Sábado, 22 de Novembro de 2008

FASCISTA FOI - Deixou Herdeiros

J. Varela Gomes

          Trata-se do Manholas Salazar e do regime fascista que personificou. Trata-se também –disso nos vamos ocupar – de um exaustivo trabalho de investigação histórica desenvolvido em mais de dez anos pelo consagrado académico Manuel Loff, da Universidade do Porto; e agora disponível no circuito livreiro com edição parcial ( e são 954 páginas!). O volume traz por título “O NOSSO SÉCULO É FASCISTA”; sentença dogmática proferida pelo ditador português após a vitória da cruzada anticomunista em Espanha (de que o fascismo salazarista se arrogava parte); e quando os exércitos nazis dominavam toda a Europa, parecendo vencedores finais aos olhos maravilhados de Franco e Salazar, de seus acólitos e partidários.

         A escolha do título não se resume à denúncia provocatória do aclamado “genial estadista” ; simultaneamente, dá a entender qual a tarefa a que se propõe o investigador/autor: desmontar a impostura ainda corrente - em meios académicos (!), político/democráticos (!!), comunicacionais públicos e privados (!), etc - de se procurar converter 48 anos de regime ditatorial fascista, num lapso episódico da Historia Pátria; não apenas sob o ponto de vista temporal, mas como se tivesse consistido numa governação inócua que não teria sequer oprimido os cidadãos e cerceado as liberdades fundamentais. Um mero “autoritarismo conservador”, na famosa definição de Jorge Sampaio, quando Presidente (democrático!) da República.

         O trabalho de M. Loff resulta na desmistificação completa das teses complacentes com a “banalidade” da ditadura fascista/salazarista; as quais – por incrível que pareça - ainda por aí voltejam. Desde logo, pondo em causa a honestidade intelectual de quem as acolhe; questionando, para além disso, o ethos (a vertente moral) da encoberta identidade portuguesa.

O mais recorrente desses mitos de intenção branqueadora – melhor seria chamá-los trapaças – consiste em negar o carácter fascista do salazarismo. Através de contorcionismos semânticos, de contrafacções históricas, de grosseiras omissões e falsificações, tenta-se erguer o mito de “Salazar, o Melhor Português de Sempre”. Lembram-se os leitores, certamente. Essa pantomina é recente, esteve em cena na RTP 1/Canal Estatal, durante todo o primeiro trimestre da 2007, martelando propaganda fascista horas a fio.

         A tese de doutoramento de M.Loff ( que o volume agora publicado, sintetiza) estabelece irrefutavelmente a genealogia do salazarismo. Contrariando a lenda corrente que considera o fascismo italiano a fonte inspiradora, fica demonstrado - com enorme apoio documental e bibliográfico – a filiação ideológica do Estado Novo ao modelo da Nova Ordem germano/nazi. A adopção da respectiva doutrina e organização concretiza-se, em Portugal, a partir de 1936/38. As afinidades e as relações cúmplices do Estado Novo com o regime sanguinário de Franco, merecem estudo alargado; em menor escala, são abordados casos de outros regimes nacionais que adoptaram o figurino totalitário da Nova Ordem nazi, da Hungria, ao Brasil. O autor segue alguns desses casos –incluindo o português - até aos nossos dias. E fica alarmado, com justa razão, perante a insistente vaga branqueadora dos antigos regimes fascistas e seus protagonistas; particularmente, em países que sofreram essa opressão totalitária.

Mas não só. Ao ouvir a repetição obsessiva do apelo à mudança, pela boca de qualquer actual carreirista da política partidária em Portugal ou alhures, um sinal de alarme soa no meu espírito. Sim, lembro-me da Nova Ordem, do Estado Novo, da Nação Nova, Novas Eras , Vida Nova, etc, etc. Deu no que deu! Agora, remoçaram os “neues” nazis em neos capitalistas: neo-liberais/neo-conservadores. Uma Nova Ordem Económica, global, anunciam eles; onde participará uma Nova Europa, polvilhada de bases militares americanas. Mudanças ? Reformas? Pelas mãos desta gente? Berlousconi, Sarkozy, Durão Barroso, Sócrates, cuja caricatura já reina na Madeira? Só de pensar nisso até assusta! A paranóia autoritária, o confisco partidário da administração pública, o ódio aos trabalhadores, prenuncia o ditador, o herdeiro presuntivo da NeueOrdnung nazi. Ou, na adaptação paroquial lusitana, o herdeiro ideológico do Estado Novo, modelo rural Manholas.

