Segunda-feira, 29 de Setembro de 2008

A SOCIEDADE DOS QUATRO/QUINTOS

J. Varela Gomes Creio que a expressão/conceito em título foi utilizada, em primeira mão, pela chamada Escola de Chicago; um núcleo de académicos economistas/sociólogos, cujo radicalismo liberal constitui a base da política de globalização imposta actualmente ao mundo pelo imperialismo americano. Em termos vulgares, esse conceito estabelece que as sociedades humanas após a era industrial, tendem (a bem ou a mal, manda o império) a organizar-se num sistema social dividido entre 1/5 da população vivendo na abastança e 4/5 na precariedade. Pode parecer muito crua, rudimentar e cínica essa doutrina ; mas o facto –o incontornável facto – é que ela vem sendo implementada através do globo, a descoberto e à vista de todos; da velha Europa da magna carta e das marselhesas, às pequenas nações caudatárias; como aqui se verifica, neste nosso pitoresco socialismo demo-reaça. Na realidade, os doutrinadores da sociedade dos 4/5, não fazem segredo, muito menos escondem a sua influência nas opções neo-liberais do novos senhores do mundo. O mentor dos Chicago boys ( assim são conhecidos) Milton Friedman, mereceu o prémio Nobel da Economia em 1976 . A sua teoria já então tinha dado frutuosas provas. Imaginam aonde ? Pois no Chile, com Pinochet. Efectivamente, os boys de Chicago foram o braço economista da Operação Condor, uma das maiores ofensivas terroristas do séc. XX, lançada pela CIA contra os povos da América Latina em nome da cruzada anticomunista. Consistiu na implantação de ditaduras sanguinárias no Chile, Argentina, Uruguai, Nicarágua, Brasil, etc, com muitos milhares de assassinados, desaparecidos e torturados. Os Chicago boys participaram entusiasticamente em toda a Operação Condor; O Chile foi o laboratório para as reformas ultra liberais da Escola de Chicago, a cobaia para a privatização total da economia. Na década seguinte (anos 80) com R. Reagan nos EUA e M. Tatcher no Reino Unido, triunfava a globalização da economia neoliberal capitalista e da política neoconservadora de ataque à classe laboral organizada, procurando reduzir os trabalhadores à condição medieval de jornaleiros descartáveis. A fórmula/conceito de uma futura sociedade ideal dividida entre 1/5 de ricos e 4/5 de pobres - exploradores e explorados, na visão de um tal Marx - traduz, cruelmente, um sonho/objectivo perpétuo das classes dominantes em toda a história da humanidade; digamos mesmo, desde a sua primitiva organização em sociedades tribais. Na era moderna, no estertor do ancien régime, a partir de meados do séc. XVIII, ainda com o poder absoluto dos reis, e sua corte de favoritos e de fidalgos proprietários de terras e servos, o sistema social corresponderia a esse quociente de um/quinto de poderosos e abastados, para uma massa de quatro/quintos de famélicos, explorados/escravizados. Ora, é esse o modelo da sociedade – que, à primeira vista, nos parece pesadelo de loucos – que o hodierno capitalismo sonha restaurar quando se afirma, sem complexos, neo conservador. Basta consultar as páginas da Internet relativas a alguns textos, notícias e comentários sobre esses supostos loucos, para se ficar arrepiado com as respectivas doutrinas e propósitos neo-retro. Concluem que, ainda no presente século, a produção de bens e serviços virá a necessitar apenas de um fracção mínima de operadores; numa economia de tecnologia avançada, a classe operária desaparecerá. Debatem, com tranquilo cinismo, a melhor forma de entreter as massas dos desocupados e como mantê-los numa ilusória felicidade. O Império Romano fascina-os como modelo; particularmente, a receita de “pão e circo”, com que domesticavam a plebe. A televisão, o futebol, os computadores, sexo e discoteca, etc, são as alternativas actuais. A Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana., a cúria papal, o luxo e a riqueza nas catedrais enquanto no terreiro a multidão ajoelha resignada.....esse sim, é o paraíso neo-liberal na terra. A um céptico que argumentava que num modelo desses não haverá consumidores, um dos neo sábios ensina: Num hipotético País com 150 milhões de habitantes, quatro/quintos (ou seja 120 milhões) estão reduzidos ao rendimento mínimo; haverá, portanto 30 milhões de ricos e muito ricos. Ora, remata o neo sábio: um mercado com 30 milhões de pessoas com elevado poder de compra, é suficiente para sustentar uma economia próspera. Maria Antonieta no ancien régime, não diria melhor. Embora pareça coisa de tarados, os neocons andam por aí, a desregular o mundo, desde a experiência Pinochet. De caminho, convém lembrar que um tal Hitler foi considerado um paranóico sem futuro; e lá arrastou 80 milhões de germânicos ilustrados numa das maiores catástrofes doutrinárias da história. Agora, há quem pense em Bush & Associados como estúpidos transitórios; no entanto, existem muitíssimos mais tarados nos EUA/séc.XXI que na Alemanha/séc.XX. Convém não esquecer. Voltando à nossa santa terrinha. Só um cego pode dizer que nada vê, no actual reformismo socretino, nenhum decalque do modelo e da doutrina dos boys de Chicago .... aqui, por obra e desgraça de um governo SS/Suposto Socialista. Aqui, a hipocrisia e o cinismo da burguesia capitalista entra pelos olhos dentro. Não há que fugir: a classe dirigente deste pequeno pais periférico, acaba sempre por se distinguir pela negativa : mais rasca, mais manhosa, mais mercenária que qualquer outra. O sonho dos “poetas” do partido socialista, tal como vem sendo concretizado através das alegadas reformas, obedece – nitidamente, indiscutivelmente - ao esquema neo lib/neo con. Ou seja, uma sociedade dividida entre 1/5 – 2 milhões de gajos ricos; e 4/5 - 8 milhões de precários. O sonho dos socialistas renegados pede meças à “cidade de Deus” dos seráficos da Opus Dei aquartelados no PSD, compagina-se perfeitamente com as guerras e bombardeamentos preventivos do império americano. Aliás, neo conservadorismo, além de constituir um paradoxo semântico imbecil, denuncia e psicanalisa o sonho : regressar ao passado, aos bons velhos tempos em que um fosso intransponível defendia a classe fidalga do cheiro incómodo e da “inveja”, da classe popular. A contra-revolução portuguesa de 1975/76 trouxe à cena pública e política um sem-número de arrivistas e labregos ( dois em um, por norma) ; somados à legião dos renegados ideológicos (ex-radicais esquerdistas; ex-socialistas utópicos; ex-maoistas, comunistas, trotsquistas, etc) todos juntos num oportunismo mercenário, têm governado o país integrados numa frente burguesa capitalista cujo objectivo político (inconfessado, mas nem tanto) é a restauração de um modelo de sociedade conservadora aristocrática : concretamente, a sociedade dos quatro/quintos, assim designada pelos mentores teóricos de globalização demo-liberal, nesta nossa época de alta tecnologia e viagens espaciais. É possível – tudo é possível – que uma parte dos agentes desta política, dos entusiastas pelo invisível progresso que estamos vivendo (progresso às arrecuas, ou de frente para trás), esteja de boa-fé, tenha propósitos honestos e até saia mais pobre após passagem pelo poder. A designação original “sociedade dos 4/5” aparece posteriormente substituída pelo seu recíproco “sociedade dos 2/10”; ou ainda dos 20% . A proporção matemática é igual, mas – não de todo inocentemente –converte a minoria em excepção. Ora, confesso, que esse rácio dos 20% , me serve há muito, para distinguir as excepções dentro da sociedade burguesa capitalista. Por exemplo : nuca direi que todos os burgueses são reaccionários, manhosos, egoístas e hipócritas; ou que todos odeiam a classe trabalhadora, etc, etc. Nada disso ! Aplico a chapa dos 20% : o que dá 20 burgueses decentes em 100, ou 1 em 5. Sobre a classe política demo-capitalista, aplicando a mesma chapa, encontraremos 20 tipos (em 100) que merecem crédito; os restantes 80...bem, são aquilo que está à vista. E muitas vezes fico pensando que os 20% são demasiado generosos. Lisboa, 26 Setembro 2008-09-27
publicado por samizdat às 09:24
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T O D O S

