Domingo, 24 de Fevereiro de 2008

Purga em Angola

Por João Varela Gomes

 

Com a chancela da ASA Editores foi lançado neste mês (Outubro 2007) o livro com o título em epígrafe, da autoria de Dalila e Álvaro Mateus com a declarada intenção de recordar e explicar o que aconteceu em Angola nos anos de 1977-1979;em particular, os acontecimentos de 27 Maio de1977, suas consequências imediatas e a prazo, com um saldo aterrador estimado em cerca de 30 mil mortos, expeditamente eliminados pelo MPLA de Agostinho Neto/Lúcio Lara.

 

O casal da autora e co-autor têm ambos currículo de empenhamento militante antifascista e anticolonialista datando do regime fascista. Dalila Mateus é doutorada em História Contemporânea, investigadora do ISCTE e tem publicado obra muito valiosa sobre temas coloniais: "Luta pela Independência" (1999); "PIDE/DGS na Guerra Colonial"(2004); "Memórias do Colonialismo e da Guerra (2006). A obra agora publicada é produto de uma enorme massa de trabalho de investigação, cujo volume se pode avaliar pelo índice das Fontes: 28 entrevistas testemunhais, algumas com mais de 40 páginas (des)gravadas; 49 processos dos arquivos da PIDE, consultados na Torre do Tombo; mais 16 dos arquivos do Ministério Negócios Estrangeiros; várias colecções de jornais e documentos; etc..

 

O escriba destas linhas (um dos 28 entrevistados) encontrava-se em Angola no 27/Maio/77 na situação de exilado político, devidamente "expurgado" do Exército Português após o golpe contra-revolucionário de 25 Novembro 75. Desertor com mandado de captura efectivo, arguido em Portugal de "assalto ao poder"; idem, em Angola, dois anos e meio depois. (Terei que conformar-me com esse extraordinário reconhecimento da minha perigosidade. Aliás, fica-me bem na biografia).

 

Os primeiros Parágrafos (capítulos) do livro que estamos comentando ocupam-se em "reconstruir a histórica do MPLA" (expressão usada na contra-capa da edição), desde o seu nascimento até ao 27 Maio; incluindo a sua participação nos 13 anos da Guerra/Guerrilha Anti-Colonial. Trata-se de uma resenha de notável objectividade. Muitos casos e personagens controversos, normalmente avaliados de forma apaixonada e facciosa, ficam situados de modo a permitir um melhor entendimento da crise trágica do 27 Maio e a sua herança na Angola do presente.

 

Os dois MPLA, é uma tese - original, segundo penso - que merece a especial atenção dos autores e deve merecer a dos leitores. O 2° MPLA foi aquele que sobreviveu no terreno, combatendo, até ao fim da guerra: o da 1ª Região Militar (Norte) onde se distinguia Nito Alves. Deixado à sua sorte, sem ligação nem apoio da direcção do partido que atravessava um dos piores períodos de desorientação e derrotismo (houve outros), a retaguarda de apoio de Nito Alves e do remanescente MPLA combatente, era - por inverosímil que pareça- a cidade de Luanda e a sua cintura de musseques. Essa situação ajuda a explicar a popularidade do MPLA em Luanda - e a do próprio Nito Alves. Explicação inexplicável para o soba sentado Agostinho Neto, político de diplomacias e intrigas, que ficou estarrecido de surpresa com a multidão que o aclamava ao aterrar em Luanda, de regresso a Angola depois do 25 d' Abril em Portugal. Quando os do 1° MPLA - os "guerrilheiros do exterior", A. Neto, L. Lara, Iko Carreira, etc. - se aperceberam da origem do entusiasmo popular, logo ficaram marcados como inimigos a abater N. Alves, os musseques de Luanda, as organizações populares; e tudo e todos aqueles que suspeitassem capazes de pôr em causa o poder total por que ansiava uma direcção de exílio, cujo projecto político pouco mais era que isso mesmo: conquistar o poder e conservá-lo a qualquer preço.