          O estudo e reflexão de M.Loff sobre o Século XX, que Salazar proclamava até 1942/43 inevitavelmente fascista, adquire nesta primeira década do séc. XXI, face à realidade da Nova Ordem Imperialista Americana, uma flagrante pertinência. O investigador/historiador, em numerosos passos do seu extenso trabalho, vê-se arrastado para o confronto com o século XXI; em especial, quando está em causa o trajecto paralelo (e fraterno) dos dois fascismos ibéricos, franquismo e salazarismo; ambos, para trágica infelicidade dos respectivos povos, tendo persistido mais 30 anos à derrota do nazi/fascismo. As “hermandades” (no texto) ideológicas, (filosóficas em geral), mesmo de representação estética e cénica, permitem (au autor) desenhar uma coerência global entre as várias experiências que “se sentiram, como se sentiram os governos ibéricos, particípesde uma Nova Ordem”. Uma “comunidade ideológica”, afirma noutro passo, resultante da co-opção dos conceitos e projecto da Neue Ordnung germano/nazi e do corporativismo italo/fascista. Mas o que deveras incomoda o autor, considerando ”intolerável no mundo Pós-Auschwitz”, é a sobrevivência dos regimes fascistas de Franco e Salazar na Península Ibérica. Não podemos estar mais de acordo : constitui mancha infamante e indelével na Paz Democrática, cristã ocidental..

          M.Loff estigmatiza “o mais despudorado pragmatismo” revelado pelos regimes fascista ibéricos após a derrota dos exércitos do totalitarismo nazi/fascista. Chama a Franco e Salazar “autênticos camaleões políticos”. Na verdade, mais despudorado ainda foi o recrutamento para a frentecapitalista/anticomunista das duas ditaduras ibéricas a que, de imediato, procederam as democracias ocidentais. Sim, o Manholas era capaz de renegar crenças e princípios para se manter no poder. Nisso também fez escola. Deixou herdeiros. Eles aí estão, última fornada, no governo dito socialista do alegado eng. Sócrates, revelando-se camaleões políticos tão bons ou melhores que os mestres fascistas do antigamente.

 

         O historiador probo e de independente julgamento, o investigador meticuloso e exaustivo Manuel Loff, teria fatalmente de se confrontar com a historiografia fascista; cujas fortes ramificações se encontram ainda hoje (2008) bem presentes no corpus historicus nacional que domina o ensino académico, a produção de doutrina e a investigação sobre o acontecido ; com incidência especial no relativo à obra aqui compulsada. O Cap. 3 analisa e castiga a Revisão historicista da História promovida e imposta pelo regime salazarista no sentido de eliminar textos e preconceitos pouco amistosos, de exaltar a grandeza e a singularidade de Portugal, etc. Conhecemos o género. Eles ainda andam por aí: os cronistas/historiadores ao serviço do poder partidário burguês, porta-vozes da visão optimista do governo em exercício. Democratas serão, como a fruta no tempo; mas herdeiros se revelam dos tiques do acomodamento (politicamente correcto, é a expressão eufemística). M. Loff denuncia o servilismo de um João Ameal nos anos 40; mas também cita a manipulação póstuma (em 2000!!) por um Manuel Lucena, transformando o salazarismo e seu chefe num “peculiar antifascismo na luta contra influência ítalo-alemã na Peninsula”. Várias outras aberrações branqueadoras se podem ler. Ao autor custa-lhe aceitar que dignatários do fascismo como Freitas do Amaral, (ou Adriano Moreira, Veiga Simão, Hermano Saraiva, etc) sejam reverenciados pelo regime democrático, contaminando a atmosfera sócio/política; e, bastante pior que isso, dando testemunho vivo que os 48 anos de fascismo salazarento foram um lapso episódico banal na História da Nação,   assimilado, sem problemas, pela chamada identidade portuguesa e perfeitamente integrado na sociedade democrática.

         Vemo-nos na triste contingência de ser obrigados a reconhecer que, sob a actual governação (suposta) socialista foi atingido um grau superior dessa assimilação filofascista; traduzida, na prática, num neo-autoritarismo totalitário no exercício do poder político. Isso nota-se em todos os domínios. Poder-se-ia destacar a comunicação social, onde os tiques de subserviência ao poder parecem já restabelecidos. Mas, como estamos acompanhando M.Loff pelos difíceis caminhos do historicismo, cabe aqui deixar aviso que o “totalitarismo socialista” de Sócrates & Parceiros tem em mira o campo de história e suas fábricas académicas. O que se passa no Departamento de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, chefiado por António Reis (ponta-de-lança do PS, grão-mestre da Maçonaria, etc), suscita larga apreensão. Fábrica de contrafacção histórica para o branqeamento do fascismo salazarento? Há indícios.   

