistico... além dos outros sete instrumentos que punha a tocar num voluntariado sem descanso. Vocês bem sabem que não havia galões, ou autoridade imposta, nos vários departamentos da Divisão. Formávamos uma equipa, uma verdadeira equipa, na entrega total, no desempenho abnegado das missões cívicas e revolucionárias que nos estavam atribuidas. Organismo militar tão aberto - tão civil...izado - jamais houve em Portugal.

         Honremos ao lado de Ramiro Correia, na mesma galeria evocativa, os nomes de alguns que já partiram, mas que por obra valorosa devem ser recordados : Moniz Pereira, infatigável no seu esforço de apoio, quer no sector artístico, quer nos programas rádio; Marcelino Vespeira, autor de alguns dos símbolos gráficos mais conhecidos do MFA ; João Hogan (m.1988), Henrique Manuel e Fernando Azevedo (recentemente falecidos), eminentes artistas plásticos, cuja magnânima colaboração foi oferta permanente ; Virgilio Martinho (m.1994). escritor e dramaturgo, acompanhando as campanhas de dinamização por esse País fora.

Neste ponto seja-me permitido abrir o parenteses devido a Carlos Paredes, vítima há longo tempo de grave doença sem hipótese de regressão, e cujas qualidades humanas e artisticas ultrapassam o comum dos mortais. Ele foi o coordenador entusiasta e dedicado do sector musical da Dinamização ...que vou agora chamar Popular, pois penso que assim melhor se adapta ao carácter do Carlos, ao seu desvelo pelos mais humildes e à sua preocupação pedagógica. (Uma salva de palmas para ele, para que saiba da nossa amizade e reconhecimento). Ao lado de C.Paredes, a 5ªDivisão/Codice contou com outros dois portentosos artistas populares: Zeca Afonso (m-1987) o mítico poeta compositor/cantor, autor da famosa “Grândola, Vila Morena”,senha do Movimento dos Capitães, Hino da Revolução de Abril; e o seu companheiro andarilho das trovas da resistência Adriano Correia d’Oliveira, de quem se comemora hoje, por coincidência, o 20ª aniversário de uma morte por desencanto . Estes dois vultos, glórias nacionais, são também - podemos dizê-lo com orgulho - glórias da Dinamização Cultural

         Vou fechar a chamada dos companheiros desaparecidos do número dos vivos ( com receio de ter cometido alguma omissão de monta) evocando José Conduto, nosso camarada miliciano, um entre as largas dezenas que acorreram a colaborar com a 5ªDivisão de alma limpa e intenções puras, operador nas emissões rádio, e que também “se foi embora” ferido de desencanto; e por fim (mas não em último lugar), também oficial miliciano, Luis Craveiro Martins (m.1985), de uma dedicação extrema, “aguentando” a derradeira campanha em Bragança para além de todas as ordens para destroçar. Conosco se expatriou para Angola depois de Novembro. Voltou, foi julgado não sei quantas vezes, e através de dificuldades de toda a ordem estava prestes a licenciar-se em economia. Uma doença traiçoeira levou-o jovem ainda. Fcaram dois filhos pequenos. Adultos agora, aceitem a nossa homenagem ao vosso Pai, a mesma que estamos prestando ao Ramiro Correia que, de certeza, se vivo fosse, a ela se associaria.

 

 

         Pensei, para terminar, convocar por uma última vez, em espírito, o Ramiro e trazê-lo de volta ao País e ao Mundo que abandonou tão subitamente, faz agora um quarto de século.

         Antes mesmo de começar a concretizar a ideia as dúvidas assaltaram-me. A primeira das quais, talvez a mais importante, foi : Essa virtual revisitação tornaria feliz o nosso Ramiro.?

         Para já, para atenuar o choque que reputo altamente provável, decidi entregar o papel de guia/cicerone a um qualquer representante do pessoal modernaço que fabrica a chamada opinião pública, nos meios de comunicação social, nos parlamentos, nos vários e abundantíssimos foruns e conclaves. Abdiquei de me pronunciar pessoalmente com receio que a minha provecta idade (perto dos 80), os golpes e as decepções sofridas conduzissem a uma perespectiva denasiado catastrófica. Assim, ponho a falar os comentadores encartados da situação actual da res publica, transcrevendo uma recolha feita a esmo nas últimas semanas:

         - O País está de tanga....em crise económica e financeira ....apertando o cinto

         - Um País deprimido...numa aflitiva falta de auto-estima...(onde) a maioria suspeita de nada em especial, mas de tudo em geral   

         - Um País que apresenta os piores indicadores económicos, sociais e culturais da Europa

         - Um Portugal néscio, novo-rico, deslumbrado e venal....exibindo os estigmas que o vêm amesquinhando ao longo dos últimos vinte anos

         - A corrupção de alto a baixo...a venalidade endémica...a decadência da ética política...a administração pública desmoralizada

         - O sistema político português está fora de prazo, como um iogurte deixdo fora do frigorífico.   Por isso é que cheira tão mal

        

Estes são alguns extractos de opinião -podiam ser centenas- recolhidos em jornais ditos “de referência”. Quem isto escreve é pessoal que não põe em causa o sistema ! (Quem a isso se atreve, nâo aparece nem escreve na comunicação social da seráfica democracia pluralista lusitana; quanto muito, por especial deferência, sobram uns segundos ou umas linhas ...” no dia em que o rei faz anos” ).

 

         Vê lá tu Ramiro que eles agora até falam na necessidade de criar uma nova mentalidade ! De dinamizar e apoiar a criatividade popular. De ser a altura de recuperar o orgulho perdido. Etc.etc. Sim, ouviste bem, dinamizar! Apoderaram-se (também) das palavras, chuparam-lhes o conteúdo como vampiros , deixaram só a casca. Revolução? Todos os dias uma! Na moda, no trânsito, na educação, na saúdde, etc, etc. Mudança ? Mas todos os dias, a toda a hora , vomitam o discurso da mudança Tanto falam de mudança ...enquanto tudo fica no mesmo lugar, que fico a pensar se a moderna sociedade civil não anda a confundir o significado da palavra com o velho “marcar passo” da sociedade militar.

 

Ramiro, Querido Amigo tão breve :

                                                     Nós bem sabíamos   -tu, principalmente- que era preciso ajudar a nascer o Homem Novo. Fizeste um esforço ímpar nesse sentido. Uma Obra que foi ignorada.

           Mas sabes ? Afinal houve um modelo do Homem Novo. Foste tu.. És tu esse modelo, com as tuas múltiplas qualidades/dons de ser humano integral, mais a tua ingénua sinceridade em querer fazer brotar a felicidade dos outros, ....da tua terra,.... talvez do mundo.

         Os deuses mitológicos decerto aprovaram o teu intento. Mas, na sua milenária experiência, sabiam que para algum humano se converter em modelo e exemplo (heroi,... diriam no seu grego homérico) teria que morrer na flor da idade. Neptuno e Tetis levaram-te então para os seus palácios no fundo do mar. Para que sobreviva o teu exemplo, o modelo do Novo Homem, que deixaste esboçado

 

         E apenas me falta o mais difícil. Nomear o Tempo. Compromisso que assumi há 25 anos, em Moçambique, perante os restos mortais do Ramiro Correia , de sua mulher e filho. Como dar nome ao tempo que estamos vivendo , sem passar uma mensagem de desânimo ? Tempo de alarme e angústia, foi a primeira sugestão que me veio ao espírito. Mas o Manuel Duran Clemente, Capitão de Abril, connosco desde a 1ª hora, semper fidelis até ao derradeiro minuto da Revolução (quando deu presença pela indómita   5ªDivisão, com imagem registada pelas câmaras da Televisão) achou a minha definição demasiado próxima de uma declaração de estado de calamidade. Pode ser. É possível que alguma desilusão acumulada da minha parte, faça carregar a perspectiva   Acordámos então na seguinte fórmula :

         - A época que o Mundo atravessa , com o País Português nele conglobalizado, é  

                                 Tempo de Alerta e Angústia  

 

Fica uma réstea de luz num horizonte escuro.   Pode ser sinal de novo dia. Façamos votos e força para que, efectivamente, ele nasça.

                                                                                    

                                                                                             TENHO DITO

                                                          

 

                              

 

                                             J. Varela Gomes

publicado por samizdat às 10:27
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Quinta-feira, 23 de Julho de 2015

Da Tirania Neo-Liberal

Utilizei – deliberadamente – o antigo conceito grego tirania  - ou governo despótico- lá pelos idos dos 500 aos mil anos ac (antes  de nascer J.Cristo). Para os filósofos  de então, a tirania era considerado o sistema de governo mais nefasto e condenável na escala da “justiça social”.

Sabe-se que esse tema  -a justiça- e a correlativa procura/ definição do “homem justo”, foram  obsessão na cultura clássica grega; e ainda hoje/agora presidem ao julgamento ético na chamada civilização ocidental/cristã, graças ao monumental espólio literário/documental  que chegou  aos hodiernos tempos. Com efeito, o pensamento filosófico da Cristandade Ocidental e seus impérios  (nomeadeamente no campo social-político) e noutras religiões/crenças,  devem o mais válido das suas doutrinas aos pensadores da antiguidade clássica......e não a supostas revelações divino/proféticas.

Vejamos, no campo restrito da governação da cidade-estado. Era ponto assente: - o governo arbitrário/abusador do tirano, acabará substituido por uma oligarquia (de facções e partidos de interesses); que, por sua vez, mais cedo ou mais tarde, serão arredados do poder por uma democracia  (o goveno de muitos, em teoria). Ambas as alternativas, segundo a corrente filosófica dominante (Sócrates-Platão-Aristóteles), revelar-se-ão corruptas e interesseiras; nenhum desses governos cuidará verdadeiramente dos interesses do povo. Uma nova tirania surgirá, capciosa ou fatalmente. É o famoso “Eterno Retorno”, expressão descoberta! atribuída na era moderna, a F.Nietzsche (1844-1900).

