Sábado, 12 de Janeiro de 2008

Carta ao presidente da República, Jorge Sampaio

          Acção Revolucionária de Beja

                             EXPOSIÇÃO

Neste 40° aniversário da Acção de Beja - sem dúvida percursora do 25 de Abril, e a mais importante revolta contra a tirania em mais de 40 anos - o aspecto que, neste ensejo, o signatário, oficial do QP no activo aquando dos acontecimentos, considera seu dever salientar - em particular, junto dos actuais responsáveis pela honra e redignificação da Instituição Militar -é o seguinte:

Senhor Presidente da República

Comandante Supremo das Forças Armadas

Excelência                                    

Em Janeiro de 1962, pela primeira e única vez no historial das Forças Armadas Portuguesas, foi atribuída a uma polícia política (no caso, a PIDE) autoridade para prender, interrogar e julgar pessoal em serviço activo (na maioria, oficiais de carreira), votando ao desprezo a norma consagrada no Código de Justiça Militar, mais a competência dos Tribunais Militares; e abrogando tradições e direitos seculares.

O autor dessa ilegalidade sem precedentes, decretada logo no dia imediato ao malogro da acção revoltosa, foi o então Ministro da Defesa e Presidente do Conselho, Oliveira Salazar ; assim descarregando o ódio contra os militares provocado pela Rendição de Goa, doze dias antes. O facto é que a hierarquia na época, por cobardia ou cumplicidade (ambas as coisas, decerto) se submeteu, sem reagir, à arbitrariedade do reles ditador.

São passados 40 anos sobre o ultraje infligido à Instituição Militar na pessoa dos implicados na Acção Revolucionária de Beja. A actual hIerarquia, duas gerações após, com carreiras quase por completo percorridas em regime democrático, está em condições, e tem por dever, demarcar-se e demarcar a Instituição Militar do procedimento pouco digno e ilícito dos seus predecessores. (E a mesma injunção serve para outras instituições com idêntica posição ambígua, tais como a Magistratura ou a Igreja Católica).

Como militar do QP, participante na Acção Revolucionária de Beja, em Janeiro de 1962, considero que o poder político democrático - nomeadamente através das instâncias que tutelam a Instituição Militar - nos está devendo um pedido formal de desculpas.

Esse será um claro sinal de que existe no corpo institucional da Democracia Portuguesa uma real intenção de repudiar e redimir os criminosos procedimentos do regime fascista derrubado a 25 de Abril de 1974.

Assiste-nos autoridade moral bastante para esta chamada de atenção. Como honrosas peças que guarnecem o nosso brasão, ostentamos: rebelião armada contra o poder fascista, arriscando vidas e carreiras; prisão e tortura às mãos da PIDE ; largo somatório de anos de encarceramento ;exílios e privações; discriminação e perseguições de toda a ordem. No contra-campo desse escudo de armas apresentamos: nenhuma condecoração, indemnização ou retroactivos; nenhuma invocação de stresses, sacrifícios ou pensões especiais; e, por último, já em regime democrático, a suprema humilhação: ver os pides, assassinos do gen. H. Delgado, serem julgados em Tribunal Militar... com estranha indulgência. .

Nada recebemos, nada pedimos e nada aceitaremos da Democracia Portuguesa - pela qual lutámos - a não ser o Pedido de Desculpas nos termos aqui exarados.

E mesmo esse será para oferecer (devolver) às gentes sofridas da nossa terra que, com justo instinto, duvidam da sinceridade democrática de muitos dos poderes instituídos e da de grande parte dos seus representantes.

Lisboa, 21 de Janeiro de 2002

Por si,

em homenagem ao general Humberto Delgado assassinado pela polícia fascista em Fev 1965; e aos revoltosos civis António Vilar e David Abreu mortos no decorrer da acção em Beja. E em tributo para com todos os companheiros, militares e civis, que participaram na Accão Revolucionária de Beia, em 1.1.62.

assina João Varela Gomes

coronel reformado

Nota do editor: a presente carta nunca recebeu qualquer resposta do então Presidente da República, Jorge Sampaio

 

Jorge Sampaio (sentado, ao centro), nos tempos distantes da sua militância antifascista
publicado por samizdat às 13:09
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A CAUSA PERDIDA da historiadora Maria Inácia Rezola

 

Responso crítico por J. Varela Gomes

Na primeira metade do corrente ano de 2006, foi editado com a chancela do "Campo da Comunicação" um estudo da autoria de Maria lnácia Rezola intitulado "Os Militares na Revolução de Abril", levando como sub-título "O Conselho da Revolução e a transição para a democracia em Portugal (1974/1976)". O volume, com 520 páginas, resulta, nas palavras da autora em Nota Prévia, "da adaptação da tese de doutoramento em História lnstitucional e Política do Século por nós apresentada na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, em Dezembro de 2003".

Desde então, a obra começa a ser mencionada nos meios académicos da área e por intelectuais e jornalistas interessados no tema. É o caso do prefaciador da presente edição, o jornalista do Expresso, José Pedro Castanheira, que se socorre da tese de M. L Rezola numa recente publicação de que é co-autor, "Os Dias Loucos do PREC"; a qual, meses depois do lançamento no mercado em Abril 2006, foi por mim sujeita a revisão crítica.

Na sequência dessa revisão (Agosto 2006), pretendo agora proceder de igual modo em relação ao trabalho da académica M. I. Rezola. Por norma começo pela "moldura" da obra. A biografia do autorIa, em primeiro lugar. No caso, poucos dados são fornecidos. No entanto, o perfil não andará longe de... uma universitária, nascida a curta distância do 25 Abril 74, com projecto de carreira sustentado de mestrado e doutoramento, dentro da escola onde se licenciou. A autora, na Nota Prévia, agradece a vários docentes da área, com destaque para António Reis, que se infere ter sido o orientador da tese. O qual, aliás, na Apresentação que assina, não poupa elogios ditirâmbicos: "a melhor e mais completa obra da historiografia portuguesa sobre o processo revolucionário... ".

Outros elementos compõem a moldura: além da Apresentação e do Prefácio (J. P. Castanheira), a Nota Prévia, uma Introdução da autora, continuada por um ponto de situação ("Estado da Questão", lhe chama); mais um minucioso Índice e 185 alíneas/entradas,  terminando com uma Conclusão de 15 páginas. A autora, no decorrer do estudo, mostra-se particularmente devedora a autores nacionais e estrangeiros, de créditos firmados no universo académico ocidental/capitalista.

O equivalente a avalistas "politicamente correctos", na metáfora usual. Por exemplo: no plano civil, Freitas do Amaral e Marcelo Rebelo de Sousa; os militares, Vasco Lourenço ou Victor Alves. Convém registar o perfil de António Reis: jovem, fundador do Partido Soeialista, em 1973; conspirador activo contra o processo revolucionário, deputado durante várias legislaturas; grão-mestre da Maçonaria, etc. Toma-se complicado aceitar à priori a isenção político-ideológica, ou catedrático/científica, de um sujeito com semelhante cadastro.

Em nenhuma das 185 alíneas consta a palavra/anátema contra-revolução. Numa única (pág.335) é abordado o tema "relações externas", sem utilizar o conceito/anátema de ingerência estrangeira. O independentismo nos arquipélagos não suscita referência específica. Contrastando um pouco, "anti-comunismo em acção" e "guerra civil" preenchem 8 páginas (300 a 308). Resulta, assim, que os conflitos e enfrentamentos entre militares se convertem no assunto principal. Na verdade, ocupam cerca de 4/5 do total do texto; de acordo, aliás, com a; intenção consignada no título e sub-título do volume. A própria autora o reconhece ao abrir a sua conclusão: o principal objectivo era o de analisar qual a importância do CR, como agente politico na transição portuguesa... Depressa deve ter percebido que análise histórico/sociológica em "vaso fechado" não faz sentido, nem pode aspirar a estatuto científico/académico. Destarte, decidiu alargar o seu campo de visão. Contudo, não o suficiente, nem com lentes desembaciadas, Não deu - por exemplo - para enxergar a esquadra NATO no Tejo, em todos os momentos cruciais da Revolução... incluindo no dia inicial do 25 Abril 1974 (menos limpo do que acreditou a poetisa).

Confesso que, em condições normais, este relance à "moldura" da obra de M. L Rezola, mais a constatação da sua miopia analítica, seriam suficientes para concluir pelo pouco interesse do trabalho. Em resumo, mais outro produto académico/historiográfico "politicamente correcto"; isto é, conforme (conformado) com as opiniões e a versão dos vencedores da contra-revolução de Novembro 75, partilhada pelos democratas de 25ª hora, filofascistas de sempre que têm governado o País (governando-se) nos últimos 30 anos.

Todavia, vejo-me compelido, por razões de prevenção, a ir um pouco mais além. Visto que a obra de M. I. Rezola, recomendada com garantia académica, pode confundir muitos estudantes, divulgadores, intelectuais ou simples interessados na temática relativa à Revolução de Abril. Foi isso que, em parte, sucedeu a J. P. Castanheira quando recompôs as suas crónicas sobre o PREC, no álbum publicado em Abril último. A I Parte do estudo (80 páginas) cobre o período de 28 Setembro 74 a 11 Março 75. De acordo com o eixo de desenvolvimento do ensaio - os Militares na Revolução - a questão da institucionalização do MFA merece a maior atenção e espaço de texto. Acessoriamente são mencionados alguns aspectos e descritos episódios do processo revolucionário em curso, indispensáveis para um elementar enquadramento do papel dos militares. Enquanto que no que respeita ao MFA a autora se baseia em fontes documentais originárias, já naquilo que concerne ao pano de fundo histórico e social, limita-se a reproduzir opiniões e testemunhos de origem politicamente correcta (no sentido que se tornou usual). O Expresso é largamente utilizado, os comentadores citados não fogem ao perfil conservador de inimigos da revolução. Entre os militares, Vasco Lourenço é oráculo irrefutável.