Todos ! Muito gostam eles – os neo-democratas paridos pela contra revolução novembrista – de lançar apelos lancinantes à união de todos os portugueses : ricos e pobres, desempregados ou tachistas despudorados, trabalhadores da chapa 500/mês ou gestores a 100 mil/ano, doentes crónicos sem assistência ou pessoal do jet-set, marginais famélicos e burgueses pançudos arrotando fartura, etc, todos unidos e misturados num grande caldeirão de emerdamento estatístico para o Bem da Nação, a Salvação da Pátria; e, nomeadamente, todos juntos no combate heróico contra as malfadadas crises, esse inimigo estrangeiro invejoso do nosso esplendor ao sol.

 

Na realidade, esses frequentes apelos ao colectivo nacional abstracto fazem parte do repertório teatral da classe burguesa dominante. Os respectivos actores e os forçados espectadores dessa farsa burlesca já conhecem de cor as rábulas da peça ... pois vai à cena desde que as comunidades humanas se estabeleceram na base do antagonismo entre os fortes/poderosos e a massa dos súbditos escravizados. O conjunto dos explorados – o Povo, como já em tempos bíblicos era designado – quando ouve a classe dirigente apelar à colaboração de todos para resolver qualquer crise, na guerra ou na paz, pode de antemão estar certo que serão eles a pagar o custo maior nas supostas frentes de unidade nacional...com a vida, a miséria, a fome. O Povo Português está sofrendo experiência actualizada dessa lei intemporal ; pena é que ainda haja quem engula velhas rábulas de cheiro apodrecido, mesmo após os últimos três anos de governação socialista socretina. Com efeito, do alto da sua maioria parlamentar absoluta, o PSS (Partido Suposto Socialista), governa em semi-ditadura por decretos-leis à moda salazarenta; pior ainda, qualquer obscuro sub-secretário, um simples membro de gabinete ministerial emite pareceres, toma decisões; despachos e resoluções aparecem publicados na folha oficial com força de lei. Mal se resguardam as aparências democráticas e constitucionais. Ao que parece, as “trapalhadas” apontadas a anteriores governos, passaram ao patamar superior da licenciosidade administrativa. Até mesmo deixou de fazer sentido, a comédia periódica de apelar ao bom povo português para apertar mais um furo ao cinto, em nome da solidariedade nacional, da suprema redenção do défice, da felicidade de todos. A rábula já não dá para zombar, já nem um manguito provoca. A vontade unânime é que se ponham a andar, desapareçam da cena, antes de serem corridos à batatada por indecente e má figura.

Efectivamente, verifica-se que a retórica democrática de apelar a todos em situações declaradas críticas, está sendo abandonada pela nova ordem neo-liberal conservadora, cujos mentores acham que chegou a hora do autoritarismo puro e duro; e de, uma vez por todas, mandar para o lixo a farsa da conciliação de classes. A esta postura sem máscaras florentinas, há quem lhe chame pré ou para-fascismo. Por cá temos fortes razões para concordar. O império capitalista americano decreta para o mundo e nem lhe passa pela cabeça pedir a opinião dos povos que vai submetendo; os governos satélites - vide Portugal– aplicam religiosamente a doutrina do sumo pontífice americano dentro das respectivas fronteiras nacionais, atiram pela borda fora as formalidades da comédia democrática adoptando, com entusiasmo, o modelo autoritário para-fascista. A questão resolve-se pela manipulação de impostos e escalões de tributação fiscal, redução nos salários reais e nas pensões, preços livres sem controlo, etc, tudo acompanhado pela presença conspícua das polícias de vigilância e defesa do estado (PVDE ! Ó da guarda! Ei-los que voltam).