Contudo, mais curioso ainda, é tropeçar nos Diálogos de Platão com personagens cuja ideologia, opiniões politicas, sentimentos pessoais e etc,  parecem uma  duplicata dessa seita de párvulos neo-liberais que por aí andam a empurrar o mundo super-tecnológico para as trevas da idade neo-lítica.

(Recorde-se, brevemente, que os Diálogos são escritos de facto por Platão, mas que ele jura e trejura que as palavras e frases saíram da boca do seu querido e adorado mestre Sócrates: ele seria apenas o escriba, incluindo da célebre Apologia proferida por Sócrates pouco antes de ingerir a cicuta, antecipando-se á sentença do tribunal onde estava a ser julgado por sedicioso).

Entretanto, demoremo-nos no diálogo “A República” de Platão/Sócrates (ou vice-versa). Dois dos intervenientes, os jovens Trasímaco e Polemarco de suas graças ...... então  não é que os sacaninhas são directos antepassados dos jotinhas labregos da sufulrosa e mal-cheirosa geração dos “traidores democráticos” do Novembro 75 em Portugal!?  

Diz Polemarco a abrir (Livro I-Secçao2): “Fazer o que é justo, ou Justiça, consiste –em suma- em beneficiar os amigos e prejudicar os inimigos”.Carrega Trasímaco (Secção3) “aquilo que é certo, ou justo, é aquilo que está no interesse da parte mais forte”. Sócrates argumenta com paciência dialéctica; mas os jótinhas gregos no séc.4º ac queriam deixar bem explicadinha a sua visão da vida. Pois vamos conhecê-la. Tem um  especial interesse e espantosa actualidade. Os nacionais jótinhas neo-liberais no recreio de S.Bento,  os arrivistas do “arco do poder” ficam retratados ao vivo a milhares de anos do aclamado progresso/sucesso da civilização. Afinal, sangue do mesmo sangue, a mesma ganância e egoísmo, maldade  e violência, a mesma impostura.

Na Secção 4-Livro I do diálogo “A República”, Trasímaco faz um pequeno discurso:

“Na sua opinião, a justiça é uma virtude para os covardemente simplórios e para os ingénuos. As pessoas só levam vidas “justas” porque são ignorantes e porque temem agir de outra maneira. Para os homens fortes e inteligentes, a injustiça é muito mais vantajosa. Nas questões de comércios e noutros cometimentos, o homem injusto é de longe mais bem sucedido: ele esquiva-se aos impostos, apropria-se dos fundos públicos e, de modo geral, leva uma vida bastante mais preenchida e feliz que o homem justo.

Naturalmente, tais acções devem ser cometidas em larga escala. Arrebatar bolsas, ou fazer roubos insignificantes não é de modo algum vantajoso. Pois uma pessoa sozinha  é apanhada e castigada. Mas se alguém consegue submeter à sua autoridade o conjunto dos cidadãos e torná-los escravos, então não existirá qualquer receio de ser apanhado. Em resumo, a vida do tirano é de longe a melhor”.

Que tal, ein? Até parece o Passos a falar! Ou o outro, agora na gaiola. Ou o Durão, agora num poleirão!Ao Santana saíu-lhe o euromilhões. São todos uns sabichões .....o que rima com vilões e outras coisas em ões. (Não sei porquê, veio-me ao espírito o nome do filósofo Ali Bábá....talvez por ter muitos admiradores lá prós lados do “Arco do Poder”. Será nome de casino? Ou de academia, para os muitos Trasímacos e Polemarcos deste maravilhoso mundo global da tirania capitalista neo-liberal?).

Entretanto, o planeta foi girando: a Renascença da civilização cristã-ocidental estava ao virar da esquina, em particular na península italiana, com os seus artistas, homens de génio e engenho mais a desenfreada ambição do poder. Nesse campo, de disputa e intriga política, distingue-se “um educador do povo” de seu nome Niccolo Machiavelli (1469-1527) que goza duma singular notoriedade até aos dias de hoje, também aqui entre a ambiciosa classe política cá do sítio. A moral do seu discurso, o”maquiavelismo” ( O fim justifica os meios) agrada sobremaneira aos governantes & acólicos do quintal lusitano e tem sido usado  com afinco e devoção nos 40 anos do regime demo-crático/demo-partidário (demo de demónio).

Sucede até –merecendo o devido destaque- que os dois mais destacados governantes, nos últimos anos, desta desastrosa II República demo– José Pinto de Sousa (arrogado Sócrates)  e Pedro Passos Coelho - são eminentes maquiavélicos, não apenas na práxis política e no carácter pessoal, mas também revelando-se leitores  aplicados de O Príncipe, o famoso manual operativo dos políticos sem escrúpulos. Príncipe, como o primeiro inter pares , o ditador, o poder absoluto, o tirano em resumo.

Ensina Maquiavel aos arrivistas/ carreiristas, em 26 Capítulos, folheando a esmo: “O príncipe deve ter o entendimento treinado para virar conforme os ventos da fortuna e a mutabilidade das coisas lhe ordenem – deve ser o mais generoso possivel com aquilo que não lhe pertence, pois   esbanjar os bens alheios, além de não te tirar a boa fama ainda ta acrescenta – o novo príncipe deve logo mostrar ferocitá (a vitalidade do animal selvagem); Da crueldade e da clemência: é mais seguro ser temido que amado, pois o amor quebra-se, mas o medo mantém-se. Nunca faltaram a um príncipe pretextos legítimos para justificar a sua falta de palavra. Nâo existe maneira mais segura de submeter uma provincia conquistada do que arruinando-a. Convém fazer o mal todo de uma vez para o tornar menos amargo;e o bem, pouco a pouco, para melhor ser apreciado. Sendo a fortuna mutável, pois é mulher, para a conservar submissa é necessário bater-lhe e contrariá-la.

Esta pequena amostra do pensamento de Maquiavel, são extractos da sua obra mestra O Príncipe, publicada post-mortem em 1532 (m.1527); e, desde então, aclamada como livro sagrado de instruções por todos os canalhas que ambicionam o poder. É fantástico: o livreco não passa de um amontoado de esterco filosófico, exaltando o cinismo na politica e a falta de escrúpulos para  políticos e candidatos. Todavia, é forçoso verificar que os conselhos maquiavélicos atingiram  a moderna classe politica, suposta democrática. Em Portugal inclusivé. Por exemplo, quantas vezes ouvimos o ex-princípe Pinto de Sousa, agora recluso 44 na cadeia de Évora, gabar-se, clamar bem alto a sua ferocidade? Que era um animal feroz? Revelando-se assim leitor e discípulo aplicado.

Também, temos de reconhecer, que o novo princípe Passos Coelho (& Cª) está cumprindo a máxima maquiavélica “fazer o mal todo duma  vez, com violência brutal, e o bem pouco a pouco ... até esquecer”.

Ora aí está. A conclusão é minha! (Vou cobrar direitos de autor). Ou seja: o virus do abjecto cinismo maquiavélico (nascido na circunstância da Renascença italiana do séc.XVI, onde no próprio Vaticano reinava a libertinagem sem barreiras ético/morais); esse virus maligno/vicioso/criminoso, impregna o catecismo ideológico do Admirável Império Neo-Liberal no sec.XXI. Não faltam comprovações, experiências em vários países e governos por esse império global fora  de tiranias capitalistas, confessando-se obedientes catecúmenos dessa ideologia de saque e empobrecimento. Podemos situar a estreia do neoliberalismo na arena da luta ideológica no mundo global moderno, em 1973, com o golpe fascista de Pinochet, assassinatos e destruição ... e o bando dos “Chicago Boys” capitaneados pelo  profeta Milton Friedman voando para o Chile prontos a colaborar/dirigir o governo do novo princípe/ditador/tirano na refundação de um mercado sem peias, privatizações em todos sectores, etc,etc; conhecemos  bem a estória e os seus catastróficos resultados.

A partir do ensaio chileno, na esteira e no enquadramento  da Operação Condor (tenebrosa e sanguinária contra-revolução geral  militaristta nos países da América Latina organizada pelos EUA/CIA ) a doutrina neo-liberal  de rapina, empobrecimento, privatizações, etc, foi conquistando mercados e continentes. Seguiu-se a  velha Europa com a bruxa inglesa Margaret Tatcher (grande amiga de Pinochet e de Grobatchev!). Fiquemos por aqui. Já em 1976, o 1º governo da II Democracia Portuguesa, chefe M.Soares, estava agachado a pedir empréstimos ao FMI, em nome de leais préstimos contra-revolucionários.

Na hipótese de algum leitor desejar maior informação sobre  “The Shock Doctrine/Disaster Capitalism” recomendo a obra assim titulada pela autora Naomi Klein. (A qual, note-se, 1ªedição-2007, cita Maquiavél ao lado de M.Friedman no Cap.3) Está também on-line num You Tube de 71 min. com legendas em português. Há ainda uma edição 2012-Lua de Papel, da obra “Liberdade para Escolher” do casal de “missionários evangélicos” Milton e Rose Friedman.

Vamos admitir que, pelo menos, uma dezena de políticos portugueses em exercicio de funções governativas –PSD- conhece algo do catecismo neo-liberal; tendo em conta que o respectivo Governo,  produziu toneladas de legislação em estrita obediência aos dogmas doutrinários. Claro, que estiveram por cá largos meses  os Chicago boys, mascarados de troikas, nuvens de assessores e outros infiltrados, bem instalados e melhor remunerados pelo manso contribuinte democrático. Enfim, era inevitável e irrevogável, como eles dizem. A nossa classe política também viajou pelo mundo à fartazana, amanhou-se com belos tachos e reformas. Nada de mesquinharias e misérias; isso é para o Zé Povo, que já vem habituado desde o Salazar.