Salazar em pessoa, re-escrevia para a história, emendava ou mandava emendar documentos e correspondência (ó sacrilégio! fanáticos do espólio escrito), fixava normas metodológicas aos futuros historiadores, declarava em 1945, em desespero de sobrevivência, que o Estado Novo era a ”verdadeira democracia”. Consta em “O NOSSO SÉCULO É FASCISTA”

O estudo/tese de M. Loff concorre, talvez como nenhum outro até há data, para desmistificar as contrafacções relativas a um edulcorado “anterior regime”, que por aí circulam impudicamente. Além disso abre inúmeras pistas de reflexão, convida ulteriores investigações e desenvolvimentos, estimula o combate pela reposição da verdade histórica. Combater a complacência pelo antigo fascismo, denunciar o filofascismo encapotado sob trajes académicos, de comentadores avençados, ou do respeitinho politicamente correcto, é prevenir um neo-fascismo que já incuba no regaço do neo-liberalismo global.

Creio ser esta uma das lições mais importantes transmitida pelo magnifico trabalho de Manuel Loff. Gostaria de poder concluir - num remate feliz –que, nesse sentido e consequência, vai ser grande a repercussão da obra agora publicada. Infelizmente, as condições pré-totalitárias em que vivemos, por cá e no mundo, não sustentam essa hipótese. No entanto, esta frente da luta ideológica –o desmascaramento do salazarismo- não pode ser abandonada. M.Loff marca, com louvor e distinção, poderosa presença nessa primeira linha do combate antifascista. Felicitações são devidas ao investigador/historiador. Saudações deixamos ao antifascista, companheiro na mesma trincheira.

publicado por samizdat às 16:56
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Sábado, 1 de Novembro de 2008

LICENCIOSIDADE E LIBERTINAGEM

J. Varela Gomes

 

Os dois conceitos em título, poderiam parecer  demasiado pejorativos para caracterizar o exercício do poder, ou a  simples actividade política; em especial, no caso de  regimes que se prezam de democráticos. Entretanto, a presente crise global financeira, veio trazer a descoberto, exactamente, a licenciosidade e a libertinagem com que a burguesia capitalista (suposta democrática) administra os negócios do mundo, com total impunidade e desfaçatez

Ora, semelhante tipo de governação vem fazendo escola em Portugal desde 1976, com o 1º executivo constitucional dirigido por M. Soares. Durante 32 anos, o país “politicamente correcto” foi desculpando os excessos licenciosos e libertinos (jovem e ingénua democracia!); foi-os tolerando (pois se até os pides foram ressarcidos!); suportando-os (o exemplo vem de fora!); até que a crise (virtuosa senhora!) tornou a escandaleira  insuportável e intolerável.   

Verifica-se pois, que neste campeonato de abastardamento dos valores fundadores do capitalismo liberal burguês, a jovem e galante democracia portuguesa chegou, velozmente em apenas três décadas, ao pelotão de frente; com o requinte adicional de o fazer por intermédio de um governo de esquerda, socialista de sua graça. Embora, qualquer economista de meia-tijela conheça a fase libertária do moderno sistema capitalista no séc. XIX; com a ficção do comércio livre, mais a invisível (e marota) mãozinha para equilibrar o coiso do mercado entre a oferta e a procura; passando pela comédia de repudiar o Estado em público e amá-lo em privado.

 As duas consignas que mais furor provocaram naquela época – “laisser faire, laisser passer” ,  enrichissez-vous” – já eram um convite claro à licenciosidade e à libertinagem nos negócios. O neo-liberalismo, ao ser adoptado como religião pelo império americano, retomou agora esse convite à escala planetária. Com os resultados que estão a ficar à vista.

 Além disso, a actual crise financeira global deixa irremediavelmente desacreditados alguns dos dogmas sagrados da doutrina capitalista liberal. O destaque vai, sem dúvida, para a destruição do mito de ser possível alcançar progresso e justiça social através da livre iniciativa individual ou empresarial, e da consequente luta (concorrência) pela primazia. Acreditar em tamanho milagre, seria nada conhecer da natureza humana. Mas é claro que os pais da luminosa receita (Adam Smith & Cª, pelos idos de setecentos) sabiam bem que na sociedade dos humanos impera a cupidez e a ganância. Eles próprios, membros da nova classe ascendente - a burguesia- pretendiam o mesmo: dominar a sociedade. Depressa aprenderam que tinham que conquistar/controlar o poder político.

