Domingo, 29 de Junho de 2008

Eudardo Lourenço - Do intelectual heterodoxo pouco restou

Eduardo Lourenço é um intelectual de celebrados méritos, nomeadamente no País Português. Muito presente no “espaço público”, no circuito dos prémios e homenagens, ouvido com frequência pelos media, com aceitação generalizada nos meios académicos, alvo de estudos, teses e mestrados. Um intelectual de - e com - sucesso.
Trata-se de uma situação de facto, inegável. Vamos considerá-la, desde já, como traduzindo um juízo de valor positivo, cuja abrangência atravessará vários extractos e classes da sociedade. Por outras palavras, a obra de E. Lourenço colhe um amplo consenso que ultrapassa os círculos especializados do pensamento filosófico, literário, ou sociológico. Está assim convertido em figura pública, sendo frequentemente instado a dar a sua opinião sobre os mais variados assuntos; não apenas nos meios de comunicação social, mas também em conferências, congressos, fóruns, etc. Um intelectual no sistema. O que é diferente - desejo frisá-lo - de um intelectual do sistema.
Esse lugar, que ocupa com relevo, converte E. Lourenço num caso estudo de a problemática de “O Intelectual perante a Política”. Tema que, hoje em dia, no dealbar do séc. XXI, em plena globalização imperialista/capitalista, readquiriu estatuto de primeira instância.
De forma consensual, considera-se a obra de E. Lourenço distribuída por três núcleos essenciais: Filosofia - Literatura - Política. Também é incondicional, entre os especialistas lourencianos, admitir que esses três núcleos básicos se entrelaçam e se interdeterminam. Consequência inevitável num “penseur d’occasion” (citado em M. M. Cruzeiro); outros há que o olham como a consciência crítica da personalidade (ou alma) portuguesa; e há quem realce as suas deambulações pelos domínios da mitologia, esse território indefinido entre o cognitivo e o imaginário. Literato sem dúvida, na medida em que nos livros está a sua principal fonte de sabedoria... e é pela palavra escrita que melhor transmite o seu pensamento No entanto, a “classificação” que melhor abrange toda a sua multifacetada curiosidade intelectual será a de ensaísta; ou, numa alternativa de uso habitual, a de filósofo da cultura.
No todo, são 60 anos de labor intelectual intenso e ininterrupto, a que correspondem 39 livros publicados, mais 5 em co-autoria, e 1481 referências/entradas constantes na exaustiva “Bibliografia Geral” elaborada por Maria Manuel Batista (MMB), inserta no seu estudo “Eduardo Lourenço - A paixão de compreender”, ed. ASA, Jan. 2003 (570 pág.) (catalogação essa que será utilizada como guia/referência ao longo de todo o presente texto).
Ora bem. Dentro do objectivo parcial traçado para o presente texto -”O Intelectual perante a Política” - a abordagem da obra de E. Lourenço que se apresenta óbvia será, primacialmente feita através do núcleo de ensaios e comentários sobre a política portuguesa. Conjunto relativamente volumoso que poderíamos reduzir a uma “leitura da história e da política nacional, segundo o pensador/filósofo E. Lourenço”; ou ainda, cingindo mais de perto, sobre a prestação do intelectual engagé nalutapolíticaemPortugal, antesedepoisdoderrubamento do fascismo a 25de Abril1974.
Nesse sentido, pretendemos tornar claro que os núcleos filosófico/literário da obra de E. Lourenço não serão objecto de atenção privilegiada. Com efeito, o autor destas linhas não se considera suficientemente habilitado nessas áreas, para delas extrair conclusões relevantes. Todavia, também se torna evidente que os campos da história, da política, da cultura e sua filosofia estão de tal modo imbricados, que resulta impossível delimitar-lhes fronteiras impermeáveis. Isso mesmo se verifica na extensíssima bibliografia de E. Lourenço, em particular em muitos dos ensaios, entrevistas et varia.
Posto isto, deveríamos, em rigor, começar por rever as primeiras reflexões (documentadas) onde se manifesta o interesse do filósofo ensaísta pelos avatares da política nacional. São referentes à crise de 1958, que ficou conhecida popularmente por “As eleições do gen. Delgado”.
No entanto, considero indispensável procurar estabelecer a localização político/ideológica de E. Lourenço naquela data: em 1958 completava 35 anos de idade, era já um académico com provas dadas. Exilado voluntário em França, E. Lourenço pertencia à grande massa da intelectualidade portuguesa da época, em oposição contra o regime fascista salazarento. Na verdade, era raro encontrar um homem/mulher de cultura que se confessasse partidário do chamado Estado Novo. Quando tal sucedia, eram votados ao desprezo pelos colegas de grémio ou ofício. Naturalmente eram diversos os graus de militância e empenhamento na luta política... desde intelectuais comunistas na clandestinidade, até libertários de café sem consequências. Mas o clima geral, o universo cultural português em 1958, era claramente antifascista (Ou antisalazarista, antiditatorial... ao gosto do cliente democrático actual). E. Lourenço assumia, na altura, taxativamente, posição idêntica à da grande maioria da “inteligência portuguesa”.
A sua trajectória biográfica (também ) é comum. Nascido em aldeia do distrito da Guarda, filho de família numerosa de modestas posses, meio rural religioso, vem cursar o liceu (o actual secundário) para Lisboa, no Colégio Militar. (O pai era militar, provavelmente antigo combatente na 1ª Guerra Mundial). Foi aluno de aproveitamento regular; mas o trauma da transplantação de um meio familiar rural para um internamento escolar militarizado deve ter sido muito profundo; a avaliar pela ausência de qualquer menção a esse período da sua vida, incluindo nas biografias autorizadas. Frequentou o ensino superior em Coimbra onde, em 1946, completou a licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas. Fica cooptado como assistente da cadeira de Filosofia entre 1947 e 1953. Durante os cerca de 13 anos em que permaneceu ligado à Universidade de Coimbra, Ed. Lourenço contactou de perto com as correntes artísticas de inspiração marxista/comunista; nomeadamente, o neo-realismo e seus expoentes: A. Feijó, J. Namorado, Carlos de Oliveira, Cochofel, Sidónio Muralha, M. Dionísio e outros. Escreveu na revista Vértice, em 45-46; para a Seara Nova, sob pseudónimo, em 47-48.
E publicou o primeiro livro Heterodoxia I, em 1949 - Coimbra Editora. Um conjunto de textos onde marcava distâncias relativamente às duas ortodoxias (daí o título escolhido), que considerava dominantes, na altura: a fascista do Estado Novo; e a marxista na Resistência e Oposição. Segundo Nelson de Matos (em Cartografia Imaginária, coord. M. M. Batista - 2004) o livro foi considerado uma (tentativa de) cisão no movimento neo-realista; e, por esse facto, teria sido ignorado. O afastamento de E. Lourenço para o estrangeiro reforçou o silêncio sobre o livro e seu autor. Na decisão de exílio em França, razões de natureza política devem ter pesado: reinava grande agitação no meio académico desde 1945, na sequência da vitória das democracias ocidentais sobre o nazi-fascismo, com prisões de dirigentes associativos (S. Zenha e outros), incremento da vigilância e repressão policial, etc.; E. Lourenço corria sério risco de também vir a ser envolvido na perseguição aos “ subversivos”; nessas circunstâncias, a carreira de assistente universitário contratado, não se afigurava com muito futuro. Como dezenas (centenas) de milhares de compatriotas, E. Lourenço abandonou o País para procurar (como “eles” - os mesmos - continuam a entoar, 50 anos passados) “uma vida melhor”.
No entanto, E. Lourenço manteve-se sempre ligado à cultura e à inteligência portuguesa: colaborando, por exemplo, na Revista de Filosofia (1954); nas cinco publicações da série Unicórnio (de 51 a 56); no Suplemento Arte e Cultura do Comércio do Porto, até 1959. Praticamente todas essas participações - e várias outras avulsas - versaram temas de arte, literatura, crítica e debate de ideias, filosofia e filósofos. Pouco, ou quase nada, sobre política, sociologia ou história.
Há quem diga - Miguel Real, ibidem -que o texto de 1958, intitulado “O Exército, ou a Cortina da Ordem” constitui o primeiro ensaio escrito de E. Lourenço da sua directa e frontal oposição ao regime político do Estado Novo. Sendo assim, o interesse concreto de E. Lourenço pela problemática da acção política em Portugal foi despertado pela grande crise e agitação popular de 1958, relacionada com as eleições presidenciais em que participou o gen. H. Delgado, como candidato comum da Oposição Democrática. Todavia, o texto acima citado só foi conhecido (publicado) após o 25 de Abril, constituindo a I Parte dum volume editado pela Arcádia em Novembro de 1975, que levou o título de “Os Militares e o Poder”. A II Parte do livro em questão reúne 6 textos, mas todos escritos e publicados na imprensa em 1975; portanto fora da sequência cronológica que estamos seguindo.
Quanto à I Parte, de 1958: Trata-se de considerações, relativamente superficiais, sobre a incompatibilidade entre o intelectual e os militares... senão aversão, diz; o mito, originado pela Rev. Francesa, da Instituição Militar como Nação em Armas; a fascização do Exército português por obra de um simples capitão (Santos Costa)... e o falso apolitismo cloroformista; etc. Por último, a irrupção do gen. Delgado na. cena política... marcou o fim da invisibilidade das Forças Armadas. Tese central do texto: as outra duas “cortinas de invisibilidade” seriam objecto de outros ensaios (não efectuados): a do Incenso = Igreja e a do Dinheiro = Burguesia. De caminho, reconhece... o intelectual não abdica de uma escolha política... as (suas) opções são, na quase totalidade, de carácter negativo e abstracto.
Em 1959, no Brasil, onde E. Lourenço se encontrava leccionando na Universidade da Baía, escreve dois textos de intervenção política: “A Nova República deve nascer adulta”; e, já em 1960, “Brasil - Caução do colonialismo português”. Refere o já citado Miguel Real: ...o empenhamento político de E. Lourenço a favor de um regime democrático em Portugal, no período entre as décadas de 50 e 60, como que teria ficado ocultado se não tivessem sido publicados nos jornais “Portugal Democrático” e “Portugal Livre,” ambos de S. Paulo, Brasil. Seja como for, apareceram publicados na 1ª Parte do volume “O Fascismo Nunca Existiu”, ed. D.Quixote - Junho 1976. O primeiro - que saiu no Brasil assinado Criticus - está dividido em dois capítulos. No Cap. I, impera o desalento - a “derrota” eleitoral de H. Delgado estava recente. Procurando eco em F. Pessoa, sublinha a Passividade nacional, o Conformismo, etc. Alarga-se numa crítica severa ao “mais perfeito dos regimes reaccionários do séc. XX”, o Regime da Avestruz. Aponta uma certa classe, arcaica e hipócrita, que se agarrou a Salazar como seu messias salvador. O Cap. II faz o contraponto exaltando a “paixão positiva” e recomendando o “diálogo nacional”... pois a Nova República deve nascer sem ressentimentos. (Estaria E. Lourenço preconizando uma prévia absolvição do fascismo?). O destino das ”nossas províncias ultramarinas” ... a grande catástrofe a que o Estado Novo nos está conduzindo. E, para rematar... Se a Nova República falhasse o seu futuro, voltaria de novo. Poupemos essa vingança ao fantasma de Salazar. (E. Lourenço ainda aí está para nos poder dizer se já vislumbrou, de volta, o fantasma. E há quanto tempo.).
O segundo texto, também redigido no Brasil, consiste quase somente numa rigorosa condenação da viagem a Lisboa do presidente brasileiro Kubitschek em 1960, por ocasião de umas patrióticas Comemorações Henriquinas. Classificando-a - com justa razão - como caução ao colonialismo português e uma importante vitória política e diplomática para Salazar.
Neste mesmo volume (Publicações D. Quixote -1976) está incluído um 3º texto anterior ao 25 de Abril. O autor refere-se-lhe nos seguintes termos, no pequeno prólogo, esse sim datado de Vence (sul de França), 18 de Junho 1976: ... de todos os textos de que se compõe este livro, nenhum me parece merecer um interesse mais plausível que a carta de 1969 escrita e nunca publicada ao que então era a oposição portuguesa já dividida e semente fatal da divisão futura. Parececoisa escrita, como Necessária e Inútil Justificação, aliás epígrafe que o próprio E. Lourenço escolheu. Dá para pensar esta “Carta fechada às oposições portuguesas”, enviada a pessoa amiga em vésperas das eleições de 1969 e não publicada (Em nota de pé de página). Recordemos as circunstâncias: “primavera marcelista”... já um tanto outonal; oito anos de guerra em África; realização da farsa eleitoral quadrienal, em que a Oposição se apresenta dividida entre a CDE - Comissão Democrática Eleitoral e a CEUD - Comissão Eleitoral Unitária Democrática. Na citada carta, E. Lourenço coteja duas notas políticas emitidas por cada uma das candidaturas evitando identificá-las politicamente... embora fosse do conhecimento geral que a CDE era “inspirada” pelo PCP, e a CEUD pela oposição burguesa de toga (M. Soares, S. Zenha, Sousa Tavares, etc.). E. Lourenço mostra clara preferência pela proposta dos advogados A hipocrisia visceral do discurso político da CDE salta aos olhos do menos prevenido. Pelo contrário, exprime a sua simpatia pela proposição implícita da CEUD de um socialismo de aspecto humano. Traça considerações sobre a simetria dos reflexos entre o Regime e a Oposição; a “obscuridade hipócrita” que denota nos documentos de ambas as oposições (que parece afectar o seu próprio texto); profere novos avisos em relação ao problema africano. Entretanto, a determinado passo, reconhece - a CEUD entrou, de algum modo, no sistema que a “abertura” do Regime tornou mais maleável, como o provam - se provarem - as futuras eleições. Em resumo, a carta de 1969 enviada de Nice a 1 de Outubro (não publicada na altura) afirma uma tomada de partido A Democracia é politicamente partidária, já assim pensava (e escrevia) dez anos antes, então no Brasil. Achou E. Lourenço que a sua tomada de posição (partidária) merecia um interesse mais plausível (o adjectivo é dele) em Junho de 1976 ! Ver-se-á porquê.
Antes de entrarmos no período do 25 de Abril falta registar mais um outro ensaio de temática política... os únicos que estamos recenseando “Situação Africana e Consciência Nacional”, escrito entre 1961/63, “conservado inédito por motivos óbvios”. É um texto longo - 45/50 páginas - reproduzido depois em “Cadernos Critério 2”. Tinha começado a guerra em Angola... mas E. .Lourenço já anteriormente (cf. texto de 1959) mostrara estar atento à questão das colónias africanas. Verbera às oposições adoptarem uma óptica paralela à do regime; isto é, uma óptica metropolitana. Afirma com segurança: O problema da colonização é o problema do País (pág.31). Embora não ignoremos as declarações políticas que a Oposição (ou Oposições) têm formulado... uma filosofia geral anticolonialista. E cita em abono, o eng. Cunha Leal, o Rumo à Vitória e... o prof. Adriano Moreira!! No capítulo “Retrato (póstumo) do nosso colonialismo inocente “, EL tenta decifrar “o labirinto da consciência colonialista portuguesa”, esperando um milagre: a hipertrofia nacionalista de pequena Nação, a crença na inocência e na originalidade da nossa presença em África, etc. No Cap. II, comenta largamente, a “celebrada filosofia da colonização portuguesa”. Até pouco África era terra de desterro; com Salazar é terra de salvação... É, aliás, este sentimento de uma visceral unidade de destino - quando o é apenas para uma classe privilegiada incapaz de encontrar uma saída positiva para as contradições que a estrangulam- que serve de alma à actual ideologia portuguesa (pág.41). Continua: Não se louva a nossa burguesia, protegida e inconsciente até ao delírio, do “bom povo português”, tão humilde, exactamente como se louva da tranquilidade do nosso negro? (pág. 45).
Creio não existir mais nenhum ensaio de natureza política escrito por E. Lourenço na época fascista; isto é, até ao 25 de Abril. Manteve, evidentemente, intensa actividade intelectual nos domínios filosófico, artístico, literário e correlativos. Idem, em matéria de colaboração com revistas e órgãos de imprensa especializados.
Há, no entanto, uma dessas revistas que penso ser de interesse destacar. Refiro-   -me ao “Tempo e o Modo”... por ser representativa do pensamento cultural/crítico dos “católicos progressistas” que apareciam, assim, entre 1960-70, aliados à oposição antifascista contra o regime. E. Lourenço colaborou - com temas de natureza literária, bem entendido - em vários números mensais até à dissolução da revista em 1970; que aconteceu por obra de um núcleo infiltrado de maoístas (mrpp), através de provocações anti-PCP, nunca devidamente explicadas pelos associados católicos. Um deles - Alçada Baptista, aliás o fundador e proprietário da revista - acabou, desastradamente, em vésperas do 25 de Abril, por publicar um livro de elogio e homenagem a Marcelo Caetano.
E então, do cerrado horizonte da ditadura fascista, da feira cabisbaixa, do cerco e exílio da acção, surge luminosa a “divina surpresa”, “Esta é a madrugada que (nós) eu esperava. O dia inicial, inteiro e limpo”. A madrugada libertadora do 25 de Abril de 1974.
Para os intelectuais portugueses - no maior (e no melhor) número – foi um dia de júbilo. E. Lourenço, certamente, entre eles. Contagiado pelo entusiasmo colectivo, foi com “alguma paixão e fervor” que cedeu à “antiga tentação” de intervir no suspenso debate político.
O corpo principal dessas intervenções constitui a segunda parte do título “O Fascismo Nunca Existiu” (Pub. D. Quixote, ed. Julho 1976). Cobre o período de Maio 75 a Maio 76. Dois anos durante o quais tudo se decidiu Em termos grandiloquentes, o destino da Pátria, a classe vencedora, etc. Porém, sem qualquer dúvida, para o objectivo que nos está ocupando - a intervenção do intelectual Eduardo Lourenço na área política - são os mais importantes. Definitivamente. L’homme en situation, em situação existencialista irrepetível... na vida do sujeito E. Lourenço... na existência da Nação portuguesa. L’homme en tant qu’il agit (Camus?), livre no cumprimento da uma (sua) convicção, livre na avaliação do acto categórico - isto é, moral - em que intervém.
Nesta perspectiva, as 23 intervenções de Ed. Lourenço na imprensa, durante o espaço de tempo do processo revolucionário, seleccionadas e recolhidas no volume mencionado, merecem uma especial atenção. Os anos de brasa da revolução marcaram com selo identitário quem neles viveu. Marcado a fogo, talvez só a morte o apagará.
O 1º artigo de opinião desta série do tempo revolucionário, foi publicado no Diário de Lisboa, a 11 Maio 74. Consiste num aviso aos oportunistas... sangrando-se o autor em saúde. No 2º, também no DL, em Julho, aborda a questão africana (que o preocupava desde 1961 - ver atrás) Num extenso texto de 14 páginas, avalia as possibilidades da perspectiva federalista de Spínola; o perigo do “entreguismo”; o problema da permanência dos brancos em África. Na sequência (pág.88), emite a opinião: O 25 de Abril não é uma Revolução; nem parece vir a sê-lo. Segue-se um artigo no D. Not0ícias (Ag. 74) no qual Ed. Lourenço acusa a Igreja de se ter situado - em Pastoral entretanto difundida - ainda mais à direita que durante o fascismo. Identifica-se (pág.94): como pouco suspeito de ternura excessiva em relação ao marxismo. Num outro texto extenso, escrito em Set. 74, e “não publicado por conselho amigo”, retoma a reflexão sobre “o destino do ultramar português”; abrindo e fechando com vénia ao gen. Spínola e não poupando os arautos da descolonização acelerada
, nomeando M. Soares e A. Santos. Desenvolve uma das ideias/trocadilho que lhe dão gosto: “O Império que Nunca Existiu”.
Abre-se um hiato temporal; e só 8 meses depois, em Maio de 1975, volta Ed. Lourenço a intervir no campo político. E de que maneira! Vestindo a camisola do Partido Socialista, em artigo publicado no “Portugal Socialista” de 9 de Maio, no qual saúda “o nosso partido” (duas vezes) pela maioria eleitoral obtida nas eleições destinadas à Assembleia Constituinte. Trata-se de uma indiscutível declaração pública de adesão... num momento de vitória. Teremos então, a partir de Maio 75, o intelectual heterodoxo Ed. Lourenço, crítico acerado de sinédrios, escolas e doutrinas, convertido em membro mais ou menos ortodoxo, de um partido político? Ver-se-á. Desde logo, no texto de ingresso do neófito, verifica-se grande entusiasmo triunfalista e claro incitamento ao seu partido para “concretizar rapidamente a vitória nas urnas”. (Na verdade, parece haver aqui um certo ímpeto golpista...!).
De Maio de 1975 a Janeiro de 1976, Ed. Lourenço escreveu no “Jornal Novo”(com uma única excepção, em Out., na “Luta”, novo órgão do PS). Ora a escolha preferencial por um diário fundado, financiado e propriedade do grupo capitalista/fascista da CUF/Melos com o evidente propósito de desestabilizar o processo revolucionário e a vida interna do País, levanta enorme perplexidade quanto ao verdadeiro propósito do intelectual/ensaísta Ed. Lourenço ao misturar-se com esse tipo de gente. Um pensador com 50 anos completados, geralmente respeitado, a fazer fretes à contra-revolução num pasquim capitalista? Dá que pensar. E Muito!
Os três primeiros artigos de Ed. Lourenço no JN resumem-se a uma polémica travada com outro intelectual, Ed. Prado Coelho, sobre a “pureza” dos respectivos socialismos. Defende o “socialismo impuro” do PS e de M. Soares, contra o que chama socialismo dogmático de EPC, na altura oportuno filiado no PCP. O ataque aos comunistas está dentro dos parâmetros da estratégia PS, de “uma revolução possível”, em contraste com o projecto bolchevique atribuído ao PCP. Tudo bem. Diálogo de intelectuais bem-educados jogando xadrez, enquanto os turcos seljúcidas assaltavam as muralhas de Constantinopla. Pois que, em Agosto de 1975, o País já estava a arder, os caceteiros da direita e da Igreja pró-fascista dedicavam-se, impunemente - no norte, no centro e nas ilhas - a destruir sedes dos partidos de esquerda e a perseguir e maltratar os seus militantes.
Contra a Igreja ainda reagiu, violentamente, E. Lourenço, em artigo de 16 de Agosto, “Lembranças de Bernanos para o Arcebispo de Braga”. Ouvi-lhe ontem na televisão francesa a voz e identifiquei a imagem que a produzia. É o sacerdote fascista em todo o seu esplendor (pág. 146). No coração desse Minho, onde Vossa Exª. Rev.ª (D. Francisco Maria da Silva) é o pastor fanático... e o arauto da contra-revolução (pág.147). Mas mesmo aqui EL não esquece o remoque aos comunistas que provocaram, com requintes de inconsciência, o lobo secular da reacção.
E. Lourenço continua escrevendo no JN. A 4 Set. em título “O Camarada Vasco” desenvolve uma rigorosa crítica à permanência de Vasco Gonçalves à frente do Governo Provisório, defendendo com veemência as posições do PS e dos “moderados” militares, etc. (V. Gonçalves foi destituído, nesse mesmo dia em Tancos. EL escrevia de Dinard/França, com data de 29 Agosto). EL passa pelo “25 Novembro” instalado em França, donde telefona para o JN a 1 Dezembro (publicado em 3) congratulando-se com o triunfo dos socialistas realistas e com o fim do circo político. De caminho, aproveita para começar a castigar os autores principais da intervenção cirúrgica do 25 de Abril (que), salvo excepções, nem pelos dedos de uma só mão se contam os que possuíam envergadura política (pág. 160; sublinhado meu). Paradoxalmente, na mesma página, parece lamentar que os homens da Revolução (não tivessem) arcado com a responsabilidade plena do processo revolucionário... Acrescenta... Espero que não seja um Termidor, quer dizer, o princípio do fim da própria Revolução (pág. 168). Acertou! Foi mesmo.
O pequeno ensaio cujo título - supostamente irónico - foi adoptado para o conjunto do volume “O Fascismo Nunca Existiu”, foi tambémescritonoremansodadouce France”, e “Publicado no Jornal Novo, em fins de Janeiro de 1976, nas vésperas da defenestração de Artur Portela Filho”. Talcomo vemexplicadonopé-de-página177. Com efeito, A. Portela, director do JN, foi posto na rua pelo patrão Melo que, esse sim, não ficou com dúvidas filosóficas sobre o significado do 25 Novembro. O serviço contra-revolucionário estava feito... para a rua, pela janela, com um pontapé no traseiro, os intelectuais assalariados para a tarefa. EL nota, confuso e perturbado, que Neste mesmo jornal, com todas as letras, Marcelo Rebelo de Sousa... ousou escrever do 25 de Abril... um golpismo entre outros... E que se espera, já sem pejo nem peias, a almejada reposição do feliz sistema que nos regia (pág.182). Com pânico póstumo, manifesta-se assim o nosso filósofo, a partir França, a 25 Janeiro 1976... mas já o caldo estava entornado. Embora tendo perdido a tribuna do JN, não desistiu EL de intervir politicamente através da imprensa nacional... agora devidamente saneada e na posse dos “verdadeiros socialistas democratas”. No Diário de Notícias, de 27 de Fevereiro, dá conselhos aos retornados. Ainda de Vence, na mesma data, para “O Jornal” (querido hebdomadário do seu - dele - partido) num texto mais sério condena os manejos magistrais (sic) da União Soviética em Angola... este Alcácer Quibir sem restauração possível. De caminho: o que já ninguém ousa intitular “revolução portuguesa”... a ex-revolução portuguesa. Etc. Mais considerações labirínticas, com toque desalentador e apocalíptico sobre a realidade portuguesa, todas ditadas do retiro mediterrâneo, para o Expresso, “Diário Popular”, de novo para “O Jornal”, a 9 Abril sobre O Fascismo que “Nunca Existiu”. Numa cabriola dialéctica (pág. 234) deixa sugerido que o comunismo terá sido... o mais autêntico oxigénio do antigo regime.
Encerrando o volume , escreve já em Lisboa no 1º de Maio de 1976, um artigo de opinião para o DN (sai a 4), sobre Ressentimento e Colonização. O ressentimento é um labirinto, assim começa o texto. De labirintos, de infinitos labirintos, está repleto o cérebro - e a escrita - de Eduardo Lourenço. Neles se deleita o autor na sua “paixão de compreender”. Nem sempre com proveito para as causas que abraça, valha a verdade.
 