E assim chegámos ao principal sujeito do discurso: o Zé Povinho e  a Ti Maria e Família com 200 euros/mês´.

 Discurso por discurso, veio-me à lembrança um livrinho que já vai na 7ª edição, com traduções noutros países. Tem por título, exactamente:   Discurso sobre o filho-da-puta

O autor Alberto Pimenta adverte logo de início que filho-da-puta é apenas um modo de mal-dizer (isto é, o bom nome das “senhoras mães não está em causa); mas que o filho-da-puta existe em todos os lugares, isso é um facto ... excepto nos dicionários como  ironicamente  escreve. Ora,  todos nós sabemos que a expressão é vernáculo popular português, ofensivo contra alguém e instituições considerados de mau caracter ou más intenções. Confesso que a uso muitas vezes nos meus solilóquios e indignações públicas tendo sempre como alvo os governantes e apaniguados  que levaram Portugal  a este estado de degradação ético/moral, ruína empobrecimento e miséria. Malditos sejam, todos os filhos-da-puta, “que estão construindo os amanhãs como pontes para ontem”.( in A.Pim.).

 

                                     Lisboa, 20 Junho 2015-06-21

                                          Fez) J. Varela Gomes

publicado por samizdat às 07:05
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Quarta-feira, 15 de Julho de 2015

ESCUTA, Eleitor Anónimo: Votaste em mais do mesmo

Publicado em Alentejo Popular Nº 318 (5 Novembro de 2009)

 

Num livro, cuja tradução atingiu as cinco edições no Período Revolucionário, o autor Wilhelm Reich, conversa com o chamado “homem comum”. (John Doe, na figuração anglo/americana; Zé Ninguém, na traduzida adaptação). Em escassas 100 páginas, encontramos um duro libelo de responsabilização individual, um apelo lancinante ao Eleitor Anónimo. (Minha adaptação para efeitos circunstanciais). Respigemos.

 

“Deixas que outros homens assumam o poder em teu nome. Confias aos homens que detêm o poder, mais poder ainda para te representarem. E só demasiado tarde reconheces que te enganaram uma vez mais. Ouvi depois os teus prantos e lamúrias, as imprecações de raiva e desalento. Conheço-te e entendo-te. E vou dizer-te quem és Zé Ninguém, porque acredito na grandeza do teu futuro que, sem dúvida te pertencerá. Por isso mesmo, antes de tudo, olha para ti. Vê-te como realmente és o ”homem médio” o “homem comum”. Ergueste tu próprio os teus tiranos e és tu que os alimentas; apesar de terem arrancado as máscaras, ou talvez por isso mesmo. Eles próprios deixam entender que és uma criatura inferior, incapaz de assumir responsabilidades, e que assim deverás permanecer . E tu nomeia-los novos salvadores e dá-lhes vivas. E é por isso que eu tenho medo de ti Zé Ninguém; um medo sem limites. Porque é de ti que depende o futuro da humanidade. Porque tu és “o povo”, a “opinião pública” e a “consciência social”. Já alguma vez pensaste Zé Ninguém, na responsabilidade gigantesca que estes atributos te conferem? “

 

Dentro do que sei, não existe na cultura popular portuguesa uma personagem equivalente ao John Doe/Zé Ninguém com quem conversa Wilhelm Reich no seu ensaio escrito em 1945. (Viria a morrer em 1957, aos 60 de idade, numa penitenciária americana para onde fora atirado na “caça às bruxas” anticomunista desencadeada por Mccarthy. Cientista de origem germânica, biólogo reputado, vagueara pela Europa sempre perseguido pelo nazis. Em 1939 procurou abrigo nos EUA; os fascistas americanos completaram o trabalho dos nazis hitlerianos).

 

Na realidade, a figura popular que ainda persiste no imaginário nacional é a do Zé Povinho, criada por Bordalo Pinheiro em plena monarquia constitucional, vai para século e meio. Era a de um popular desassombrado, que não se deixava enganar pelos políticos da época, a cujas lérias respondia com um ostensivo manguito. Ora, depois de 50 anos de opressão fascista, e 30 de hipocrisia democrática, o desassombro murchou, o manguito virou gesto mole, envergonhado. Com efeito, nos dias de hoje, o Zé Povinho comentador verrinoso da política doméstica, de peito aberto e risada franca, deixou de existir. O tipo sociológico mais emblemático na sociedade actual é o “Zé politicamente correcto”. Na feira cabisbaixa, segue em rebanho, abdicando dos próprios interesses, Maria vai com as outras.

 

Circula por aí, estranhamente consensual, uma causa explicativa para este fenómeno: o medo! Da esquerda à direita, da burguesia ao proletariado, do universo rural ao urbano, todos parecem concordar com o diagnóstico. Até mesmo observadores e sociólogos estrangeiros, de passagem pelo paraíso democrático português, depressa emitem um parecer concordante: este povo tem medo; vive amedrontado, etc. Numa paralela visão, D. Manuela F. Leite chamou-lhe “asfixia democrática”. Tanta unanimidade deve significar alguma coisa pouco honrosa para a ditosa pátria bem-amada, nestes alvores do séc. XXI.

 

Não vem aqui ao caso aprofundar a análise dessa nódoa na identidade nacional, a que os 50 anos de sujeição fascista e outras ancestralidades inquisitoriais não serão, evidentemente, alheias. Limitar-me-ei a sublinhar um sintoma bem mais concreto que o difuso conceito do medo, até pelos efeitos directos que teve nos recentes mapas eleitorais : a cobardia cívica.

 

Poderia, em nome da neo-delicadeza sócretina, optar por definir o sintoma de maneira mais amável: por exemplo, indiferença cívica; ou preguiça; ou descrença no sistema. Mas W. Reich não me perdoaria. Por que ele –e eu – queremos acordar em ti, cidadão comum, o sentido da responsabilidade cívica. Antes de tudo, olha para ti Vê-te como realmente és: um cobardolas quanto baste, procurando sombra e encosto ao poder onde quer que o vislumbres.

 

Uma das manifestações mais notórias da tua cobardia, Zé Anónimo, é o teu gosto pelo anonimato. E nesse aspecto, o sistema eleitoral democrático do voto secreto facilita a tua vida. Para efeitos de escrutínio o teu voto é anónimo. Se te abstens ou votas em branco, o teu nome não será divulgado; e podes sempre dizer, posteriormente, que votaste neste ou naquele partido que, de momento, mais te convém nomear. Aliás, já sucedeu coisa idêntica em 1985/95 (governos PSD). Também então a hostilidade popular contra Cavaco se afigurava esmagadora; mas foi ganhando eleições sucessivas. Posteriormente, não se encontrava uma única pessoa capaz de confessar que tinha votado em mais do mesmo.         0

 

O ciclo eleitoral que terminou a 11 de Outubro deixou um travo amargo; que corresponde à decepção provocada pelo insuficiente castigo infligido a Sócrates & Cª pelo eleitorado. Em particular pelo Eleitor Anónimo, que votou em mais do mesmo, talvez pensando - ou impelido a pensar – que era útil/necessário escolher o mal menor. Efectivamente, a secreta esperança da esquerda partidária e ideológica baseava-se numa realidade que parecia consistente : a enorme vaga de descontentamento popular que varria o País após 4,5 anos de governação arbitrária do PS, as centenas de milhar de desempregados, sectores inteiros de profissionais e funcionários num movimento de protesto sem paralelo, corrupção e abusos expostos na praça pública. E no entanto, conforme se verificou, nesse contexto social/político extraordinariamente favorável, a decisão dos eleitores foi contra-corrente; e constituiu, senão surpresa, pelo menos perplexidade.  

 

Erros na direcção da campanha, decerto os houve. No meu entender o mais negativo de todos, foi o de ser perdido a orientação estratégica à priori vencedora: seria a de ter mantido a pretérita governação socialista sempre presa na barra do tribunal, sofrendo julgamento impiedoso. O que teria implicado evitar a todo o custo deixar-se enredar nas malhas das promessas e dos programas para o ver vamos.(TGVês e aeroportos, por favor ! !) Nessa táctica ilusiva, Zé Sócrates mostrou ser mestre; sabendo bem, por experiência acumulada que, para o criminoso, o prevaricador, o culpado, olvidar o passado equivale à absolvição.

 

Mas ....Escuta, Eleitor Anónimo: qualquer que tenha sido a orientação das campanhas partidárias, isso em nada altera ou diminui a tua responsabilidade cívica; que ficou irremediavelmente comprometida quando votaste contra os interesses dos desafortunados em geral e dos trabalhadores, classe a que tu próprio, cidadão comum, pertences.

 

Com frequência, a televisão mostra grupos de trabalhadores junto a fábricas e locais de trabalho, olhando desalentados para as portas fechadas, onde tu e mais alguém da tua família trabalharam anos a fio; e até chegaram a pensar que a casa era em parte vossa. Procurei nos mapas eleitorais os resultados do escrutínio em localidades sedes de industrias e/ou elevada actividade económica, com grandes escolas, hospitais, instituições de numerosos colaboradores. Tenho-te a dizer, Zé Eleitor, que me custou concluir que mesmo em círculos eleitorais onde a falta da emprego e os despedimentos se contam aos milhares, o teu voto, ou   se quedou pela abstenção, ou foi oferecido aos que te estão empurrando para a miséria e o desespero. Revertendo a Wilhelm Reich: E tu nomeia-los novos salvadores e dá-lhes votos. E é por isso que eu tenho pena de ti, Zé Ninguém/Eleitor Anónimo; uma pena sem limites.      

 

O novo elenco executivo chefiado por Sócrates provocou um coro de apreciações muito pouco lisongeiras, desde os comentadores avençados aos políticos de serviço. Os porta vozes partidários reconhecem o mais do mesmo, a evolução na continuidade da velha tradição salazarenta. Os augúrios apresentam-se nada auspiciosos.