De certo modo, deve notar-se que o alegado engenheiro Sócrates não é o governante português pioneiro na adesão às novas doutrinas do conservadorismo autoritário (ou vice-versa). Pois foi exactamente assim - “autoritarismo conservador”- que o preclaro ex-anti-fascista Jorge Sampaio, na função de Presidente da República, em discurso oficial na Assembleia Legislativa de 25 de Abril 2002 se permitiu redefinir o período de 48 anos de ditadura fascista/ salazarenta. Por essa e outras terá sido recompensado com o cargo de alto-comissário da ONU para a tuberculose ! (Pelos vistos, lá como cá, os bachareis são pau para toda a obra). Um outro ex-socialista, o inefável Guterres, tendo-se aventurado pela via do pulso forte com o seu “habituem-se”, teve que fugir envergonhado. Mas também acabou recompensado noutro alto cadeirão de comissário da ONU. (È um fartar de comissários políticos nesta abençoada democracia global).

No entanto, a retórica do todos – o sofisma da fachada da igualdade dos cidadãos perante a lei (Art. 13º da Constituição) – continua a servir de argumento para a classe governante procurar fugir à responsabilidade dos seus actos e decisões.; nomeadamente, sempre que a coisas correm mal, sempre que a má-gestão resulta em calamidade e escândalo. Nessas circunstâncias - frequentes – as culpas e os custos são logo “democraticamente” atribuídas a todos ; mas quando o poder burguês inaugura obra ou inventa um sucesso - isto é, onde há algum proveito em termos de propaganda - nessa altura acaba-se a democracia do colectivo. Cumpre-se a conhecida regra da exploração capitalista : os prejuízos são pagos por todos; o lucro fica para a casta dominante.

A modalidade soft (passe o anglicismo, em moda) do cinismo burguês em matéria do balanço sacrifícios/benefícios surge na invocatória “É preciso que todos...”, muito utilizada por políticos e comentadores, nomeadamente, da velha geração dos ex-progressistas de esquerda (ou da esquerda ex-progressista). Em pose de professores catedráticos, a ser ou haver, é chamada a atenção para a responsabilidade que todos temos (nós, as pessoas comuns) em relação à sociedade. Cada especialista ensina e comina : sobre a cultura, a educação a economia doméstica, o civismo, não poluir os passeios e a atmosfera, como atravessar as ruas, etc. Uma longa lista de deveres, politicamente correctos, que ninguém deve descurar para redenção da apagada e vil tristeza em que vive a Pátria de Camões O ex-presidente Jorge Sampaio foi um apaixonado especialista deste tipo de apelo “ao todos que há dentro da culpa da cada um” (desculpem lá, isto até parece alta ontologia). Ainda tenho no ouvido o som estrídulo do “é preciso que todos”, com que fulminava os relapsos pecadores dos deveres da cidadania. (Ah! Se todos seguissem os conselhos dos sábios governantes, acabávamos todos em comissários da ONU).

O argumento que postula ser de todos a responsabilidade pelos males da Pátria ( e do mundo) criaria uma admirável sociedade igualitária onde nenhum governante jamais chegaria a responder pelos seus actos e decisões. Uma sociedade de inocentes, com impunidade garantida Que conveniente! A culpa morreria sempre solteira....como aliás, vem sucedendo neste nosso oásis luso/madeirense, bem integrado que ele está no universo liberal/conservador; o qual, sob a protecção do escudo anti-missil americano, está convertido em neo paraíso terreal povoado por seres angélicos sem culpa nem ganância. Fascistas, pides, informadores e contra-revolucionátios, agradecem comovidos Ámen.

Claro, que ocorrem situações desagradáveis, actos concretos, em que se torna logicamente impossível atribuir responsabilidades a todos e cada um. Por exemplo : as leis e respectivos regulamentos, posturas, deliberações, despachos, etc, são produzidos e aprovados por deputados (com nome registado em acta), na maior parte das vezes ao arrepio dos programas e promessas eleitorais (Por favor, não culpem dessas manigâncias a Tia Ermelinda, lá dos Brejos de Mafamude) ;o desemprego, a precariedade, um Código do Trabalho terrorista, etc, decerto não foram iniciativa do Sr Carlos, aqui do bairro, octogenário e pensionista do escalão mais baixo; as vendas ao desbarato do património nacional, ou a sua transferência para privados, são assinadas por governantes dos partidos burgueses em tirocínio para administradores das empresas compradoras; as famosas derrapagens financeiras em obras públicas, as ruinosas participações do Estado nas mais variadas empresas falidas, são negócios só para gente fina; e o mesmo sucede nos despedimentos colectivos, quando as empresas fecham as portas, anunciam redução de despesas...sem que os trabalhadores sejam ouvidos ou achados, etc.

Insistir no estúpido absurdo de que todos, governantes e governados, partilham erros e fracassos, só merece escárnio. Fica à vista a intenção encapotada de diluir as responsabilidades da casta dirigente pela totalidade dos concidadãos; desse modo, safarem-se impunes, um a um, com o saco cheio de prebendas, côngruas e proventos não especificados, esfregando as mãos de contentes, na ideia que a plebe –o odiado povo dos trabalhadores; os restantes quatro/quintos da população – não passa de um rebanho de parvos. Meus caros: os “restantes” conhecem-vos de ginjeira. Está mais que sabido – e bem à vista – aquilo que a classe burguesa procura quando se dedica à política profissional: “encher a mula”, na velha expressão popular que vem das épocas da conquista e saque.