Eduardo Lourenço continuou pelos anos de 1976-77-78 empenhado no comentário político com intervenção activa no espaço público; concretamente, na imprensa nacional e, eventualmente, na francesa. Dessas intervenções, 52 estão reunidas no volume “O Complexo de Marx - Ou o Fim do Desafio Português” - Pub. D. Quixote; 1979.
Até final de 1977 são cerca de 30 os artigos de opinião publicados no semanário OPÇÃO. Rebento directo do Jornal Novo, o Nº 0 apareceu a 22 de Abril de 1976, na véspera das 1ªs eleições legislativas. Lá figura o mesmo director - Artur Portela Filho - e vários outros redactores e colaboradores provenientes do diário financiado pelo Grupo CUF/Melos. Entre os transferidos contava-se Ed. Lourenço. No Editorial de apresentação, a nova revista define-se como “semanário de esquerda para um projecto socialista simultaneamente audacioso e viável”. Para que não haja dúvidas, M. Soares em destaque fotográfico desde o primeiro número. Sobre qual a origem do financiamento não há noticia; mas o PS nadava em dinheiro oferecido às mãos cheias pelos “partidos irmãos” da cruzada anticomunista.
Seria tarefa fastidiosa proceder a uma recensão crítica - um a um - dos artigos escritos por EL nesses três anos... período correspondente à implantação do restauracionismo filo-fascista, consequência lógica do golpe contra-revolucionário do 25 Novembro 75. Aliás, as posições assumidas durante o combate aberto de 74-75 possuem um significado categórico muito superior às “acomodações” posteriores. E no entanto, para a finalidade restrita de apreciação da trajectória político/ideológica de E. Lourenço, algum interesse haverá. Veremos em que medida conseguiremos acompanhar o comentarista através do labirinto em que se compraz.
Em louvor de um socialismo-outro, EL colabora logo nos dois primeiros números da nova revista. No nº3 elogia M. Barroso, em nome da ética (!). Cita R. Eanes no n.º 9 (24 Junho76): “Ou o País se encontra ou se perde”; continuando interessado nas eleições presidenciais, comenta Estamos diante de uma situação catastrófica. (Mas onde diabo, eu já ouvi isto? Espera aí! Todos os anos, quase todos os meses - até agora Junho de 2005 - pela boca dos nossos queridos governantes democratas!).
Entretanto, façamos uma pausa para folhear a colecção da Revista onde escrevia EL; a qual, por suposto, devia ser lida pelo colaborador assíduo. Logo na Opção nº 1, José Sasportes (tinha sido subdirector do Jornal Novo), pergunta, com falsa angústia, em título gordo: Onde estão os Nove? Empalmados, claro, feito o servicinho à burguesia ingrata. Na Opção nº 2, uma maldade de jornalista atrevido: “ Votos contados com a Nato à vista”. Uma força naval imperialista tinha, de facto, entrado no Tejo para garantir a vitória da democracia deles. Nos nº 4 a 9 (24.06.76) notícias da recuperação capitalista: Pinto de Magalhães de volta ao seu banco; os latifundiários despojados exigem e recuperam, etc. Grande entrevista a Carlucci; separatismo nos Açores; bombismo e atentados; etc, etc. Isto é, notícias do seu País não faltavam ao exilado voluntário nos Alpes-Marítimos franceses; mais que suficientes para tomar consciência que, em Portugal, o restauracionismo estava em marcha acelerada, a reacção à solta, sob a batuta governativa do mestre socialista Soares. O sonho revolucionário utópico/viável, mítico/pragmático, apresentava-se bastante esfarrapado seis meses após a saudada reposição da “verdadeira democracia”. Permaneceu EL entrincheirado no seu labirinto teórico assistindo à derrocada, alheio ao seu significado? Não, absolutamente. Seria injusto afirmá-lo.
Escolhe o “Monde Diplomatique” (Out. 76) para reconhecer “O Fim do Desafio Português”; texto redigido (segundo nota de pé de página) em Julho. EL proclama à Europa (em francês) que a equívoca revolução portuguesa chegara à hora de balanço. Faltou-lhe nervo para concluir: balanço liquidatário. Coloca piedosamente nas mãos do PS o que resta de uma revolução. Ou seja: mesmo as últimas moedas vão para o bandido. Classifica de insólita e desconcertante a ficção política que se desenrola à beira do Tejo. Permita-me, ilustre pensador: ficção para diletantes... foi alegre multidão. Outros houve - embora bastante menos - que se jogaram inteiros no tal desafio.
No n º 30 da Opção (18 Nov. 76) ocupa-se da defesa do “Melo-Antunismo” (o que quer que isso tenha sido); com especial vigor do seu epónimo, alvo do ódio de classe da direita, segundo afirma. O neutralismo militar é uma fábula. Olhe que não! O próprio M. Antunes era adepto da dissolução do MFA e do regresso dos militares aos quartéis (ver grande entrevista de M. M. Cruzeiro, ed. Campo de Letras - 2002).
Porque a Europa será socialista ou não será, sentencia de modo peremptório, a 4 Dez, nº 34. Modo de dizer bastante frequente em EL, mas que se ajusta mal num pensador analítico. A seguir, porém, em Poética Política (Opção 37, 7.01.77) conclui o artigo com uma dúvida: Talvez a Política não releve da ciência (sobretudo da bem nebulosa “ciência política”) mas de uma espécie de poética apta a integrar aquela parte de imaginário que nunca mereceu atenção aos analistas “positivos” e “científicos” da aventura humana. Entende-se que EL valoriza mais o poético que o positivo ou científico. É bem capaz de ser assim.
Observa, em sucessivos artigos para o D. Popular (Março/Abril/Maio), com apreensão e mesmo alarme, as manifestações provocatórias e triunfalistas da direita saudosista; a crescente onda de anticomunismo patológico, “à chilena”, fazendo lembrar os piores momentos do Verão 75. Não poupa o partido da sua preferência discordando abertamente da histeria anticomunista nos ataques do PS ao PCP e à Intersindical. Se a Intersindical é o que é, à história da resistência da classe trabalhadora - uma das mais duras e inglórias do mundo ocidental - o deve (D. Pop., 24.05.77 e Opção Nº 55).
Em Agosto de 77 (Opção Nº 67) EL rende-se à evidência em artigo intitulado O Triunfo da Social-Democracia. A partir da noite de 22 de Julho o PS, enquanto partido do governo, é prisioneiro do PSD. Refere-se à aprovação conjunta da nova Lei da Reforma Agrária (a famosa Lei Barreto) e protocolo de colaboração entre os dois partidos. Restauração por que espera, já sem complexos, toda uma parte da sociedade portuguesa, nostálgica dos “bons velhos tempos” (pág. 126, sublinhado meu). Um pequeno ensaio, Socialismo e “Nova Filosofia”, é publicado em dois números da Opção, Nºs 74 e 75, de Set. 77. A nova filosofia, apresentada e representada por Bernard-Henry Lévy; vomitando na praça pública uma ideologia recente - o maoísmo, imprecando contra o marxismo... e fazendo as delícias da burguesia bem pensante europeia.
A partir de meados de Nov. 77 e até Jan. 78, será regular a colaboração de EL na Opção e no D. Popular. Consuma-se a decepção com o “socialismo” do PS e do respectivo patrão. Em sentido prático, considera morta e enterrada a Revolução do 25 de Abril. As forças da direita, com o PSD à cabeça, comandam efectivamente a política portuguesa. Por qualquer razão, não assinala a derrota parlamentar do I Governo Constitucional a 7 Dez 77, seguida da formação do escabroso II Governo - coligação entre o PS/M Soares e o CDS/F Amaral (posse a 30 Jan. 78). A Revolução não se suicidou... foi suicidada, escreve a pág. 151. Condena a experiência M Soares/PS sem uma onça sequer do ideal socialista, mas também por incapacidade técnica... Numdesnorteamentopatético - Março/Abril/Maio 78 - deposita as derradeiras esperanças nas Forças Armadas (!), no presidencialismo de Eanes (!!); redige o epitáfio da revolução portuguesa Revolução Abortada... ou Impossível para a revista francesa Esprit, mas que apareceu primeiro publicada na revista (!) “Abril” Nº 4, Maio 78. Um documento donde se extrai mais verdade sobre o autor, do que sobre a verdade da revolução.
Em 23 Maio 78, no D. Pop., assinala desalentado: a dramática situação histórica e política em que Portugal se encontra após 4 anos de experiência democrática. Como observador vivendo no exterior comenta: É doloroso assistir à degradação fulminante da nossa imagem. Ed. Lourenço chama a M. Soares hábil homem do séc. XIX... contorcionista absoluto; que, no fundo, pretende a totalidade do poder (3 Ag, D. Pop.). O II Governo Constitucional (PS/CDS) é destituído (“dispensado”) por iniciativa de R. Eanes; em finais de Julho, Ed. Lourenço volta a apostar no Presidente da República... para salvar o “socialismo português.
O volume “O Complexo de Marx” termina com um extenso ensaio (24 pág.) sobre a Crise Geral do Socialismo, publicadono D. Pop. em Dezembro de 78. A obsessão pelo PCP permanece intensa. Um novo governo - PSD, dirigido por Mota Pinto - toma posse em Novembro 1978. E. Lourenço fica mergulhado numa grande confusão: custa-lhe aceitar que no quadro de uma Constituição - filha de uma falecida revolução de ideais socialistas - passe a existir um governo da direita, caucionado pelo Presidente da República... o D. Sebastião de Eduardo Lourenço, sua esperança derradeira para a salvação do mítico “socialismo-outro”. Um Portugal redimido na aventura e na glória dos descobrimentos ideológicos!
 