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O sistema capitalista liberal, na actual fase  neo-libertária, acaba de sofrer um grave colapso; digamos, uma espécie de a.v.c. profundo, cujas sequelas desejamos ( e fazemos votos) sejam irremediáveis. Desde já perdeu a face. Ridicularizou-se a si próprio. As malditas nacionalizações foram acolhidas como panaceia salvadora; o Estado, monstro horroroso, foi saudado como bom samaritano, amigo fiel na hora das aflições. Sem vergonha na cara - luxo que sempre dispensaram – os bravos burgueses radicais das amplas liberdades e mínima presença estatal, deitaram pela borda fora os sacrossantos princípios da sua fé doutrinária.

 Trafulhas de raça, pantomineiros por vocação. Das américas às carrazedas transmontanas. O nosso Primeiro apressou-se a condenar os delírios do liberalismo, a sublinhar os perigos da ausência do Estado na regulação do sector  financeiro. Verdadeiro artista! Cavalga a onda da crise com o mesma certeza e arrogância com que anunciava há escassas semanas uma era de prosperidade garantida pela iniciativa privada, uma felicidade sem peias para empresários e consumidores.  

 Mário Soares, outro socialista de fina raça, também famoso pela rapidez de adaptação aos ventos predominantes, escreve no DN de 21 Out.: ”....a mais grave de todas as crises, é a crise moral, a crise dos valores; ou melhor, da falta deles....a negação da ética....a impunidade da corrupção...numa sociedade individualista, egoísta e consumista ...em que o dinheiro conta como supremo valor.” Fim de citação. Minha alma está parva! Mário Soares, o re-descobridor do socialismo! Após tantos anos perdido de amores pelo Tio Sam, nas delícias do capitalismo de rosto humano, distribuindo (e recebendo) prebendas e magnificências , etc! Que lhe sucedeu na estrada de Damasco? É tão duro assim o caminho para o Panteão ?

  O facto é que a “conversão” soarística me ia roubando o tema. Mas, uma muito maior  antiguidade (e coerência) na contestação à iniquidade do sistema capitalista, devolve-me o fio do discurso. O qual conduz a uma  sequela do tipo cancerígeno capaz de produzir a morte do organismo

Retomando. A actual crise financeira/económica global desencadeou, no plano da luta ideológica, â escala universal, um movimento de criticismo condenatório do sistema burguês/capitalista como não há noticia em memória de viventes. Um ajuste de contas de enorme violência, em nome da justiça social, do igual direito a uma vida decente para qualquer ser humano. Assiste-se à denúncia vigorosa da oligarquia burguesa dos ricos, classe exploradora sem escrúpulos nem princípios, responsável pela  divisão da sociedade entre uma ínfima percentagem de privilegiados  e multidões inumeráveis de excluídos. Surge a revelação de abusos sem conta, de regalias e salários obscenos empalmados pelos gestores do capital; revelações e escândalos que estão suscitando a ira e a crescente revolta das massas trabalhadoras. Por enquanto, não está definido, a nível mundial, o desenlace do presente choque ideológico. Dependerá, naturalmente, de várias circunstâncias objectivas; e da inteligência e força de ânimo daqueles que se colocam , de alma limpa e recta intenção, ao lado  dos oprimidos e explorados, dos desprotegidos e desventurados.

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Nós por cá, neste cantinho privilegiado do  paraíso terreal (já Tomás  assim dizia), fomos dos primeiros a alancar (é a nossa sina) com as maravilhas do capitalismo libertário, por obra e (des)graça de socialistas e sócio-democratas. Logo com Soares, vencedor da contra-revolução, aceitando os ditames do FMI; depois, com demo-reaças de igual estirpe, Balsemão, Cavaco, Guterres, Barroso, etc; até nos cair em triste sorte esta flor da charneca, usurpador de nominativo honesto. Todos eles -galeria de susto- contribuíram com empenho e denodo para converter Portugal num oásis para gente endinheirada, jogadores de golfe e de casino; moderno Versailles num oceano de paisagem ardida, vegetal e humana. Dois subprodutos desse modelo de sociedade foram medrando com vigor, mercê da simpática tolerância concedida pelos executivos da  classe burguesa: designadamente, a licenciosidade e a libertinagem .