Entrar na política para tratar da vidinha e enriquecer era uma posição que ainda envergonhava os avoengos. A escola moderna do neoliberalismo global, pelo contrário; assume que esse é o nobre propósito do político ambicioso. Os tempos mudam, assim justificam e se absolvem os amesendados no sistema. Pois, pois, o sistema ! Tem as costas largas. E as leis, com seus buracos e falhas, também constituem óptima justificação para aqueles mesmos que as fizeram. As circunstâncias! Outra boa malha.....históricas, económicas, meteorológicas, informáticas, psicológicas ....podem ser infinitas as circunstâncias que servem de desculpa aos charlatães.

Os tempos mudam! Ouve-se todos os dias, a modos de chavão/argumento para qualquer oportunista vira-casacas! Não há parvalhão nenhum, homem público/cidadão privado, que não use essa néscia metafísica para desculpar desonestidades e cobardias, julgando exibir a mais ilustrada das sabedorias. É obrigatório citar Camões; como se “todo o mundo é feito de mudança” fosse um viático para a libertinagem reformista dos demo-reaças da actualidade. Nem o soneto completo vocês leram, ó falsários impenitentes! Na segunda quadra, logo diz Camões “continuamente vemos novidades ... diferentes em tudo da esperança”; e remata desiludido, que “afora este mudar-se cada dia”, o que “mor espanto” lhe causa é “que não se muda já como soía”. Como era costume, quer ele dizer; no tempo da boa governação. Ao invés do que se passava naquele longo e funéreo reinado de João III, a caminho de Alcácer Quibir.

Ora, afinal, até parece que Luís de Camões estava profetizando o tempo actual de desalento e baixa estima em que vivem os portugueses ....todos juntos atirados para dentro do caldeirão retórico, onde os políticos da burguesia pretendem esconder os abusos que cometem, os privilégios que decretam em benefício da própria classe; mais o ódio que dedicam a perseguir e rebaixar a classe dos trabalhadores assalariados.

Ora TODOS nós, os quatro/quintos restantes, vos devolvem em desprezo e juros acrescidos, os sentimentos que norteiam as vossas políticas governativas passo a passo mais próximas de um programa neo-fascista.

Lisboa 10 Setembro, 2008-09-11

publicado por samizdat às 09:16
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Terça-feira, 2 de Setembro de 2008

A BANALIDADE DA IMPOSTURA

 

                                                               J. Varela Gomes
Ana Arendt, filósofa e ensaísta judia/alemã, que conseguiu escapar do III Reich hitleriano em 1938, esteve presente no julgamento do criminoso nazi Eichmann, realizado em Jerusalém/Israel no ano de 1961. O perseguidor dos judeus - como ficou conhecido- tinha sido raptado pelos serviços secretos israelitas (Mossad) na Argentina, país para onde se evadira após a derrota da Alemanha nazi. Ana Arendt estava em Jerusalém na qualidade de correspondente da revista americana New Yorker.
O resultado dessa experiência jornalística foi convertido em livro editado em 1963 (ed. port. de 2003), levando como sub-título original “Uma reportagem sobre a banalidade do mal”.(A report on the banality of evil) ; expressão que traduzia aquilo que mais impressionou a autora, ao observar a conduta do réu durante dezenas de sessões do tribunal. O acusado, responsável pela eliminação de cinco milhões de seres humanos (judeus, mas não todos), revelava-se um sujeito banal, considerando-se apenas um funcionário zeloso, estrito cumpridor de ordens superiores, alheio ao conteúdo das mesmas, sem nutrir qualquer ódio em relação às vítimas; e cujo maior desgosto, que levou para o cadafalso, foi não ter sido promovido acima de ten-coronel na hierarquia das SS. A.Arendt atribui-lhe total ausência de pensamento reflexivo, de consciência da realidade, de genialidade demoníaca, ou sequer maldosa... .em suma, um sujeito banal; o que a levou a interessar-se “pelos contornos morais da participação de pessoas respeitáveis, ditas normais”, em regimes e situações em que, igualmente banais eram os crimes contra a liberdade e os mais elementares direitos humanos.
Ora, a tese da “banalidade do mal”, embora apresentada debaixo de um ponto de vista filosófico como lição e nunca como atenuante na condenação de Eichmann e de todos os outros responsáveis nazis, suscitou críticas ásperas designadamente por parte do guardiães do Holocausto ;  para os quais o extermínio dos judeus decretado por Hitler, constituiu o “mal absoluto”. Mas onde a controvérsia atingiu maior amplitude, foi quando a autora põe em causa a sociedade do seu pais natal ; não só durante o período nazi, mas também na posterior democracia presidida por Adenauer e tutelada pelos vencedores ocidentais. Transcrevendo : “E a sociedade alemã, com os seus oitenta milhões de pessoas, tinha-se defendido da realidade dos factos exactamente da mesma maneira, com a mesma auto-ilusão, as mesmas mentiras e a mesma estupidez que eram agora parte integrante da mentalidade de Eichmann...... De tal modo que hoje, dezoito anos volvidos sobre o colapso do regime nazi, quando o conteúdo exacto dessas mentiras se encontra quase totalmente esquecido (eu diria: recalcado) ainda é por vezes difícil acreditar que a mentira não se haja tornado parte integrante do carácter alemão”. (Em aparte: No maravilhoso mundo da banal democracia neocon, desabafos de semelhante teor chegam para votar ao ostracismo o mais prestigiado dos filósofos)
 