Tendo percorrido, até final de 1978, na companhia de Eduardo Lourenço, de uma forma relativamente circunstanciada, a sua intervenção na luta política (de classes) ocorrida em Portugal nesse período - através de numerosos textos de opinião com implícitas tomadas de posição - poderia eu pensar ser a altura de tirar conclusões e encerrar o tema. Sucede, no entanto, que Ed. Lourenço continuou empenhado - até ao presente (2005) - em manifestar a sua opinião crítica sobre as avatares da política doméstica; e, a espaços, internacional. Com consagração oficial, tribuna aberta em qualquer orgão da comunicação social, prémios, comendas, etc. Um novo “corifeu”, como lhe chama M. M. Cruzeiro em livro que lhe dedica (ed. Notícias, 1998).
Nestas circunstâncias, acho necessário relancear - sucintamente, embora - o itinerário posterior do nosso filósofo interventor. Itinerário político/ideológico, entenda--se. Em terrenos de cultura literária e artística sou apenas um amador entre muitos. Contudo, desde logo, o ensaio/estrela de Eduardo Lourenço, o consagrado “Labirinto da Saudade”– Psicanálise Mítica do Destino Português – levanta algumas dificuldades de localização temática. Filosofia da cultura? História como mitologia? O facto é que no terço final do texto (de 44 pág.) estamos no “25 de Abril”, suas consequências, seus traumas, etc. E nesse território não sou estrangeiro.
O ensaio que granjeou a Ed. Lourenço a invulgar visibilidade mediática de que desfruta na sociedade burguesa/capitalista portuguesa (dita “sociedade civil”) foi publicado em 1978, pela editora D. Quixote. Seguiram-se cinco edições; outra pelo Círculo de Leitores (1998); e na Gradiva, a partir de 2000. Um indiscutível sucesso editorial.
O Labirinto é, quase sempre, apresentado como uma reflexão original sobre a “identidade portuguesa”; mas que é feita apoiando-se numa cronologia historiográfica determinada. De facto, desde cerca de metade do texto, a atenção do autor gira à volta do “profundo traumatismo” que teria sido provocado pela “derrocada abrupta do império colonial” (pág. 46, da 3ª ed. Gradiva-2004). Ou seja, EL tenta compaginar um processo psicoanalítico com uma visão histórica pessoal, onde avulta a sua (antiga) fixação no factor império. Enleando-se num labirinto reflexivo de dois comprimentos de onda, de improvável coincidência. O que, aliás, lhe foi apontado por vários críticos nos anos posteriores. Com efeito, o conspecto historiográfico adoptado no “Labirinto da Saudade” torna esse ensaio parte e sequência da intervenção política do autor na vida pública portuguesa; a cuja intervenção constitui, exactamente, o tema parcial e exclusivo que aqui nos ocupa.
Poder-se-ia, página a página, apontar e debater a solidez dos postulados históricos/historiográficos em que se baseia a construção do Labirinto; e daí, pôr em causa a validade do teorema místico lourenceano. Não o faremos, pois isso não se enquadra no propósito geral enunciado. No entanto, impõe-se - minimamente - deixar esclarecido que a escola de pensamento filosófico de Eduardo Lourenço nada tem a ver com o materialismo histórico marxista; e, ainda menos, com a teoria da luta de classes. São posições que ele tem assumido desde a universidade. Igualmente se tem demarcado do existencialismo ateu de Sartre e Camus. Numa primeira fase - segundo os especialistas - o filósofo Eduardo Lourenço terá sido atraído pela fenomenologia germânica. Husserl, em particular. Foi discípulo - ao que creio - de Paul Ricoeur (falecido em 2005, aos 92 anos), filósofo francês ligado ao movimento do “personalismo cristão” de Emmanuel Mounier e da revista Esprit. O facto - de certa maneira curioso - é que EL, num precoce 1969, fazia publicar no Esprit um artigo já intitulado “Le Labyrinte de la ‘Saudade’” (em M. M. Cruzeiro, bibliografia livro citado). Na altura, EL também colaborava na revista portuguesa “O Tempo e o Modo”, da mesma inspiração católica/progressista. Ainda por curiosidade, se anota que o escritor mexicano Octávio Paz (Nobel em 1990) é autor, em 1950(!), do ensaio “El labirinto de la Soledad”.
Teremos portanto, nos anos 70, um Eduardo Lourenço ainda atraído pelo “paradigma fenomenológico”, com a implícita exigência do rigor analítico de olhar para além - para mais dentro - da representação exterior da “coisa”, procurando a sua essência substancial - o nómeno - através de véus e labirintos. A psicanálise clínica/freudiana exemplifica bem a aplicação desses princípios. EL, de certo modo, inventa uma variante mística/sociológica.
Porém, se no campo de filosofia abstracta (pura) as dificuldades labirínticas podem constituir um desafio estimulante, já no campo da reflexão político/histórica - feita para o homem e à sua medida, onde a existência precede, decididamente, a essência - a “incomodidade “ de Eduardo Lourenço ir-se-á, progressivamente, acentuando.
A Psicanálise Mística do Destino Português, datada de 1978, está pejada de palavras e expressões (e, naturalmente, dos respectivos conceitos) do léxico idealista/freudiano: traumas... muitos; mitologias... diversas; metáforas e símbolos; utopias e sonhos; imaginários e evasões ficcionais; crenças irrealistas e saudosismos; milagre e impotência; etc. Por seu lado, a revisitação da história de Portugal em que se apoia o consagrado texto de EL, também segue a pista do imaginário, da representação mitológica, tão ao estilo e ao gosto literário/filosófico do autor. Assim, aí abundam os impérios míticos, a épica dos Lusíadas, os delírios de Vieira, o Pessoa da mensagem... até ao trauma da liquidação do último império (o colonial), resultante da revolução de Abril. Em toda a arquitectura da obra não há lugar para qualquer menção das causas e objectivos económicos da expansão marítima, da violência da conquista e do terror da cristianização, da ignóbil e desastrosa expulsão dos judeus, das perseguições do Santo Ofício, do tráfico dos negros escravos de África para os Brasis, etc. Esses foram os traumas dos “outros”. Com eles podemos nós bem, banhados pelo misticismo e pela boa consciência de construtores e herdeiros de impérios.
A época moderna ocupa o terço final do Labirinto. É curioso verificar como um intelectual que tinha - escassos dois anos antes - castigado sarcasticamente “O Fascismo que Nunca Existiu” (para Fascistas & Filhos), não consiga, por ele próprio, escrever uma só vez a palavra Fascismo nas 44 páginas do texto. Lá aparece “o anterior regime”, “o salazarismo”, o Estado Novo... até ao requinte de “o posterior regime”, quando observa o meio século fascista a partir da I República. Às tantas (pág. 48 da edição Gradiva) define o regime fascista como poder autoritário e semitotalitário. (definição que fez escola, até utilizada pelo actual PR).
No entanto, deve ficar expresso que Eduardo Lourenço nunca ignorou a realidade da existência da Revolução de Abril; em contraste nítido com o seu confrade filósofo José Gil - e com centenas de outros intelectuais, da praça lusitana, que mais não recordam de que um sobressalto! “A beata e hipócrita burguesia nacional” merece-lhe referências desprimorosas neste exame psicanalítico. Mas pode concluir-se que são as insuficiências e carências da revolução que mais o decepcionam. Quase a terminar, culpabiliza a revolução (em sentido amplo) “pela rapidez assombrosa com que procedeu à descolonização e aceitou as independências”. (A Grande Questão, O Grande Trauma para o pensador/intérprete da mística nacionalista portuguesa). Entenda-se que, no entender de EL, em 1978, o Partido Socialista compartilhava responsabilidades e objectivos revolucionários! Ainda levanta a dúvida (pág.61): Se a revolução de Abril sucumbir... O observador conceituado não reparava no assassinato de Abril, na perseguição aos revolucionários, no regresso e reinstalação no poder dos fascistas exilados. Sim, essa é a maior carência, a mais assombrosa deficiência da visão histórico/filosófica do ensaísta Eduardo Lourenço na sua Psicanálise: não conseguiu ver, não inscreveu na sua base de dados - tal-qualmente como José Gil - o fenómeno dialéctico, sobejamente identificado, da contra-revolução.
 