Nessas circunstâncias, torna-se lícito afirmar que este pequeno país das descobertas, descobriu o caminho para as delícias do capitalismo libertário  antes de muitas e poderosas nações. A bem dizer, logo a seguir ao Chile de Pinochet (e por idêntica e manifesta causa). Pioneira foi a sôfrega burguesia portuguesa na sua adesão entusiástica aos princípios doutrinários do neoliberalismo económico/financeiro veiculados pelo FMI; apesar dos entraves e limitações consignados na Constituição de 1976, ainda com fortes raízes na revolução. Mas quem não se lembra das viagens faraónicas/ridículas de Mário Soares no seu decénio presidencial; da sua famosa tolerância restauracionista, traduzida em larguesas para   fascistas, pides e toda a escória contra-revolucionária. Representava-se como um rei magnânimo, dono e senhor do Estado/Nação, dissipador de prebendas a amigos e cortesãos. Fez escola. Fundou a democracia da licenciosidade prosseguida até hoje. Até à presente fase socretina da libertinagem em roda livre.

Por conseguinte, em certa medida, pode considerar-se que o caminho para o actual crise  do  capitalismo libertário foi uma descoberta precoce do génio político da burguesia lusitana.  Antecipando, em décadas, o colapso da doutrina  neo-lib/neo-com;  que só agora –em 2008~ foi reconhecido pelas grandes potências económicas, igualmente vítimas –lá  como cá- da licenciosidade das suas elites e da libertinagem dos seus agentes político/económicos. Trata-se de uma gloriola da burguesia nacional, que ninguém decerto regateia, e que fica apropriado florão nos brasões dos partidos socialista e sócio-democrático.

Em contrapartida, podem as nossas forças e formações políticas da oposição aos governos burgueses, mais a “sociedade decente” (o conjunto dos cidadãos que não abdicam dos princípios da honestidade e de uma  justiça equitativa tendente à redução das desigualdades sociais), vangloriarem-se da longevidade da sua luta, na denúncia constante da deriva libertária/libertina da democracia portuguesa, que se manifestou logo de imediato com os primeiros governos contra-revolucionários em 75/76, até explodir na vigente libertinagem socialista /socretina. Durante os últimos 32 anos assistiu-se em Portugal, a uma espécie de anteacto, em teatro de aldeia, da degradação e colapso do capitalismo libertário; fenómeno só agora (ao que parece!)  percepcionado pelo  poderoso mundo livre da altíssima tecnologia informativa; e para isso, ainda foi preciso o estrondo  de derrocada financeira e o escândalo dos magníficos gestores a escaparem-se com o dinheiro metido no cu das calças. Na realidade, eles não são tão estúpidos como parecem. Videirinhos, ladrões de casaca, peritos na extorsão do suor da classe trabalhadora. Lá fora manipulando as bolsas do crédito e dos petróleos; cá dentro na vigarice do compadrio tradicional; todos sócios no mesmo negócio de saque e exploração.   

Com efeito, cá pelo sítio, o capitalismo libertário exibe-se há décadas sem disfarce nem pudor Temos até uma versão acabada que podemos, oferecer para estudo aos nóbeis da econimia global: concretamente, o modelo que funciona na Pérola do Atlântico, debaixo da demo-monarquia do Alberto J. Jardim. Uma preciosa amostra do futuro radioso que espera a burguesia acomodada. Julgam  improvável o maravilhoso mundo livre cair numa dessas ? Olhe que não, olhe que não. Nem falemos do passado recente. Olhe que já por aí andam, de novo, por essa Europa tão ufana dos seus pergaminhos, uns farsantes apalhaçados que pedem meças ao Alberto João. Entre outros: Berlousconi, Sarkozy, pelas Polónias e nas Áustrias (onde nasceu um  tal Adolfo, palhaço inofensivo para os sábios da época). E no Cótinente luso-cubano? Parece que sim, também por cá anda um alegado engenheiro, exímio surfista nas ondas da crise e das reformas.

 

Em Portugal, o sistema partidário burguês capitalista navega num oceano de desconfiança e repúdio. A indignação que presentemente varre o mundo das democracias ocidentais, quando a crise financeira tornou ofuscante  a licenciosidade e a libertinagem das respectivas direcções políticas, já há muito domina o estado de espírito da população portuguesa. Ultimamente, a desmoralização está alastrando por todos os sectores da sociedade. A maioria absoluta do Partido (Suposto) Socialista já reveste formas de paranóia autoritária. Os abusos do poder, os tráficos de influência, o confisco partidário dos serviços públicos e respectiva privatização sem rei nem roque, compadrios e corrupção de norte a sul, acumulação de benefícios, pensões e regalias pela classe política, etc, etc. Toda uma soma enorme de escândalos que dão brado mas que permanecem impunes, estão despertando indignação e revolta generalizadas. A opinião da rua, do cidadão comum, nos media, através de centenas de blogs pela internet , denota um crescente sentimento insurreccional.