 

Em contrapartida, no arraial socialista parece reinar a convicção optimista de que vai ser canja dar a volta, caso-a-caso, à maioria numérica da oposição parlamentar. Em particular, Sócrates, cujo ego e arrogância estão obviamente inflamados pelo sucesso da manobra eleitoral. Manteve o núcleo duro dos fieis yesmen, acrescido doutra metade de anónimos ministros tecnocratas destinados a simples executantes da vontade do chefe. Manterá –podemos estar certos – todos os aparatchiks, controleiros, homens-de-mão, informadores, etc, com que enxameou a Administração do Estado, as empresas públicas e semi-públicas. Figuras nefastas como Constâncios, Varas, galpistas e teleconos, às centenas, mercê da sua fidelidade canina, continuarão a gozar bela vida dos “direitos adquiridos”. A transfiguração do animal feroz em paciente negociador ficará em banho maria, debaixo da capa do Tartufo de fé democrática. Mais perto estará o modelo manholas/soares. O lema dos fanáticos pelo poder absoluto é “aguentar”; aguentar a todo o custo, aliando-se ao diabo se preciso for. Esse catecismo foi o seguido pelo Manholas Salazar e declarou-o Soares Manholas. Teremos agora um Sócrates Manholas? O anonimato e o segredo fazem parte desse modelo. “Fazê-la pela calada”, já as nossas avózinhas toscavam nos hipócritas da sacristia. Actualizando: nos hipócritas da democracia.

 

A questão do anonimato em democracia representativa, à luz da diáfana transparência de que cada um se louva, mereceria longas palavras. Atalhando; e dando de barato que o executivo governamental possa ser preenchido apenas por pessoas da confiança do 1º ministro, já não é admissível que os “representantes do povo soberano” - o poder legislativo – seja constituído, na maior percentagem, por indivíduos totalmente desconhecidos do eleitorado, inclusive quanto ao currículo e às habilitações que os recomendam para a função.

 

Trata-se, na realidade, da subversão da essência do sistema democrático representativo, tal como o conceberam os filósofos de oitocentos e os patriarcas da primeira das modernas constituições burguesas: a americana, em 1776. Ora dessa subversão, não tomam conhecimento os sábios do direito constitucional, nem os protagonistas do sistema. (Pudera não! Tens-lhes rendido uma vidinha opípara.) Argumentam que o mesmo se passa em todo o globalizado mundo capitalista. (Pudera não! São todos farinha do mesmo saco).

 

Limitemo-nos porém, à nossa portuguesa circunstância. Num novo parlamento de “mandatados pelo povo” (dizem eles, sem se rirem) mais de metade são estreantes. Na sessão inaugural de Outubro pp, no relance televisivo, pareciam escolares no regresso às aulas. Não sabiam os lugares respectivos; e muito menos saberiam qual o circulo que representavam. Refiro, sem hesitar, os dois agrupamentos mais numerosos, pois cada vez mais se parecem com associações para fins carreiristas. Um deputado do PSD tomou posse e largou o mandato meia-hora depois. Um outro, muito jovem e esfuziante, quando perguntado por uma jornalista como encarava a nova função, respondeu presunçoso que transitava de director-geral; três ou quatro do PS transitavam de 10 anos em Bruxelas; aliás, quase todos estavam, em “trânsito” de cadeira para cadeirão, de tacho para gamela, de deputados para ministros, de assessores para secretários de estado e vice-versa, numa dança buliçosa de clube de privilegiados. Uma desconhecida ex-deputada socialista, num suplemento/revista, em pose de modelo, confessava-se “jeitosa”; e que antes do mandato como representante do povo fora chefe de gabinete de um qualquer ministro. Deu-lhe jeito.

 

Povo, povo que lavas no rio, foste tu que lhes deste beijinhos nos mercados e o voto nas urnas.

 

Nesta legislatura está prevista mais uma revisão constitucional. A oitava ou nona, ao que julgo. Nem o mais ingénuo observador do panorama político nacional pode esperar qualquer reformulação, num sentido ético ou duma maior justiça social: ) quer no sistema de representatividade democrática; ) quer na delimitação de poderes; ) quer na moralização da vida colectiva.

 

Nos três capítulos apontados a ilusão reformista acaba antes de começar esbarrando contra a sólida muralha dos “privilégios adquiridos”, aonde se junta a maioria parlamentar burguesa. Aliança essa fácil de mobilizar e com que conta Sócrates para se aguentar no quadriénio seguinte. Nada, ou quase nada, será efectivado quanto ao combate à corrupção, aos privilégios e favoritismo, aos abusos e respectiva impunidade. “Não queriam mais nada! Tirem o cavalinho da chuva!” Será esse o invariável tipo de resposta que a maioria do parlamento recém eleito dará às propostas da oposição de esquerda.

 

Não se duvida da postura combativa dessa oposição; em particular, o PCP/Verdes, com longas provas dadas dentro e fora de S.Bento. Palco aberto, verdadeiramente público graças à televisão, e onde os mandatados pelo povo eleitor deviam mostrar o que valem. No entanto, como é notório, nos dois partidos de maior presença, há muitos que só fazem número, entram mudos e saem calados.

 

Os partidos contestatários da ordem burguesa/capitalista estão, certamente, em S.Bento sem ilusões quanto à sua capacidade em condicionar a orientação de classe dos governos de maioria. Na tribuna que conquistaram – de audiência nacional, torno a sublinhar – a acção mais profícua que se lhes oferece desempenhar é a da fiscalização implacável, uma-a-uma, das decisões, medidas e iniciativas do governo. Sem perder tempos de intervenção com assuntos inconsequentes, evitando as armadilhas em que a manha socialista é perita.

 

Logo na primeira semana de exercício, o chefe Sócrates dá sinal de que a política do “mais do mesmo” está para continuar. Nomeia, em momento de suposta crise – um governo sumptuoso em termos de efectivo (16+38= 54), a multiplicar por assessorias de várias centenas de boys e girls, frota automóvel, indiscriminadas ajudas de custo, subsídios e benesses, etc. Um governo de assalto ao aparelho do Estado. Exactamente como o anterior. Pois que um dos objectivos supremos da ambição socretina foi - e, pelos começos, continua a ser- a destruição do Estado/Administração Pública independente do domínio partidário, tal como pressupõe a Constituição; substituindo-o pelo arremedo em re-formação, controlado por comissários partidários (secretários de Estado) e capturado por um partido eternizado no poder (nacional socialista, apetece dizer).

 

A denúncia desta enorme subversão do Estado de Direito Democrático mal foi ouvida no decorrer das pretéritas campanhas eleitorais. Não poderá passar, como simples fait-divers, na actual legislatura. Certamente será discutida a fundo e com seriedade pelos parlamentares eleitos em nome da esquerda ideológica e partidária. Talvez então o Eleitor Anónimo realize a irresponsabilidade do seu voto timorato.    

 

                                 Lisboa, 30 Outubro, 2009

 

                                           ass) J. Varela Gomes

publicado por samizdat às 21:50
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Sexta-feira, 21 de Março de 2014

NO 40º ANIVERSÁRIO - Sob o signo do Equívoco e da Mistificação -

Aproxima-se o 40º aniversário do 25 d’Abril. Vozes diversas sugerem uma celebração de especial relevo. Muitas dessas vozes não serão exactamente bem-intencionadas, outras pouco esclarecidas, algumas podem mesmo pertencer a falsários contumazes. Mas, dessas cautelas já não deve ser preciso avisar a malta, após tantos anos de comemorações solenes onde reinou a hipocrisia.

 

As que estão sendo efectuadas, ou anunciadas, obedecem ao intuito e ao modelo das realizadas nos últimos decénios. Isto é, pretendem fixar uma versão romanceada (mais ou menos genuína) do movimento e da operação militar dos “capitães de Abril” que levou ao derrubamento do regime fascista; querendo, em simultâneo, fingir acreditar que a partir de Abril 1974 a democracia teria funcionado sem solução de continuidade, sem traições, sem inimigos, sem a poderosa intervenção do poder imperialista USA-NATO. Para esses farsantes a Contra-Revolução Nunca Existiu. Para que V. Excelências possam estar hoje aí, no poleiro, agradecendo a uns (mais ou menos equívocos) ex-capitães d’Abril, a vitória de uma mistificada democracia.

 

A grande maioria dos portugueses conhece bem, por amarga experiência, a má-raça da classe política burguesa que tem governado o País durante toda esta II República democrática/ constitucional. A ideologia dessa gente é a do ódio visceral à classe trabalhadora, aos ideais e ao processo revolucionário do 25 d´Abril. Jamais houve, ou haverá, por iniciativa dos partidos políticos da burguesia (PSD; PS; CDS) qualquer celebração sincera da efeméride histórica de 1974. Eles são inimigos do povo, são inimigos da Revolução. São contra-revolucionários de Novembro, tão traidores à causa popular como à causa de Abril.

 

Esta classe política de renegados, inimigos do seu próprio povo, não possui a menor idoneidade – quer política ou ideológica, muito menos ética/moral – para comemorar/celebrar a Revolução Popular iniciada no dia 25 de Abril de 1974, na sequência imediata do triunfo da acção militar revoltosa.

 

Neste 40º aniversário – em ano de angústia e empobrecimento para milhões de portugueses – impõe-se desfazer o equívoco/mistificação criado pela habitual farsa das cerimónias oficiais de homenagem ao 25 de Abril 74.

 

Qual 25 de Abril? Aquele que foi destruído pela vossa traiçoeira raiva de contra-revolucionários em 25 Novembro 1975? Haja respeito por uma das páginas mais admiráveis na história do Povo de Portugal. Limitem-se os farsantes ao “25 de Abril contado às criancinhas”, versão essa que é levada a sério como trabalho de investigação e já adquiriu foro de mestrado académico.