 

Consta na 4ª subdivisão do texto, um relato circunstanciado da jornada do 27 Maio, em Luanda. Alguns pontos essenciais são confirmados: em primeiro lugar, que foi em absoluto determinante para o desfecho do confronto, a intervenção do exército expedicionário cubano, obedecendo a ordens directas de Fidel Castro, emanadas de Havana após apelo telefónico desesperado de Agostinho Neto às 10 horas da manhã. Em contrapartida, não foi possível estabelecer com rigor - mesmo 30 anos decorridos - quais os autores e o propósito último pretendido com o assassinato dos 8 dirigentes e quadros do MPLA, cujos cadáveres carbonizados foram encontrados no dia seguinte (28) dentro de uma ambulância abandonada. O facto é que essa chacina de contornos misteriosos, serviu a A. Neto para acender o rastilho para caçada "sem contemplações" de nitistas/fraccionistas, ou como tal apontados a dedo: "Não vamos perder tempo com julgamentos". Começava assim, na noite de 27/28, a terrível matança indiscriminada de cerca de 30 mil angolanos, que se prolongaria até ao ano da morte de A Neto, em 1979.

 

Na investigação de Dalila Mateus aparece documentado, com imagens recolhidas na época pela televisão angolana, um importante aspecto da revolta popular: ou seja, o facto de ninguém ir armado na manifestação inicial que foi ocupar a Rádio Nacional. "Insurreição Desarmada de Massas", assim é chamada no livro que estamos comentando.

 

No penúltimo e antepenúltimo parágrafos da obra (6° e 7°) os autores analisam várias hipóteses e versões sobre a natureza e as responsabilidades do 27 Maio em Angola. Para no fim (nº 8) concluírem, com claro desalento :"Os vencedores do 27 Maio parece terem conseguido o milagre de fazer desaparecer os que sonhavam com um futuro melhor, mais igualitário e fraterno para os Angolanos. Conquistado o poder e seus benefícios, como que realizaram os seus sonhos libertadores". (Lá como cá, mais fados há).

 

O escriba destas linhas - consoante já foi dito - estava em Angola por ocasião do 27 Maio 1977. Precisamente, desde fins de Janeiro 1976. O clima de luta pelo poder (luta de classes) que ali se verificava não nos iludia. Por uma razão simples: era a reprodução daquele que tínhamos vivido em Portugal no decurso de 1975. Nem queríamos acreditar; mas depressa essa evidência se impôs. (Refiro-me ao grupo de 7 militares "arguidos" no 25 Novembro, aos quais o governo angolano concedera estatuto de refugiados políticos).

 

Pessoalmente, desde o momento da chegada, vi ignoradas todas as propostas de colaboração que sugeri. Mais inconfundível ainda: sem qualquer razão aparente, Lúcio Lara (nº2 do aparelho partidário) sempre acompanhado do seu fiel cão-de-fila, o intelectual Pepetela, virava-me ostensivamente as costas mal me avistava. Abreviando: o MPLA no governo, possuía uma facção "moderada" (tal como o MFA de 74/75), antipopular e anticomunista, antisoviética e anticubana, aliada a um esquerdismo maoísta (MRPP) de suspeita ascendência pidesca. Não foi difícil reconhecer, passo a passo, o desenvolvimento da manobra da sabotagem contra-revolucionária … é esta a designação exacta, lá como cá.

 

Tomava-se evidente a semelhança entre a táctica de provocação contra-revolucionária utilizada (com êxito) pelo PS de Mário Soares em Portugal, e as múltiplas provocações, por iniciativa da ala moderada do MPLA, de que eram alvo as organizações populares de bairro e de massas, os departamentos militares e policiais, etc., acusados de simpatias comunistas ou nitistas. Existiam - e eram notórias - uma grande afinidade ideológica e numerosas ligações pessoais entre dirigentes da facção sabotadora do MPLA e os socialistas da abundância de Mário Soares … paradoxalmente, o homem dos americanos, mais perto da FNLA de H. Roberto e da Unita de Savimbi que do MPLA de Neto/Lara. Recordarei apenas David Bernardino, amigo, médico e conselheiro pessoal do Presidente Neto, a quem ouvi, em diversas ocasiões, louvar a receita do socialismo na gaveta e do desvio pró-americano de M. Soares. Era um idealista honesto, embora desorientado, não alinhando na marginalização dos exilados portugueses, nem tendo participado na sangrenta perseguição desencadeada pelo 27 Maio. Por trágica ironia acabou assassinado na sua cidade natal do Huambo ( creio que em 1992) a mando do herói democrático da família Soares, o também protegido do imperialismo americano, Jonas Savimbi.