O exórdio foi um pouco alargado, mas o leitor decerto entendeu onde se pretendia chegar : projectar no caso português as reflexões de AA sobre os efeitos da banalidade do mal no carácter nacional e no das pessoas, ditas normais; quer no antigamente fascista, quer no presentemente demo reaça. Sem ignorar as evidentes diferenças de escala; embora as diferenças de género não sejam tão flagrantes. Não tivemos por cá câmaras de gás ou extermínio programado de raças consideradas inferiores; a banalidade do fascismo português foi, naturalmente, mais caseira; todavia durou 48 anos, contra os 12 do nazismo hitleriano (de 1933 a 45). Quanto aos efeitos sobre a identidade nacional e sobre as “pessoas respeitáveis” (isto é, a burguesada gorda) penso ser lícito o paralelismo.
No entanto no Portugal contemporâneo, do antes e do depois de 74, o mal metafísico, o mal absoluto das teodiceias, radical e diabólico, mesmo o mal já banalizado de A.Arendt, nenhum deles ocupou por aí além a mente dos pensadores nacionais. Quanto ao povo dos brandos costumes, o mau olhado das bruxas ou as tentações do mafarrico, continuam a ser exorcizados por via dos bentinhos e rezas medievais; mais a modernice de Fátima com os votos cumpridos a rastejar de joelhos Com efeito, o mal filosófico pouco interessa ao cidadão comum. Além disso, julgo poder afirmar que o que mais horrorizou a autora da “Banalidade do Mal”, no balanço que fez ao julgamento do criminoso nazi, não foi a existência do mal em si, mas o facto de ter passado a ser “coisa banal” no quadro ético e cultural das (modernas?) sociedades humanas. Para a filósofa A.Arendt tornou-se inaceitável conviver resignadamente com a banalidade do mal, como sendo essa a lei natural da vida; e a isso acomodar a consciência, quer individual quer colectiva. O conceito judaico/cristão do “mal absoluto” (em rigor, do idealismo ocidental, pelo menos até Kant), que ainda dominou o seu grande ensaio sobre “As Origens do Totalitarismo” (ed.1950), aparece como que banalizado nesta obra de 1963 após o julgamento de Eichmann. Dir-se-ia decomposto/multifacetado, devolvido à responsabilidade de homens e mulheres e não dos deuses e dogmas sagrados. Claro que os demiurgos escolásticos e os vigilantes do “politicamente correcto” não lhe perdoaram esse desvio/correcção no sentido humanista. Creio porém, que a questão metafísica ficou colocada ao nível do entendimento e dos interesses do banal cidadão; de todos nós que estamos habitando este planeta em regressão política e cultural para antigos e novos absolutismos.
 