No mesmo ano em que apareceu o Labirinto da Saudade, EL publicou um texto da mesma índole - “Repensar Portugal” - (Rev. Abril nº2 - Março 78), no qual continua a revolver as questões da imagem e identidade, lamentando a reduzida participação da “classe intelectual” (sic) na “autognose” colectiva nacional. Mostra preocupação - num apontamento inédito - “com os preconceitos passionais, resultado do reflexo político/ideológico”.
Numa linha de pensamento mais interventiva, escreve o Prefácio ao livro de Otelo Saraiva de Carvalho, “Alvorada em Abril”... “ a três anos de distância em maré baixa duma boa parte das esperanças de renovação profunda” (Vence, Nov. 1977). Merece destaque a seguinte interrogação ali deixada por EL: “Há alguma coisa de comum entre o personagem que ocupou o centro da vida nacional (após Abril 74) e o jovem e desconhecido capitão que pacientemente, com um sangue-frio e uma candura que toca as raias do inconcebível, foi tecendo entre o 16 de Março e o 25 de Abril, os fios quebrados do que parecia condenado a mais um fracasso sem remissão?”. (O sublinhado é meu). Tem razão o ilustre ensaísta. Esse parece ser um dos grandes prodígios do 25 de Abril. Sempre quis acreditar que só é possível explicá-lo dentro de parâmetros exclusivamente psicológicos... e que essa impávida determinação de Otelo constitui o mais extraordinário mérito que lhe cabe em todo o processo do 25 de Abril, antes e depois e passando pela jornada da vitória.
 
Vamos agora dar um salto até 1996. Porquê esse ano? Porque é o ano do “triunfo” de Eduardo Lourenço. Triunfo literário, social e público; e, consequentemente, também pessoal. Consagração perante a “sociedade civil” portuguesa (e não só); ou seja, a burguesia capitalista representando o “sistema”... que é sua criação e usufruto.
No discurso de apresentação e elogio por ocasião do doutoramento honoris causa de E. Lourenço na Universidade de Coimbra (Maio de 96), o apresentador (Carlos Reis, prestigiado académico) enumerou: “....recentes distinções: homenagens e condecorações várias; doutoramento pela Univ. Federal do Rio de Janeiro; prémio D. Dinis concedido pela Fundação Casa de Mateus; a atribuição (há menos de oito dias) do Prémio Camões, distinção máxima a suscitar no premiado, por essa e outras razões, a máxima surpresa, expressamente confessada. Em França já tinha obtido o Prémio de Ensaio Charles Veillon (1988) e a Legião de Honra (           ). Note-se que o Prémio Camões é, em Portugal, na área cultural, o de maior valor pecuniário.
Entretanto, nesse lapso de 14 anos (de 1982 a 96) vão progressivamente diminuindo, em número e frequência, os comentários de EL sobre as flutuações da política interna portuguesa. Ainda n’ “O Jornal”, meia dúzia no “Expresso” e “Diário de Notícias”. Em 1985 participa no seminário promovido pela Associação 25 de Abril sob o tema genérico “A Condição Militar”. As considerações que elabora tornam-se cada vez mais teóricas e literárias, publicadas de preferência no “Jornal de Letras, Artes e Ideias”; a partir de 1989, na revista quadrimestral “Finisterra” por ele fundada e dirigida; Revista de Reflexão e Crítica, cujo 1º número tem por tema “O Socialismo do Futuro”. A problemática europeia - a Europa desencantada, como lhe chama - ocupa a maior parte da atenção crítica do ensaísta português estrangeirado radicado em França.
Durante ao anos 90, um autor difícil - labiríntico/apocalíptico - como Eduardo Lourenço, cujo percurso era mais conhecido e apreciado nos meios académicos e literatos, passa a ser objecto (daquilo que se pode chamar) de uma vasta campanha de promoção/marketing; em que não faltaram as grandes entrevistas; conferências publicitadas; colóquios; suplementos e teses; comemorações; traduções nas principais línguas “ocidentais”; etc. Campanha que obteve evidente êxito, convertendo EL num astro do firmamento mediático, consultado respeitosamente sobre os mais variados assuntos.
De 98 em diante até aos dias de hoje, as glórias e glorificações de EL continuaram em ritmo sustentado. Na verdade, correspondendo a uma produção intelectual intensa e vultosa nos campos literário e ensaístico; coadjuvada por um protagonismo assíduo nos diversos eventos de projecção pública, através dos quais marca presença a “comunidade da cultura”, entre nós e pelo estrangeiro. Além disto, sucederam-se as edições e reedições, as entrevistas programadas; e até mesmo documentários televisivos periodicamente retransmitidos. Duas das distinções de que EL foi alvo nesta mudança de século, são de indispensável registo: em 2000 é cooptado como administrador da Fundação Gulbenkian; em 2004 (salvo erro) é “coroado”, em palco, personagem do ano, no Festival Globos de Ouro promovido pela SIC (cujo dono é o conhecido empresário F. Balsemão, fundador do PSD e ex-1º ministro em 19 ).
Em princípio - como já foi dito e repetido - a cogitação intelectual stritu sensu de EL (que aparece frenética após consulta à bibliografia respectiva) está fora dos limites e da área da competência da presente recensão. Sucede porém que, em numerosas ocasiões, o frenesim gnoseológico de EL o leva a misturar toda a paleta argumentária; literatura com política, filosofia com história, ou amálgamas várias. Tudo bem; é a liberdade cognitiva. Mas que resulta em arrastar igualmente o leitor/comentador (que estas linhas escreve) para fora dos seus preestabelecidos limites.
Entretanto vamos pegar em 3 volumes de textos de EL, recentemente editados e/ou reeditados, que calha estarem aqui ao alcance da mão.
“Europa Desencantada” ; 1ª ed. 1999; 2ª ed. Fev. 2005
“Destroços”; 1ª ed. Março 2004
“A Nau de Ícaro”; 1ª ed. 1998; 3ª ed. 2004
Todos estes três volumes são colectâneas de artigos e ensaios originalmente publicados na imprensa, ou revistas nacionais e estrangeiras (francesas, na maior parte). Alguns textos são bastante antigos; p. ex. de 1972, em Destroços. Praticamente em nenhum dos três volumes se encontra qualquer referência a assuntos da actualidade política portuguesa. Os quais, nestes últimos anos, além de raros estão, ao que parece, reservados para a revista “Visão” (herdeira e continuadora do semanário “O Jornal”, fundado em 1975 como orgão PS). Coincidindo a colaboração de EL com efemérides comemorativas; ou em comunicações relativas a balanços retroactivos.
Em resumo, indo ao que mais interessa: no diagrama do intervencionismo engagé de EL na luta política em Portugal, os picos mais altos correspondem ao período 1974- -76; até 1982 a cota ainda é alta; vai caindo progressivamente, atingindo o zero técnico por volta da passagem do século. Diga-se desde já que o traçado desta “curva de empenhamento” tem óbvia importância para a tese que pretendemos demonstrar.
Torna-se também importante deixar sublinhado que, nas várias reedições do pensamento lourenciano dadas recentemente à estampa (anos 2000), revestem-se de especial interesse os novos prefácios do autor. Desde logo, o pequeno prólogo para uma das últimas reedições do consagrado “Labirinto da Saudade”, com data de Out. 2000, enviado de Vence, 22 anos após a 1ª edição de 1978. O título escolhido por EL para essa actualizada apresentação do afamado texto é, em si mesmo, deveras elucidativo: “Para uma Revisitação Improvável”. Desenvolvendo a ideia, EL deixa-nos assombrados. O autor parece querer renegar o filho dilecto do seu intelecto, adulto de 22 anos de existência, em pleno sucesso editorial, rodeado dos aplausos da sociedade de consumo burguesa /capitalista! “.... o  país que há vinte e dois anos podia justificar um livro como O Labirinto já não existe. Nestas duas décadas... mudámos, literalmente,... de mundo... porque o mundo conheceu uma metamorfose sem precedentes. Já não habitamos o mesmo planeta... Portugal nunca sofreu metamorfose comparável à dos últimos vinte anos. E acrescenta: Muitos encontrarão o diagnóstico alucinatório. Com efeito!! Com efeito, emérito pensador, procurar sair do labirinto pela via do apocalipse, remete para o desespero filosófico, para a inutilidade do esforço despendido a tentar compreender o destino da humanidade... a descortinar o futuro do País, da Europa, do Ocidente, do próprio planeta.
Ora num outro prefácio, escrito no mesmo local apenas dois meses decorridos, (para 2ª ed. “Europa Desencantada”, Vence, 26 Dez. 2000) deparamo-nos com um inverosímil volte-face nas perspectivas sombrias/desencantadas de EL. Consegue ver: “...uma espécie de milagre português. Um milagre que vinha a caminho há três décadas, mas que a adesão à Europa potenciou. E faz uma pergunta que o projecta completamente desfocado (a ele, alcandorado nos contrafortes dos Alpes, contemplando o azul mediterrânico) da realidade nacional neste ano de 2005, de todos os desânimos, numa maré baixa sem precedentes: Por que motivo, nós vivemos em termos de “autoestima” como se fôssemos o mais paradisíaco dos povos?
Pois é, prezado “penseur d’occasion”: os oráculos, os profetas, os corifeus lançados em hipérboles de ramos divergentes, correm o risco de serem apanhados fora do compasso histórico. Consequência inevitável de optarem pelo tempo irreal dos sonhos e dos mitos.
 
publicado por samizdat às 16:40
link do post | comentar | favorito
|

Continuação do post sobre Eduardo Lourenço

 