 

20 Março 2014 ) J. Varela Gomes

publicado por samizdat às 08:46
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Sábado, 14 de Dezembro de 2013

A revolução portuguesa e a circunstância de Mandela

Em plena homenagem global ao "milagreiro" Mandela - o homem que fez o "milagre" de pôr termo, de forma pacífica e negociada, ao desumano regime do apartheid na República da África do Sul  ( RAS), é compreesível que tenham ficado para 2º plano as circunstâncias que proporcionaram o inesperado (e feliz) desfecho.


Uma dessas circunstâncias- e não das menores - foi, sem dúvida, o colapso do império colonial português, ali mesmo nas barbas (fronteiras) da RSA .No entanto, deve anotar-se que não se trata apenas de um efeito indirecto, mas de facto muito concreto, na medida em que o exército racista estava empenhado em operações dentro do território angolano, em  apoio e reforço da Unita de Jonas Savimbi. Mais ainda em Novembro de 1975, uma poderosa coluna militar sul-africana invadia Angola, atacando em direcção a Luanda com o objectivo de "conquistar" a cidade e assim impedir a proclamação da  independência do novo país, marcada para o dia 11 daquele mês. Foram detidos e destroçados no Rio Queve por um destacamento cubano enviado de urgência a pedido do MPLA. 

Nos últimos meses de 1987, começa uma  segunda invasão sul-africana, a partir da  fronteira sul com a Namíbia, com  muito maior envergadura e objectivos. O regime do apartheid, o governo do boer Botha, jogava a sua última e desesperada tentativa para resistir aos ventos da história, impor-se como potência regional, garantindo, num primeiro tempo, o domínio da Namíbia e o protectorado do Botswana. Encontraram pela frente, um corpo expedicionárfio cubano que atingiu os 50 mil efectivos, enquadrando várias brigadas das FAPLA angolanas e forças significativas da SWAPO (movimento para a  independência da Namíbia). Durante todo o ano de 1988, do Cunene a Cubango, travaram-se combates e batalhas renhidos, incluindo meios blindados pesados, aviões de combate, artilharia sofisticada, etc. A batalha do Cuito Cuanavale tornou-se lendária. Foi considerada uma operação bélica comparável a algumas da Segunda Guerra Mundial.

A guerra terminou por intervenção "conciliatória"  internacional.  A Namíbia de Sam Nujona (SWAPO)  ganhava direito à independência. Os sul-africanos  retiravam, também do Botswana. Os cubanos abandonavam Angola. O apartheid, a supremacia branca, o orgulho boer ficavam feridos de morte. Cuba e os cubanos ficavam credores da gratidão de todos os povos que lutam pela libertação  contra toda a espécie de tiranias. Soava a hora, a CIRCUNSTÂNCIA para  Mandela conduzir o ANC ao poder, libertando o povo negro da África do Sul de grilhetas seculares.
     
E nós, Portugal e os portugueses? Creio que podemos levar a nosso crédito a Revolução de Abril, que levou a cabo a ,libertação e a independência dos povos africanos colonizados. Creio que nós, os que se bateram para que a Revolução de Abril não fosse atraiçoada antes de 11 de Novembro (independência da Republica Popular de Angola), podem sentir que, de algum modo, concretamente, concorreram para favorecer qu a circunstância  de Mandela.
 
                                                                      Em 13 de Dezembro 2013
                                                                         Fez) J. Varela Gomes
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Sábado, 23 de Novembro de 2013

CAUSA: 25 Novembro 1975; EFEITO: 2011-14 (Tutela estrangeira;Indigência nacional)

    Evocar neste ano de 2013 a efeméride do 25 Novembro 1975 é uma ideia (iniciativa?!) que só pode sair da cabeça de um militar qualquer, dos múltiplos qque disputam ter sido os chefes, os salvadores da Pátria. Alguém que ainda considedre a efeméride, na situação actual de indigência e tutela estrangeira, digna de celebração. De aplauso, em suma.

Ese alguém, militar ou civil, deve compreender qque reivindicar. nesta precisa contingência nacional a conspiração vitoriosa e o golpe contra-revolucionário do 25 Novembro 1975, estabalece assim um laço de Causa a Efeito.

E, com isso, com esse ponto de vista, eu concordo inteiramente. Aliás tenho defendido essa tese em muitos e variados textos ao longo dos 38 anos passados.

Resumindo : o 25 Novembro foi um golpe contra-revolucionário cujo objectivo último (estratégico) era exactamente aquele que está a ser levado a cabo pelo governo burguês em exercício; ou seja, a destruição das conqistas populares da Revolução de Abril, o retrocesso de Portugal a um modelo de sociedade neo-conservador do tipo filofascista.

Responsáveis máximos pelo 25 Novembro -tais como Vasco Lourenço, Mário Soares e outros - aparecem agora como radicais esquerdistas, apelando à indignação, à revolta e até à violência. Francamente: não dá para a acreditar na nova demagogia desses velhos conspiradores , amigos, aliados e servidores fieis do imperialismo capitalista. Trata-se de uma provocação ? Poupem-nos. Ninguém pode -nem deve - levar-vos a sério.

 

                                                       Fez) João Varela Gomes, em Lisboa, 22.11.2013
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Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011

Beja 1962 - Evocação de uma Efeméride

Os subscritores, participantes sobrevivos da Revolta Armada de Beja - cujo quinquagésimo aniversário ocorre no próximo 1º Janeiro – pretendem, através da divulgação pública desta evocação, contribuir para resgatar a “memória apagada” dessa efeméride, remetida como está para o limbo dos acontecimentos avulsos, insignificativos; situação, aliás, em consonância com muitas outras relativas à memória da resistência antifascista; e em contraste flagrante com o desvelo comemorativo dedicado ao chamado Estado Novo, seus personagens e afins.

 

Na realidade, o combate e a resistência contra a ditadura e o fascismo em Portugal, constituíram um processo histórico contínuo ao longo de metade do séc. XX. Nesse processo insere-se a Revolta de Beja...porque aconteceu e ficou selada em sangue e morte. A sua importância e significado são-lhe conferidos pelo fluxo histórico no seu todo. Não foi um episódio isolado, fora do contexto da luta comum do povo português pela libertação de um regime ditatorial.

 

Com efeito, no caso da Revolta de Beja, é fácil estabelecer a sua ligação orgânica com o grandioso movimento de massas/levantamento popular provocado pelas eleições presidenciais em 1958; vindo a ser, exactamente, o general Humberto Delgado o impulsionador da Revolta de Beja e, como tal, figurando em 1º lugar na lista dos 87 incriminados pronunciados para julgamento no Tribunal Plenário Fascista.

 

Na sequência imediata da Revolta de Beja, eclodiu em Março desse mesmo ano de 1962, a revolta estudantil de maiores proporções contra o regime; o 1ºde Maio desse ano foi assinalado pelos trabalhadores e outros sectores da população com a maior força e amplitude de sempre. E o processo histórico continuou, já com a guerra colonial, por mais 12 anos, até 1974.

 

Tem sido prática corrente, após o derrubamento do fascismo até aos dias de hoje, minimizar a importância e o significado da Revolta de Beja. Obras antigas e recentes, de pretensa intenção histórico/cronológica, nem sequer anotam o acontecido. Mas bastaria ter consultado a imprensa da época para ver em grandes parangonas a dimensão do impacto e do sobressalto que provocou no País e além-fronteiras. O ditador tão emocionado ficou (citando) “com os acontecimentos das últimas semanas” que perdeu a voz e alguém teve de ler-lhe o discurso na sessão da Assembleia Nacional de 3 Janeiro; e cancelada teve de ser a costumada manifestação de desagravo.

 

Mas não serão certamente, a contrafacção histórica ou a posição negacionista, até hoje dominante, que conseguirão alterar o significado patriótico/cívico/ético da Acção Revolucionária de Beja; que conseguirão apagar no registo da história o facto de “ter acontecido”; que abalarão as convicções e o orgulho, mantido sempre enquanto houve/houver alento pelos revoltosos de Beja, por terem dado corpo e presença e não terem recuado na hora de confirmação.

 

A 50 anos de distância temporal, neste ensejo evocativo os abaixo-assinados sentem-se felizes por poderem afirmar que a Revolta Armada de Beja insere-se, com honra, no processo histórico de luta e resistência do Povo Português contra a ditadura e o fascismo.

 

Simultaneamente, manifestam óbvia solidariedade, respeito e admiração, para com todas as outras “memórias apagadas”, por idênticos e obscuros propósitos de desvalorização do historial da resistência antifascista portuguesa.  

 

Resta portanto, aos resistentes sobreviventes da Revolta de Beja saírem em defesa da causa pela qual empenharam as suas vidas, que continua a ser a Causa da Liberdade pela Justiça Social, a qual, neste século XXI, corresponde a ser a Causa contra o retrocesso civilizacional, contra o neoliberalismo que retira todos os recursos da economia real para entregá-los ao capital financeiro, avassalando o mundo e ameaçando o destino das gerações vindouras.

        

Assim foi aqui feito,

Evocando o Cinquentenário da Revolta Armada de Beja.

Em Lisboa, na última semana do ano 2011

                                            

ass)

Airolde Casal Simões

Alexandre Hipólito dos Santos

Alfredo da Conceição Guaparrão Santos

António da Graça Miranda

António Pombo Miguel

António Ricardo Barbado

António Vieira Franco

Artur dos Santos Tavares

Edmundo Pedro

Eugénio Filipe de Oliveira

Fernando Rôxo da Gama

Francisco Brissos de Carvalho

Francisco Leonel Rodrigues Francisco Lobo

João Varela Gomes

José Galo

José Hipólito dos Santos

Manuel da Costa

Manuel Joaquim Peralta Bação

Raul Zagalo

Venceslau Luís Lopes de Almeida

Victor Manuel Quintão Caldeira

Victor Zacarias da Piedade de Sousa

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Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2010

UMA HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA DE PORTUGAL (Segundo um moderno Cronista da Corte)

 

 

Saiu para o mercado livreiro no final do ano, uma nova História de Portugal. (No desvario do marketing foi  posta a venda a 3ª edição datada de Fevereiro 2010!). Um “tijolo” de 976 páginas dividido em três Partes: Idade Média (séc. XI a XV); Idade Moderna (séc. XV a XVIII); Idade Contemporânea  (séc. XIX a XXI).

