Segunda-feira, 21 de Julho de 2008

NEO- CONSERVADORISMO

Os dois pilares ideológicos em que assenta a doutrina imperialista americana são, como é sabido: 1) o neo-liberalismo, ou programa económico global; 2) o neo-conservadorismo, que deve ser tomado como programa político, lato sensu. Designações que eles próprios – os apóstolos americanos do neo evangelho – assumem com jactância provocatória; e difundem através de uma das mais poderosas máquinas de propaganda de todos os tempos.

O uso dos prefixos neo convida a várias interpretações especulativas. Há quem o atribua ao deslumbramento saloio dos neo-senhores do mundo. Com efeito, os apóstolos da modernidade a todo o custo e a qualquer preço apresentam-se, paradoxalmente, como sucessores de doutrinas caducas; a modos de restauradores de edifícios degradados. Mas demos de barato os neo-saloios; espécie que também prolifera na actividade política desta paróquia lusitana. Pintor de tabuletas era Adolfo Hitler e conhecem-se os trágicos resultados de o terem menosprezado. É aconselhável levar muito a sério os neo imperialistas da actualidade, candidatos ao domínio mundial por milénios de eternidade. Tanto mais, por que agora dispõem de um arsenal nuclear capaz de destruir o planeta. Será essa a ameaça que os doutrinadores do império americano querem deixar suspensa quando anunciam o “Fim da História”? A qual, efectivamente, nos ensina que loucos, megalómanos, tiranos sanguinários, rematados imbecis, ambiciosos desonestos e sem escrúpulos, dominam nações, constroem reinados, lideram governos ....e até são eleitos através de mecanismos democráticos. (Além de A.A Jardim, cacique insular e de Berlusconi, personagem da Europa connosco, vários outros andam por aí).

 

Aproveitando um pequeno texto publicado na edição do jornal Público de 7 Junho pp, assinado por André Gonçalves Pereira, passo a respigar (com a devida vénia) alguma informação útil. Escreve o autor :... que a partir do início dos anos noventa, emergiu um grupo de pensadores norte-americanos, agrupados sob o nome vago e impreciso de “neo conservadores”, cuja influência viria a estar na base dos desastres internacionais da Administração de George W. Bush...Provavelmente os mais influentes serão os Kristol pai e filho; e de Robert Kagan e Francis Fukuyama as obras mais conseguidas. Em 1992, no seu célebre ensaio sobre o Fim da História escreveu Fukuyama: “O que estamos a presenciar não é só o fim da guerra fria mas o fim da história como tal; ou seja o fim da evolução ideológica da humanidade e a universalização da democracia liberal ocidental como a forma definitiva do governo da humanidade”.

Mais algumas destas pérolas se podem colher no artigo citado. Como por exemplo: no começo do actual século, Wiliam Kristol e R. Kagan, no ensaio Present Dangers, advogavam o uso do poderio militar americano para refazer o mundo à sua imagem.

Em 2003, “remodelar o mundo, sempre que necessário pela força militar” era a recomendação de R. Kagan no seu ensaio “Paradise and Power. Acontece que este cérebro nazi é o principal conselheiro para a política internacional .do candidato presidencial republicano John McCain.

Kagan e mesmo Fukuyama, reconhecem “que tudo correu mal, não se sabe porquê, e que a opinião pública mundial deseja uma diminuição do papel dos Estado Unidos no mundo”. Então, em desespero de causa, Kagan descobre “um problema que não é dos governantes actuais, mas uma tendência geral da história dos EUA”. Desenvolve essa (neo) tese numa história da diplomacia americana, cujo primeiro volume, recentemente publicado, ostenta o título elucidativo de “Nação Perigosa”. Bela desculpa, ironiza o autor do pequeno artigo de que nos estamos socorrendo. Termina-o, afirmando a sua esperança em ver reaparecer em breve uma América que conheceu, livre, liberal e tolerante!

Ora, torna-se curioso anotar que o autor, o professor universitário (assim assina) André Gonçalves Pereira deve ser a mesma personalidade que foi ministro dos Negócios Estrangeiros dos governos Balsemão (1981/83), jurista/advogado de renome e fortuna, próximo do CDS....e que conheceu a América nos anos 1959/66, como representante do Portugal fascista salazarento na comissão jurídica da ONU. Um homem para todos os regimes, um “gros bourgeois” em suma. Agora, elogia Fukuyama por se ter afastado dos neocons confessando “I was wrong”. Pois também ele próprio., se apresenta com direito a nota positiva, ao criticar frontalmente as contradições entre a ideologia proclamada pelo EUA e a realidade da respectiva política de conquista e submissão do mundo.