Duas notas apenas: se a autora pretende acompanhar a luta pelo poder no interior das Forças Armadas, teria sido conveniente haver uma referência ao primeiro grande ataque contra o M.FA, preconizando a sua extinção; ou seja, o Documento Engrácia Antunes/Hugo dos Santos, posto a circular nas unidades, logo no início de Agosto 1974, devidamente avalizado por Costa Gomes, escassos três meses após a jornada gloriosa! Parece ser elemento importante, que não deveria ter sido omitido pela doutora investigadora. Uma segunda observação, tomo-a de Kenneth Maxwell. Tal como vem indicada na pág. 43: a importância dos apoios e interferências externas no processo revolucionário português. Se a autora pretende acompanhar - como afIrma - o papel dos militares na Revolução, não deveria ter omitido a permeabilidade que revelaram em relação a interferências e pressões externas; mesmo dentro do M.FA, mesmo dentro da respectiva Coordenadora... por suposto o núcleo duro do Movimento.

A II Parte continua reservando largo espaço para análises de reuniões, acordos e desacordos, pactos e documentos relativos à institucionalização do M.FA. Entretanto, começa descrevendo a tentativa spinolista de 11 de Março, respectiva derrota e connsequências imediatas. Descrição essa que segue - ipse dixit - a versão reaccionária dos inimIgos da Revolução.

Confesso estar cansado - já lá vão 30 anos! - de refutar, de tentar repor algum tino e verdade na história da luta de classes no meio militar desde Abril de 1974. (A última dessas tentativas, muito recente, foi em relação ao álbum de que é co-autor o jornalista J. P. Castanheira). Apesar de na bibliografia indicada por M. I. Rezola figurarem cinco títulos meus (incluído o "Livro Branco da 5ª Divisão"), nem a transcrição mais longa (pág. 134) é directa. Nos títulos identificados (sendo dois deles edições de 1980), o testemunho ali acumulado chegaria para a Drª Rezola ter mais cuidado com os cenários e opiniões que adopta como válidas. Um pequeno exemplo, mas elucidativo, da posição/tipo adoptada: a pág.133, descrevendo a Assembleia de 11 para 12 de M~ço 75, a autora arrima-se a Freitas do Amaral e a Rebelo de Sousa para manter em suspenso a versão (de falsidade demonstrada) de ter sido o coronel Varela Gomes a reclamar a pena de morte para os implicados no golpe. Apesar de ilibado... escreve. Ora abóbora, minha senhora! Não é posição de urna historiadora que se preze! Invocar, 30 anos passados, a opinião de dois conhecidos filhos-de-fascista para manter viva urna falsificação.

Francamente! Já não há paciência para tanto facciosismo. Continua a senhora investigadora - pág. 135 - dando voz a distorções de memória, cujo propósito é, de toda a evidência, contrabandear a história, à feição dos profiteurs da contra-revolução; ignorando deliberadamente o abundante contraditório entretanto ao dispor.

Nessas circunstâncias, entendo que não vale a pena, que é de todo inútil, perder tempo a esclarecer ou rebater, ponto por ponto, as posições historiantes adoptadas pela Drª Rezola no que respeita à luta de classes, ao golpismo e conspirativismo no seio das Forças Armadas.

Cuja iniciativa e responsabilidade pertenceram sempre - desde Spínola - aos inimigos da Revolução: i) ao oficialato reaccionário pró-fascista, a que se juntaram, posteriormente, os apelidados "moderados" do próprio MFA; ii) aos partidos políticos burgueses anticomunistas, com destaque para o PS; iii) à pressão internacional e respectivos serviços secretos, estando na primeira fila a CIA e o embaixador americano F. Carlucci; iv) à esquerdalhada estudantil maoísta /anticomunista, que incluía grupos manipulados por agentes e agitadores estrangeiros; v) à escumalha de marginais, mercenários, bombistas e incendiários, recrutados pelos partidos burgueses e incentivados pelo clero caceteiro do norte, centro e ilhas adjacentes.

É nesta II Parte, com a instituição do Conselho da Revolução - CR, que a autora aborda o sujeito principal da sua obra; consoante indicado no sub-título da mesma. Quanto ao desenrolar da luta pelo poder no MFA e Forças Armadas em geral, suas peripécias e episódios, a Drª Rezola continuou fazendo fé - exclusivamente - em fontes que ficaram definidas como adversárias da revolução. Entre os militares, os que foram apelidados de "moderados" pela reacção internacional; entre os civis partidários, todos aqueles, cujo único e premente objectivo era destruir o poder militar revolucionário. Sucede, assim, que tolices e falsidades não faltam no panorama historiográfico descrito pela autora. Não me vou aqui dar ao trabalho de rebatê-las pela enésima vez.

A III Parte trata, concretamente, do "CR na Vanguarda do Processo Revolucionário" (de Maio a meados de Agosto 1975). São 276 páginas (da 189 à 365), portanto metade do total do volume. A ideia mestra consiste na análise do papel do CR, como vanguarda, motor, garante da Revolução. Na realidade, é nesses meses que se assiste à desagregação do MFA-CR, cuja componente/facção moderada passa ao serviço da contra-revolução; em sintonia com o PS e obediência à pressão internacional imperialista, que recomenda a cruzada anticomunista como estratégia vencedora (com provas dadas na Guerra Fria). Neste período (do "Verão Quente", para alguma imprensa), a proliferação de documentos, pactos, declarações, entrevistas. etc. representa a espuma que oculta a vaga de fundo; isto é, a luta de classes/luta pelo poder. Trinta anos passados - quando está bem à vista o que pretendiam a burguesia nacional e seus aliados militares, espaldados pelo imperialismo capitalista, toda essa espuma documental mereceria apenas um circunspecto relance misericordioso. Mas este é um ponto de vista pessoal. A investigadora M. lnácia Rezola é uma académica formada no respeito reverencial pelo documento (seja ele apócrifo, falseado, ou absolutamente negligenciável), em período de ressaca ideológica, restauracionista e conservadora (a que chamo, filofascista). Os paramêtros de análise que lhe foram inculcados (e à sua geração) ressentem-se excessivamente do "politicamente correcto", que grassa no actual ensino universitário português.

Tentado demonstrar o "teorema" proposto na III Parte - O CR na Vanguarda da Revolução - a historiadora começa a defrontar-se com dificuldades lógicas insuperáveis. Em consequência, evita analisar as contradições e confrontos dialéctico/políticos em que tropeça. Por exemplo: CR versus Assembleia MFA; MFA revolucionário versus F. Armadas tradicionais (reaccionárias); Facção, dita moderada, do MFA versus governos V. Gonçalves; "complacência" do MFA no saneamento dos elementos pró-fascistas das FFAA; etc. Mais importante ainda: procura minimizar, em duas ou três páginas,factores determinantes na evolução do processo e no destino final da revolução. Tais como: a ingerência estrangeira imperialista ("eventual", insinua... socorrendo-se da opinião de quem passava horas e horas a conversar com o embaixador americano - o Dr. M. Soares); a cruzada anticomunista ateada pela Igreja, tomada como epifenómeno "espontâneo". Entretanto, a partir da alínea 4 desta lII Parte, já não consegue ignorar os sinais da guerra civil nas ilhas e nas regiões norte e centro; e que o CR, cada vez mais dividido entre apoio e antagonismo a V. Gonçalves, se toma irrelevante na condução do processo revolucionário.

Ao terminar a Parte lII, a autora reconhece "Um CR inequivocamente dividido" (pág.358). Inicia a Parte IV (Setembro-Novembro de 1975) com uma interrogação - Quem comanda a Revolução? - onde, na verdade, já transparece o desencanto da autora quanto à relevância do seu suposto "motor revolucionário".

A divisão entre a Parte lII e a Parte IV, constante do Índice, não foi traçada com muita racionalidade. Com efeito, Setembro começa - cronológica e politicamente - com as "Assembleias Selvagens" de Tancos, nos dias 3 e 4 desse mês, na página 385; as vinte páginas anteriores deveriam pertencer, logicamente, à Parte lII. Seja como for, o desfecho premeditado e manipulado de Tancos marca o triunfo do Bando Moderado-Revolucionário dos 9 dissidentes do MFA, resultando na radical remodelação do CR; o qual, se do ponto de vista revolucionário estava inoperante, logo passou a activo/operativo do ponto de vista contra-revolucionário.

Daí por diante, passando pelo 25 Novembro, e transformado o CR em motor contra-revolucionário, dedicou-se a enterrar os remanescentes do atraiçoado MFA da lenda popular; e a restaurar as velhas Forças Armadas colonial/fascistas. Rapidamente, uma Resolução do novel CR, datada de 11 de Dezembro (onze dias depois do golpe!) publicada no Diário do Governo nº 295/75, nomeia os três mais imaturos e inconsequentes capitães do Bando dos Nove para superintenderem à perseguição aos militares progressistas e à reabilitação de pides e fascistas. Dois novos Decretos-Lei (117-A/76 e 139/76), voltam a mostrar o desvelo do CR pela restauração da velha ordem, seus próceres e servidores. (Em "Esta Democracia Filofascista" , livro de minha autoria, incluído na bibliografia de M. I. Rezola). Num imaginado quadro renascentista, ao canto, na esquerda baixa, uma pequena figura embuçada reprime uma casquinada de gozo. Será Maquiavel? Reparando melhor, reconhece-se um português de gema: o general Costa Gomes.

Resta apreciar as 13 alíneas conclusivas que preenchem as 15 últimas páginas da obra de Maria lnácia Rezola. Mas antes de a isso proceder, vamos reler as antecipações finalistas de António Reis, logo na Apresentação do volume.

Escreve o provável orientador da tese de doutoramento, cuja adaptação em livro estivemos percorrendo... que a autora "consegue desmontar com inexcedível rigor a visão clássica de um CR como motor da Revolução... sem desvalorizar, ao contrário da perspectiva de outros historiadores, o papel dos partidos políticos". O quadro militante do PS marca o seu ponto. Mais escreve, que "a autora consegue, de facto, demonstrar, ao longo da sua obra, que a institucionalização do MFA, longe de ter sido o produto da escalada da sua facção "gonçalvista ", correspondeu antes à consciência generalizada da debilidade dos partidos políticos e da fragilidade da democracia". O político partidário torna a pronunciar-se. De facto, a alegada debilidade dos partidos políticos provinha, na altura, da consciência culpada pela cumplicidade com o golpe da facção "spínolista"; em particular, exactamente, o PS (ver pág. 138 & alter). Entraram em pânico, após a derrota do golpe, com o justificado receio de serem acusados e sancionados. Estavam dispostos a todas as cedências face a um MFA vitorioso. Porventura o militante socialista António Reis já se esqueceu disso... e de muitas outras "debilidades". A amnésia é uma benção que a sociedade capitalista concede a socialistas "politicamente adaptados".