RECAPITULANDO
 APORIA 1 – O Intelectual na PolíticaEterna questão civilizacional! Talvez somente no século de ouro ateniense - o 5º anterior à sufocante e castradora era cristã - puderam os intelectuais coabitar, em termos “civilizados”, com os poderes da polis. Depois...Depois, cá pelo hemisfério norte/ocidental, foram centenas e centenas de anos de opressões confessionais em nome de Cristo, de Maomé e doutros profetas de menor êxito. Pobres intelectuais, obrigados a inventar provas da existência de Deus e da virgindade das respectivas mães e esposas. (Entendamo-nos: intelectuais somos todos nós, seres pensantes, capazes de articular ideias... mesmo que proibidas ou excomungadas). Lá chegou, finalmente, o 18º - o século das Luzes, da Razão, do Contrato Social, da proclamada morte do poder divino dos reis e papas. Grandes sonhos e utopias... maiores a decepção e o trauma. A burguesia, mal instalada no poder, criou logo um novo deus: o dinheiro; com o indispensável clero: os capitalistas. E os pobres dos intelectuais continuaram obrigados a ter muito cuidado com o livre pensamento... até aos nossos dias, ao suposto paraíso da globalização democrática/mercantil, das supostas garantias individuais do cidadão.Nos tempos modernos - digamos, pelo séc. XX em diante - a questão do Intelectual perante a Política, levantou paixões intensas, lutas ferozes entre inimigos ideológicos. Trocavam-se, então, frequentes acusações de traição. O caso Dreyfus rebentou em França no início de novecentos, causando impacto em todo o mundo; e convertendo o “J’accuse” de E. Zola em diploma de honra do intelectual militante, paladino da verdade e da justiça. Em 1927, período de grave crise económica com o fascismo a erguer a cabeça em toda a Europa, o ensaísta Julien Benda publica em Paris a sua denúncia “La Trahison des Clerks”; colocando, para sempre, os intelectuais traidores (os que pactuam com os poderes estabelecidos) na categoria de “baixo clero” da nova religião burguesa/capitalista. (É curioso notar que, até hoje, especialmente em Coimbra, os futuros bacharéis portugueses adoram mascarar-se de clérigos; quanto mais reaccionária a época, mais eles se embrulham na batina).E. Lourenço ainda se preocupou com “a velha antífona” de J. Benda. Por exemplo, no Prólogo ao “Complexo de Marx” (1979). Parecendo querer justificar a sua opção pelo intervencionismo político engagé (PS) que então praticava; de caminho, deixando um remoque “a esses Bendas portugueses, que haviam depositado esperanças na revolução de Abril”. Guerras, muitas guerras ocuparam o século, todas com profunda carga ideológica: a Guerra Civil em Espanha; a II Mundial, a Argélia; o Vietname; a Colonial Portuguesa, etc. E muitos outros crimes de natureza secreta e iniciativa imperialista foram sendo cometidos: avulta a gigantesca Operação Condor que conseguiu submeter todo o continente sul-americano ao domínio dos EUA (Chile, 1973, infâmia imperdoável). Em todos esses conflitos bélicos e campanhas contra a liberdade dos povos, se fizeram ouvir as vozes dos intelectuais: dos autênticos, com a coragem necessária; dos traidores, com as hesitações, as cedências e por fim a passagem para o campo da classe agressora /exploradora.Assim se chega aos nossos dias, com a vitória do imperialismo americano na dita Guerra Fria (ideológica); e, consequentemente, surgiram cada vez mais numerosas vagas de devotos clérigos, intelectuais arrivistas, cristãos-novos, ansiosos por mostrarem serviço aos novos patrões do mundo. Estes modernos clerks, desempenhando função antiga, agora acrescida da projecção mediática facultada pelas multinacionais do sector e governanças liberais, são apelidados (p. ex., nas páginas do “Le Monde Diplomatique”) como Os Novos Reaccionários. Acusação mais suave que a de traidores (caída em desuso), mas com idêntica carga pejorativa.Pode compreender-se que a situação mundial na actualidade, com o imperialismo americano hegemónico, ao ataque para a conquista da Ásia Central, do Leste europeu e do Médio Oriente, provoque desânimo no seio da intelectualidade veterana mais responsável. E daí, verificar-se o retraimento dessas vozes mais nobres no debate público. No entanto, a razão muito mais concreta por que tal se verifica, consiste no real controlo dos meios de comunicação social exercido pelos conglomerados capitalistas.Dever-se-á admitir que o poder hegemónico da classe burguesa/capitalista (dita neoliberal) venceu a resistência crítica do intelectual honesto? (Aquele que recusa estabelecer compromissos com o poder dominante, segundo H. Marcuse).Infelizmente, a contragosto, nas presentes circunstâncias, vejo-me inclinado a responder pela afirmativa. Com a agravante, de não estar à vista uma próxima alteração do equilíbrio de forças a nível planetário; e de ele poder terminar por uma catástrofe de proporções inimagináveis.“Apesar de tudo, os intelectuais - os autênticos - são mais que nunca necessários. O seu papel é hoje o mesmo que outrora... consiste em ser a má consciência do seu tempo, da sua época. Devem denunciar as injustiças, as taras do sistema, os mecanismos alienantes. Sem concessões“. (Fim de citação, “Le Monde Diplomatique”, Out. 2002). APORIA 2 – Os Intelectuais Portugueses perante a PolíticaO nosso Portugal é um país pequeno e periférico (não apenas no sentido geográfico, infelizmente), com reduzida expressão nos negócios do mundo. Dessa realidade compartilha, necessariamente, a nossa intelectualidade.E no entanto, o seu papel no que concerne à vida política interna e respectiva luta de classes, despertou um interesse e atingiu uma exemplaridade laboratorial, digamos, de nível e valor universal. Assim o venho afirmando há várias décadas, deixando registo aqui e acolá; muito particularmente, em relação à Revolução de 1974/75.No contexto apontado, o caso dos intelectuais portugueses - por estatuto profissional, por actividade, ou opção - resultou de tal forma esquemático, que o torna de simples recorte. Comecemos por recordar que a posição da nossa intelectualidade perante o regime fascista, durante a sua longa vigência de meio século (1926-1974), concita uma apreciação, quase unânime, de aprovação e louvor. Na verdade, a quase totalidade de duas gerações de trabalhadores intelectuais portugueses, sempre assumiu posições de resistência contra o poder totalitário da ditadura fascista. Honra lhes é devida. Não vem ao caso distinguir entre milhares de nomes. Não apenas de literatos, atenção; também artistas, músicos, cientistas, académicos, jornalistas, médicos, advogados, etc. Uns mais heróicos e sacrificados;  outros recusando, simplesmente, pactuar. Mas todos dignos do respeito dos seus concidadãos. Transcrevendo-me: “Eram raros os homens/mulheres de cultura que se confessavam adeptos do chamado Estado Novo. Quando tal sucedia, eram votados ao desprezo pelos seus pares”.Entretanto acontece o “25 de Abril 74”. Um golpe militar, contendo predisposição revolucionária. E, então, ficou declarada a “guerra de classes”. Num primeiro momento, aquela (sinistra) Junta de Salvação Nacional tranquilizou a burguesada nacional e internacional. Mas logo a seguir irrompeu o movimento popular, o MFA dos capitães radicalizou-se, Vasco Gonçalves 1º ministro, a descolonização, o 11 de Março, as nacionalizações, etc. O pânico instalou-se nas hostes reaccionárias: ...ó Carlucci manda vir já os porta-aviões... acudam reaças europeus, mandem dinheiro, muito dinheiro, o meu partido é socialista só a fingir; temos que pagar a bandos de arruaceiros terroristas para acabar com os comunistas; etc. (A voz off é de M. Soares).E enquanto os burgueses ricos fogem para os Brasis e Espanhas, uma substancial fatia dos intelectuais progressistas descobrem-se filhos, amantes e putativos herdeiros dos bens e privilégios da burguesia. Arrivistas da 1ª hora, correm a inscrever-se nas fileiras da contra-revolução, prontos para as alianças mais escabrosas e indignas. Muitos vão colaborar em jornais e publicações financiados por capitalistas exilados e serviços secretos estrangeiros. O caso mais representativo foi o “Jornal Novo”. Financiado e dirigido pelos capitalistas do Grupo CUF/Melos e funcionando no palacete do velho patrão, lá se acolheram dezenas dos “novíssimos reaccionários”... incluindo o intelectual heterodoxo Eduardo Lourenço. Uma outra numerosa parcela da intelectualidade - estudantil/maoísta, afim, ou de recrutados na altura - em acções de rua e nas escolas, ainda conseguiu superar o fervor dos seus maiores, mantendo o clima de agitação propício à conspiração contra-revolucionária.Nestes termos, em Portugal, no ano II da Revolução Libertadora, e no quadro da luta revolucionária/luta de classes, foi possível observar aovivo, a súbita mudança de campo dos clérigos intelectuais, a catarse das suas reais propensões de classe, mal soou a hora do combate decisivo (a traição, como diriam aqueles tristes Bendas na primeira metade do séc. XX). Servirá para alguma coisa, ficará como ensinamento, a fulgurante reconversão dessa gente letrada de alienação progressista, em “lacaios do imperialismo”? (outra expressão caída em desuso; mas, para a qual não encontro nenhuma mais apropriada). Talvez possa, apenas, contribuir para melhor definir a famosa “identidade portuguesa”... na vertente relativa aos bacharéis provincianos.Eles aí estão, 30 anos depois da sua espectacular deserção, todos amesendados, um a um, na manjedoura capitalista. (ver lista nominal completa dos colaboradores do extinto “Jornal Novo”, do “Tempo”, de “O Jornal” e outros pasquins de jurado credo no “socialismo de rosto humano”). Hoje ocupam toda a comunicação social (incluindo, como capatazes, a de propriedade capitalista), os aparelhos partidários e o do estado burguês, trocam benesses, regalias e prémios; e, finalmente, podem extravasar - por via das reformas administrativas - todo o ódio contido contra a classe trabalhadora, que ocultaram durante anos de hipocrisia e malabarismos.Vozes espúrias, mesmo aqui neste pátio das traseiras da Europa, clamam agora contra a “cobardia dos intelectuais”. Tarde piastes, prezados vigilantes. Eles - os cobardes prósperos - estão firmemente implantados no terreno, com raízes que ainda colhem seiva no “anterior regime”. Muitos sinais, quer aqui dentro, quer externos, indicam que eles - os intelectuais mediáticos, os novos reaccionários - podem acabar por se reencontrarem como neoliberais filofascistas.Vozes mais antigas - nuns remotos anos 80 - já se queixavam do “Silêncio dos Intelectuais” portugueses. Entre as quais, curiosamente, a de Eduardo Lourenço.APORIA 3 – O Intelectual Eduardo Lourenço perante a PolíticaCom efeito, o nosso pensador - um tanto paradoxalmente - escreveu por esses anos de intervenção política activa, um libelo condenatório sobre o silêncio a que estariam remetidos os intelectuais lusos. Texto esse destinado a um colóquio internacional realizado na cidade francesa de Nice. Foi traduzido e publicado, cerca de cinco anos depois - a 16 de Março 1985 - no semanário “Expresso”, com autorização do autor: Por se manter o interesse e a actualidade da análise nele contida, consoante alega a redacção do jornal.Com mais 20 anos por cima, o texto permanece, de facto, ainda hoje, um útil auxiliar cartográfico para quem pretenda orientar-se no labirinto ideológico/militante de EL. Na medida em que nessa intervenção para auditório estrangeiro, ele critica o papel da intelectualidade lusa no quadro da história contemporânea de Portugal; em particular, no período revolucionário de 1974-75. Recordando, em primeiro lugar, o “anterior regime” (como sempre prefere grafar), Ed. Lourenço reconhece ter existido na época, uma certa hegemonia marxista, numa frente cultural progressista que o Regime suscitou contra si; mas logo anota que alguns opõem uma resistência ideológica não menos determinada a esse marxismo. (Ele próprio, marcando distâncias... heterodoxas). Vindo do céu militar (sic), ocorre o 25 de Abril. Prossegue na descrição da vivência cultural do momento, não esquecendo frisar a existência de muitos intelectuais que “não são marxistas ortodoxos”; mais as novas gerações esquerdistas de várias obediências, que são as que irão fazer-se ouvir nos jornais, na rádio e na televisão”... Merece-lhe referência, o Jornal Novo que reúne um punhado desses escritores ou intelectuais, socialistas e liberais. Afinal, pelos vistos, as carências, as ausências, o silêncio dos intelectuais, cuja denúncia era o tema da comunicação aos seus confrades em Nice, tinham-se desvanecido. Pelo contrário, uma denodada falange de socialistas liberais - na qual o nosso homem ocupava lugar voluntário - estava decidida a barrar o caminho a uma tentativa militar-marxista. Escreve depois: A Revolução que iria mudar de figura após o 25 Novembro de 1975. O sublinhado é meu, evidentemente. Já tenho escutado as mais extravagantes interpretações heterodoxas relativas ao Processo Revolucionário Português; mas esta de mudar de figura deixa-me... de cara à banda. De imediato, inconsequente, culpa os intelectuais que teriam falhado, mais uma vez, na sua missão. Nova reviravolta, eis que descobre um pequeno número de intelectuais, feitos jornalistas de urgência revolucionária... os criadores de mitos, os autores dos diagnósticos mais pertinentes sobre a situação nacional. O nosso homem, novamente, na 1ª linha dos criadores de mitos e diagnósticos.Na parte final da sua exposição a inocentes literatos estrangeiros, atira-lhes com uma inesperada bomba: O “regresso” de Salazar... esse previsível volte-face... com a queda de Mário Soares (exonerado por R. Eanes, em Julho de 1978) volta a sair das sombras o fantasma mal recalcado de Salazar... saem novos ou velhos mestres da contra-revolução... Eduardo Lourenço deve ter deixado a assembleia de Nice, estupefacta, de boca aberta. Nãoécasoparamenos: Contra-Revolução salazarista em 1978, dirigida por Ramalho Eanes !!!! A história da ruptura brutal do 25 de Abril (como textualmente escreve) conta com mais um mito lourenceano. Finalmente, enxergou uma contra-revolução... embora mitológica e fantasmagórica.Poderíamos terminar por aqui, considerando ter ficado exposta a fragilidade analítica de EL... na área política, em exclusivo, repete-se. Em princípio, devido ao seu preconceito anti-Marx(ismo); sobrecarregado por influências/obediências resultantes de um alinhamento partidário... incompatível com um pensamento (razoavelmente) independente.Falta, porém, pôr em evidência - e deixar registado - que o essencial da tese desenvolvida no texto de 1980 (ratificado em 1985, e jamais enjeitado ou revisto pelo autor até aos dias de hoje) é a obliteração (l’effacement, jáquevoltámos aos salõesqueirozianos) dacontra-revolução defachadasocialista de 1975. Ou seja: o nosso intelectual, observador engagé dos avatares revolucionários portugueses, não deu pela presença do embaixador americano Carlucci e manejos do imperialismo; também não lobrigou a campanha terrorista anticomunista dirigida pelo ELP e padralhada caceteira; não se apercebeu dos movimentos independentistas na Madeira e nos Açores; considerou invisível a conspiração dos militares ditos moderados; etc, etc. Nem deve ter percebido que a espórtula que recebia pela sua colaboração no “Jornal Novo”, provinha dos fundos da Família CUF/Melos... grandes amigos de Salazar e - ó maravilha - também do “socialismo de rosto humano” do Dr. Soares.A sabedoria popular costuma frisar que “O pior cego é aquele que não quer ver”. O que em política - e no comportamento humano elementar - se traduz por: as pessoas só se apercebem (só inscrevem) aquilo que lhes convém; para garantir/atingir as suas ambições pessoais e os seus interesses de classe. E fazem-no, na maioria dos casos, automaticamente; isto é, sem cálculo malévolo. No entanto, la raison oblige:  isto é, os intelectuais críticos - e não apenas os heterodoxos - devem prestar maior atenção aos seus flancos e retaguarda.Nas suas confabulações sobre o destino da grei lusitana, EL confere enorme relevância aos traumas e aos mitos. O trauma/mito do Império, por exemplo, é recorrente em toda a sua obra, tornando-se mesmo obsessivo. Chega a considerar a independência das colónias africanas como “o maior trauma da história de Portugal”. Curiosa/sintomaticamente, não reconhece o binário dialéctico Revolução 74/Contra-      -Revolução 75, que tão fortemente continua traumatizando a sociedade portuguesa, condicionando o seu destino... tendo provocado um terramoto na boa consciência dos intelectuais antifascistas, ditos progressistas.EL ainda saudou (inscreveu) o 25 de Abril... a “divina surpresa”, como lhe chamou. O que se regista a seu favor, pois outro colega, o filósofo José Gil, só inscreveu, no seu sismógrafo político, um sobressalto. Mas quanto ao segundo termo dialéctico, EL afasta-o para o “regresso dos Bourbons” (são os automatismos da velha cultura afrancesada... que também afligem EL). Assim, com uma dialéctica amputada - à qual corresponde uma compreensão igualmente amputada - permanecerá por longos anos, a repetitiva e angustiada questão: Como chegámos a este ponto (de baixa mística)? Para abreviar, com vossa licença, respondo “à americana”: Foi a contra-revolução, estúpidos.Creio, efectivamente, que 1985 foi um dos anos charneira no trajecto profissional de EL. Um crítico admirador (Arnaldo Saraiva, em “Cartografia Imaginária”) afirma que “...até ao 25 de Abril a sua voz não se fez ouvir... com esse grande abalo, saíu do seu retraimento”. A discípula, biógrafa e entusiasta “lourenceana” M. M. Batista, reconhece (em “A Paixão de Compreender”) que: “pela primeira vez, em 1985, tomei contacto com a obra de EL... apesar de pouco conhecida... um quase ‘segredo”.Embora pareça excessiva tanta invisibilidade (que não existia para mim, contemporâneo de EL, desde um remoto Colégio Militar), julgo ser correcto fixar em 1985 o início do sucesso mediático, com a divulgação sustentada da sua obra. O facto de o texto “O Silêncio dos Intelectuais” ter sido recuperado para publicação em Junho desse ano pelo “Expresso”, semanário referente da sociedade burguesa, pode ter funcionado como ‘atestado de credibilidade’. O Sistema (grosso modo, a burguesada parola/capitalista, submissa aos ditames do imperialismo dominante) não ama os intelectuais, como é sabido. Serve-se deles. Desconfiava de EL: muito hermético, imprevisível, com fumaças de espírito independente. Esteve à experiência. Finalmente concluíram que dali não viria perigo algum para a estabilidade do edifício. E só imaginar se pode o que mais teriam congeminado.Num excelente livro/ensaio sobre EL - “O Regresso do Corifeu” (editorial Notícia, 1998) - M. Manuela Cruzeiro aborda Os Paradoxos da Ética Política, partindo de uma citação do próprio EL em que ele afirma que foi sua pretensão “deslocar a habitual perspectiva política para um horizonte (diferente) simultaneamente cultural e ético”.Ora, de certo modo, como transparece, o meu “cerco” ao reputado filósofo doublé de comentador político, procura, exactamente, identificar o seu status ético. Os paradoxos em que teria incorrido o heterodoxo EL aproximam-se da noção de aporia: no sentido que retiro do Dicionário Etimológica de José Pedro Machado, de embaraço, dificuldade, dúvida; em resumo: incerteza.M. M. Cruzeiro debate-se com essa incerteza, na companhia do seu personagem, através das magníficas vinte últimas páginas do seu ensaio... que, em si mesmas, constituiriam uma outra aporia a debater... se ocasião houvera. Também julgo, com a autora, “que toda a reflexão política de EL é atravessada por um equívoco, não apenas intuído, mas claramente vivido...”