 

O meu interesse primordial visava, obviamente, a III Parte. Em especial, procurava saber como o seu autor –Rui Ramos (RR),  historiador já formado em liberdade democrática - iria descrever/analisar um  período histórico que envolveu a nossa  vida,  a geração precedente e determina a dos nossos filhos. Daquilo que de RR tinha lido, colhi a ideia de ser um intelectual competente no seu ofício e  de mentalidade aberta. Para maior curiosidade, confessava-se homem de direita (no jornal Público onde colabora). Estaria na presença de uma avis rara?

 

Relanceando a partir dos Capítulos VI e VII da III Parte,  respeitantes à 1ª República Democrática (1910/1926), desde logo se pode notar que RR admite a tese do “bambúrruio” (do feliz acaso), muito cara aos monárquicos e restantes vencidos, como explicativa do triunfo dos republicanos a 5 de Outubro de 1910. Uma vitória pouca participada, diz. Sem apoio popular significativo; para , mais adiante, vir a admitir que a “ideia  de República” estava generalizada entre o povo e a burguesia patriótica. (A primeira revolta republicana fora em 31 de Janeiro 1891, dezanove anos antes).

 

Mas é só consultando a Cronologia Seleccionada (pág. 861) que é possível percepcionar o desencadeamento imediato dos ataques contra a  recém-nascida República. Aí se lê que logo a 5 de Outubro de 1911, exactamente um escasso ano sobre a proclamação do novo regime,  uma invasão (a que chamam, incursão) a partir da Galiza, de uma coluna armada de exilados comandada pelo capitão de cavalaria Paiva Couceiro (O derrotado na Rotunda), contando com o apoio do governo de Madrid e do rei de Espanha Afonso XIII, tentou provocar o levantamento da população rural/católica do Norte contra a república. A contra-revolução iniciava a sua macabra função de desestabilização e sabotagem. Essa primeira investida foi rechaçada pela tropa fiel e pela população; no entanto, menos de um ano depois, a 6 Junho 1912,  nova “incursão” sofreu igual desaire. Mas os contra-revolucionário continuaram organizados do outro lado da fronteira, ameaçando a república democrática; e sempre com o apoio da monarquia espanhola. Por fim, em 9 Janeiro 1919, tinha o exército português acabado de regressar da Flandres  e das campanhas de África contra os alemães, Paiva Couceiro consegue ocupar a cidade do Porto e aí proclamar a “Monarquia do Norte”. Pouco durou. A República sabia defender-se, como reconhece RR. Quando a reacção monárquica tentou repetir o golpe em Lisboa, o governo mobilizou a população, distribuiu armas aos civis republicanos, cujos destacamentos em conjunto com forças da Marinha, liquidaram a  fugaz “monarquia do Monsanto” numa arrancada que ficou célebre.

 

Na cronologia dos acontecimentos, RR (?) situa o deflagrar da “guerra civil” na sequência da derrota monárquica de 1919. Ora, na verdade, a guerra interna contra a República –a contra-revolução, muito simplesmente – fora declarada e empreendida pelos reaças de todo o matiz, nomeadamente os católicos de obediência eclesiástica, desde a promulgação da Lei de Separação do Estado das Igrejas em 20 de Abril de 1911; isto é, desde que os sectores mais reaccionários e retrógrados do país se aperceberam que o Partido Republicano (PRP) de Afonso Costa iria cumprir, honesta e rigorosamente, os compromissos e as promessas constantes do sua propaganda programática; e onde a Lei da Separação tinha sido - e era - a bandeiras mais flamejante.

 

A contra-revolução visando a destruição da República Democrática de 1910 e a restauração do statu quo ante,  foi feroz, sem tréguas, chegando ao bombismo e ao assassinato político.  Tal qual veio a suceder em 1974-75 contra a Revolução de Abril. Assim, também os “militares moderados” da 2ª década do século passado, conspiraram desde a primeira hora contra a revolução democrática. Em Maio de 1915  os golpistas militares organizados no “movimento das espadas” conseguiram  alcançar o poder; mas foram rapidamente desalojados pela enérgica resposta do povo armado em Lisboa, sob a direcção do PRP. Não desistiram. Recorreram ao assassinato. Na ”noite sangrenta” (19 Outubro 1921)  pereceram às mãos de sicários pagos pela reacção monarco-clerical, o chefe do governo António Granjo (horrorosamente torturado), os heróis da República Machado dos Santos e Carlos da Maia. RR escreve que “os radicais ajustaram contas com os republicanos que, desde 1911, lhes haviam resistido”. (pág. 617). Lê-se ..... e custa a acreditar. O cronista não tem uma palavra de condenação. E chama “radicais” aos contra-revolucionários inimigos da república ! Passa em silêncio as conclusões da  investigação, devida em exclusivo  à dedicação heróica da viúva da Carlos da Maia,  onde ficou apurada a responsabilidade de  elementos destacados da Igreja na conspiração assassina.

 

Acrescento apenas só mais um rabo de gato, dos muitos que Rui Ramos deixou de fora no seu breve aperçu (percepção, será uma boa tradução) sobre a I República Democrática Portuguesa. Lembrou-se ele do Integralismo Lusitano - nacionalistas proto fascistas - como “o movimento de maior sucesso conquistando liceus e universidades (Pág.602); eram jovens sobretudo iconoclastas professando um snobismo chique ... e foi essa a sua força perante os governos republicanos” (fim de citação). Lembro-me eu agora que também por cá tivemos essa canalha  contra-revolucionária anti-Abril. Os érmeerres e outros esquerdalhos cheirando a chique e a merda. RR, pelos vistos, apercebeu-se do seu papel histórico.

 

O autor dedica 70 páginas (Cap. XVIII e XIX) ao período de 48 anos de regime ditatorial militar/fascista. Em geral a abordagem continua a pretender ser desprendida, neutral. Por suposto, o historiador como profissional deixa de ter interesses quer individuais, ideológicos ou de classe; converte-se num simples narrador de factos, num cronista.

 

Ora tal como acontece com a cronologia relativa  ao período de 16 anos da 1ª República, também a cronologia dos seguintes 48 anos (pág. 862/4) acaba por fixar os acontecimentos que, do ponto de vista do autor/coordenador da obra, serão os mais marcantes da época. Assim, entre outros, surgem destacados: - Em 1927, fracassa a insurreição armada republicana contra a ditadura militar. Em 1958, a campanha eleitoral de gen. H.Delgado.  O ano ominoso de 1961, que ditou a condenação internacional do fascismo salazarento anunciando a sua próxima derrota histórica, mistura em seis linhas: o assalto ao paquete Stª Maria; início da guerra colonial em Angola; o fracasso da conspiração dos generais; o colapso do exército português na Índia. O assassinato de H.Delgado pela “policia política” em Fev. 1965, está assinalado. A Oposição anti-fascista, o movimento popular e estudantil, a resistência sem igual do PCP, merecem apenas duas referências: em 1945; e, em 1960, a evasão de Peniche.    

 

Estado Novo é a etiqueta que RR usa, quase exclusivamente, para designar o fascismo salazarento. Não tão neutral como isso, é caso para dizer; era da autoria e a sempre usada pelo chefe Manholas.

 

Autoritarismo, é a característica mais negativa que RR encontra no “anterior regime”; junta-lhe, por vezes, um crítico conservadorismo Curiosamente - ou talvez nem tanto – são as duas palavras chave que Jorge Sampaio utilizou em 2002, era Presidente da República, na cerimónia do 28º aniversário do 25 de Abril. Do alto da tribuna  da Assembleia  Parlamentar crismou o fascismo salazarista como “autoritarismo conservador”.

 

A complacência para com o regime fascista (com perdão de V.Exªs) impregna  o texto de Rui Ramos em paralelo com um paternal desdem para com as fraquezas da Oposição e da Resistência. Algo muito parecido com a famosa “tolerância” pregada e praticada por Mário Soares; cujo reverso, indissociável, sempre foi uma severa apreciação de comunistas, esquerda revolucionária ou meramente desalinhada.

 

A compreensão tolerante do cronista pelo regime que “amordaçou  Portugal” perto de meio-século  (a expressão fez a glória do M.Soares oposicionista) manifesta-se em inúmeras observações e comentários. “...não é possível negar que o Estado Novo foi moderado ... os assassínios  foram muito raros e os presos políticos foram sempre poucos “ (pág.652). “Regimes democráticos contemporâneos na Europa  apresentaram contabilidades  repressivas análogas ou piores ,,,”(idem). O pluralismo de opinião, dentro de estreitos e vigiados limites, continuou a ter expressão pública...” (deve ter sido o Soares que rebentou com a mordaça!). Rui Ramos grava em título de parágrafo a maravilhosa conjunção da “Repressão e a persistência do pluralismo”. “Em 1940, Salazar parecia ter o país a seus pés. Além de Presidente do Conselho, era ministro das Finanças, dos Estrangeiros e da Guerra. A oposição estava desmantelada” (pág.662). (Que ganda homem! Até o  Sócrates de Alijó se morde todo de inveja). Segue por aí fora o cronista da corte descrevendo a Obra do estadista, com percentagens e outras camuflagens; e  as acrobacias do genial diplomata, virando a casaca consoante a sorte da guerras...da Mundial, da Fria ...até a Colonial lhe acabar com a peçonha.