A Drª Rezola apresenta as suas 13 sub-conclusões numa formulação pouco segura. Quanto a mim, essa timidez assertiva talvez se deva atribuir ao facto de ter chegado ao fim do seu exaustivo trabalho e se ver na contingência de ter de admitir uma conclusão geral redutora para a sua tese; ou seja, ter de concluir que o CR não desempenhou qualquer papel relevante como vanguarda, motor ou garante na Revolução Portuguesa de 1974-75. Pelo contrário: as mais das vezes, a sua acção foi prejudicial (mesmo sabotadora), directa ou indirectamente. A doutoranda M. I. Rezola viu-se, assim, confrontada com uma realidade desagradável: ter escolhido uma "causa perdida" para tese de doutoramento.

Acresce que o papel nefasto do CR, ficou manifesto desde a primeira hora, nascido na turbulência da suspeita (suspeitíssima) golpaça dirigida por V. Lourenço na noite seguinte à Assembleia de 11 de Março; onde, através de indecorosa manipulação, foram afastados os vencedores do golpe spinolista (RALIS e 5ª Divisão) e infiltrada gente já em vias de realinhamento com a reacção pró-imperialista (em tempos idos chamar-se-iam traidores, sem mais perífrases). Confirmando suspeitas, o primeiro plenário do novel CR foi dedicado ao 'julgamento" da 5ª Divisão por "usurpação de funções". Nunca nos perdoaram - nem ao Diniz d' Almeida - a inesperada derrota que lhes adiou o 25 Novembro! (Factos descritos em livros relacionados na bibliografia da autora).

Até Tancos, o CR de Março foi aguentando uma facção "gonçalvista"... consoante escrevem os adeptos da facção contrária. (A qual deveria então chamar-se "carlucciana"?). Não suficiente, no entanto, para impedir o assalto dos carluccianos às chefias das Regiões Militares. Creio que os historiadores académicos não estão habilitados a compreender a suprema importância que teve manter os comandos e chefias militares nas mãos da hierarquia conservadora durante todo o período, dito revolucionário. Por isso zelou, com inultrapassável génio intriguista, o gen. Costa Gomes; no Verão de 75 concluiu que havia jovens turcos do MFA capazes de ombrear com a antiga brigada do reumático. Procedeu de acordo: promoveu-os a generais e entregou-lhes as chefias operacionais. Cumpriram a missão a contento da reacção.

A autora não teve coragem de acompanhar o travestido CR de 1976 a 1982. E foram seis anos. Sabe porquê. Seria lidar com um fantasma, com uma paródia revolucionária. A autorizada pena de Pezarat Correia, um dos moderados generais de Novembro, membro do CR até à sua extinção, escreveu em1994: "As Forças Armadas depressa se transformaram, de um instrumento garante da Constituição, em suporte declarado das suas frequentes violações. E o CR viu-se progressivamente esvaziado da capacidade de intervenção, e só esporadicamente conseguiu ser algo mais que um orgão de soberania meramente formal e decorativo" (em "Questionar Abril", bibliografia da autora). Para rematar a decepção da Drª Rezola - e também a nossa- recordo que o CR na última sessão da sua lastimosa existência - 29 de Outubro 1982 - decide promover a brigadeiro (major-general) Rafael Durão, o comandante do Regimento Páraquedista sublevado em 11 de Março. Na mesma ocasião recusa a promoção de Carlos Fabião, ex-Chefe do EM Exército, conselheiro até Dezembro 75 e apoiante do Bando dos 9. O CR, mesmo na hora da morte, mostra a sua raça. Além disso, para o funeral ser a rigor, Freitas do Amaral, autoridade muito respeitada pela Drª Rezola, propõe que o dia da extinção do CR seja considerado feriado nacional e apelidado de Dia da Liberdade. Uma oração fúnebre que - penso - não devia ter sido omitida na monumental obra sobre a vida e morte do CR.

Posto isto, vejo-me obrigado a concluir que concedi excessiva atenção à obra e às teses da autora. No final desse esforço penoso, vejo-me obrigado a concluir que o Prof. Dr. Catedrático António Reis foi igualmente excessivo ao apresentar a obra da sua pupila como a melhor e mais completa obra da historiografia portuguesa sobre o processo revolucionário desencadeado pelo movimento militar de 25 de Abril de 1974. Muito pode o entusiasmo juvenil revisitado! Aquelas saudosas conspirações anticomunistas! Mas já lá vão mais de 30 anos, Exmº Catedrático. E não aprendeu nada nesse extenso lapso de tempo? Eu calculo: está ocupado em múltiplos afazeres, cargos, carreiras, comissões e missões, porventura empresas e até avenças de escrita. Em todo o caso... francamente! Penso nos seus alunos de História Contemporânea Portuguesa. Coitados. A que valentes lavagens de cérebro têm, certamente, sido submetidos.

Lisboa, Outubro de 2006

publicado por samizdat às 12:22
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Sexta-feira, 11 de Janeiro de 2008

Os dias loucos do PREC (de 11.3.75 a 25.11.75)

Os Dias Loucos do PREC

 

Vistos por Adelino Gomes e J. P. Castanheira, revistos por J. Varela Gomes

Dois veteranos e conceituados jornalistas - Adelino Gomes (Público) e José Pedro Castanheira (Expresso) - publicaram no passado ano de 2005 numerosas crónicas relativas aos cerca de 9 meses revolucionários vividos em Portugal, trinta anos atrás. Com essas crónicas - diárias no Público, semanais no Expresso - procuravam ao dois jornalistas, não apenas fornecer informação detalhada aos leitores sobre o PREC - Processo Revolucionário Em Curso -, mas também cruzar perspectivas dos acontecimentos ocorridos em 1975; utilizando, para o efeito, no essencial, os textos publicados autonomamente nos dois jornais; acrescentados, na presente edição com enxertos e opiniões de algum relevo.

Neste Abril desencantado de 2006, sob o patrocínio das respectivas entidades patronais e proémio dos dois directores (J. M. Fernandes, pelo Público; H. Monteiro, pelo Expresso) foram então novamente reeditadas, agora em conjunto, as crónicas de 2005 relativas a 1975, em grosso volume de 430 páginas, largamente ilustradas com fotografias do tempo revisitado. Ao volume foi dado o título "Os Dias Loucos do PREC". Não (a)parece claro o critério que presidiu à escolha do adjectivo. Mas acontece uma coisa com os adjectivos: não são inocentes. A semântica, também ela, é ideológica. Questão que, decerto, reaparecerá várias vezes, antes de terminarmos.

Em contrapartida, considero singularmente correcta a opção do anagrama PREC apenas para o período delimitado pelo 11 de Março 1975 - derrota da tentativa golpista de Spínola – e pelo 25 Novembro 1975 - triunfo da contra-revolução. Aliás, eu próprio, em anteriores oportunidades, tenho adoptado essa delimitação. Pois que, em rigor, revolução há só uma: a económico-social. Os contra-revolucionários, as classes reaccionárias em geral, também não têm dúvidas nenhumas a esse respeito. Brincar às manifestações de radicalismo teórico, não incomoda; e sempre diverte a rapaziada maoísta. Tocar na sagrada propriedade é outra história muito diferente... é uma questão de vida ou de morte.

Igualmente correcto foi o abandono da designação revisteira de "Verão Quente". A luta de classes que teve lugar em Portugal durante aqueles nove meses de 1975 foi assunto demasiado sério para consentir conotações de comédia ligeira.

Os autores terminam a sua Introdução apresentando um terceiro olhar, supostamente crítico/criativo. Consta em forma de Prefacio, redigido por um jovem escritor, Gonçalo M. Tavares que, nos anos 74/75, contava apenas 3/4 anos de vida. Conheço a obra desse escritor que aprecio e admiro. Não obstante, receio que o seu olhar, carregado de erudição e de referências literário/filosóficas, pouca mais-valia tenha acrescentado a uma publicação de natureza essencialmente jornalística... arriscando "reduzir os acontecimentos revolucionários ao resultado final de um jogo desportivo", consoante ele próprio, judiciosamente, escreve. O facto é que, quer sejam intelectuais ou gente de cultura comum, filósofos/literatos ou simples jornalistas, todos são influenciados na sua óptica (no seu olhar) por um complexo de motivações, onde as de ordem pessoal/material (reais ou imaginadas) não serão as de menor peso. Vamos então ver a que ponto os dois autores/jornalistas, que já eram gente crescida em 1974-75, conseguiram superar os seus constrangimentos de meio social, de educação, de ordem material... em suma, de classe.

O volume está compartimentado por semanas. São, portanto, 37 capítulos, preenchidos com uma minuciosa cronologia diária. De onde apenas destacaremos os factos/assuntos considerados dignos de comentário; mormente aqueles em que apareço pessoalmente mencionado, fui interveniente, ou testemunha presencial.

Entretanto, deve fazer-se notar que os autores escreveram as notícias/crónicas agora reeditadas em 2005, trinta anos afastados dos acontecimentos que pretendem revisitar. Não se trata, por conseguinte, de reportagens, ou de observações directas por eles recolhidas. Muito se disse e se escreveu nesse lapso de tempo de trinta anos. Aquilo que resultou foi, indubitavelmente, produto de demorada digestão, de influências várias. Uma delas, citada mais de uma vez por J. P. Castanheira, terá sido a obra da académica Maria Inácia Rezola "Os Militares na Revolução de Abril", tese de doutoramento defendida em Julho de 2004. Dada essa circunstância - e se para tanto me sobrar o engenho e a disposição - juntarei ao presente texto um Aditamento sobre a tese da doutorada autora.

Na realidade - fatalmente - os autores de “Dias Loucos …” fazem uso de materiais pós-datados. Eu próprio escrevi centenas de páginas sobre o período revolucionário, em livros e publicações diversas. Nomeadamente, sobre o tema que abre o volume que estamos apreciando. Ou seja: Semana 1 - O Golpe de 11 de Março.