Os contra revolucionários angolanos e portugueses (irmãos espirituais) logo se precipitaram, nos dias imediatos ao 27 Maio, em apontar os militares "gonçalvistas" do MFA exilados em Angola, como implicados no golpe, de mistura com o PCP, a União Soviética, etc. Sobre Cuba e os cubanos que lhes tinham salvado a pele, nem uma palavra se ouviu na circunstância. Aliás, não tardou a voltarem a ser comunistas excomungados. Dalila Mateus admira-se, a págs 180 do seu livro, da moderação da imprensa portuguesa, "evitando qualquer crítica ao regime do MPLA". Pois como não? Tratava-se de eliminar comunistas, ou como tal apontados; nisso estavam plenamente de acordo, os vencedores do 25 Novembro em Portugal e os do 27 Maio em Angola. Os jornalistas enviados a Angola da imprensa PS (Luta e Jornal) e o entrevistado Ferreira Fernandes, estão em condições de explicar a "moderação" oficial do governo Mário Soares, em 1977.

 

Nesta linha de paralelismo entre a contra revolução angolana e a portuguesa muito caminho haveria a percorrer. Só mais uma sugestão: a (paralela) traição dos intelectuais. Em Angola, sentados na mesa da inquisição, interrogando e condenando comunistas ou dissidentes do poder vencedor; em Portugal, afiando o gume no Jornal Novo e afins pasquins, inscritos para emprego na antecipada caçada aos heréticos revolucionários. Todos - cá e lá - democratas de fina água e acomodação sem limites.

A investigação feita a partir da "Purga em Angola/O 27 Maio 1977", por Dalila/Álvaro Mateus abre caminho para importantes novas linhas de compreensão e reflexão da história pós-colonial em Angola; mas também em Portugal. Seria esta a altura de entoar o tradicional canto da boa esperança: Oxalá os estudiosos as gerações vindouras .aproveitem... desenvolvam...etc, etc.. Todavia, neste momento da vida - minha e na do mundo dos humanos - creio que ter êxito em derrubar tabus politicamente correctos, é mais difícil hoje, do que vencer interditos eclesiásticos na Idade Média (Dark Ages, melhor - em inglês). O silêncio dos claustros, está agora substituído pelo alheamento dos meios de comunicação.

 

Resta o dever cumprido. Com labor e competência E o quantum de coragem necessário para tomar partido em reino de pensamento único.

 

Para terminar, um pedido aos autores. Que me permitam juntar aos 4 Heróis de Angola homenageados no Capítulo I do vosso livro - Zé Van Dunen, Nito Alves, Juca Valentim, "Monstro Imortal" - outros dois. Zita Valles e Virinha. Mulheres, pois então! Zita, lusa, indo, africana; comunista, patriota, universal; juventude:; na verdade da entrega total. Virinha, comandante do Batalhão Feminino, no seu tanque, de cabeça erguida, a caminho da morte; por ela: e pelas suas companheiras assassinadas uma a uma.

 

Lisboa, 23 Outubro, 2007-10-23

publicado por samizdat às 18:25
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Outubro 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
31


.posts recentes

. Descomemorando o 25 de No...

. No aniversário da morte d...

. Da Tirania Neo-Liberal ...

. ESCUTA, Eleitor Anónimo: ...

. NO 40º ANIVERSÁRIO - Sob ...

. A revolução portuguesa e ...

. CAUSA: 25 Novembro 1975; ...

. Beja 1962 - Evocação de u...

. UMA HISTÓRIA CONTEMPORÂ...

. UMA HISTÓRIA CONTEMPORÂ...

.arquivos

. Outubro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Março 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Dezembro 2011

. Fevereiro 2010

. Dezembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Abril 2009

. Janeiro 2009

. Novembro 2008

. Setembro 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Abril 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

blogs SAPO

.subscrever feeds