. Eu diria mesmo... claramente exposto. EL refugia-se amiúde no seu labirinto mental. Mas não veste a pele do fariseu social. As suas posições/opções de carácter ideológico e político transparecem claramente naquilo que escreve. Sente-se infeliz no seu papel de interveniente, de intelectual engagé? Prestes a abandonar uma passagem efémera pelo “mundo envenenado” da política, como pensa M. M. Cruzeiro? Seria uma incógnita em meados dos anos 90. Mas o mundo (incluindo, o envenenado) continuou a girar. E EL continuou a não resistir ao “bichinho” da política. Podem assinalar-se várias intervenções suas nesse campo, até e no corrente ano de 2005. Quase todas sobre a Europa... que o desencanta desde 1993 (cf. bibliografia). Mas estou a folhear uma revista “Visão” (PS) de Agosto. Lá está o nosso comentador botando sua opinião sobre a “seriedade política dos dois virtuais candidatos às eleições presidenciais”. Seriedade de Mário Soares? Então, evaporada está a lucidez de quem, num longínquo 1982 (“O Jornal”, 19 Dez.), lhe chamava “o autocrata que se ignora”, “o caudilho à sul-americana”, “o malabarista de recursos inesgotáveis”, etc.Entretanto, como atrás se mencionou, EL foi galardoado com o Prémio Camões em 1996, cooptado administrador da Gulbenkian em 1999, subiu ao palco da SIC em 2004. Pode ser que seja coincidência (mas também pode ser que não seja), mas o facto é que, desde que ficou consolidada a glória mediática de EL, o “malabarista” Soares, passou a funcionar como fanal ideológico do filósofo da cultura... nas posições europeístas, antiamericanas, contra globalização, etc. Um novo Soares rejuvenescido aos 80 de idade, lutador anti-imperialista !!... Só dá para acreditar por quem é tolo, ou quer mesmo acreditar. Ora EL ainda não está tonto.Subiu voluntariamente, pelo seu pé, ao trono da SIC para se deixar coroar por Herman José. Em 1997, o socialista de esquerda, Mário Soares, grande vencedor da contra-revolução de Novembro 75, subira também os mesmos degraus para receber das mãos do seu dear friend Frank Carlucci (socialista de rosto humano, infiltrado na CIA) a coroa de rei de opereta.Pode ler-se na Internet, em blogues datados de Out. 2004: “O que se seguiu foi um dos momentos mais acabrunhantes e vergonhosos que alguma vez vi em directo”... “No fundo, no fundo, o homem foi sempre um mestre-escola deslumbrado com o brilho alheio. Exilado, a revolução fez dele o bonzo do regime democrático. Ele acreditou. Coisas do destino mítico...”.Cada qual julgará a posição de EL perante a situação política vigente no nosso País e no mundo. Ou seja, se ele conseguiu manter a sua intervenção político/intelectual dentro dos terrenos da cultura e da ética... como afirmava pretender; ou se isso foi apenas uma declaração de intenções sem qualquer consequência numa conduta prática (praxis), ditada imperativamente por uma opção de classe (burguesa), abraçada em pânico por EL, logo que se desenhou a hipótese de uma revolução após o 25 de Abril. Em resumo: decidir se Eduardo Lourenço é um intelectual no sistema (estar: sem compromissos com o poder da classe dominante); ou, pelo contrário, se se converteu em intelectual do sistema (ser: parte do...). APORIA 4 – O Paradigma do Intelectual MediáticoQue E.L. esteja convertido em intelectual mediático não oferece dúvida. É um facto comprovado por um percurso biográfico - mormente após o 25 de Abril - de sucesso público; e pelas consagrações multiformes que o sistema lhe tem vindo a conceder. Disso não lhe cabem responsabilidades, foi a contragosto que lhe sucedeu? Não colhe a pergunta. Gosta da sua projecção mediática... e não pouco! Trabalhou - é indiscutível - para realizar essa ambição. Ambição, aliás, mal dissimulada. Desde logo, na “Carta Aberta a um Português que ainda não foi a Belém”, que saíu publicada no Diário de Lisboa em 11 de Maio de 74... isto é, escassos 15 dias depois da vitória revolucionária. Carta, na verdade, dirigida a ele mesmo, recém chegado da Côte d'Azur, sangrando-se de um entusiasmo precipitado na adesão aos novos poderes. Desse ponto, até ao prémio de carreira SIC em 2004, vai todo um arco de 30 anos de carreira mediática; que ele assumiu em directo pela televisão, embora algo embaraçado: “ Os meus amigos devem estar admirados de me verem aqui. Eu próprio estou admirado”. Para concluir, vencido: “Pois é... a sociedade do espectáculo acaba sempre por levar a melhor”.Estabelecido este paralelo, EL emerge como modelo paradigmático. Deve, porém, fazer-se notar que o seu caso não corresponde ao paradigma extremo (estereotipo); aquele que - por exemplo et pour cause - provoca violenta condenação à intelectualidade progressista francesa: os aduladores servis do imperialismo americano e da Nato; da ditadura da globalização económica; da destruição do estado da solidariedade social; enfim, do combate sem quartel aos trabalhadores, com simultânea exaltação das supostas elites e classe exploradora. EL é mais comedido (alguns diriam mais esfíngico; outros, mais disfarçado). Seja como for, tem manifestado, recentemente, uma salutar capacidade de indignação. Desde a 1ª Guerra do Golfo (1991), nitidamente em 1999, ano do infame desmembramento da Jugoslávia, com o bombardeamento de Belgrado pela aviação americana, etc, EL não poupa críticas - algumas violentas - à agressividade da política expansionista dos EUA; à apatia e submissão da Europa; condenando, nomeadamente, a cobardia da maior parte dos intelectuais do Velho Continente. Esta sua atitude consta de vários artigos publicados na imprensa nacional (ver Revista Visão) e no volume “A Europa Desencantada” (ed. 2005). Trata-se, por conseguinte, de uma posição distinta (pela positiva) da posição dos arautos da globalização neoliberal made in USA, os novos reaccionários, tal como são apodados em França. No entanto, não quer isto dizer que numa nova contracurva do seu labirinto mental, não venha EL a mudar de opinião. Já em 2004, a Europa começa a ser acusada de “suicidária”; em Maio de 2005, no diário Público, chama ao “Não” francês à Constituição europeia “A Débacle Branca … que só tem paralelo simbólico na débacle de 1940”. Ora, a confirmar-se um novo alinhamento com M. Soares, outras contraversões são de aguardar.Não obstante, existirá sempre a favor de EL, a sua vasta obra de pensador apaixonado por compreender, a sua alta qualificação como crítico literário e artístico, o valor estilístico da sua prosa, a merecida reputação como filósofo da cultura, dentro e fora do País natal... e muitos outros atributos e talentos nos domínios em que pode considerar-se uma indiscutível autoridade: da Filosofia, da Literatura, da Cultura; e do Saber no sentido geral e universal. Em contrapartida, penso que a intensa e teimosa intervenção de EL na área política e ideológica está excessivamente motivada por razões subjectivas e de opção burguesa. O que em nada concorre para a sua glória e reputação intelectual.Resta acrescentar que o paradigma do intelectual mediático – neoreaccionário -, só agora no séc. XXI, reconhecido e repudiado em terras gaulesas, possui entre nós, nestas mansas terras lusas, um modelo precoce de recorte muitíssimo mais chocante; diríamos mesmo, porno-gráfico. Com efeito, a “débacle” ética/moral da burguesia portuguesa, provocada pela surpresa do 25 de Abril e pela subsequente luta de classes, deu (também) origem a uma contra-revolução cultural, que antecipou em Portugal a espantosa e fulminante transformação de uma comunidade cultural e intelectual de passado honroso, numa matilha de cães de guarda, disputando favores a políticos e patrões; sacrificando a dignidade por uns míseros nacos de espaço mediático. É um paradigma que permanece actual e operativo - pois a contra-revolução política continua, acompanhada de sua vertente cultural. Portugal constitui na Europa, certamente, o mais antigo e fiel caso de subserviência “democrática” da intelectualidade mediática à nova ordem cultural do império capitalista.O choque da contra-revolução - o trauma da restauração de um poder que se acreditou banido para sempre - deixou na “identidade nacional” um estigma de incapacidade e impotência, cujos efeitos na autoestima colectiva e no respeito de uma comunidade por si própria, aí estão, à vista de todos... traduzidos na desmoralização do regime democrático; no aborrecimento dos portugueses por terem nascido num País que - mais uma vez - demonstrou não ter emenda. APORIA 5 – Opção Ideológica e Prestação IntelectualÀ primeira vista, o enunciado desta aporia não abre nenhuma “dúvida plausível”. Pois parece evidente que a opção ideológica qualquer que ela seja, determina - ou, no mínimo, influencia - a prestação intelectual. Porém, depressa surgem algumas hesitações. Uma primeira diz respeito a uma definição relativamente rigorosa do 1º termo; ou seja, “opção ideológica”. (Mais complicado seria ainda, se tivéssemos utilizado a expressão marxista “opção de classe”). Haverá um momento temporal - um lapso curto de tempo - para assumir uma posição ideológica consistente? Talvez... mas só em condições excepcionais, de grande tensão dramática. Nos casos correntes, a opção ideológica (de classe, se preferirem) ir-se-á construindo/reconstruindo no dia a dia pelo somatório das decisões e atitudes.No entanto, existe uma condicionante inicial que não é lícito, que é impossível, ignorar. Trata-se de “circunstância”; da circunstância em que se vê o individual humano que começa a ter consciência da sua existência. A época... o local... o meio familiar e o meio social envolvente... o seu papel em cada um desses grupos humanos... as crenças e crendices prevalecentes (a ideologia, grosso modo)... a educação... etc. Junte-se a todas essas variáveis um lastro psicológico congénito sob constante pressão exterior... e teremos uma problemática de difícil dilucidação.Porque não somos especialistas, porque estamos... em época... em local... numa sociedade governada por critérios de filosofia prática (pragmática, como usam dizer), proponho que, nesta circunstância, o conceito “opção ideológica, ou de classe”, seja substituído por “projecto de vida” ou, melhor ainda, por “ambição de vida”.Aplicando esta rudimentar ferramenta interpretativa no caso-estudo que nos vem ocupando - o intelectual mediático Eduardo Lourenço - algumas indicações generalizantes poderemos ir recolhendo.O futuro filósofo nasceu nos anos 20 (1923), numa aldeia do concelho de Almeida (Guarda), em família modesta, mãe tradicionalmente religiosa, pai militar saído oficial da 1ª Guerra Mundial, sete irmãos. Frequentou, durante seis anos, o Colégio Militar em Lisboa, onde completou o curso dos liceus e dispôs de apoio social (existia, na altura, uma mútua filantrópica). O internato no C. Militar deve ter representado um enorme trauma, a avaliar pela ausência quase total de referências ao período. Licenciou--se em Coimbra (Bacharel em Filosofia), onde se demarcava das correntes intelectuais maioritárias de influência marxista, autoconsiderando-se heterodoxo (1º livro, 1945, “Heterodoxia”). Na primeira oportunidade, cumprindo o destino (sonho! projecto? ambição!?) das populações do interior serrenho emigrou para França... onde casou com uma francesa loira (como sublinha). Instalou-se e leccionava em Nice (Côte d'Azur) no dia 25 de Abril de 1974. A sua carreira posterior é pública e notória.Eduardo Lourenço não é um caso sui generis... nem entre os portugueses em geral, nem entre os intelectuais, onde abundam os estrangeirados de todos os tempos, feitios e capacidades. Pelo contrário, pode considerar-se um caso típico; incluindo, notoriamente, a sua prestação pós-revolução de Abril.A outra precisão necessária diz respeito ao 2ºtermo do enunciado. Por “Prestação Intelectual” apenas temos em mente, nesta circunstância, a obra escrita (ou transcrita) de natureza literária, filosófica, ensaística, crítica.No início deste trabalho, declarou-se que “os núcleos filosófico e literário da obra de E. Lourenço não serão objecto de atenção privilegiada”... a qual esteve focada prioritariamente - como atestam as páginas anteriores - sobre o núcleo de ensaios e comentários relativos à política portuguesa. Todavia, logo se acrescentou que “os campos da história, da política, da cultura e sua filosofia, estão de tal modo imbricados que resulta impossível delimitar-lhes fronteiras impermeáveis ”.Ao abrigo dessa ressalva - e tendo vindo a reconhecer que a figura de EL representa um dos melhores paradigmas/referência (senão o mais completo) do intelectual português nos últimos 60 anos (1945.2005) - permitir-nos-emos algumas considerações finais de carácter mais abrangente... com validade igualmente abrangente, queremos acreditar.A obra de EL aparece (me) dominada pela analogia topográfica do labirinto. Fenómenos intrincados, dédalos mentais, curvas e contracurvas do raciocínio, enleios e súbitas iluminações, etc. Tudo bem. Será a demanda da gnose, a eterna dúvida sistemática dos filósofos e pensadores de todos os tempos.Só que, entretanto, todos nós - intelectuais e leigos - íamos vivendo os restantes 30 anos do regime fascista, uma revolução seguida de imediata contra-revolução restauracionista, mais outros 30 anos de democracia burguesa filofascista, até ao presente Ano V do séc. XXI da era J. Cristo. Neste dilatado espaço de tempo histórico, a totalidade dos intelectuais portugueses fez o seu percurso sem mostrar nenhuma especial dificuldade em se orientar no labirinto das opções ideológicas... acabando, a grande maioria, por se acomodar, mais ou menos confortavelmente, na superveniente sociedade de consumo dominada pela classe burguesa/capitalista. E. Lourenço é disso perfeito exemplo.Há portanto aqui qualquer coisa que não bate certo. Uma flagrante contradição existencial. A uma insistente angústia, proclamada até ao presente com sonoridades dramáticas... “Quem somos ?... Para onde vamos?... Como chegámos a este ponto de desânimo?... A esta maré-baixa de auto-estima?... Etc, etc.” corresponde uma conduta ética de tranquila adaptação ao sistema.O labirinto é então, simplesmente, uma figura de retórica? Ou um simulacro habilidoso, um esconderijo para um pensamento inseguro? Poderá não ser exactamenteassim; mas fica a pairar a sombra dos estigmas do Velho Portugal: uma certa manha camponesa; algum contumaz deslumbramento provinciano; a resignação fatalista que, num plano elevado de cultura, se aproxima da capitulação.Afinal, a famosa “identidade portuguesa”... outro tema obsessivo, agora em moda mediática com público consumidor assegurado. Não se percebe bem se EL a considera imutável, forjada no século dos Descobrimentos, cristalizada na geleira salazarenta; ou se, pelo contrário, essa identidade está sujeita às mutações vulcânicas dos tempos modernos... que tanto assombram o pensador ensaísta. No todo, os dois pontos de vista antagónicos resultam num responso plangente sobre “Aquilo” que EL entende que somos. Confesso estar mais perto desse espírito, do que na possibilidade do surgimento de um mirífico homem-diferente... aqui, neste pátio das traseiras da Europa; ou, valha a verdade, em qualquer outra parte do mundo. Enfim, quero acreditar que a recomendação socrática: ”Primeiro, conhece-te a ti próprio” tenha refreado, de algum modo, os delírios/delícias intelectuais, respeitantes à epopeia democrática da pequena burguesia nacional, que emergiu triunfante no 25 Novembro 75. Aquela que... “a caminho do socialismo” (outra paixão funesta de EL)... logo virou à direita a caminho do bem-estar e sucesso individual.A obra do nosso consagrado ensaísta está recheada de alusões a mitos imaginários, a sonhos imperiais, medos, traumas, glórias. O que, provavelmente, traduz o clima de nevoeiro racional em que este nosso bom povo temente à Santa Igreja e ao Poder Constituído, tem permanecido mergulhado durante séculos. Tudo bem. Só que esse mundo adormecido/fossilizado foi brutalmente sacudido pela ameaça de uma revolução social “ao vivo”, provocada pelo 25 de Abril 74. E então todos os nefelibatas acordaram esbaforidos: os intelectuais que sonhavam com a revolução ideal (deles); a burguesia reaccionária que, de calças na mão, fugiu para Espanhas e Brasis; a pequena burguesia meio-reaça, apavorada com a sorte dos dois palmos de terra, lá nas fragas serranas. Foi um ver se te avias, como é sabido. Foram numerosos os que abandonaram mitos e ilusões e se alistaram nas forças contra-revolucionárias sob comando da dupla Carlucci/Soares. Entre eles, intelectuais não faltaram. E. Lourenço incluído, com militância destacada (ver Aporia 3). Venceram em 25 Novembro, abrindo as portas ao regime indecoroso de corrupção e saque partidário, que hoje criticam angustiados. (Simulando labirintos indecifráveis?). Esse foi o trauma, O Grande Trauma histórico que ainda hoje atormenta a memória e a (baixa) consciência da burguesia restaurada. (EL procura situá-lo no fim do mito imperial ... a independência das colónias). A classe dominante - a burguesada do ancien régime, filhos, herdeiros e dependentes - nem quer ouvir falar da Revolução; e, muito menos, recordar o cagaço, o miserável papel que desempenharam na altura. O mínimo preço que os intelectuais mediáticos têm que pagar para continuarem a ser acarinhados pelo sistema, é o effacement desse período. O olvido total. “O 25 de Abril Nunca Existiu”, escreveu E. Lourenço, em 1976, como de ironia insuperável se tratasse. Pois tornou-se realidade pouco depois... até aos dias de agora. E mantenha cuidado: o 25 de Novembro, ainda menos existiu no catecismo vigente do “politicamente correcto”. Para terminar, de modo circular, este extenso comentário subordinado ao tema genérico: O Intelectual perante a Política, nada mais adequado que ir buscar um outro intelectual mediático português de fama equiparável a E. Lourenço e mesma aculturação afrancesada: Eduardo Prado Coelho. Por feliz coincidência escreve ele no jornal “Público” de 19 de Agosto corrente, estava eu em vias de fechar o texto. Transcrevendo: “Hoje grande parte dos intelectuais é apolítica ou situa-se claramente à direita, sem que isso seja ideologicamente pertinente. Tem a ver com a evolução em sentido único do pensamento económico e com o facto dos esquemas económicos dominarem o pensamento em geral. Hoje, não há propriamente ideologia: por outras palavras, a ideologia é a economia”. Fimde citação. Dá para estarrecer... e para compreender até que ponto tem que se rebaixar um intelectual de inegável capacidade cultural, para ser aceite pela burguesia analfabeta que detém o poder económico. Podia resumir-se o pensamento ético do intelectual E. Prado Coelho numa simples frase: “A minha ideologia é o dinheiro. Recomendo-a”. É o cinismo em todo o seu esplendor. Sem labirintos nem hesitações. Faz escola por todo o mundo globalizado democrático/capitalista. Sim, ainda há intelectuais que resistem. Entre nós e em muitos países. Mas estão cercados e isolados.Eduardo Lourenço não está, certamente, próximo da posição de E. Prado Coelho, que representa uma situação limite de total capitulação ideológica e intelectual.Todavia, num plano diferente - dialéctico -, uma derradeira dúvida perpassa pelo espírito do escriba deste texto. A seguinte: se um observador profundamente empenhado de corpo e alma na realidade política portuguesa - como EL -, cujas análises nesse domínio não conseguiram manter-se isentas de influência ideológica e político/partidária, conseguirá noutras disciplinas sociais - arte, literatura, filosofia - exercer um magistério crítico de baixo (inócuo) teor de subjectividade. Pode ser que sim... pode ser que não. Mas creio que é legítimo deixar colocada essa “dúvida razoável”. Em Tempo. Sinto que tenho de me desculpar perante os eventuais leitores, do uso excessivo de francesismos. Querocrerquefuivítimade um efeito mimético... que atinge o indígena enraízado, quando se atreve a comentar um literato de créditos firmados na estranja. O mesmo efeito pode ser responsável por um (involuntário) arremedo do estilo labiríntico... que não é, de todo, o meu. Um raciocínio claro-escuro que propõe muitos atalhos, deixando incógnito qual deles conduzirá à saída. Disso, igualmente me penitencio. Lisboa, Agosto de 2005 Fez) J. Varela Gomes