          O “mal português” (a designação não é minha) é um tema recorrente nos meios pensantes nacionais obcecados pelo que chamam o enigma da identidade da nação lusa e dos seus nativos. Pode dizer-se que não se passa um mês sem que o assunto não volte à baila. Nas centenas de opiniões que se ouvem ou lêem, o suposto mal ontológico de que sofre a sociedade portuguesa surge decomposto em diversas e alegadas manifestações. Na realidade, tornaram-se banais – excessivamente banais - essas análises e denúncias. Recordo, a título de exemplo: ) o medo, não exactamente cobardia e esta menos física que cívica; ) a resignação, o fatalismo, o respeitinho, o deixa andar/sempre foi assim; ) a mesquinhez, a inveja, o alarvismo; ) o menosprezo pelo esforço, pelo conhecimento, pelo trabalho honesto e os direitos de quem trabalha ; ) o egoísmo e a hipocrisia; etc. etc. Também se tornaram banalidades, temas ético/sociológicos como a corrupção, os abusos de poder, o alargamento do fosso entre ricos e pobres, o desemprego, a debandada emigratória, os desastres no sistema educativo e a ruína do todo o serviço público, etc, etc.
         Ora, o aspecto insólito da banalidade/conceito que despertou o horror de A.Arendt ao contactar de perto com os crimes de um –concreto- criminoso nazi, reside na surpreendente facilidade com que as mais estranhas situações, fenómenos ou comportamentos que, num primeiro contacto provocam instintiva repugnância e condenação, acabam por ser assimiladas pelos indivíduos e sociedade como coisa inócua, de importância trivial, logo que se tornam objecto de repetição publicitária insistente. Qualquer pessoa sabe do que estamos a falar. Toda a gente sabe como as modas mais extravagantes podem ser entranhadas no gosto das massas, mesmo das mais conservadoras (”Primeiro estranha-se depois entranha-se”, dizia o inevitável Pessoa).
 Mas infelizmente, isso não sucede apenas com as modas. Sucede também em assuntos da mais extrema importância para a vida da humanidade e do planeta que ela habita. Torna-se ocioso lembrar como ainda galopam à rédea solta, nesta época de deslumbramentos tecnológicos - como continuam banalizados - os 4 Cavaleiros do bíblico Apocalipse : a Guerra (agora preventiva); a Fome (na abundância); a Peste (das drogas e dos virus); a Insânia (que provoca a morte e a devastação). 
Pode mesmo afirmar-se que - dentro do quadro das ideias – a banalização do mal metafísico/ bíblico/abstracto, ainda ocupa e incomoda a inteligência e a consciência da elite ocidental judaico-cristã. Ora quando a crítica se manifesta através da representação mental do real, estamos em pleno idealismo. A banalidade das ideias sobrepõe-se à realidade banal da existência humana. Assim foi no largo espaço da chamada civilização ocidental/cristã até aos meados do séc. XVIII; altura em que o iluminismo e o racionalismo começaram a soltar os espíritos. Abreviando: a filosofia materialista ganhou terreno ao idealismo; a luta de classes vem a impor-se como explicação básica da história da humanidade. Resulta que os “males” concretos de natureza material, com origem na exploração do homem pelo homem que afligem e oprimem quatro/quintos da população do planeta Terra desde primórdios distantes, têm nomes correntes, responsáveis de carne e osso ...não se trata de entidades divinas, de conceitos abstractos ... não se trata do mal cósmico, cuja banalização tanto chocou a intelectual académica de formação idealista Hannah Arendt, em Jerusálem, quando confrontada pelo mal muito real de um sistema político que levou a doutrina da dominação de classe ao extermínio físico de classes consideradas inferiores.            
A nível global, nos dias que correm de hegemonia americana, os males correntes que assolam o mundo são bem conhecidos, até porque - e isto deve ficar sublinhado – estão banalizados, converteram-se em banalidades entranhadas no senso comum, por acção da classe dominante; cuja representação máxima é assumida globalmente pelo imperialismo agressivo dos EUA. Banalidades, como o capitalismo selvagem sem freio nem limites éticos, travestido de neo-liberalismo e de neo-conservadorismo; banalidades como o direito da super potência intervir, inclusive pela força, contra as nações e povos que não se submetam às suas ordens; banalidades, como o controlo securitário de pessoas em transito, ou alegadamente suspeitos; banalidades, como uma Nova Ordem de contornos fascistas, que se perfila pela Europa sem já levantar estranheza, nem por parte dos intelectuais de suposta independência político/partidária; etc.
Contudo, é em relação à sociedade portuguesa que mais interessa e se torna urgente, examinar os efeitos nefastos da deliquescência em banalidade dos gravíssimos atentatos do actual governo socialista contra a democracia lato sensu, contra a classe laboral assalariada, em particular. Desde logo, o desemprego de 500 mil ou mais trabalhadores é assunto de rotina; que os seus direitos não sejam respeitados na hora do despedimento colectivo também não incomoda os exmºs governantes; perseguir delegados sindicais é desporto banal para capitalistas e comissários partidários (vulgo, gestores públicos); desconsiderar funcionários, professores, militares passa por banalidade reformista; as trapalhadas e trapalhices governamentais são reduzidas a meros lapsos; também as roubalheiras, as derrapagens nos contractos, as engenharias financeiras, a invenção de multas e impostos, a nomeação de amigos para as famosas “unidades de missão”, para administradores bancários; etc, etc. O rol da transmutação em banalidades inofensivas de verdadeiras afrontas à Constituição, de autênticos crimes de lesa-Estado não tem fim no historial da governação burguesa    Poder-se-á admitir que a sistemática redução ao banal dos efeitos nocivos das medidas anti-populares de Sócrates & Cª constitui parte integrante da política “socialista” de total apoio à classe conservadora/capitalista e de completa submissão aos interesses do imperialismo. Para ter êxito nessa estratégia tem vindo a contar com o apoio dos ricos, dos que isso se julgam ou aspiram a ser, dos políticos que enriquecem (classe dos novos ricos), dos desgraçados explorados que tiram o barrete   ao patrão ou ao cacique local. Mas além deste núcleo duro reaccionário da sociedade portuguesa, que Salazares e póstumos só vieram reforçar, a \burguesia contra-revolucionária novembrista encontrou surpreendentes aliados em importantes sectores da chamada intelectualidade; em especial, entre o pessoal letrado que trabalha ou colabora nos meios de comunicação. Em grande medida, pode afirmar-se que os media nacionais estão dominados pelas hostes do “politicamente correcto” (vulgo, reaças & afins); obedecendo, com entranhada dedicação, à estratégia neo-con/neo-lib dos governos burgueses/capitalistas; incluindo, reduzir ao banal, a coisa sem importância, tudo aquilo que possa incomodar S.Excelências, os políticos governantes, mais patronato explorador.
 Em semelhante contexto, de harmoniosa acomodação, em que a esterilização do real, as injustiças e desgraças da vida dos portugueses aparecem convertidas em banalidades (preocupações para descartar ao virar da esquina), permito-me reavivar uma antiga e clássica banalidade da actividade política que, de tão entranhada está no caráceter das nações e dos indivíduos, que já nem o nome é pronunciado. Refiro-me à “Banalidade da Impostura”, título que adoptei para o presente arrazoado.
Chegada a humanidade ao ano dois mil e oito contados a partir da morte de J. Cristo, julgo não ser necessário demonstrar que a impostura nas relações internacionais e na actividade de cada governo, eleito democraticamente (ou nem tanto), já nem questionada é. Isso representa, em certo aspecto (o deles), uma situação muito confortável para a actual ordem universal burguesa/capitalista. George W. Bush, dono das armas de destruição maciça, general das guerras preventivas, mal abre a boca, logo todo o mundo conta com mais uma mentira, uma nova impostura. Mas o homem não se importa. E tem razão. Ao exercício do poder político burguês está de tal maneira associada (entranhada) a banalidade da impostura que já ninguém estranha, e raros manifestam indignação. Valerá a pena na nossa terra, na nossa democracia, citar nomes ? Será Durão Barroso o exemplo máximo da impostura política portuguesa? Mário Soares ? Sócrates, prometedora medalha d’ouro da modalidade? Desfiaríamos algumas dezenas de nomes de ilustres democratas. O que aliás não lhes faria qualquer diferença. Estamos no reino da banalidade. Exactamente : da indiferença.
No entanto, quero pensar que a impostura praticada pelos dirigentes politico/partidários portugueses quando alçados a alguma espécie de poder, possue caracteristicas tão castiças, tão desbragadas - tipo vendedor de banha da cobra em feira de aldeia - que suscitam mais dó, riso e nojo que indiferença. As famosas reformas da Administração Pública. Uma impostura? Sem dúvida; para encobrir perseguições, abrir vagas para correligionários, manipular estatisticas; criar centenas de “unidades de missão”, uma banalidade que se traduz na licenciosidade com despesas em lugar de as suprimir. Milhares de postos de trabalhos, prometidos e esfumados, salários congelados, ”arrecadar” dinheiro inventando impostos, fiscalizações e coimas próprias de esbirros medievais, penhoras a miseráveis contribuintes em contraste com prescrições para ricos; etc, etc. Quem subscreve estas e muitas outras imposturas e as transforma em banalidades ? Ao mesmos de sempre. E continuam a ser designados pelo mesmo nome : o de impostores.  
 