Uma história bastante mal contada, valha a verdade. A fonte informativa parece ter sido o trabalho/tese de M. I. Rezola acima referido, a págs. 128 e seguintes. Meus caros: após 30 anos de acumulação de provas - e da prova do tempo - não é aceitável cobrir com um diáfano manto de dúvidas e ambiguidades a verdade nua dos factos. A resistência do RALIS e a intervenção decisiva da 5ª Divisão na derrota do golpe e fuga de Spínola, não vos merecem destaque... assim como a estranha inércia operacional da Presidência da República, do Estado Maior do Exército, do Copcon e de grande número de elementos da Coordenadora do MFA. Em contrapartida abundam as historietas e alusões de duplo sentido, relativas a "listas de matanças", a "reuniões tumultuosas", a "assembleias selvagens", sobre quem foi culpado pela exigência dos fuzilamentos, etc.. Por favor! A fixação sobre epifenómenos e fait divers caracteriza as reportagens de rua; parece querer amesquinhar um confronto dramático, charneira da revolução portuguesa. Prezados autores de “Dias Loucos”: a Assembleia do MFA que teve lugar na noite de 11 e madrugada de 12 Março 1975 - a justo título famosa - foi uma assembleia de dramatismo e grandeza como poucas terá havido na História de Portugal. Em que o Povo pediu contas aos poderosos e responsabilizou os dirigentes pela inércia e frouxidão que iam causando a perda a Revolução. E se me coube a mim, na ocasião, levantar a voz do Povo, disso sinto um imenso orgulho.

Outra história muito mal contada (na sequência da anterior) respeita à reunião, na noite de 12, onde se aprovaram os nomes para o futuro CR - Conselho da Revolução. A versão constante de “Dias Loucos” foi nitidamente colhida em M. I. Rezola (pág. 135). Visto ter participado nessa reunião, posso garantir que não existiram "listas prévias" apresentadas pela 5ª Divisão. Houve, isso sim, várias propostas e sugestões orais. Entre elas, alguém pronunciou o meu nome... para o CR naturalmente, pois não estavam em causa cargos militares. Eu próprio sugeri Dinis de Almeida, Duran Clemente e Salgueiro Maia. É verdade que Vasco Lourenço reagiu desabridamente, aumentando as nossas suspeitas (5ª Divisão) sobre as estranhas posições de apatia assumidas por ele e outros elementos no dia do golpe spinolista. Trocaram-se palavras violentas mas não se chegou a vias de facto. (Esse episódio ocorreu – definitivamente, e sem a menor dúvida - na Assembleia do Exército realizada quatro meses depois, a 25 de Julho). V. Lourenço manipulou de forma afrontosa a reunião. O objectivo manifesto era "limitar as avarias", recuperar de qualquer maneira, sem olhar a meios, os efeitos da derrota revolucionária infligida ao golpe spinolista na véspera, pelo RALIS e pela 5ª Divisão. De múltiplas trafulhices e outras tantas vigarices consistiu a condução dos trabalhos nessa reunião... essa sim, "selvagem". Até mesmo a lista congeminada por V. Lourenço - e que fora aprovada em atmosfera "tumultuosa" – apareceu modificada na imprensa do dia seguinte, e teve ainda que sofrer outras rectificações, acréscimo de nomes, etc. Uma trapalhada muito pouco dignificante, manobras e intrigas de bastidores de obscuras intenções; tomadas claras quando, daí a um par de dias, a chefia da 5ª Divisão foi convocada pelo novel CR, para ser ouvida como arguida por "usurpação de funções", em plenário presidido por C. Gomes. Aspecto irónico da situação: o novo órgão de soberania devia a sua existência, em grande parte, à nossa intervenção no dia 11 de Março. Outro aspecto "irónico" (catastrófico, como se iria revelar): ali sentados, como conselheiros juízes, estavam uns tantos "moderados" que já se tinham passado, ou estavam prestes a passar-se, para o campo da conspiração contra-revolucionária.

Semana 2 - "O Motor da Revolução" é, como os autores de “Dias Loucos” avaliam, o hipotético papel desempenhado pelo Conselho da Revolução. Trinta anos depois? Por favor! Aliás, semelhante opinião coincide com a da Drª Rezola, na obra citada, pág.13 (a senhora parece estar a converter-se no oráculo dos autores/jornalistas). Na realidade, um motor com graves defeitos de fabrico, que só funcionou quando ao serviço da "moderação contra-revolucionária". Pouco consta nos “Dias Loucos” relativamente à liberdade vigiada e às várias intimidações disciplinares a que ficou sujeita a 5ª Divisão, a partir da farsa do tribunal "conselheiral". Surge apenas (Semana 4) uma curta referência a um nado-morto Tribunal Revolucionário, supostamente destinado a julgar os golpistas spinolistas. Mais poeira para ocultar manobras sabotadoras. Tornaram-se sistemáticas. A história, aliás já contada em livro meu (“A Contra-Revolução de Fachada Socialista”, edição Ler Editora - Dez. 1981), do qual foram vendidos e distribuídos cerca de dez mil exemplares (quem não o enxergou de desvio de visão deve sofrer), é a seguinte: a 5ª Divisão ficara encarregada, na histórica assembleia de 11/12, de orientar o inquérito aos acontecimentos daquele dia de 11 de Março; para presidente da respectiva comissão foi ali indigitado o coronel Ribeiro Simões, da 5ª Divisão; os obstáculos à sua acção surgiram logo de imediato; a 25 Março foram destacados pelo CR dois "controleiros" da investigação, os conselheiros capitão V. Lourenço e major Costa Neves; não aceitando semelhante tutela, demite-se ipso facto o coronel R. Simões; perante a nossa indignação e protesto ainda se conseguiu fazer nomear, para substituir R. Simões, um outro oficial digno, honesto e antifascista de longa data (por isso mesmo, por ser honesto, competente e antifascista, nunca chegou a ser promovido a general... Costa Gomes e seus muchachos moderados não andavam a dormir na forma... podeis crer!). Nunca a 5ª Divisão teve dúvidas, desde o primeiro momento, quanto à missão dos controleiros do CR: travar a investigação sobre o envolvimento do Partido Socialista no golpe. Chegou a ser publicado um Relatório Preliminar do Inquérito. Depois do 25 Novembro, todo o volumoso processo desapareceu. Algumas peças, repescadas à última hora, constam no "Livro Branco da 5ª Divisão", por mim dado à estampa em 1984.

Na Semana 4, vem mencionada uma conferência de imprensa do embaixador americano Carlucci: "A CIA não teve, nem terá, qualquer ingerência nos assuntos internos portugueses". Ponto final. Todavia, procurando a coluna original de Adelino Gomes (Público, 14 Março 2005), aí se lê a acusação ínsita no semanário francês "Témoignage Chrétien", edição de 6 de Março 75 (cinco dias antes do golpe, fixem bem esses olhos), de que "Spínola recebera luz verde do embaixador dos EUA, Frank Carlucci". Mas mais e melhor: nessa mesma coluna/crónica, A. Gomes sublinha que 30 anos depois, exactamente a 11 de Março de 2005, em cerimónia comemorativa realizada em Lisboa, F. Carlucci é condecorado com a Medalha da Defesa Nacional pelo então ministro da pasta, Paulo Portas. E esta, hein!? Eis uma fotografia que deveria ter merecido relevo de página inteira nos “Dias Loucos”. Pois que representa o esclarecimento final - após 30 anos de digestão reflexiva - sobre quem foi o "verdadeiro herói" do 11 de Março para a burguesia reaccionária portuguesa. Nada mais, nada menos que o embaixador americano! (E não é que o homem vai repetir a façanha no 25 Novembro!!).

Semana 5 – Aparece esclarecida a questão polémica do apelo ao Voto em Branco; o qual, durante largos anos, foi atribuído a propósitos maquiavélicos da 5ª Divisão. Vem a pág. 65: "O principal teórico foi César de Oliveira, dissidente do MES. A ideia foi logo adoptada pela 5ª Divisão através de Ramiro Correia". Por uma razão muito válida, aliás: As equipas da Dinamização Cultural espalhadas pelo país comunicavam que as populações estavam confundindo o apoio do MFA ao socialismo, como indicação de voto no Partido Socialista. R. Correia percebeu que tínhamos andado a pôr os ovos no ninho do cuco. Mas não foi a tempo. (Saramago retomou a ideia do voto em branco no seu romanceado "Ensaio sobre a Lucidez", edição 2004).

Na Semana 6 de “Dias Loucos”, nota-se o "louco entusiasmo" dos autores pela estreia do diário "Jornal Novo". Com efeito! Pago pelos capitalistas da CUF! Em nome e como fautor, do verdadeiro socialismo pluralista! Seria para troçar do pagode? Quanto a mim, sempre o tenho identificado como "O Jornal dos Renegados" (V. G., "Em Nome da Ética", ed. 2004). Foi óptima ideia transcrever a Lista da Des(Honra) dos jornalistas e colaboradores: ficaram amarrados ao salário da traição. Duas objecções: nunca tive conhecimento nem, definitivamente, acho verosímil, que F. Piteira Santos tenha feito parte desse elenco de vendidos; J. M. Barroso era, na altura, capitão miliciano, prestando serviço na 5ª Divisão. A inclusão do seu nome tem pois de ser apócrifa. Provavelmente para garantir futura carreira no original regime do socialismo capitalista (ou vice-versa) onde ainda hoje, todos eles, jornalistas e intelectuais ditos independentes – que mais não foram que tarefeiros pagos pela CUF ao serviço da contra-revolução - prosperam, engordam… e cheiram a putrefacção.

A Semana 7 e todo o mês de Abril foram dominados pela campanha e eleições para a Constituinte. Em 20 de Abril, “Os Dias Loucos” regista boicotes e agressões contra o PCP em Cantanhede e localidades de Entre-Douro-e-Minho; assalto ao Centro de Trabalho em Famalicão por "200 aderentes do CDS". Rádio Vaticano recomenda (emissão de 17 Abril), e os bispos e a padralhada reaccionária por todo o norte do País repetem: "Os católicos portugueses não devem dar o seu voto a partidos cujas opiniões e métodos são incompatíveis com as determinações cristãs..." (pág. 78, ibidem).