publicado por samizdat às 16:39
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 20 de Junho de 2008

A INSUSTENTÁVEL MISTIFICAÇÃO DA ECONOMIA PRIVADA

J. Varela Gomes

           
Num primeiro impulso escrevi coerência em lugar de mistificação. Incoerência, na medida em que os resultados do funcionamento do mercado livre e da iniciativa privada num neoliberalismo globalizado, não apresentam correspondência com as maravilhas anunciadas no discurso doutrinal. Muito pelo contrário.
            Alegam os prosélitos da economia de mercado livre que o facto dos resultados mediarem entre o medíocre e o desastroso, se deve a uma larga variedade de condicionantes que, raramente (quase nunca!) lhes são assegurados. Por quem ? Pelos governos, pelos deuses, pela “mão oculta” dos liberais do séc. XVII, pela ASAE ou outra polícia ? Ora, a bem dizer, o argumento já é, em si, uma mistificação. As alegadas variáveis podem cifrar-se em centenas, desde as petroleiras e mais as climáticas....até àquela borboleta marota que bate as asas na China para descontrolar a bolsa de Nova York
            Mas, para além da lógica mistificadora, os ardorosos advogados da receita neo-lib suscitam justificada desconfiança quanto à honestidade dos seus propósitos doutrinários. O facto é que o pessoal já os conhece de ginjeira. Desde o comércio medieval (para não ir mais longe) até ao moderno capitalismo, nunca ninguém acreditou no altruísmo ou numa solidariedade dos “agentes económicos” quando deixados à solta num idealizado mercado concorrencial. Nem os próprios. Lucro máximo é o deus supremo ao qual tudo sacrificam. A começar pelos princípios e a decência. A mistificação é insustentável.
            Disso não faltam provas. Quer a nível global, quer a nível de região, de país, de comunidades e sectores diversos. Ainda no século passado podia parecer extravagante a previsão de virem a ser os empresários privados a governar o mundo. Mas nos dias de hoje esse delírio está a converter-se em calamitosa realidade. Imposta ao mundo pela força agressiva da super potência americana, a doutrina do neo liberalismo global apresenta já um saldo assustador de tragédias humanitárias e de crises económicas. A especulação financeira, provocada e mantida pelos grandes conglomerados de capital privado, está desarticulando por completo o precário equilíbrio entre as classes e as nações, atingido após a 2ª Guerra Mundial. O flagelo da fome voltou, a pobreza alastra, milhões vagueiam por estradas e campos, pagam com a vida a fuga à miséria. Entre ricos e pobres o fosso aprofunda-se....e o ódio também. O medo e o desespero corroem o ânimo de pais e filhos. São esses os resultados - em focagem abstracta, esquecendo o sofrimento - de duas escassas dezenas de anos do poder absoluto da classe burguesa capitalista, em nome de uma insustentável mistificação das potencialidades e virtudes da economia privada .... privatizada ....ou a privatizar.
 
            Porém interessa, particularmente, observar o caso português na actualidade. Desde logo, por que diz respeito a nós portugueses e lhe sentimos os efeitos na vida quotidiana; através da pele, pelas acrescidas dificuldades materiais; através dos sentimentos, pela acrescida dificuldade em ter orgulho no país em que nascemos. Acresce que aqui, neste Portugal restaurado no seu ancestral provincianismo bacoco, entre o respeitinho cobarde e o alarvismo do chico esperto, encontram-se excelentes condições de análise : com nitidez flagrante distinguem-se as sucessivas etapas do processo de apropriação do Estado pela corporação do empresariato capitalista; simultaneamente, ficam a descoberto a incompetência e a mendicância dos membros dessa corporação - a classe dominante burguesa.
            Com efeito, a corporação dos privados com a sua famosa iniciativa, dá espectáculo permanente sobre o modo como entende o liberalismo do mercado. Vive, sobrevive, prospera ou afunda-se, sempre de mão estendida para o poder político (isto é, para o Estado), implorando ou exigindo (consoante a correlação de forças), apoios, ajudas, privilégios, benesses, subsídios, etc; simultaneamente, reinventado direitos feudais que procuram remeter - no séc. XXI ! - a classe trabalhadora para a condição de servos da gleba.
            Explicitamente, vezes sem conta, centenas de suplicantes – empresários e proprietários, ferozes adeptos da iniciativa privada – invocam o nome do Grande Dispensador para que lhes acuda na aflição ou na ganância. O nomeado ! Todos o querem, ninguém o adora. Alto está. alto mora. O Estado ! Esse Monstro demoníaco secretamente desejado, para ser comido em ânsias de canibalismo possessivo. O primeiro e o último recurso, o alfa e o ómega, da economia....privada .
 Sim, é facto, dá para zombar, para escarnecer dos “chulos” do erário público, travestidos em liberais, em campeões de um mercado global, livre de peias e de fronteiras Caros mistificadores : Vocês, sem a ajuda da “mãozinha oculta do Estado”, nem uma cantina conseguiriam gerir. Alguns, mais atrevidos, chegam a propor o definhamento/abolição da administração e do sector público. Banqueiros anarquistas !? Era só o que nos faltava. Um desses espécimens, imaginado por F.Pessoa vai para um século (1922), argumentava em nome da liberdade individual; a qual já tinha garantido para ele próprio enriquecendo na banca. “Confesso que não olhei a processos; empreguei tudo quanto há – o açambarcamento, o sofisma financeiro, a concorrência desleal .... Ora eu trabalhava pela liberdade e havia de olhar às armas com que combatia a tirania ?! Pois é! Basta substituir anarquista por democrata de Novembro e.... já está.
            Após 32 anos de privatizações (1976-2008), de ataques de amplitude crescente contra o “Monstro” (o sector público), contra tudo o que cheirasse a Abril e ao espírito da Constituição, aí estão as estatísticas europeias (25 países) a revelarem os “magníficos resultados” da economia privada de obediência neo-liberal, cooptada pelos governos burgueses da governança neo-conservadora democrática. As estatísticas do Eurostad contam a história da ineficácia, da licenciosidade e libertinagem em matéria económica, criadas e fomentadas pelos governos da lusa democracia.
         Mas, na realidade, os habitantes do rectângulo sudoeste do continente europeu, não necessitam da prova estatística para se aperceberem da falência do sistema económico neo-lib/neo-con e da mistificação representada pelo seu sector de vanguarda :as empresas e o empresariato privado. Neste reduzido laboratório político/económico/sociológico, tão nosso conhecido e onde vivemos (para mal dos nossos pecados, quase sempre) a experimentação produz resultados fulgurantes.
            Sobre a economia privada a nossa gente - o nosso povo pensante - tem aprendido imenso. Vamos então passar os olhos por algumas das empresas privadas portuguesas que, de momento, fazem a glória do sistema neo-socialista só-cretino.
            O sector financeiro - banca e seguros- em lugar de honra, claro. Milhões e mais milhões de lucros que criam suspeitas no vulgar observador e ofuscam os arquimilionários administradores da privada, em alegre confraternização com políticos burgueses ex-pelintras da crava do café e cigarrinho. Entre as diversas “marcas” bancárias (incluindo a Caixa Geral empresa pública) não há diferenças nos objectivos e nos procedimentos. Todos pretendem esmifrar o pequeno depositante e facilitar a vida aos grandes tubarões. Competitividade ? Concorrência aberta ? Uma treta, responde a voz do povo. Pura mistificação. Na blogosfera circula uma carta dum cliente do BES que nesse banco adquiriu um empréstimo para aquisição de viatura. Enumera as taxas a que foi sujeito : 1- de abertura de crédito; 2- de abertura de conta ; 3- de extracto de conta; 4 - de manutenção de conta; 5 - taxa trimestral de garantia de 25 €; 6- taxa anual pelo cartão de crédito. Ficando sujeito às subidas arbitrárias dos juros. Tudo legal, regulamentado e autorizado pelo Banco de Portugal. E os milhões de lucros a que se destinam? Isso é com os senhores administradores, explica o Estado socialista liberal, aprontando-se para também privatizar a Caixa Geral e lá encaixar mais uma récua de militantes. São uns artistas na arte de repartir o bolo, escapar a impostos e inventar taxas--para o cliente anónimo.
            Nos seguros a música é a mesma, conforme é sabido. Publicidade aliciante, segurança garantida. Mas a verdade oculta dos contractos com as empresas privadas, só aparece no momento de respeitar qualquer seguro. A   mistificação vai revelar o verdadeiro artista da economia privada. Exemplo, para eventual blog : um m/familiar tinha o carro estacionado no parque reservado do bairro de apartamentos. A horas mortas, uma viatura em posição lateral incendeia-se e pega fogo ao carro do m/familiar, que fica meio destruído. Invocado o existente seguro contra terceiros, a companhia seguradora privada alegou : que a viatura que provocou o incêndio não tinha seguro; que o proprietário a tinha vendido recentemente; que o acidente não fora testemunhado; que o indivíduo que conduzia o carro que tinha provocado o incêndio não tinha seguro. Em conclusão, a Seguradora nada podia fazer Ao segurado restava-lhe comprar novo carro e fazer outro seguro mais dispendioso, prevenindo incógnitos futuros sinistros. Assim trabalha o sector financeiro na economia privada : indefectível na cobrança de créditos e na invenção de taxas ; artista consumado na mistificação dos compromissos e contractos.
            No sector económico, o mercado só é livre para as empresas privadas. Os clientes, os consumidores, a população em geral defronta-se com a ficção do mercado concorrencial, com a manipulação da lei da oferta e da procura. Designadamente nos sectores essenciais, ditos estratégicos: combustíveis, energia/electricidade, água, transportes, estradas, etc.
 A vertiginosa subida do preço dos combustíveis demonstra, com a máxima clareza, a falsidade da doutrina neo-liberal, quer a nível global quer nas economias nacionais. Em lugar do efeito miraculoso da “mão oculta do mercado” o que funciona é uma descontrolada especulação. O oligopólio (concertação entre os principais operadores) substitui-se à suposta competitividade existente na economia privada. Mas a “mão oculta” está lá : a do Estado burguês/capitalista acudindo para garantir o lucro do empresário amigo. Sempre assim foi, desde que Adam Smith no séc. XVIII fingiu acreditar na auto-regulação do mercado aberto.
No reino da hipocrisia socialista sócretina instaurado em Portugal, a mistificação do sistema económico neo-liberal assume evidência tautológica. De tal modo que estala até em contradições internas. Assiste-se a um fenómeno irónico : corporações do patronato saindo à rua para exigir a intervenção do Estado no mercado da concorrência liberal !!. São as empresas de transportes rodoviários; os industriais da pesca; os taxistas; os agricultores e outros proprietários de terras, florestas, etc, reclamando protecção, isenções, benefícios, ajudas para cobrir prejuízos. (Essa agora ! Então onde pára a famosa economia privada, com a sua a vocação para o risco e o horror ao Estado/Monstro? Afinal o sistema revela-se pronto a renegar a sua fé nas virtudes da livre iniciativa; e dá sinais de estar prestes a rebentar por implosão).
Entretanto, impõe-se perguntar pelas vítimas desta libertinagem económica, conhecida como mercado livre/concorrencial, sem fronteiras nem impedimentos de intrometidos Estados/Nação. Refiro-me ao cidadão comum, ao trabalhador por conta de outrem, ao vulgar consumidor, ao contribuinte indefeso, ao pensionista da miséria, ao filho das ervas que não possui nem propriedades nem empresas , quando muito uma profissão em risco de reciclagem, um emprego precário em vias de extinção. É verdade, manifestam-se, fazem greve, protestam, gritam o seu desespero e indignação na rua e na internet, são cem mil, depois duzentos mil....e o alegado engenheiro do neo-socialismo liberal, diz que os números não lhe interessam, só os argumentos....privados, privadíssimos.
Parece lógica a expectativa de ver o sujeito e sua equipa expulsos do poder por indecente e má figura, nas legislativas do próximo ano. Mas, uma dúvida de experiência feita, não deixa de nos preocupar : será que a maioria do corpo eleitoral português vai continuar acreditando nas mistificações socialista/PS e social democrática/PSD, votando nos autores da derrocada moral, intelectual e económica do nosso País? Se tal vier a acontecer, isso significará que a sociedade portuguesa permanece indissoluvelmente subjugada pelo espírito conservador do antigamente fascista, agora na versão da neo-burguesia.
 