                        Lisboa, 18 de Agosto, 2008-08-18
                                     fez) J. Varela Gomes
publicado por samizdat às 21:57
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O LEVANTAMENTO POPULAR DE 1958

 

 
                                                                                             J, Varela Gomes
 
            Está a ser comemorado o cinquentenário do acontecimento histórico que ficou conhecido – com pequenas variantes – como as “eleições do gen. Delgado”.
Até à presente data (Verão de 2008)) a manifestação celebradora de maior conteúdo e a mais focada pela comunicação social, diz respeito à biografia de Humberto Delgado, de autoria do seu neto Frederico Delgado Rosa, cujo lançamento no mercado livreiro ocorreu em meados de Maio último. O evento mereceu razoável cobertura por parte da imprensa, entrevistas ao autor, e presença deste em programação televisiva.
Na circunstância, Frederico Delgado, no decorrer da apresentação do seu livro não se esqueceu de destacar enfaticamente, a mais explosiva das teses desenvolvidas na sua obra : a de que o julgamento, no Tribunal Militar de Stª Clara, dos pides assassinos do seu Avô, em 1978-81, constituíra uma farsa, de desfecho/sentença pré-determinada, com o fim de ilibar de responsabilidades criminais toda a cúpula do regime fascista, com Salazar no topo, ministro do Interior (Santos Júnior), director da PIDE (Silva Pais); e até mesmo, o próprio chefe da brigada executante do crime (Rosa Casaco) e dois outros elementos (inspectores Tienza e Ernesto de Sousa). A conclusão do tribunal, ao cabo de cerca de 200 sessões de julgamento, foi a de que a morte do gen. H. Delgado e da sua secretária/acompanhante Arajaryr Campos fora devida à iniciativa tresloucada do 4ºelemento da brigada ....Casimiro Monteiro, conhecido torcionário da Polícia de Goa, admitido na PIDE com a categoria de chefe de brigada, nas vésperas da Operação Outono (nome de código da Operação Assassinato).O tribunal chegou ao cúmulo de sonegar (o termo é meu) a autópsia efectuada pelos peritos espanhóis que apontava para mortes por espancamentos e não por efeito de disparos; o que invalidava a conclusão pretendida. O autor descobriu a cópia enviada de Espanha, perdida num amontoado de folhas do processo. No banco dos réus estavam apenas Pereira de Carvalho e A.Tienza; foram condenados a meses de prisão, já expiados. Dos restantes réus, a bom recato no estrangeiro, só C. Monteiro, refugiado na Àfrica do Sul do apartheid, foi condenado a pena maior como único autor do crime. Apresentado Recurso ao Supremo Tribunal Militar, este limitou-se a confirmar a sentença do Tribunal de St. ª Clara.
Mas enquanto os assassinatos do gen.Delgado e sua companheira ocorreram em pleno salazarismo (Fev. 1965)....... “A Segunda Morte do Gen. Delgado” (título dado pelo jornalista M.Geraldo a um seu livro de crónicas sobre o julgamento) teve lugar na vigência de um regime burguês que da democracia se considera denodado mantenedor. Ora aqui é que a porca torce o rabo. Frederico Delgado veio (re)lembrar com o seu livro e a sua desassombrada atitude de denúncia pública (em perfeita consonância com a frontalidade, apanágio de seu Avô) que o 2º Julgamento dos crimes do fascismo ficou por fazer. Na realidade, 30 anos passados, com a mesma burguesia filofascista de 1978 repartindo o poder (seja qual for a etiqueta partidária), jamais esse julgamento será efectuado.. Lamento, prezado autor e devotado neto, assim dissipar qualquer eventual ilusão..
Admitamos porém, terem sido os dirigentes políticos da época, os principais mentores – embora não os únicos- pela montagem e encenação de farsa judicial de St.ª Clara.
 Nessa lógica, Ramalho Eanes, ao tempo Presidente da República, Supremo Magistrado da Nação por inerência do cargo e, além disso, presidindo ao órgão de soberania que dava pela denominação imprópria de Conselho da Revolução (extinto em Out. 1982), será o máximo responsável Com jurisdição directa sobre a Justiça Militar, o que agrava a hipótese de indevida influência no processo; assim como as suspeitas relativas à maioria dos oficiais contra-revolucionários que integravam o apelidado CR novembrista
Mas com o poder militar coabitava o poder civil partidário, durante o triénio em que decorreu o julgamento – cuja transcendência histórico /nacional não podia, nem pode, ser escamoteada, pois que representou aos olhos de todos os portugueses e do mundo o Julgamento do Fascismo Português. E foi o que se viu! Uma sujeira, uma marca indelével de infâmia no corpo da infanta Democracia Portuguesa.
     Tomaram posse sete diferentes governos (do II ao VIII),   entre 1978 e 1981 . Saltando de uns para outros, por lá passou toda a brigada do reumático, que ainda hoje por aí se arrasta caquéctica ante o aborrecimento ou o desprezo geral. Soares, Balsemão, Freitas, os falecidos Sá Carneiro, Pintassilgo, etc ; até Cavaco, mimoso tecnócrata, virgem de rapaziadas antifascistas ... até ele foi ministro das Finanças e Plano do governo Sá Carneiro (VI Governo Constitucional – Jan.80/Jan. 81).
 Essa elite demo-reaça de dirigentes políticos burgueses ao serviço do restauracionismo filofascista continua agarrada desesperadamente ao poder, seguindo o exemplo do Velho Abutre. O biógrafo de H.Delgado, com a sua hereditária frontalidade, foi remexer num saco de gatos; ou, melhor dizendo, num ninho de cobras. Pode ter a certeza - falo por experiência própria – que ficou votado ao ostracismo. Democrático, no caso, mas da mais pura tradição salazarenta. Aliás, depois do lançamento da biografia - e, principalmente, da intervenção televisiva do autor – cessaram por completo as referências sobre a obra em todos os meios de comunicação e informação. Assim era nos tempos da censura; assim continua a ser em tempos de neocons filofascistas..
 