As Semanas 8, 9, 10, 11 e 12 - todo o mês de Maio - foram, na perspectiva de “Dias Loucos”, dominadas pelo chamado "Caso República". Uma manipulação indecorosa, a que toda a imprensa reaccionária mundial deu enorme e desproporcionada cobertura. A manobra desinformativa - onde a mão da ClA entrava pelos olhos dentro - consistia em acusar o PCP de pretender tomar de assalto o vespertino lisboeta, feudo do Partido Socialista, com o objectivo último de acabar com a liberdade de imprensa em Portugal!

Caros autores de “Dias Loucos”: se já em 1975 foi logo reconhecido que o teatro montado na rua durante dias a fio não passava de uma farsa para consumo externo, seria normal que na vossa recapitulação em 2005, a inventona surgisse desmascarada. Sabia-se - e ficou apurado – que a iniciativa do conflito laboral pertenceu aos tipógrafos maoístas de maioria UDP. O PCP não meteu prego nem estopa no caso. (É curioso notar que a administração socialista do República passou a incluir o padre Agostinho Jardim Gonçalves (pág. 116, ib.), irmão do banqueiro da Opus Dei, refugiado em Madrid, então sede do MDLP/ELP). Na rua, a vociferação anticomunista do MRPP e doutros marginais, centenas de jornalistas estrangeiros, a rapaziada das embaixadas ocidentais... e, entrando no Tejo, a 28 de Maio, a infalível fada madrinha do socialismo soarista e das liberdades democráticas: a esquadra da NATO.

Desmentindo as falsidades propagadas pela reacção nacional liderada pelo PS, e as veiculadas pela Internacional Socialista e pela imprensa capitalista mundial, novos jornais de orientação anticomunista e contra-revolucionária nasciam como cogumelos, nesse Maio de 1975, fazendo coro com o Expresso e o Jornal Novo: A Rua (fascista); O Tempo (neofascista); Nova Terra (católico); O Jornal (pseudo independente - PS); Luta (órgão oficial do PS); Luta Popular (órgão oficial do MRPP); etc. Nas escolas a pequena canalha maoista, filhos de burgueses e fascistas, destruía mobiliário e laboratórios, estabelecia o caos, implantava a "revolução cultural", o fim dos exames e as passagens administrativas O anticomunismo caceteiro e fradesco alastrava pelo norte e centro do território, com assaltos e incêndios das instalações do PCP e do MDP; na

Madeira e nos Açores o terrorismo independentista amedrontava as populações. No Conselho da Revolução, os elementos conspiradores do Bando Moderado ganhavam posições de importância decisiva: com a manhosa concordância do Gen. Costa Gomes, fizeram-se nomear para o comando das Regiões Militares, justificando assim o aumento para 30 do número dos conselheiros, com elementos da sua confiança.

Semanas 13, 14, 15 e 16 - Mês de Junho 75. Que abre, nos “Dias Loucos”, com mais uma história muito mal contadinha, benza-vos Deus: a desestabilização independentista nos Açores (S. Miguel). Só possível pela cumplicidade do governador militar (e representante do MFA, em cúmulo de traição) coronel Altino de Magalhães, oficial da confiança pessoal de Costa Gomes e por ele nomeado para o cargo em Janeiro de 1975, apesar de vários avisos e objecções... com destaque para as de Rosa Coutinho que o tinha saneado de Angola por suspeita de envolvimento conspirativo com a reacção local. Aos gritos de "Independência, independência" frente ao Quartel-General, o bando separatista exige a demissão do governador civil António Borges Coutinho, membro de uma das famílias mais antigas de S. Miguel, antifascista de longa data e nomeado para o cargo logo em seguida ao 25 de Abril. Meu amigo desde 1958, telefonou-me no auge da crise (4 ou 5 Junho): "É preciso que cá venhas. Isto aqui está muito mau". Contacto de imediato Belém e disponibilizo-me para ir. O CR (C. Gomes, V. Lourenço) não hesita: decide enviar o açoreano Canto e Castro, cúmplice e amigo dos "FLAS - Frente de Libertação dos Açores". Borges Coutinho demite-se. Os Açores ficam nas mãos dos contra revolucionários. A conspiração do bando moderado do MFA averba mais uma vitória.

(Altino progrediu no generalato, sempre acarinhado pelo CR e devidamente condecorado pelos governos burgueses. Canto e Castro manteve-se no CR até à respectiva extinção em 1982. No ano seguinte é condenado a 5 anos de prisão por fraude na obtenção de subsídios). Meus Caros: todos estes elementos eram do conhecimento público em 2005, quando da publicação original dos vossos “Dias Loucos”. Constam no livro da minha autoria, edição 1981, já citado. Igualmente Borges Coutinho (Coelho! para A. Gomes) esclareceu o sucedido em S. Miguel, em diversas oportunidades, por escrito e em entrevistas. Só não sabe, quem não quer.

Entretanto o terrorismo anticomunista/anti-MFA intensificava-se. Em particular na Região Militar Centro (Coimbra), onde a missão do "MFA moderado", general graduado Franco Charais, era exactamente igual à do Altino nos Açores: colaborar com a reacção contra-revolucionária. Também em Angola/Luanda a situação se deteriora em clima de guerra civil, sendo Alto-Comissário o general da Força Aérea Silva Cardoso, outro oficial da grande confiança de Costa Gomes, por ele nomeado para o cargo em Janeiro 75, substituindo R. Coutinho que não agradava à reacção colonial. A estratégia para Angola, era uma indefinida "neutralidade activa", inventada por C. Gomes; e que, traduzida em termos práticos, consistia em "deixar andar"... a conspiração internacional contra Angola orientada no terreno pela CIA e pela BOSS sul africana. (John Stockwell, "A'CIA contra Angola", ed. Ulmeiro 79).

A 13 de Junho, uma Resolução do CR nomeia a Comissão do MFA para acompanhamento dos trabalhos da Assembleia. Constituinte (pág. 160, “Dias Loucos”). Missão da mais alta importância revolucionária, que foi despachada como trivial assunto administrativo, apesar da insistente candidatura da 5ª Divisão. Novo golpe de intriga palaciana, de intenção sabotadora contra-revolucionária que passa ignorado pelos historiógrafos amadores e profissionais. Da acção dos anónimos/anódinos militares nomeados, jamais houve notícia.

A 24 Junho (pág. 178, “Dias Loucos”), na sequência da ofensiva do CR contra a 5ª Divisão, é destituído da respectiva chefia o coronel Robin de Andrade, grande amigo meu desde os bancos do Colégio Militar, aliados em vários episódios da luta antifascista, sólido e leal apoio no 11 de Março e em todos os conflitos subsequentes com o CR. Por isso tudo foi substituído por um conselheiro, cuja missão seria controlar a 5ª Divisão. Enganaram-se. Ramiro Correia era um revolucionário sincero, honesto, homem de carácter e de cultura... não podia deixar de ficar meu amigo... até à sua trágica morte, em Moçambique... os dois juntos no exílio, em Agosto de 1977... e eu, destroçado, aos pés das urnas... dele, da mulher e do filho mais pequeno.

(Robin de Andrade não foi promovido ao generalato, para o que reunia todas as condições requeridas... e mais algumas. Como todos os militares antifascistas tinha ficha na PIDE. Essas informações, de classificação secreta, eram do conhecimento de um número muito restrito de oficiais do Estado Maior, que trabalhavam no serviço especial de informações do Ministério da Defesa, criado depois do início da Guerra Colonial. O general Costa Gomes sempre esteve ligado a esse departamento, integrado também pela PIDE (era detentor do respectivo crachat de ouro, não esquecer); Ferreira da Cunha, seu chefe de gabinete durante todo o período revolucionário, estava colocado nesse Serviço de Documentação Estrangeira, à data do 25 de Abril. Posso asseverar - e tenho-o feito em várias ocasiões - que nenhum oficial com ficha de suspeito na PIDE foi promovido pelo poder militar do MFA, ou do Conselho da Revolução. Essas fichas estiveram sempre nas mãos de Costa Gomes/Ferreira da Cunha e serviram para discriminar todos os militares antifascistas de postos de comando e chefia. Uma orientação subterrânea, manhosa (em suma, pidesca) que sabotou completamente a indispensável renovação das Forças Armadas; em última análise, sabotou o que foi chamado "motor da revolução", na ilusão historiográfica da Drª Rezola.

Semanas 17, 18, 19 e 20 (Mês de Julho 1975): Nas sínteses semanais de J. P. Castanheira (Expresso) e nas diárias de Adelino Gomes (Público) acumulam-se notícias e referências que, no seu conjunto, configuram um quadro de crescente ofensiva contra-revolucionária em todas as frentes: político/partidária; político/militar; agitação e terrorismo; intervenção da Igreja na cruzada anticomunista; pressão do capitalismo e da reacção internacional; ingerência imperialista em Angola e Timor, as últimas parcelas do império colonial ainda debaixo da soberania portuguesa. Um quadro desta natureza sugere, no mínimo, a existência de uma qualquer coordenação de âmbito internacional na ofensiva destabilizadora a que estava sendo submetido o nosso País. Relatar simplesmente factos e acontecimentos, em 2005/6, parece muito pouco para se dar a entender o significado da mobilização geral imperialista/capitalista contra a Revolução Portuguesa.

O Partido Socialista decide, no dia 11, abandonar o IV Governo Provisório, insistindo no Caso República, como pretexto e prova suficiente de que em Portugal não existia liberdade de imprensa... ergo, a "ditadura comunista" vinha a caminho. "Acudam-nos capitalistas do mundo livre". Cabala ridícula, já totalmente desmontada, na altura. Por exemplo (pág.196, “Dias Loucos”) o enviado especial do Le Monde - Dominique Pouchin (gente amiga do Dr. Soares) reconhecia que a comissão de trabalhadores que usurpara a redacção do República era "vagamente mao/populista". Isto é, esquerdalhos provocadores, sem qualquer ligação ao PCP. Aliás, a pág. 206 (idem), vem citado F. Miterrand (quem diria!): “Acreditarei nos que choram (agora) pelas liberdades em Portugal, (quando nunca falaram delas durante os cinquenta anos de ditadura) se também chorarem pelas liberdades em Espanha”.