 

Simultaneamente, RR vai apagando, ou mesmo rebaixando, a Resistência Anti-Fascista nas sua várias vertentes. Na circunstância não há vagar- e em nenhuma haverá interesse - para esmiuçar a perversa tolerância democrática dos anticomunistas/contra-revolucionários que a si próprios se têm apelidado de “moderados”.

 

Limitar-me-ei a três linhas na pág. 477. “No princípio de 1959,alguns militantes católicos e monárquicos entraram numa conspiração militar que, como as outras desde 1945, nunca saiu”. Usando a fórmula sintáxica de  RR, direi que ... não é possível negar que o objectivo dessa pequena nota pretende apenas apoucar as revoltas militares contra a ditadura; e, de caminho, rebaixar também a participação de sectores católicos e monárquicos na luta antifascista. Um historiador de ofício não pode tomar partido; muito menos para amesquinhar manifestações de revolta contra ditaduras e tiranias. Quando o faz ... denuncia-se. 

 

“Revolta da Sé” foi como ficou registada nos anais da luta antifascista esta tentativa gorada de Março 1959. Era sequela directa e repúdio pela farsa eleitoral do ano anterior (H.Delgado). Honra a quem se rebelou, sacrificou vidas e carreiras. Vários militares e civis foram presos e julgados, muitos outros conseguiram iludir a retaliação governamental Francisco Sousa Tavares foi o monárquico mais empenhado; Manuel Serra o rebelde dirigente católico de sempre. Dos militares lembro, os então, capitães Luís Vicente da Silva, Amilcar Domingues, e o cmdt Vasco Costa Santos, ainda entre nós; Xavier de Brito e outros mais na GNR. Todos nos respectivos quartéis prontos a actuar. O julgamento em Tribunal Militar - como  instituído era desde séculos -  teve a presidi-lo dois íntegros oficiais que me apraz, aqui e agora, nomear: os coronéis de artilharia Teixeira de Almeida e Rui da Cunha. Em memória, como homenagem e exemplo. Pois receio bem que  depois da “normalização” contra-revolucionária de 75/76 essa espécie de militares,  já então rara,  entrou em vias de completa extinção.

 

Os cronistas da corte só curam dos vencedores, é bem sabido. São orgulhosamente pragmáticos. Quando se trata de contestação ou revolta contra poderes ou interesses estabelecidos, apagam da história os dissidentes e os rebeldes. No Portugal da II República é esse o timbre da historiografia oficial, quer académica. quer mediática.

 

No entanto, Rui Ramos força a nota e assim abre o jogo. No sentido, em que 50 anos da existência de uma Pátria – que é a nossa – vividos sob o jugo de uma das mais duradouras ditaduras contemporâneas, aparecem narrados como um fait divers  (um episódio, um contratempo, um percalço) sem consequências de maior. Escreve a pág. 653: “O regime assentava mais no conformismo que na mobilização”; devendo ler-se, imposição política. Síntese da opinião do autor/historiador sobre o lapso de 50 anos, apresentado como um mero  “interregno fascista”! Mas o conformismo - ilustre investigador   doutorado em Oxford - era o medo. É o medo que ficou incrustado no carácter conformista, submisso e humilde, do português comum na democracia de hoje. O medo que qualquer observador estrangeiro logo detecta num primeiro contacto com a realidade nacional. RR decerto também o sabe. Nem  escapa à maioria dos sociólogos, dos intelectuais portugueses em geral. Está na moda, na boca dos críticos mediáticos que por aí abundam.. O fascismo não foi uma banalidade, meu caro. Foi uma calamidade, E algum respeito deve haver para aqueles que nunca se conformaram nem se conformam. Distinguindo, como é justo, os comunistas portugueses sempre na 1ª linha do combate e do sacrifício.

 

Torna-se indispensável uma 2ª Parte desta recensão,  de modo a cobrir os Cap. X e XI – “A Revolução do 25 de Abril” e “Uma Democracia europeia”. Os leitores terão a paciência  de aturar o meu “inconformismo” em próximo artigo.

 

publicado por samizdat às 09:10
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UMA HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA DE PORTUGAL (II)

Para conhecer a versão dos vencedores já basta a História e os historiadores. A obrigação do investigador probo é a de salvar a realidade ocultada.

 

 

Com efeito, a perspectiva do historiador doutorado Rui Ramos (RR), autor/

coordenador da História de Portugal recém editada que estamos comentando (Ver Nº 331) pertence ao género “politicamente correcto”, geralmente adoptado pelos mais bem sucedidos profissionais do ramo; seja no meio académico, editorial ou mediático. Desde os tempos medievais, a função dos “cronistas da corte” tem sido essa: exaltar os feitos dos poderosos, defender a  ideologia da classe dominante e seus  interesses Enfim, em todas as épocas, assim foi. É a lei da vida, da sobrevivência, dizem os pragmáticos do moderno liberalismo. Lei que se aplica aos seres humanos .... e aos moluscos também.

      

No campo da suposta ciência historiográfica - ou, arte de deixar registo da história dos humanos - duas vias paralelas se apresentam ao espírito crítico: i) a leitura literal do registo e sequente interpretação; ii) a interrogação sobre o  não/registado e a procura de uma resposta plausível..

      

Vamos então aplicar ao Capítulo X da obra em questão, intitulado “ A Revolução do 25 de Abril “ o esquema de análise acima proposto,  embora na forma abreviada requerida para um texto de imprensa.

      

- Leitura literal 

RR começa (pág. 707) por destacar a importância dos generais no golpe. “Embora nunca pudessem ter feito o golpe sem Spínola, criaram a ideia, depois geralmente aceite, de uma revolução dos capitães”. (715).  “O golpe do 25 de Abril foi uma pura operação militar, sem ramificações civis ou diplomáticas .... a embaixada americana, às 11 horas da manhã, não tinha indicação ...” (710).  “no próprio dia, a maior parte  dos lisboetas limitou-se a comprar jornais ... foram estudantes e rapazes quem começou por festejar as tropas.” “No dia 25,  não foi o ‘povo’ que determinou os acontecimentos, mas o fracasso do regime” (713). “... um clima de debate e reivindicação, logo desde o dia 26: marchas nas ruas, assembleias nas fábricas e escolas .... greves como as dos CTT e TAP, acarinhadas (textual !) pelos grupos de extrema-esquerda.” (714).“A 19 Junho, nos Açores, Spínola ainda pediu auxílio ao presidente americano Nixon...(mas) ... Kissinger decidiu que qualquer ajuda dependeria do PCP sair do Governo “ (717). RR menciona a tentativa frustada de Spínola, em Julho, para se fazer eleger presidente de imediato e adiar a Assembleia Constituinte para fins de 1976. (715). A demissão de Spínola como resultado da derrota sofrida no ‘28 de Setembro’ por força da mobilização popular, leva RR a concluir (pág. 718) que “ a História do 25 Abril foi reescrita como uma ‘revolução de capitães’ logo transformada em ‘revolução popular’, cujo destino final só podia ser um: o ‘socialismo”. 

 

“Nenhum partido, depois de Setembro, se reclamou da direita. À esquerda, todos trataram pôr a render o seu património de ‘resistência ao fascismo’ .... ocuparam os serviços públicos, as autarquias ....o PCP ultrapassou todos. Já tomara a dianteira na ocupação dos sindicatos ... organizados agora em Intersindical. ... O primeiro-ministro Vasco Gonçalves e a 5ªDivisão do Estado-Maior-General caíram sob a sua influência.“ (pág.724/26). Porém, RR escreve logo a seguir: “O PS era, no princípio de 1975, o partido com mais lugares no Governo e mais influência na imprensa” (726, linha 30) .

 

“Tudo parecia indicar uma nova correlação de forças .... o PS mantinha contactos com os spinolistas ... o fracasso do 11 de Março comprometeu todos os ‘moderados’. Nessa noite, a revolução deu o salto ...por iniciativa da 5ªDivisão ... foi a célebre  ‘assembleia selvagem’ (727)”. RR considera o “Processo Revolucionário Em Curso – PREC”, só a partir dos acontecimentos do 11 de Março 1975.  “...apesar de...uma revolução conduzida através de legislação e com cautela” (730) . Para logo a seguir, RR passar a fazer fé numa Comissão de Averiguação de Violências (Sevícias, no original) nomeada a 19 Janeiro 1976, pelo já Conselho da Contra-Revolução; cujas conclusões referiam sete vezes mais presos políticos que no fim do fascismo, episódios da maus tratos e até tortura, etc (732). E afinal,  “O MFA  (pós-11 de Março 75) tinha organizado eleições que, pela primeira vez em Portugal, se tornaram numa fonte de legitimidade política” (734) .

      

Durante o Grande Confronto –assim RR designa os meses de Maio a Setembro de 1975 -  “O PS não estava sozinho. Contava com uma parte da extrema-esquerda, a que tinha o PCP como inimigo principal,  os  maoístas do MRPP. Mas, sobretudo, passou a dispor do auxílio da Igreja...Em Julho e Agosto, a Igreja promoveu enormes manifestações anticomunistas no Norte, as maiores desde 1974”. (736).  O governo, após o cerco a S.Bento, em 13Novembro, “suspendeu actividades e pensou refugiar-se no Porto sob protecção da NATO ...viveu-se entre boatos e enormes manifestações de rua ....Mas ninguém desejava uma guerra civil” (742).

 

A Revolução terminou a 25 de Novembro 1975, por efeito daquilo que Rui Ramos apelida de  “O  Compromisso de Novembro”.