Avizinha-se um dilatado período eleitoral. Cumpre à  Oposição Democrática Portuguesa, como em tempos de outrora, impulsionar esse movimento patriótico com firmeza e sem contemplações; designadamente, em relação a ilusórios frentismos, (onde M.Alegre é cromo). Em meu entender, firmeza na presente situação política nacional –e internacional- consiste, essencialmente, em pedir contas aos responsáveis pela libertinagem e licenciosidade  que conduziram ao aviltamento dos valores democráticos, à miséria e à ruína  em largos sectores da população, ao enriquecimento afrontoso de uma minoria. Haverá coragem na denúncia -   caso a caso, nome a nome. Ou não haverá oposição digna do momento. 

 

                                   Lisboa, 28 Outubro, 2008

 

                                      Fez) J. Varela Gomes

 

publicado por samizdat às 19:02
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A Burguesia Mundial em Pânico

 

(Revolução em Portugal, 1974-75)

J. Varela Gomes

 

Um novo livro de “revelações” sobre o Período Revolucionário (74/75) foi agora editado, trazendo por título “Carlucci vs Kissinger” e por sub-título “Os EUA e a Revolução Portuguesa”. Na capa figura o nome de dois autores: Bernardino Gomes e Tiago  Moreira de Sá. O primeiro dos nomes chega e sobra para identificar a obra e acautelar a leitura. Bernardino Gomes (BG) é uma personagem de romance de espionagem, do mundo das manobras secretas, lançado de paraquedas na política portuguesa, vindo de nowhere, após o 25 d´Abril. A alguém do PS, deputado na altura, ouvi comentar : Toda a gente sabe no partido que B.Gomes (e Rui Mateus) são os special friends  dos americanos. A nota biográfica constante na badana da capa  confirma o  real significado de “amigos especiais”. Na contra-capa da edição –e, igualmente, na Introdução – os autores reconhecem e agradecem o contributo da Fundação Luso-Americana e de um obscuro Instituto de Relações Internacionais para a realização da obra. O apadrinhamento torna-se ainda mais explícito.

Embora seja sublinhado que... “o objectivo do estudo é avaliar o impacto da actuação norte-americana no resultado final da passagem do regime autoritário (os fascistas agradecem) para a democracia em Portugal”, o facto é que o volume está organizado  segundo o desenrolar dos acontecimentos  revolucionários descritos a bel-prazer. (Note-se que a declaração prévia de limites temáticos em estudo historiográfico resulta, geralmente, num livre-trânsito para omissões fundamentais e/ou inclusões espúrias).

Em consequência cronológica, os autores dedicam o 1º Capítulo ao período de tempo entre o 25 d`Abril  e a crise do 28 Setembro 74. Mas  entram com pézinhos de lã, negando um dos mais venerados e venerandos mitos/dogmas mantidos pelos historiadores “politicamente correctos”: afinal o imperialismo, a norte-américa, a querida CIA....sabia ! “Chegaram a Washington muitas informações nas vésperas do 25 Abril”. (Só nas vésperas? Vá lá, mais um esforço!). O problema, segundo os nossos isentos investigadores da Fundação Luso-Americana, foi que eles (as Cias, as Tias?) não percepcionaram correctamente as informações recebidas. Foi pena! (Percepção, é conceito chave ao longo de todo o livro; uma espécie de manto diáfano a cobrir as evidências mais cruas). Neste caso, relativo aos primórdios do 25`Abril, quer os Cias americanos, quer as Tias portuguesas, não foram capazes de percepcionar a entrada no Tejo, a partir do dia 24 d´Abril, de uma imponente esquadra Nato com 80 navios de guerra, incluindo porta-aviões nucleares, esquadrilhas de aviões de ataque ao solo estacionadas no Montijo, etc; também não percepcionaram a conferência  de imprensa do almirante americano Robert Erly, no dia 23 em Oeiras (veio notícia nos jornais), nem o nome de código das grandes manobras aeronavais com início marcado para a madrugada de 25: Dawn Patrol – Patrulha da Alvorada. A percepção não lhes chegou, igualmente, para entenderem as notícias sobre a entrega de credenciais de novos embaixadores do Reino Unido, da Alemanha Federal, do Brasil nos dias anteriores ao 25 (Por acaso –ai a minha percepção-  os dois últimos eram os chefes dos serviços secretos nos respectivos países). Venho repetindo estas e outra “percepções” há muitos anos ( por ex.: Revista História Nº66, Abril 1984). Menciono-as  aqui, apenas para deixar estabelecido que percepções há muitas ao dispor do freguês; até para o investigador míope enfiado nos arquivos em busca do documento/revelação, sem olhos para porta-aviões; e ainda menos para multidões.