No entanto - em meu entender - o suposto mea culpa dos ideólogos neocons americanos, encobre uma tese insidiosa que está sendo tomada como droga tranquilizante pela classe burguesa em todas as paragens onde exerce poder. Refiro-me à tese da inevitabilidade (ou, a lógica do escorpião). O sofisma funciona nos clássicos três tempos dialécticos: 1º - Os EUA são a potência mais poderosa do mundo, com a perigosa tendência de usar a força bruta par resolver os problemas; 2º - Essa realidade pode (deve) ser condenada - mas é incontornável ( “é a natureza, estúpido”, diz o escorpião para o sapo que nele fez fé); 3º - Síntese subentendida :o mundo ter-se-à que habituar a essa realidade. Ela è inevitável. Haja resignação.

O facto é que esta tese da inevitabilidade tem servido à maravilha (mesmo na ciência histórica!) para justificar ao crimes e abusos de todos os tiranos desde os tempos mais remotos até aos tiranetes locais, regionais e nacionais, nas modernas democracias representativas. Cá tivemos o desinfeliz eng. Guterres com o seu “habituem-se”. Outros, antes e depois, todos eles finos politiqueiros socialistas ou sociais democratas invocaram e invocam as inevitáveis crises, os inevitáveis défices e seus inevitáveis sacrifícios, impostos e outras alcavalas, etc. Presentemente temos o inevitável aumento do preço do petróleo, das taxas de juro dos empréstimos bancários, das matérias primas, dos bens alimentares, etc. A inevitável pobreza, o inevitável atraso, seguem....inevitavelmente. Bela desculpa para o imperialismo invasor e predador; belíssima desculpa para desresponsabilisar governantes menores, tipo Sócrates & Cª, que assim podem continuar a propaganda das gloriolas internas, atirando a culpa dos males da Pátria para as “inevitáveis” crises de origem externa.

Efectivamente, o conservadorismo - neo, ou velho e relho - tem fundas e históricas raízes neste jardim à beira-mar plantado, onde contam com multidões de adeptos. Quase nos poderíamos gabar de ter sido percursores, pioneiros avant la lettre”, da actual versão neo que ganhou força nos EUA após a derrocado da União Soviética. De facto, Salazar o velho abutre, rural, beato e manhoso, é figura que merece ser reivindicada pelos modernos neo-cons das américas.. Neste seu/dele país natal não está esquecido; os cons cá do sítio prestam-lhe um culto que pede meças à Santinha da Ladeira. ( Con, plural cons, é trocadilho que deve ser explicado : em gíria francesa - de certo modo internacionalizada - designa um indivíduo desprezível, desde parvalhão a filho da p... Fiquemo-nos pelo equivalente parvalhão/parvalhões). .

Entretanto, a verdade é que no admirável oásis do senil restauracionismo lusitano, os neo-cons locais já integraram um governo constitucional. Exactamente, o governo de coligação PSD/CDS (Abril 2002 a Dez. 2004). Com Durão Barroso, até ser premiado para a Europa, como prestável neo-con pró-americano, em meados de 2004; sendo substituído por Santana Lopes nos restantes meses desse ano. Uma das figuras mais exuberantes desta coligação neo-conservadora foi o ministro de Estado e da Defesa, Paulo Portas. O homem excedeu-se em provas de devoção pelos EUA. Tornou-se íntimo (politicamente, entenda-se) de Donald Rumsfeld, secretário da Defesa da Administração Bush e principal instigador da invasão do Iraque. Trocaram condecorações. Carlucci também recebeu de Portas a devida condecoração pelos Distintos Serviços prestados à contra revolução, em Portugal.. Depois de sair do governo, em Maio 2005, é a vez de P.Portas, de ser medalhado pelo seu amigo Donald, no Pentágono/Washington, com a Distinguished Public Service Award .Bons serviços aos EUA? O Pentágono não se enganou, de certeza. Mas a troca de amizades e galhardetes vinha de longe. De 1975, para ser exacto . Jorge Sampaio, para não ir mais atrás, também se mostrou grato ao ex-embaixador americano promovido a Nº 2 da CIA, não esquecendo a respectiva medalhinha. Foi por ocasião da sua célebre redefinição do fascismo salazarento como “conservadorismo autoritário”. De antifascista a neo conservador foi só um pulinho. Com outro a seguir foi parar a comissário da ONU. Durão Barroso é outro que tal. De feroz maoísta , devorador de burgueses ao pequeno almoço, a lacaio do imperialismo, foi só um salto. Em altura. De campeão.

Na realidade, o conservadorismo - velho e relho- está no sangue e na alma da burguesia portuguesa.