               

Creio que a perspectiva do autor sobre a Revolução de Abril  - Cap. X, da História de Portugal, de que é o principal responsável – fica suficientemente explicitada através da leitura literal das transcrições atrás citadas. Trata-se da visão histórica congenial aos sectores mais reaccionários da direita política, adoptada por todas as forças contra revolucionárias inimigas da componente popular e patriótica de  Abril. Como cidadão anónimo, Rui Ramos pode até vender a alma ao diabo e ir para o inferno; como historiador, professor, doutor e nem sei que mais, demonstrou ser demasiado “politicamente correcto” para o ofício. Ou talvez eu esteja enganado; talvez seja por isso mesmo que os “poderes vigentes” lhe publicam terceiras edições com três meses de avanço!

      

Dispenso-me aqui –e dispenso os leitores – de rebater uma-a-uma as deficiências de visão de que sofre o autor. Pois se ele nem sequer viu as fotografias da multidão no Largo do Carmo, ou no Terreiro do Paço; mas no dia seguinte (sem fotos) conseguiu ver manifestações de protesto! É obra! de cronista visionário, sem dúvida. Na verdade, é enorme o volume de coisas, acontecimentos, situações, etc, de que RR não tomou, ou não quis tomar, conhecimento; ou seja, a realidade oculta, ou ocultada, que compete salvar, para que a História se respeite. Isso leva-nos, de imediato, à segunda proposta de análise: a interrogação sobre o não/registado e a procura de respostas. 

      

Uma das mais importantes realidade ocultadas pelos historiadores de serviço, comentadores avençados e gente que se deixa ir na onda, diz respeito à intervenção estrangeira (imperialista) na Revolução de Abril. No caso da obra que estamos questionando, essa ocultação é praticamente total; trata-se, aliás, da posição oficial do regime democrático vigente, filho natural da contra-revolução. Para a totalidade das chamadas elites da burguesia no poder mais clientelas e penduras, o assunto é religiosamente tabu. Um não/inscrito, diria o filósofo José Gil. Intervenção estrangeira na revolução portuguesa? Não tomei conhecimento, nem sei do que se trata, nem quero saber. Assim respondem os académicos nacionais e os sicofantas com acesso mediático. Não apenas indígenas. De um historiador catalão (S.Cervelló), que permaneceu em Lisboa durante todo o Prec ouvi, na  apresentação do livro de sua autoria sobre a revolução portuguesa, a seguinte explicação:  “Não se pode meter tudo”. Ora aí está, uma explicação científica, por testemunha qualificada, para o apagamento da intervenção estrangeira!

 

R.Ramos ainda estará mais refinado, trinta anos passados. Frank Carlucci, o embaixador americano padrinho da contra-revolução portuguesa merece-lhe somente duas curtas alusões. A VI Esquadra americana, nunca a enxergou no Tejo, nem sequer na histórica madrugada do 25 de Abril, viu o imponente porta-aviões Forrestal, rodeado por dezenas de navios da Nato. Efectivamente, ao largo da  costa portuguesa, ou fundeada no Tejo, sempre esteve a polícia de intervenção da Nato, em todos os momentos cruciais da revolução portuguesa; “manobras há muito calendarizadas”; explicava-se; e isso tem chegado para o historiador (imparcial!) ficar ceguinho.. Mas a cegueira da historiografia oficial – a obra de RR incluída – sobre a ingerência das potências Nato, não apagou apenas as silhuetas dos navios de guerra em águas portuguesas nos 19 meses revolucionários. Apagou também toda a formidável mobilização dos governos reaccionários europeus e americano contra um Portugal liberto do fascismo. No Verão de 75, ao nível mais alto dos governos ocidentais, esteve em projecto a ocupação dos Açores  e a invasão do território continental; ao aproximar-se Novembro preparava-se o bombardeamento da comuna de Lisboa e a guerra civil entre o Norte e o Sul do país. A cruzada anticomunista internacional contra o Portugal de Abril atingiu proporções únicas de irracional paranóia. Nuvens de espiões, de agências de sabotagem,  provocadores e infiltrados, rios de dinheiro campanhas difamatórias, tudo foi usado para destruir o processo libertador português.

 

De nada disso dá conta –tomou conhecimento– o cronista/ historiador Rui Ramos na sua obra. Também não se deu ao trabalho de percepcionar, como tal, as provocações no jornal República (Maio/Jun. 75), o assédio ao congresso do CDS (Porto, Jan. 75), o assalto e saque da embaixada de Espanha (27 Set.). etc. Em contrapartida, percepcionou muito bem a actividade conspirativa do PS com os spinolistas, depois com o MFA dos moderados, com a Igreja, com a extrema-esquerda e a restante escória a mando e estipêndio do imperialismo.

 

Mas além disso, RR devia ter percepcionado o Levantamento Popular do Norte, em Julho/Agosto 75, como sendo o prelúdio da guerra civil desejada pelos inimigos de Abril,  abrindo a  caça aos comunistas e antifascistas, com  assassinatos e incêndios abençoados pelo arcebispo de Braga e cónego Melo; devia ter visto, que no Grande Comício do PS na Fonte Luminosa (19 Jul.) mais de metade dos manifestantes era dessa gente do antigamente fascista, sedentos de desforra e vingança; RR devia ter registado que a Assembleia de Tancos (3/4 Set. 75) que liquidou o MFA, foi muito mais “selvagem” que a da noite de 11/12 de  Março (onde quem quis entrar entrou e participou, enquanto em Tancos eu próprio fui impedido de entrar perante ameaça de prisão); Rui Ramos deve saber  que  a fuga, em  pânico, para Espanha e Brasil da elite burguesa nacional, a partir de Março 75, representou um triunfo revolucionário com rara equivalência na história moderna; RR devia ter prestado mais atenção à influência nefasta que na solução colonial exerceram  as formações políticas civis e militares, com ligações ao imperialismo; etc, etc, etc.    

 

O Capítulo XI, intitulado “Uma Democracia Europeia desde 1976”, resume-se a um panegírico de 30 páginas de exaltação triunfal ao regime vigente; do qual vamos fazer uma rápida leitura literal. Assim: “No princípio do séc.XXI, Portugal era uma democracia integrada na União Europeia, com uma elite política civilista, uma sociedade urbana e uma economia terciarizada, das mais ricas do mundo....”, lê-se a pag. 747 ... e custa a acreditar! “... a sociedade portuguesa mudou como nunca mudara antes...”; para, mais adiante (pág. 763), afirmar: “a transformação acelerou-se a partir de 1960-1970”. Dá para pasmar: foi então  com o fascismo que a grande transformação  modernaça deu o salto em frente! A evolução na continuidade, finalmente consagrada por historiador  do regime democrático. E o delírio continua, na  pág. 769: “No início do séc. XXI Portugal constituía uma das sociedades europeias com mais casas, mais auto-estradas e que mais energia consumia per capita”. Para terminar (pág. 773): “um dos grandes trunfos da nova democracia em Portugal foi o desenvolvimento. A economia portuguesa entre 1961 e 1997 reduziu o hiato em relação à média europeia tornando Portugal oficialmente ‘um país desenvolvido’”. Fica assim confirmada a “evolução na continuidade”. Entre 1961 e 1997, nada de especial aconteceu, nenhum contratempo perturbou o firme progresso  das reformas provindas do fascismo. Revolução do 25 de Abril ?  Connais pas, como dizia a rafeira, ainda hoje deputada pelo PS. Pelos vistos e lidos, Rui Ramos navega na mesma onda. Revolução em 25 de Abril de 1974?!  Um  simples fait-divers  para esquecer;  um percalço sem importância de maior.

 

Em meu entender, o Capítulo XI da História Contemporânea de Portugal da responsabilidade do historiador Rui Ramos não merece maior atenção. Nem minha, nem decerto a dos leitores. Passemos, por conseguinte à oração fúnebre.

 

É vastíssima a bibliografia citada por RR, quer em notas quer num apêndice final. Seguramente, mais de duas centenas de autores e títulos. Até  por lá constam  livros  de que sou autor; dos quais uma única frase foi seleccionada (pág. 728, nota 79). De qualquer modo, compete aos autores e aos coordenadores das obras seleccionar as fontes de informação que considerem  adequadas à sua perspectiva e úteis ao seu projecto de trabalho. Assim se definem e se comprometem.

 

Todavia convém notar que não basta citar nomes e títulos. Nos últimos decénios amontoaram-se volumes sobre o caso português, em particular o 25 d’Abril; alguns contendo documentação incontornável. Como por exemplo, no livro “Os EUA e a Revolução Portuguesa”, publicado em 2008, sob a égide da Fundação Luso-Americana (entidade super respeitável para a direita indígena). RR cita esse livro sete vezes no Cap. X; contudo não enxergou  a documentação anexa, e outros elementos, que tornam incontornável a realidade da ingerência americana no nosso país. O historiador RR mostra-se capaz de contornar o incontornável! Também isso o define e compromete.

 

O currículo profissional de RR contem farta cópia de trabalhos publicados; alguns em parceria com Ant. Reis e José Matoso, também eles historiadores “acarinhados” pelo sistema de poder em vigor,. O primeiro é quadro destacado do PS e da Maçonaria; e, em simultâneo, patrão do Departamento de História Contemporânea da Univ. Nova de Lisboa; cuja perspectiva historiográfica reflete fielmente a da classe dominante e a do governo em funções; José Matoso, por seu lado, é o mestre historiador que recomenda aos seus pares e discípulos (Jun. 2000)  “ sobre os factos....pode ser que seja melhor esquecê-los que recordá-los”. Os vencedores da contra-revolução de Novembro agradecem reconhecidos.

 

Ora, por fim e finalmente, encontro-me de acordo com Rui Ramos, nesse ponto específico: os grandes vencedores e usufrutuários desta II República Democrática Portuguesa são, efectivamente, os restauracionistas da velha ordem do antigamente fascista, ainda sobrevivos ou na pessoa dos seus filhos e herdeiros em sangue, quadro de valores, conformismo natural e ganância adquirida. Ou seja, conforme publiquei em livro (Dez. 1999), com  o título de:   “Esta Democracia Filo-Fascista”.

publicado por samizdat às 08:57
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