Para melhor ilustrar o clima de tolerância filofascista que presidiu à farsa judicial da St.ª Clara, vou transcrever alguns parágrafos de uma local noticiosa datada de 10.3.81. “Ainda antes de principiar a sessão .... Mário Soares levantou-se da cadeira e, com um sorriso a rasgar-lhe a  boca, dirigiu-se ao banco dos réus para cumprimentar os antigos dirigentes da PIDE/DGS, Pereira de Carvalho e Agostinho Tienza. Na sala, estavam já alguns familiares do antigo candidato à Presidência da República.....Durante cerca de quatro minutos, o secretário-geral do PS manteve-se à conversa com os dois pides/réus num processo do qual Mário Soares chegou a ser assistente em representação a família do general Delgado.....O que se pode contar é que tanto Mário Soares como os dois pides divertiram-se com aquilo que disseram, porque de outro modo não teriam trocado tantos risos e sorrisos”  
Este apontamento não consta na obra recém publicada pelo neto do assassinado general. Haveria muitas outras de semelhante interesse “ambiental”. Lembro que, enquanto decorria o julgamento, ter recebido um telefonema da drª Alcina Bastos , assistente da acusação particular, dando-me conta de ter sido indeferido pelo tribunal, um requerimento para eu depor como testemunha. O despacho dos doutos juizes (citando de memória) era qualquer coisa do género: “escusa de cá aparecer, pois já sabemos o que vai dizer “.
Segundo o próprio Frederico Delgado Rosa a biografia do general seu avô, foi o resultado de 7 anos de trabalho contínuo e exclusivo . Isso obrigou-o a abandonar uma promissora carreira académico/científica de âmbito internacional com obra já publicada. Durante esse largo período , não recebi notícia do seu labor; no entanto, um meu livro e três artigos na imprensa, estão mencionados na Bibliografia Seleccionada que encerra o volume.
De facto, como é do conhecimento geral, o destino da minha vida foi expressamente influenciado pela intervenção do gen. Delgado no combate ao fascismo salazarento. Se, a partir de 1958, o derrubamento do regime fascista foi a missão a que Humberto Delgado entregou a vida, também é a partir dessa data que tudo sacrifiquei por essa mesma causa. No meu caso sobrevivi às balas fascistas, que me deixaram entre a vida e a morte. Não é pequena a diferença; contudo, no plano individual, só essa é a diferença.
Frederico D. Rosa remata o Prólogo da sua monumental obra, escrevendo :”Não é possível escrever História com objectividade; mas é possível escrevê-la com rigor. Foi o que fizemos”. No entanto, após leitura (de lápis na mão) das 1300 páginas tenho a dizer que a sua afirmação/ aforismo peca por modéstia : não só escreve com rigor, mas ainda com notável objectividade . Postura rara – rarissima em Portugal – entre os historiadores de carteira e carreira, quase todos “politicamente correctos”; ou seja, escribas ao serviço do poder e das espórtulas dos poderosos.
 A objectividade do autor –honestidade intelectual, noutra fórmula –reflete-se no estilo : uma prosa escorreita, sem armadilhas ou subterfúgios, com trechos empolgantes, evitando a apologia ou a exaltação apaixonada do herói, ademais seu avô reverenciado. Uma tarefa bem planeada e melhor acabada.
Em várias passagens, nos capítulos respeitantes ao combate antifascista travado por H. Delgado (Partes Sexta, Sétima, Oitava e Epílogo), constam afirmações a ele atribuídas e outra considerações, estabelecendo um arco imaginário continuo, a partir da candidatura presidencial (1958) prolongando-se no tempo até à deposição no Panteão em 1990. Esse arco, sem solução de continuidade, faz parte da construção do mito. E como tal se aceita. No entanto, nem é preciso sair da obra biográfica agora editada para nos aparecer –em pública denúncia – a profunda discontinuidade da farsa judicial; ademais sancionada pelos poderes e órgãos de soberania da Democracia Constitucional, quatro aos passados sobre o 25 d’Abril ; e mercê da qual, resultaram absolvidos do miserável crime, o regime fascista, Salazar e seus sicários.
O abrir o Epílogo do seu livro reconhece o autor “....após o 25 d’Abril 1974....Humberto Delgado não foi uma questão pacífica ...o seu nome causava incómodo a vários sectores políticos e militares da democracia....desde logo, muitos dos oficiais vencedores sentiam embaraço em reconhecê-lo como percursor da Revolução dos Cravos....Não havia abertura de espírito suficiente para conceder a Humberto Delgado o estatuto de herói nacional que o Povo Português já lhe atribuíra espontaneamente”. Pois é, prezado biógrafo. Eu que o diga, por experiência. No mínimo
 
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