A 17, é a vez do PPD sair do governo. Os "independentes", J. Sampaio e J. Cravinho, capitaneados pelo "capitão d'Abril" Melo Antunes, deixam também V. Gonçalves a falar sozinho. Enquanto esta intriga/provocação se desenvolvia, os partidos burgueses contra-revolucionários, com o PS à cabeça, multiplicavam comícios por todo o País, atacando o MFA e a "ditadura comunista" de V. Gonçalves. Simultaneamente, os bispos de Aveiro, Braga, Bragança e restante clero caceteiro/incendiário incitavam a populaça a acabar com os comunistas (pág. 197, ib.) a continuarem a destruir-lhes as sedes e outras instalações... enquanto o Papa reza ao Altíssimo ("Quotidien de Paris", citado pág. 173, ib.) para que “a solidariedade fraterna ajude a Igreja Católica em Portugal". Fala-se da marcha sobre a Comuna de Lisboa, para coincidir com a manifestação convocada pelo PS, para 19, na Alameda. O ELP ataca em Bragança. Spínola, no Brasil, clama por levantamento popular. Motins, assaltos, incêndios, agressões e mesmo assassinatos em Aveiro, Alcobaça, S. João da Madeira, Rio Maior e outras localidades do centro do País, só possíveis pela passividade/cumplicidade das forças militares locais, contando com a cobertura do QG de Coimbra. Marcha sobre Luanda, por Holden Roberto e colonialistas portugueses anunciada para 22 (pág. 220, ib); outra marcha, esta sobre Angra do Heroísmo, a 23 (idem). Mobilização de milícias populares, é ameaça do PPD (Emílio Guerreiro), do MRPP (Arnaldo Matos) e doutros palhaços; etc... A 26, os EUA avisam a União Soviética (pág. 224, ib); finalmente, a esquadra da NATO marca manobras para a costa portuguesa. Isto é, a burguesada nacional, com o apoio do capitalismo imperialista, preparava a guerra civil em Portugal.

Ora também neste mês de Julho 75, certos episódios bastante significativos surgem muito mal contadinhos nas páginas de “Dias Loucos”. Que podiam (deviam) ter sido descritos numa versão mais actualizada (verdadeira) em 2005 (Consta já no meu livro de 1981, a pág. 172 e seguintes, a descrição detalhada). Atendendo a que vos dais ao cuidado de citar obra recentíssima (Rezola 2006, em pág. 218, “Dias Loucos”), vejo-me forçado a repor a verdade dalguns factos.

(Continua no post seguinte)

publicado por samizdat às 22:58
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...

(Continuação)

Os conspiradores, conselheiros da (contra) revolução, dinamizados por V. Lourenço, pensaram poder resolver a magna questão da correlação de forças dentro do MFA, na última semana de Julho. Em traços gerais a manobra consistia, num primeiro tempo, em fazer aprovar uma moção de desconfiança a V. Gonçalves, dissolução da 5ª Divisão, etc., por uma assembleia-pirata da Arma de Infantaria realizada na noite de 23 em Mafra, na respectiva Escola Prática. Isso foi conseguido com facilidade pelo manipulador V. Lourenço. Num segundo tempo, urgentemente, tratava-se de fazer aprovar pelo conjunto do Exército, essa mesma moção, Para o efeito, é convocada ad-hoc urna assembleia para a tarde de 24, nas instalações do Centro de Sociologia Militar. E foi aí, nessa data e local, testemunhada por dezenas de presentes, que se deu a cena de violência e desespero protagonizada por Vasco Lourenço, que tanto vos fascina. (Levando-vos a cometer o erro crasso de a situar na sequência imediata do 11 Março). Pois a aprovação da moção, que ele pensava serem favas contadas, foi rejeitada pela maioria, após a intervenção da 5ª Divisão no debate. De cabeça perdida, impedido de me agredir por C. Fabião e outros, espumando de raiva, exclama, apontando na direcção de Manuel Clemente: "A ti ainda posso admitir certas coisas, mas àquele gajo (apontando para mim) hei de acabar por lhe dar um tiro" (pág. 175, ib). Pois é, meus caros cronistas de “Dias Loucos”, a loucura esteve onde sempre está: na classe que fica aterrorizada com a simples ideia de uma revolução efectiva, com a perspectiva - por mais absurda que seja - de vir a perder as "propriedades"; mesmo a miserável courela pendurada em qualquer arriba pedregosa. Pareceria que estava gorado o terceiro e conclusivo tempo do golpe institucional, consoante o plano dos conspiradores; ou seja, apresentar na Assembleia do MFA, marcada com antecedência para 25 Julho, a moção de desconfiança do Exército, supostamente aprovada no dia anterior. Ora, a verdade, é que essa assembleia estava a correr bastante mal para os contra-revolucionários. Vasco Gonçalves, a 5ª Divisão e os militares progressistas, obtinham sistemático vencimento para os seus pontos de vista. A derradeira esperança dos conjurados residia no infiltrado que presidia aos trabalhos: o general Costa Gomes. E tinham razão para confiar nessa toupeira astuciosa até ao fim, até ao 25 Novembro. Foi um espectáculo de tragicomédia, de malabarismos, de desonestidade de processos, de tudo se serviu C. Gomes para desmobilizar a assembleia, para safar os seus homens de mão que estavam escondidos ali ao lado, no Ministério dos Negócios Estrangeiros, e se recusaram a comparecer perante a assembleia soberana em cumprimento de moção da 5ª Divisão aprovada nesse sentido. Sim, tem razão V. Lourenço, citado a pág. 218 nos “Dias Loucos”: "Esta foi a mais dramática de todas as assembleia do MFA, ainda pior que a chamada assembleia selvagem do 11 de Março". Pois foi. Ele sabe do que fala. Do abismo, à borda do qual os salvou, in extremis, o camarada anticomunista contra-revolucionário Francisco Costa Gomes. Foi também a última assembleia institucional. O último alento do MFA revolucionário. A história está devidamente contada, a pág. 179 e seguintes no meu livro de 1981. É pena que tenha escapado aos dois conceituados articulistas. Loucos, houve muitos, sem dúvida... o que, fortemente, vos impressionou até ao presente. Traidores, houve ainda mais... mas isso não parece ter-vos impressionado por aí além. Enfim, sensibilidades...

 As Semanas 21 a 26 correspondem ao período de 29 Julho até à primeira semana de Setembro. A meia derrota sofrida na Assembleia de 25 Julho, atrasara os planos conspirativos. Apesar disso, seguros do respaldo do Presidente da República, esporeados pelos governos NATO e respectivos serviços secretos, os conselheiros da revolução, doublés de conjurados inimigos da (mesma) revolução, redobraram de zelo para ultrapassar o percalço... durante todo o mês de Agosto, até ao Pronunciamento de Tancos (sic, “Dias Loucos”) que, sem a menor dúvida, representa o acto final de sabotagem e destruição do MFA.

O chamado Documento dos 9 (ou Doc. Meio Antunes) é um recurso tornado necessário devido ao insucesso do golpe institucional de 25. Foi elaborado à pressão, feita sentir pelos amigos e agentes das democracias ocidentais. V. Lourenço assina sem ler (pág. 238, “Dias Loucos”). O documento é publicado na 3ª edição do Jornal Novo, pela meia-noite de 7 Agosto (Nada mau, naquela terrível ditadura sem liberdade de imprensa e com ameaças de censura militar... assim dizia - e espalhava pelo mundo - o eminente ilusionista político Dr. Soares). Distribuído pelos quartéis clandestinamente, o que leva a 5ª Divisão a exigir acção disciplinar contra os autores. Foram, teoricamente, suspensos de funções; mas o autor destas linhas, esse sim, foi, efectivamente, saneado da 5ª Divisão, a 12 Agosto. Malabarismo típico do mestre da intriga palaciana Costa Gomes. Dá para aplaudir!

 O bando conspirativo militar, com mais esse sinal verde do comandante supremo, prosseguiu à vontade com a tarefa de desmantelar o MFA e preparar o regresso à velha ordem caserneira. Recebeu o auxílio precioso - mas não inesperado - do desgraçado do Otelo. Escolheu a ocasião para atirar um coice de burro a Vasco Gonçalves, na forma de uma Carta-Aberta, tipo punhalada traiçoeira pelas costas. Este homem podia ter morrido como herói, logo a seguir ao 25 d' Abril. Ainda vivo, vai acabar por morrer desprezado por toda a gente, como um folclórico Comandante Zero.

 Pouco demorou para se verificar a extinção da 5ª Divisão, a 27 Agosto, manu militari, por decisão de um virtual CR e ordem directa de Otelo a Jaime Neves (Jaiminho, como ele o chamava, ternurento). A contestação a Eurico Corvacho, no comando da Região Militar Norte, era encorajada pelo bando conspirador sabotando a acção do respectivo QG. Acabou por ser substituído, a 13 Setembro, depois de Tancos, pelo cripto-fascista Pires Veloso. Todas estas peripécias - e outras mais, que configuram a sabotagem do aparelho militar por instigação do bando contra revolucionário - estão relatadas pormenorizadamente no meu livro de 1981. Nada justifica reproduzi-las aqui, em 2005/2006, visto terem já estado ao dispor dos interessados durante 25 anos. Apenas um apontamento pro domo: a 5ª Divisão, apesar de eliminada por via de assalto e destruição, esteve em Tancos, reclamando a sua participação na Assembleia do MFA, por direito individual dos representantes designados. Eis a reacção tolerante/pluralista de S. Exª o Presidente da República e, por inerência, presidindo ao Pronunciamento: "Não autorizo. Se o cor. Varela Gomes tentar desobedecer será imediatamente preso". Uma vistosa guarda pretoriana, à entrada e ao redor do recinto da assembleia, dava consistência à ameaça. Não saí de Tancos sem deixar o meu protesto (escrito), verberando duramente a atitude de responsáveis nacionais ao mais alto nível, entregando-se a intrigas e conspirações, enquanto tropas estrangeiras invadiam territórios militares sob jurisdição portuguesa (Angola e Timor).