Seja como for, mesmo o cronista a quem o rei encomendou a crónica do seu reinado, deixa transpirar alguma percepção para terceiros curiosos. Nesse sentido, numa primeira leitura, percepciono no estudo recomendado pela Fundação Luso-Americana alguns aspectos que merecem demora. Desde logo, o involuntário efeito que a obra possa ter, na comprometida historiografia portuguesa, nomeadamente a académica. Comprometida entenda-se, com o sistema de poder;  ou seja,  politicamente correcta; o que corresponde, por norma, a intelectualmente castrada. Enfim, há excepções.

O estudo tenta demonstrar – com sucesso e com razão, admita-se – que a intervenção americana em Portugal, no decurso do processo revolucionário, foi decisiva para vitória da contra-revolução. Isso é feito (confessado) com  naturalidade, de forma totalmente desinibida. As conspirações com os políticos reaccionários e os militares ditos moderados são descritas como procedimento trivial, mera rotina. Ora o à-vontade usado nessa petição de princípio, contrasta frontalmente com a posição cobarde adoptada - inda hoje, já lá vão 30 anos – pelos políticos e militares conspiradores de 74/75, que negam, negam tudo, foram uns inocentes, nem conheciam o Carlucci, e a Cia ....era uma coisa inventada pelos comunistas, não era?. Os nossos magníficos historiadores académicos/mediáticos (quase todos: chapa 4em5) sempre a cantar a compasso e a escrever a tanto-à-linha. vão ficar enrascados com as “revelações” de Bernardino & Cª. A minha percepção é de que vão assobiar para o lado; na velha receita de “não tomar conhecimento”; ou não fossem eles burgueses de lei, entre acomodados e agachados.

A figura que surge mais destacada, o vencedor do confronto “Carlucci vs Kissinger” é, sem dúvida, o embaixador americano em Lisboa. Na percepção dos autores, os serviços secretos (a CIA) foram os grandes responsáveis pelo sucesso da contra-revolução; o Departamento do Estado (Negócios Estrangeiros) e o respectivo conselheiro (Kissinger) estariam de cabeça perdida, após o 11 de Março 75, considerando Portugal nas mãos dos comunistas. Para o responsável máximo pela estratégia do império capitalista, pelos destinos da burguesia a nível planetário, ... “a revolução portuguesa podia destruir todo o sistema de defesa ocidental construído após a II Guerra Mundial...; contagiar o resto da Europa, destruir a Aliança Atlântica, etc “ (pág. 185 e seguintes). O embaixador em Lisboa tentava acalmá-lo. Tinha os seus contactos já muito adiantados com o partido socialista. A bem dizer diários, com Mário Soares. No entanto, surpreendentemente, a personagem que é “percepcionada” como o elemento chave da conspiração contra-revolucionária é Melo Antunes. Para muita gente (onde me incluo) será esta a maior revelação produzida pelos quatro anos do estudo luso-americano agora publicado. Na realidade, Soares foi sempre apresentado como o campeão dos americanos (émulo do quinhentista Cristóvão de Moura). Foi destronado dessa glória? Assim parece. Por outro lado, até há data, Victor Alves foi sendo considerado o militar conspirador mais íntimo da embaixada e do embaixador. Há declarações do próprio  Carlucci nesse sentido. Enfim ! Esta rapaziada dos serviços secretos toca a música que  agrada a quem a paga, em cada ocasião

Dada a natureza do presente apontamento, vou acabar por aqui o escrutínio do trabalho de Bernardino Gomes & Cª. Provavelmente nem sequer o merece; seguramente não perfuraria a muralha censória comandada pelos demo-reaças, lacaios do imperialismo (como soía dizer-se), os restauracionistas de novembro.

Mas deixo nota – a modos de sugestão para hipotético investigador não-comprometido – de alguns aspectos e temas fundamentais que os autores acharam conveniente minimizar, ou ocultar. A justificação matreira seria do género: A pesquisa tinha um objectivo limitado. Pois é, pois é; nós sabemos que é ainda preciso deixar muito esterco a apodrecer.