Nota – A doutrina do imperialismo global americano inclui dois conceitos básicos : o neo-liberalismo, que acima mereceu reparo; e o neo-conservadorismo. Este último –um paradoxo nada inocente- esconde o “sonho” de remontar a uma idade de ouro, em que a sociedade teria estado idealmente organizada entre patrícios e plebe, ricos e pobres, elites e trabalhadores sem direitos; exploradores e explorados, em suma. Esse sonho, merece ser exposto e analisado. O que fica para outra ocasião.
 

Lisboa, 15 Junho 2008-06-15

 
Fez) J. Varela Gomes

 

publicado por samizdat às 19:34
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|
Domingo, 8 de Junho de 2008

FOI PARA ISTO ....... ?

A interrogação retórica diz respeito ao 25 d’Abril. A frase completa aparece construída  com três diferentes  pretéritos:

1º - Foi para isto que se fez o 25 d’Abril ?

2º - Foi para isto que foi feito o 25d’Abril ?

3º - Foi para isto que fizeram o 25 d’Abril ?

Pode admitir-se que diferentes grupos de pessoas utilizam cada uma das três versões  gramaticais. A primeira frase será usada  por aqueles que consideram o 25d’Abril como seu - por qualquer razão, em qualquer medida : os resistentes, os antifascistas, em geral. A segunda expressão corresponde aos supostamente neutrais, aos “politicamente correctos, aos “moderados”; a todos aqueles que já as Escrituras estigmatizavam como  “os abomináveis mornos”. A terceira versão é utilizada, em geral como   provocação, pelo  pessoal do antigamente, por todos os inimigos do 25 d’Abril, incluindo a escumalha neofascista/anticomunista.

No 34º aniversário a interrogação voltou a ser repetida nas  três modalidades; mas continuando a não suscitar resposta clarificadora. Atitude estranha, em particular por parte da esquerda fiel aos ideais revolucionários de Abril; que bem conhece essa resposta e sabe como ela é eficaz  e necessária  no combate político e na reposição da evidência histórica. Vamos então relembrar essa resposta :

- Não, não foi para isto que se fez (ou foi feito) o 25 d’Abril;

Para isto foi feito (eles fizeram) o 25 Novembro.

Como se vê, trata-se de uma explicação simples, definitiva e indesmentível.

Em linguagem filosófica dir-se-ia, apodíctica : isto é, algo demonstrativo por si; de cristalina evidência;  que convence sem esforço.

Além disto –além  do dever que nos cabe de silenciar de forma vigorosa os fascistas genéticos e os abomináveis moderados, para os quais o 25 d’Abril não foi feito – devemos ainda insistir sempre, sem descanso, noutra evidência apodíctica : a de que o sistema partidário burguês que governa o Pais desde  Novembro 75 tem uma designação corrente que até consta em simples manuais escolares: chama-se contra-revolução. (Calma aí, cães raivosos; já assim se designava antes de Marx e seu marxismo terem nascido).

Com efeito, só por absoluta cegueira, estupidez ou má-fé, será possível sustentar que o presente sistema democrático – após três decénios de continua degenerescência – contenha ainda um único grão da esperança revolucionária de Abril.  Contra-revolução é por definição, semântica e ideológica, a antítese da revolução. São campos antagónicos, inimigos. Quer no combate revolucionário, quer na luta de ideias.    

A esquerda política ou apenas ideológica, assume com orgulho, sem complexos, a sua identificação com a Revolução do 25 de Abril. Reciprocamente, seria de esperar que a direita  - dos moderados aos retro e neofascistas – reivindicasse a contra-revolução do 25 Novembro como título de glória; e riscasse do mapa das evocações o 25 d’Abril .. como aliás, já está decretado pelo cacique independentista do arquipélago da Madeira. Vontade de decretar o mesmo,  cá no “Cótinente”, não lhes falta. O ódio a Abril, aos trabalhadores assalariados (todos comunistas, para o efeito), a tudo que é honesto e limpo, rebenta-lhes pela costuras.

Assim sendo, por que carga de água, em cada sucessivo aniversário do 25 de Abril de 1974, essa gente contra revolucionária e reaccionária dos quatro costados volta a representar a pantomina da angústia pela revolução atraiçoada ? Numa primeira resposta óbvia dir-se-ia : a burguesia, é assim mesmo, por natureza hipócrita e pantomineira. A resposta e óbvia, mas curta. A decifração completa reside no pro-nome  isto. ( Foi para isto que...). Embora não haja ninguém que não perceba para onde remete o isto: para o estado a que chegou o regime democrático; para o “pântano” ( como lhe chamou um pantanoso  chefe do governo); para o país de tanga (expressão doutro eminente 1ºministro da burguesia democrática); na verdade, para a frustração, o desespero e a revolta que alastram pela sociedade portuguesa perante os resultados desastrosos dos 32 anos de permanente governança  dos partidos contra revolucionários  triunfadores do 25 de Novembro. Eis o busílis decifrado. A responsabilidade pelo pântano, pelo país de tanga, pela mediocridade e corrupção reinantes pertence, por inteiro, aos partidos burgueses que monopolizaram o poder político em Portugal a partir de Novembro 1975.  ISTO..... é duma evidência cristalina.

Os autores, conspiradores & cúmplices do 25 Novembro, deixaram há anos atrás, de se vangloriarem da proeza. A isso foram obrigados pela evidência do desastre para que arrastaram o país; e pela evidência da inescapável culpabilidade que nele têm. Passaram a representar a comédia da (falsa) angústia por um 25 d’Abril não cumprido! O gato  mal escondido ficou com o rabo de fora. A intenção era (é) a de atirar para cima da revolução de Abril com a responsabilidade do desastre que eles próprios provocaram; e de caminho, obliterar da história do regime democrático a nódoa da contra-revolução  Escolhem a ocasião das celebrações oficiais do 25 d’Abril, para derramarem pelos meios de comunicação social (onde dominam os contra-revolucionários), a sua farisaica angústia. Tartufos impenitentes, velhacos de barriga  cheia e arroto de fartura.

No entanto - sem grande surpresa, valha a verdade – a grosseira manobra tem vingado junto de certas entidades e individualidades, cujas funções obrigam a não condescender com provocações anti-constitucionais.

 

O mais notório e afrontoso atentado à democracia instituída, localiza-se na ilha da Madeira, está em exibição vai para três décadas e promete continuar. A classe dominante – a burguesia rasca emergente do Novembro 75 – decidiu achar graça às palhaçadas do A.J.Jardim, tolerar e minimizar o despotismo boçal do sujeito, a licenciosidade e os insultos em que se compraz. O nº2 da hierarquia do Estado – o socialista Jaime Gama, presidente da Assembleia da República – deslocou-se à capital do reino insular para aí, em cerimónia oficial, elevar o cacique local às culminâncias de exemplo democrática para o restante país. O nº1, o Presidente Cavaco, seguiu-lhe os passos, poucos dias depois, com resignada condescendência.

 

Foi para isto que se fez o 25 d’Abril ? Pergunta ociosa. A resposta correcta é: Para isto foi feito o 25 Novembro

 

Alastra o desemprego e a pobreza; aumenta o preço dos bens essenciais, enquanto os salários são congelados; restringem-se as direitos e conquistas dos trabalhadores, em simultâneo com a liberalização nos despedimentos; a emigração, a fuga para longe desta pátria madrasta voltou a tornar-se o recurso e o sonho de centenas de milhares de portugueses; serviços públicos são substituídos por avenças a privados, o património nacional é vendido ao desbarato; o poder partidário burguês está orientado para o assalto ao aparelho do Estado, para o favorecimento de amigos e correligionários; a corrupção tornou-se banal, tolerada e impune; os tribunais, as polícias, as fiscalizações e a fiscalidade perdem a confiança dos cidadãos que suspeitam de estarem ao serviço dos ricos, contra ao mais desprotegidos; um clima de descrença, de medo instala-se na sociedade portuguesa, fazendo lembrar o estado de espírito existente  no “anterior regime”; e mais se poderia acrescentar

 

Foi para isto que foi feito o 25 d’Abril ? A resposta correcta continua a ser :  Para isto foi feito o 25  Novembro.

 

- A apologia e o revivalismo do regime fascistas e dos seus cabecilhas  corre à solta   nos meios de comunicação social públicos e privados, na toponímia das cidades, na publicidade de rua, enche as montras das livrarias, é tema de concursos, de colóquios e conferências onde a contrafacção histórica é timbre. Adriano Moreira discípulo dilecto do sinistro Salazar, fantasma sobrevivo do pior fascismo, anda por aí escutado com respeito, com tribuna aberta em toda a comunicação social, dando lições de democracia à sociedade “politicamente correcta”. O cónego Melo, bombista, caceteiro, arguido em crimes de morte, inimigo jurado do 25 d’Abril, foi agora alvo de homenagem na Assembleia dos Deputados, sob a forma de voto de pesar pelo seu falecimento; voto a favor da maioria, voto contra e de repúdio apenas do PCP e do Bloco de Esquerda.

 

Poderá alguém afirmar que o 25 d’Abril foi feito para isto ?

 

Para ISTO que eles – fascistas e filofascistas – fizeram o 25 Novembro.

 

Posto isto, no seu devido lugar, é altura de avisar a malta . Avisar  todos aqueles que lutaram pela libertação de Portugal do jugo de 48 anos de fascismo, os resistentes de antes e de agora, os portugueses e  portuguesas nados e criados em liberdade.... que não devem deixar-se  enganar pela interrogação e dúvidas retóricas dos inimigos de Abril, dos contra-revolucionários de Novembro. São gente possuída pelo fantasma da má consciência. A má consciência da traição à esperança de Abril, na regeneração de um passado próximo pouco honroso, na possibilidade de criar uma comunidade nacional mais decente e fraterna. Aparentando angústia por um Abril não-cumprido, essa gente enquadra a figura do criminoso que  depois de matar uma esperança recém-nascida ainda  tem o arrojo de a culpar pelo crime. Toda a cautela é pouca em relação a farsantes de semelhante índole. Contestá-los sempre e denunciar vigorosamente as suas manobras e insídias é tarefa que incumbe aos defensores das realizações e da memória da Revolução de Abril.

“Houve vários 25 d’Abril” é outra tese insidiosa que pretende, em última análise, estabelecer que o 25 Novembro representou o “verdadeira” conquista da liberdade. Lamentavelmente, esta posição tem vindo a ser avalizada por ninguém menos que Otelo Saraiva de Carvalho, comandante operacional do movimento revoltoso militar de 1974. Neste aniversário de 2008, Otelo foi a França  convidado por emigrantes para celebrar a data, passou por Espanha onde foi entrevistado, voltou aqui a botar fala para  microfones e jornais. De mistura com elogios a Cavaco e ao governo socialista, explanou as suas dúvidas sobre o “verdadeiro” 25 d’Abril . Quanto ao acontecimento concreto, naquele dia exacto de 1974, considera-o um espectáculo no qual desempenhou os papeis de actor, encenador e realizador. E por aqui se ficou o pseudo revolucionário exacerbado do Copcon, actor envelhecido dando um triste espectáculo de si próprio.

Invocando a “punhalada nas costas” que arremessou contra V.Gonçalves no Verão de 75, recomendo-lhe que saia da cena de uma vez por todas, vá para casa descansar, pois o seu equilíbrio mental acusa sinais de grave deteriorização. E pode dormir uma eternidade, pois a defesa da honra e do compromisso do 25  d’Abril, a memória da sua esperança libertadora, ficam ao cuidado daqueles que nunca traíram.  

 

Nota:  O presente texto e outros por mim editados, encontram-se na Internet

 

Lisboa, 14 Maio, 2008-05-14

Ass.) J. Varela Gomes

 

 

publicado por samizdat às 17:31
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Outubro 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
31


.posts recentes

. Descomemorando o 25 de No...

. No aniversário da morte d...

. Da Tirania Neo-Liberal ...

. ESCUTA, Eleitor Anónimo: ...

. NO 40º ANIVERSÁRIO - Sob ...

. A revolução portuguesa e ...

. CAUSA: 25 Novembro 1975; ...

. Beja 1962 - Evocação de u...

. UMA HISTÓRIA CONTEMPORÂ...

. UMA HISTÓRIA CONTEMPORÂ...

.arquivos

. Outubro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Março 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Dezembro 2011

. Fevereiro 2010

. Dezembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Abril 2009

. Janeiro 2009

. Novembro 2008

. Setembro 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Abril 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

blogs SAPO

.subscrever feeds