Fica a interrogação dirigida, em especial, aos prezados autores de “Dias Loucos”: Por que será que esta assembleia de Tancos, nunca leva a adjectivação de "selvagem"?

No plano estritamente político, os partidos burgueses e os partidecos esquerdalhos maoístas, exultaram com a derrota de V. Gonçalves. Estava aberto o caminho para a "verdadeira revolução", vociferavam os educadores do povo, M. Soares e A. Matos, exigindo a dissolução imediata do MFA, acabar com o CR, militares para os quartéis... já! Os nove do Bando devem ter começado aí a perceber que não passavam de nove fantoches.

No plano da agitação contra-revolucionária e violência anticomunista, o diário de “Dias Loucos” transmite uma panorâmica suficientemente elucidativa: estado de Guerra Civil larvar, com o poder na rua em grande parte do País, Ilhas adjacentes, Angola e Timor; só possível pela passividade, pela cumplicidade, digamos mesmo por instigação oriunda de dentro do próprio Movimento das Forças Armadas. Nova interrogação aqui se levanta: por que será que os "contras" nunca identificam a Guerra Civil que estão ateando e se fingem aterrorizados com semelhante hipótese? Bem, neste caso a explicação pode ser simples; assim a modos do ladrão ou do assassino que, depois de cometer o crime, sai a correr gritando para a multidão aparvalhada: agarra que é bandido.

Tive oportunidade de presenciar, em Agosto de 1975 (dia 16), o ataque organizado pela reacção clerical-fascista, em Alcobaça, contra um comício do PCP, previamente anunciado com a participação de A. Cunhal (pág. 206/7, ib). O pavilhão foi cercado, começou a ser alvejado com pedras e depois com tiros. A segurança do PCP decidiu - e bem - que era preciso sair para o exterior e quebrar o cerco. Ao fim de cerca de três horas e meia de luta e correrias os terroristas estavam desbaratados, o cerco levantado e uns dez prisioneiros atestavam a vitória dos sitiados. Finalmente, passadas quase cinco horas após ter sido pedida protecção às autoridades militares, chegava um pequeno destacamento das Caldas da Rainha. O capitão, ainda antes de ouvir qualquer coisa, já estava a declarar que não podia fazer nada sem ordens superiores. Entregaram-lhe os prisioneiros... que devem ter sido largados, ali ao virar da esquina. Dentro do pavilhão gimnodesportivo de Alcobaça encontrava-se, curiosamente, gente preparada para assistir a um desenlace diametralmente inverso ao ocorrido. Marvine Howe, agente da CIA, colunista do NY Times, nas horas vagas madrinha do PS português e amiga íntima de Mário Soares; um enviado especial do Daily Telegraph; um contingente excepcionalmente numeroso de latagões louros com potentes objectivas a tiracolo etc., etc., ... Engraçado, não é? Como, com um único exemplo, fica a nu toda a trama, toda a mentira, toda a infâmia da campanha montada contra a revolução portuguesa... e como teria sido simples correr com a canalha mercenária que andava mascarada de povo por conta dos caciques locais... se menos traição houvera e mais audácia tivesse havido.

Na Semana 26 há noticia do "Comité para a Defesa da Democracia em Portugal" Reúne-se em Londres, muito solícito pela saúde da democracia portuguesa - após 50 anos de encantamento com a ditadura fascista de Salazar/Caetano - a nata dos dirigentes políticos, procuradores do capitalismo europeu: H. Wilson, O. Palme, F. Miterrand, o "nosso socialista" M. Soares e Willy Brandt, eleito presidente de um sub-comité da Solidariedade. (O Tal Canal por onde escorria o cacau para a contra revolução, e cujos cheques mantinham alta a fé democrática dos nossos socialistas, campeões da liberdade pluralista). Perguntando novamente: mas, se isto não é ingerência estrangeira, então como se chamará?

Período de (10) Semanas, entre Tancos (2/5 Set.) e o Golpe do 25 de Novembro: Depois da encenação/golpaça de Tancos pareceria que a questão do poder político estava resolvida. No plano militar, o "gonçalvismo" (a esquerda militar revolucionária), ficara formalmente liquidada; no plano político/partidário, os partidos burgueses contra-revolucionários sentavam-se como vencedores, à mesa do VI Governo (Pinheiro de Azevedo). No entanto, o facto é que não se verificou uma imediata "exploração do sucesso", conforme recomendam os manuais de estratégia. Por um conjunto de razões, onde, certamente, avultariam as contradições entre os grupos conjurados; em especial, no grupo dos conspiradores militares (Bando dos 9 e adesivos) que depressa se descobriram reféns das alianças escabrosas que tinham estabelecido com os extremistas da direita e do esquerdismo. Com efeito, as forças populares pareciam dominar a "Comuna de Lisboa": além da FUR, principalmente os SUV (criados logo a seguir a Tancos), aterrorizavam a burguesia militar e civil; e não apenas cá dentro, em Portugal. Para mais atrapalhar, tinham elegido o Copcon como força de choque para implantar o Poder Popular; e Otelo (embora à revelia do próprio) como chefe e líder dessa nova fase do revolucionismo popular. Ora os MFA golpistas contavam com a fidelidade do comandante do Copcon! A verdade é que foram precisos quase três meses para resolver a crise das contradições conspirativas e vencer os últimos redutos da resistência antigolpista. Nessa derradeira luta, também participou a "extinta" 5ª Divisão. Um documento importante foi difundido em 27 Outubro 1975: "Carta Aberta ao Gen. Costa Gomes", no qual se denunciava "a alta responsabilidade do gen. Costa Gomes na crise político-militar do Verão de 75, que preparava o regresso da burguesia ao poder". Foram, na altura, distribuídos milhares de exemplares desse folheto de 24 páginas, cujo fac-simile integra o meu livro de 1981 já citado. (É pena dele não terem tomado conhecimento os revisitadores do PREC). Nesse mesmo intervalo de tempo vários comunicados das Comissões de Vigilância Revolucionária das Forças Armadas foram iniciativa da "clandestina" 5ª Divisão. É um mérito que reivindicamos, ter assim contribuído para atemorizar a facção militar vencedora de Tancos, até para além da data prevista para a independência de Angola.

(Abro parêntesis para estranhar uma insólita reportagem fotográfica que ocupa duas inteiras páginas de “Dias Loucos” (328-9), mostrando V. Gonçalves e família na praia do Guincho, em fins de Setembro 75, já depois de ter abandonado o governo. De informação não se trata, obviamente. Será pretensa contra-informação? Com validade até 2005/06!? Ele há coisas que nem o diabo entende!).

Neste período - nos últimos 80 Dias Loucos do PREC - foi indiscutível o clima de pré- guerra civil que se viveu em Portugal. Eram diárias as provocações da direita e extrema-direita, mais comparsas ocasionais, loucos, muito loucos, ou fingindo que eram loucos. Terrorismo, bombismo, mortos e feridos, vandalismo e incêndios, deserção em massa do oficialato aviador, complôs independentistas, preparativos de intervenção estrangeira, etc... não faltam notícias alarmantes nas páginas finais de “Dias Loucos”. Na Madeira, por exemplo (pág. 337), no dia 8 de Outubro já eram readmitidos os fascistas saneados pós 25 de Abril e expulsos da ilha os comunistas ou, simplesmente, disso conotados. A esquerda populista convoca a "maior manifestação operária de sempre" para S. Bento - a 13 Novembro - põe cerco à  Assembleia sem obstrução policial... e dispersa, após negociações e promessas, aos gritos de Vitória, Vitória. Restavam os militares, como derradeira esperança revolucionária, isolados num último reduto de duvidosa consistência (Copcon), num papel que, em elementar lógica de luta de classes, não lhes incumbe. O desfecho final, duas semanas depois, tal como veio a acontecer, estava à vista.

Timor era invadido pela Indonésia em 17 Outubro. Adelino Gomes encontrava-se lá na altura e pode testemunhar a (in)disposição combativa do governador, outro militar da confiança pessoal de C. Gomes, cooptado pelo MFA.

Em Angola, o exército português só se manifestava na caça aos comunistas do MPLA (J. Neves dixit), enquanto a invasão progredia pelo norte e sul. Chega-se a 11 Novembro, dia da independência - com a FNLA no Kifandongo e os sul africanos no Cambanbe - o MPLA proclama o nascimento do novo País. A representação oficial portuguesa (VI Governo do MFA, P. Azevedo) não esteve presente. No avião que a transportava, sobrevoando Luanda, pareceu-lhe (ou melhor, quis parecer-lhe) que a cidade estava sendo conquistada por zairotas e sul-africanos. Resolveu dar meia volta. Novamente, os entreguistas moderados que já tinham apostado na intervenção imperialista em Timor, estavam fazendo o jogo dos EUA. Efectivamente, a independência de Angola só foi reconhecida por Portugal meses depois, desvendando um dos principais objectivos da golpaça de Tancos.

A jornada do 25 de Novembro está contada em “Dias Loucos”, segundo a versão oficial, abstendo-se os autores de considerações analíticas. Por meu lado, já me pronunciei exaustivamente a esse respeito em livros e artigos. Inclusivé no Expresso/rev. 25 Nov., 2000.

Podíamos acabar a presente recensão na pág. 398 do vosso álbum de 2005/06. Uma grande fotografia de Duran Clemente aos microfones da RTP, que tinha ocupado em nome da Revolução... cuja última imagem, a que ficou para a História, a que ficará para Sempre, foi a de um rosto da 5ª Divisão. Glória aos militares revolucionários que não traíram a confiança do Povo, que até ao último minuto ocuparam o seu posto na primeira linha de combate pela libertação de Portugal de séculos de obscurantismo; de submissão a regimes e governos que só pretendiam - como pretendem - perpetuar a desigualdade social e a exploração das massas trabalhadoras. 

Podiam, por seu lado, os autores do álbum em recensão, tê-lo acabado com outra imagem forte: a do vencedor oficial do 25 Novembro, R. Eanes, de patilhas e óculos escuros (à Pinochet), tendo em fundo as ruas desertas de Lisboa, habitadas apenas pelo medo, frustração e luto. Seria a imagem desoladora do estado de sítio, contrastando brutalmente com a alegria e o entusiasmo popular no 25 de Abril de 1974. Ora, como perfeitamente sabem os dois veteranos jornalistas, uma imagem vale bem mil palavras... Seria a mais verdadeira e reveladora crítica do 25 Novembro. Podeis crer.