Por exemplo, um dos temas mais escamoteado no análise do processo contra-revolucionário português é a importância do papel provocatório e desestabilizador das formações esquerdistas; com absoluto destaque para o MRPP. Logo no próprio dia 25 d´Abril; no fim festejaram na rua o 25 Novembro como o triunfo da “verdadeira revolução”. Passando pelo greve dos telefones e outras; casos República e Renascença; congresso do CDS no Porto; assalto à embaixada de Espanha; cerco à Assembleia,etc. Na minha “percepção”, a intervenção do MRPP indicia uma organização com dependência Píde anterior; e, depois, sob o controlo central imperialista, através da Cia, naturalmente.

Também a importância do papel da Igreja católica na desestabilização revolucionária, incluindo incitação ao terrorismo e atentatos, aparece reduzida a una ou duas simples alusões. Em contraste com o largo espaço dedicado à mobilização da burguesia europeia : rios de dinheiro para os partidos reaças e conspiradores num Portugal oprimido por “terrível ditadura comunista”; planos de apoio aos partidos políticos anticomunistas, ao Grupo Militar dos 9, à imprensa mercenária; nuvens de infiltrados, agentes, missões secretas (pág.246), ou menos secretas - equipas de televisão estrangeiras sempre presentes  na mínima provocação contra-revolucionária; etc. Planos para uma eventual independência dos Açores ocupam numerosas páginas; igualmente “O plano de contingência americano para a guerra civil portuguesa” (pág,329 e seguintes). O ponto 5 do Capítulo V, na rubrica “Apoio americano à restruturação das Forças Armadas”, após o 25 Novembro, limita-se a referir os montantes em dólares de uma vaga “assistência militar”. Mas todo o mundo sabe o que isso significou no Chile, no Brasil, etc: um depuração feroz  nos quadros, particularmente no oficialato; promoções por escolha ideológica, o célebre perfil do militar anticomunista, etc. Eis um tema de indiscutível importância, por isso rodeado de todos os interditos. Poucas probabilidades tem de chegar a ser investigado por algum historiador nacional. Apesar dos autores deixarem certas “percepções” inspiradoras; tais como: “O apoio militar ... às Forças Armadas portuguesas ... com o objectivo de as integrar crescentemente na Nato  retirando-as de cena política” (pág.401). Noutras passagens, Ramalho Eanes aparece como o candidato da equipa militar americana que trabalhava com Carlucci. Nas conclusões finais, o apoio militar ao “Grupo dos 9”,se necessário, é expressamente citado no âmbito do 1º eixo prioritário da acção dos EUA na transição democrática portuguesa.

 

Como atrás foi dito, uma investigação de carácter histórico, apadrinhada pela Fundação Luso-Americana, com a autoria de um special american friend, merece apenas um crédito limitado e cauteloso. No entanto, os autores multiplicam  as “percepções” (e a falta delas). Autorizo-me ao uso do conceito.

Tenho sobre o insucesso da Revolução Portuguesa de 1974-75 uma “percepção” que vem sendo consolidada desde o 25 Novembro 75 até ao presente. Consiste em considerar que o Processo Revolucionário Português - mormente depois da derrota infligida ao golpe de Spínola em 11 Março 75 – provocou o pânico generalizado entre a burguesia ocidental, arrastada numa onda de paranóia anticomunista. (Lideres mundiais “perderam a cabeça”, como  é “percepcionado” pelos autores). Em consequência, os governos capitalistas - membros da Nato e não só- desencadearam uma formidável mobilização sem olhar a meios ou a alvos, desde incentivos ao terrorismo, a planos de ataque aéreo para destruir a “Comuna de Lisboa”.

Ter resistido 19 meses, com bandeiras erguidas, perante uma ofensiva de semelhante envergadura é título de glória para Revolução e para os revolucionários; nas páginas da História deste pequeno país de Portugal, isso brilhará para sempre.

Foi caso único nos tempos modernos. Só na Revolução Francesa e na Soviética, fidalgos e burgueses fugiram de calças na mão, como aqui assistimos  em 74-75. E ainda hoje tremem de cagaço e ódio, num pânico que ficou reflexo inextinguível.

Não meus amigos, não há razão para penitências masoquistas. Excessos e erros, quando os houve, bem minúsculos os ”percepcionamos” frente  ao poderio das esquadras Nato, das manobras de sabotagem e das traições internas. O orgulho pertence-nos. Devemos reivindicá-lo em todas as circunstâncias. Pela honra da grei.

 

                           Lisboa, 12 de Outubro, 2008

                               Fez) J. Varela Gomes

 

publicado por samizdat às 18:55
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