 

Chegado o mundo a este ponto do percurso da civilização judaica/cristã, seria conveniente abrir a questão sobre qual é o modelo de sociedade que a globalização imperial americana pretende impor à humanidade. Questão da máxima importância, para todos e qualquer habitante do planeta. Trata-se, nada mais nada menos, de uma outra Nova Ordem. Coisa que os nazis explicaram de forma clara na sua tentativa de domínio mundial. Mas que os ideólogos da globalização capitalista parece quererem deixar ao cuidado da “mão oculta”. Que já foi a de Deus, em tempos de sacerdotes ; agora, em tempos de gestores, é a economia. Segundo o dogma : tratemos da economia, que ela depois trata de nós

Entretanto a história mostra que os conquistadores, os colonizadores, os opressores em geral, sempre pretenderam impor o seu modo de vida às nações e povos que iam subjugando. Na actual globalização todos sabemos que o “american way of life” (o modo de vida americano) está sendo vendido ao mundo com lastimável facilidade. Parece lógico admitir-se que é esse o modelo de sociedade concebido pelos ideólogos do império americano para tornar felizes todos os habitantes da Terra desde os mongóis da Turkoménia até aos patagónicos do Cone Sul. No entanto, afastando simplismos e delírios, penso ser possível pôr a descoberto alguns impulsos mais recalcados e obscuros do mein Kampf americano .

A pista que reputo de mais promissora exploração é a dos “neos”. Com efeito, parece que a rapaziada intelectual do neo-império deixa denunciado o seu pensamento mais íntimo pelo apego ao prefixo. Ao modelo económico chamam neo –liberalismo. Fica assim situada a doutrina inspiradora no tempo histórico que pretendem restaurar : obviamente, o lberalismo do séc. XVIII, de Adam Smith e confrades, da independência dos EUA, quando a burguesia tomou consciência que riqueza era poder, e exigia o comércio sem fronteiras, proclamando a sacralização da propriedade da terra e do capital.

O segundo neo, o conservadorismo, é um non-sense, uma contradição em termos.. Trata-se de pretender restaurar um conceito obsoleto em nome da modernidade? Atrevo-me a afirmar que é exactamente isso que habita o cérebro iluminado dos neo-ideólogos americanos.. Mas qual será o conservadorismo de referência, o paradigma histórico, que está recalcado na mente desses neo-apóstolos? Ora, não apenas por analogia com o tempo económico inspirador, é minha (exclusiva) opinião que o modelo conservador pertence à mesma época : o séc. XVIII. Mas vou ainda precisar melhor a minha iconoclasta tese. Não a segunda metade desse século, a das luzes e da razão. A época que, realmente, entusiasma os pensadores do “fim da história” é , bem pelo contrário, a 1ª metade; mitificada como a idade d’ouro de uma burguesia de puros ideais que sonhava com mil anos de prosperidade universal; e que se achava com direito e capacidade para governar o novo mundo, arredando a obsoleta nobreza fidalga hereditária.

Uma teria ousada, admito que assim pareça. No entanto, devo acrescentar que foi elaborada depois de refletir sobre as políticas e o discurso dos neocons que estão governando o chamado ocidente ; e de ter observado, com atenção a visão do mundo e a filosofia de vida que os norteia .Desse ponto vista –que, é afinal, o de milhares /milhões de cidadãos comuns – basta relembrar o essencial do libelo condenatório que corre mundo, contra a “inevitável” globalização. Aqui em Portugal, conhecemos demasiado bem as consequências deste moderno disfarce do velho imperialismo. Em resumo: aprofundamento do fosso entre ricos e pobres; fome e miséria alastrando pelo globo; direito ao trabalho substituído pela precaridade e desemprego, justiça e fiscalidade a favor das classes abastadas reduzindo a classe média à pobreza, etc. Em contrapartida, a oligarquia “politicamente correcta”, é coberta de privilégios e benesses, desfruta de completa impunidade, comporta-se com a ostentação ofensiva dos peralvilhos.....do século XVIII.

Pois é isso. Embora pareça mal comparado, o modelo de sociedade que fascina os arrivistas do séc XXI pouco se diferencia, no essencial, do tipo de sociedade fidalga existente antes da Revolução Francesa, anterior à Declaração dos Direitos da Pessoa Humana.. Na mente enlouquecida dos neocons, a sociedade que pretendem construir –que clamam inevitável - só consente duas classes : a) uma casta, uma minoria de ricos, uma neo-fidalguia ; b) uma enorme massa cinzenta de servos, de trabalhadores indiferenciados, desprotegidos e despojados.

Olhai bem para aquilo que Sócrates & Cª andam a fazer e como se comportam . Os “gajos” imaginam-se fidalgos de culottes e sapatos de fivela! No frenesim da festança e de encher a pança...e a revolução rondando perto.

Lisboa, 8 Julho, 2008

 

Fez) J. Varela Gomes

 

publicado por samizdat às 22:45
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