Observações Finais – Após termos folheado, sublinhado e anotado com razoável atenção o volume “Os Dias Loucos do PREC”, impõem-se algumas observações genéricas, digamos, de ordem propedêutica.

Desde logo, uma evidência óbvia que não deve ser escamoteada: a obra é, por definição, um trabalho de jornalismo, efectuado por profissionais jornalistas. Ou seja, não se trata de um estudo académico, de responsabilidade histórica, ou historiográfica. O seu estatuto é, portanto, menor. Em teoria, o jornalismo consiste numa mensagem descritiva. O foto-jornalismo traduz esse conceito em estado puro. A foto fala por si só. Olhando para ela, o observador tira as suas conclusões... se nisso estiver interessado, ou para tanto tiver capacidade. O mesmo se aplica ao leitor da notícia escrita. Ele é o julgador; não compete ao jornalista esse papel. Em rigor teórico, o jornalista não emite opinião, não toma partido. A notícia é neutral. Factual.

Ora, na realidade, todos nós sabemos que as coisas humanas... as ideias, as atitudes, as opções sentimentais ou ideológicas, os impulsos do carácter e da natureza pessoal, etc., ... contêm uma inevitável carga subjectiva. De maior ou menor peso, consoante o domínio da mente sobre o irracional; consoante a capacidade de resistir aos valores e constrangimentos mundanos. É a famosa "circunstância", que a sociedade cria... e que a sociedade (classe) dominante procura converter em lei de dominação. O resultado final acaba, com muita (demasiada) frequência, afectado por essa circunstância social.

Uma segunda observação - de igual aparência óbvia - consiste em reconhecer que o trabalho relativo a”Os Dias Loucos do PREC”, realizado em 2005/2006, trinta anos sobre os acontecimentos, obedeceu a um determinado (!?) propósito retrospectivo. Aliás, são os dois promotores da publicação (Público e Expresso) que, em nota de apresentação do volume confessam ter sido norteados por grandes ambições. Dizem a abrir, Henrique Monteiro (director do Expresso) e J. M. Fernandes (idem, Público) pretender cumprir "um desígnio próprio dos jornais de referência: ajudar à fixação da história... trazer a lume novos dados... nova e interessante informação... acrescentar... etc". Ora semelhante "carta de intenções", quando afirma a desmedida ambição de fixar a história, ultrapassa em muito o estatuto jornalístico (Atitude um tanto excessiva, meus caros. Não deve o sapateiro ir além da chinela.) Acresce que os dois ilustres directores denunciam qual é o seu propósito retrospectivo, declarando ab initio: "Portugal esteve à beira da guerra civil entre a liberdade e um novo totalitarismo". Fica determinado todo um programa de análise; por outras palavras... o gato escondido ficou com rabo de fora. E lá se vai a desapaixonada objectividade da obra jornalística! Tenham paciência, mas não resisto; sendo do conhecimento geral a vossa empenhada militância juvenil maoísta (1975), será que ainda o totalitarismo Pol Pot, vos atormenta o sono e a consciência? Não quero acreditar! No presente radioso do neo-liberalismo americano, acomodados às delícias do capitalismo consumista, o propósito dos directores/promotores de “Os Dias Loucos” teria de ser - decerto que foi - politicamente correcto: isto é, tentar fixar para a história a versão dos contra-revolucionários, vencedores do 25 Novembro 1975. E viva Mao e a Revolução Cultural, que tão bons dividendos pagou - e vai pagando - aos seus arrependidos.

No entanto, na Introdução assinada por Adelino Gomes e J. P. Castanheira, ambos declaram explicitamente: "Isto não é pois um livro de história. Antes pretende ser um mergulho na história de Portugal contada no presente... uma revisitação". Embora admitindo a existência de duas abordagens diferenciadas: no Público, mais noticiosa; no Expresso, mais interpretativa, o facto é que a tese do "mergulho no passado" fica bastante prejudicada, quando simultaneamente se reconhece ter havido alterações nos artigos publicados em 2005, com recurso a testemunhos posteriores e mesmo entrevistas a protagonistas. Na realidade, parece confirmar-se que o produto final foi um digesto de demorada reconstituição, com um propósito deliberado. Creio que essa digestão não foi inteiramente feliz. Em particular, em relação a todos os episódios e acontecimentos em que fui protagonista ou testemunha presencial, conforme atrás foram assinalados. São mencionadas algumas influências recentes, com relevo para a académica M.

Inácia Rezola, cuja tese de doutoramento de 2004, aparece abundantemente citada por J. P. Castanheira. Em próxima oportunidade, me ocuparei das teses defendidas por essa investigadora na obra lançada no mercado sob o título de "Os Militares na Revolução de Abril".

Dentro do escopo que mais cabe a uma obra de carácter jornalístico, não me custa realçar - e já o fiz noutra ocasião - o mérito e a utilidade da recolha do enorme volume de material informativo reunido pelos autores em “Os Dias Loucos do PREC”. Não será o menor dos méritos terem, destarte, retirado argumentos aos eternos queixosos (e a muitos farsantes) que sempre justificam a sua pretensa ignorância sobre a Revolução de 1974-75, pela inexistência ou escassez de informação. Pois aí têm, outro extenso repositório. Haja capacidade de cada um, em desbravar o terreno e extrair conclusões... isentas de ideias preconceituadas e dos efeitos corrosivos da má consciência.

A finalizar, merece destaque uma observação metodológica dos autores, incluída na comum Introdução: Ninguém pode garantir que uma ditadura esperava os portugueses se o 25 Novembro não tivesse travado a cavalgada revolucionária. Pois não. Assim o bom senso analítico corrige os postulados fanáticos dos cristãos-novos do capitalismo neo-liberal. Além disso, apraz ver considerado como um dado adquirido o facto de caber ao 25 de Novembro a responsabilidade histórica de ter travado a Revolução Portuguesa.

Por outro lado, poderia ter sido omitida a frase de OteIo, em 1999: "O 25 Novembro retomou a pureza do espírito do 25 de Abril". Não havia necessidade. Haja comiseração.

***

O lançamento no mercado de “Os Dias Loucos” teve lugar nas instalações do semanário Expresso, em cerimónia formal realizada a 18 Abril 06, perante algumas dezenas de convidados. Teria sido um acontecimento banal de marketing livreiro, não fora o significativo elenco de personalidades que se deram ao cuidado de se deslocarem a Carnaxide. Nas primeiras filas (foto Público, ed. 19 Abril), dois ex-presidentes, M. Soares e R. Eanes; os líderes dos partidos políticos burgueses, incluindo J. Sócrates; o presidente da Assembleia, J. Gama e o da Câmara de Lisboa. No aglomerado de militares reformados (excluindo uma meia dúzia fora do baralho) estavam todos os notáveis novembristas. Mais pessoal da área do PS e ex-maoístas.

Ora não há dúvida que os aplausos de semelhante plateia representaram aprovação, digamos mesmo apadrinhamento, da obra apresentada e de seus autores... que sobre ela falaram na ocasião. Poderá acrescentar-se - numa certa perspectiva - que a frente anticomunista que liquidou a Revolução Portuguesa em 25 Novembro 1975, aproveitou a oportunidade, três décadas passadas, para afirmar que continua pronta para nova cruzada contra-revolucionária, que lhe garanta os privilégios e os direitos, entretanto mal adquiridos.

Mas houve um pormenor que ilumina toda a cena. Refiro-me à personagem que foi escolhida para fazer a apresentação do livro. Martha La Cal, correspondente da revista americana Time, era, já antes de 1974, apontada nos meios da oposição antifascista, como agente da ClA. No entanto, julgo que nunca ninguém lhe viu o cartão profissional. Nem, na verdade, a senhora teria categoria para tanto. Quanto muito foi familiar dessa Santa Casa... no sentido dado aos informadores do Santo Oficio, nos bons e velhos tempos da Inquisição e da olvidada PIDE. Mas da fama não se livrou. Andam por aí ainda muitos jornalistas que frequentaram a sua casa no Dafundo, onde decerto encontraram outros correspondentes de imprensa americana, também alegadamente pertencentes à Companhia. Lembram-se da Marvine Howe? Coitada, já faleceu. Tão patriota, a inocente senhora! Quase tanto como o Carlucci. Um importante embaixador, agente da ClA? Que calúnia! (Só mesmo de comunas).

Quem se teria lembrado de Martha La Cal (então não é que parece mesmo nome de romance de espionagem?!) para apresentadora de “Os Dias Loucos”? A resposta plausível é a de ter sido a mesma pessoa que convidou o Carlucci para coroar Mário Soares rei da festa Globos de Ouro da SlC, em 1997, no Coliseu dos Recreios. Alegadamente, o patrão da SIC/Expresso, Dr. Pinto Balsemão, ex-primeiro ministro do Portugal Democrático. Claro que houve, nesta cerimónia de 2006, uma real diminuição de estatuto, relativamente à apoteose do Coliseu. Carlucci foi o chefe da orquestra golpista do 25 de Novembro; dona Marta, mesmo agora 30 anos por cima, deve ser apenas 2ª violinista aposentada. Enfim! Foi o que se pôde arranjar, em época de crise, Portugal relegado para a categoria mais baixa do campeonato mundial.

Para rematar, confesso, que esta "cereja em cima do bolo" me faz arrepender de algum benefício de dúvida que prodigalizei ao longo da recensão de “Os Dias Loucos”. A versão sobre o PREC aí contida, ficou definitivamente capturada pela cavernícola reacção portuguesa, contra-revolucionária, miguelista, caceteira, clerical. (Finalmente: o regresso ao séc. XIX, que tanto fascina a elite prá frentex do simplex das tecnologias internéticas). Lamento o facto, porque isso vai afectar a credibilidade do trabalho, e o prestígio dos seus autores. É, também, caso para dizer:

Não havia necessidade.

Lisboa, Agosto de 2006

Fez) J. Varela Gomes

publicado por samizdat às 22:45
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