Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009

Em ano de eleições - anotações de eventual utilidade

Entrámos no ano das três eleições. A tensão no seio dos partidos políticos – mormente nos partidos da alternância burguesa – irá em crescendo. Em contrapartida, uma elevado percentagem do eleitorado manter-se-á alheia; por inércia anterior, por descrença consolidada.

 

O pessoal que não desiste continuará cumprindo o seu dever. Vai ser, seguramente, o caso do  “Alentejo Popular”. Aí me incluo. Aliás, nem precisarei alterar a orientação geral dos textos que venho alinhavando no nosso bravo semanário. Com efeito, quando comento ou crítico aspectos  da vida nacional, da história das gentes e das mentes, tenho sempre em vista oferecer tópicos de reflexão sobre determinadas questões candentes quer no plano interno, quer na actualidade mundial. Inevitavelmente entrando em contradição com o pensamento dito “politicamente correcto” .

 Neste momento, neste ano de importantes decisões respeitantes ao  futuro próximo do nosso país, a escolha do título em epígrafe obedeceu á intenção de contribuir (eventualmente) para despertar uma reflexão mais demorada, de maior responsabilidade cívica, sobre ao malefícios e as mistificações da governação burguesa que, no presente, leva  etiqueta socialista. Contribuição de modestas ambições.... para que  se cumpram os votos... de eventual utilidade.

 

Deve, no entanto, registar-se que críticas e denúncias das malfeitorias cometidas ou consentidas pelo governo PS estão sendo  lançadas por sectores e personagens da burguesia instalada. Dando de barato os ataques e acusações institucionais dos partidos da direita na oposição; e ainda do contingente dos despeitados sem glória e sem tachos – de que Mário Soares é o arquétipo ; resta um número apreciável de profissionais e intelectuais burgueses que, com admitida sinceridade, desejam que qualquer coisa mude para que as aparências resultem mais decentes. Ou seja, não querem efectivamente, bulir com o sistema; apenas que os adereços e adornos estejam limpinhos e brilhantes para que o bom povo possa aplaudir o espectáculo. Não obstante, é útil ler e ouvir esse grupo de pressão (chamemo-lhe assim); na medida em que, não só  constitui um elemento disruptivo na frente demo-reaça, mas porque representam “opinião autorizada e indiscutível” aos olhos de um vasto eleitorado incrédulo e hesitante. Assim, pode tornar-se útil citar essas abalizadas opiniões em abono de teses da esquerda anti-sistema Exemplificando:  o fiscalista Medina Carreira foi ministro das finanças no 1º governo M.Soares (1976-78), um produto directo da contra-revolução;  trinta anos depois é apoiante de Cavaco à presidência, e presença frequente na televisão. Lá esteve, já este ano, a 3 Janeiro (c/ M.Crespo), reincindindo a 5 (c/Conceição Lino). Dois extensos programas,   onde o entrevistado fez jus à  reputação de não ter papas na língua. Afirmou, entre outras “morteiradas”: existe uma corrupção generalizada que nos condena e empobrece; o País está a saque; a nulidade exuberante do governo; a propaganda do governo cheira a charlatanice, uma banha da cobra ;  a política em Portugal é um nojo; tenho o maior desprezo por quase todos estes políticos....são santolas só com casca; Socrates faz propaganda...não sabe fazer outra coisa; o que se passa na Educação é um crime, uma vergonha; Não há diferença entre estes deputados e os de Salazar. Resume ele: eu tenho medo. Oxalá não haja dinheiro, basta de asneiras. Não consigo acreditar, para os tempos mais próximos, num futuro melhor para Portugal e para os portugueses.

  

Mais explicadinho que isto seria difícil, convenhamos. Contudo, há a considerar que os   porta-vozes da esquerda institucional ou independente não desfrutam de semelhantes oportunidades nas televisões; mas o facto é que os Medinas Carreiras e seus émulos burgueses, deixam assim aberto espaço para um confronto político mais afoito onde se chamem os bois pelos nomes, mesmo até com a rudeza equivalente à pesporrência da fauna socretina. Porventura seria eficaz junto do eleitorado mais duro de ouvido. No entanto, algum trabalho prévio será preciso fazer. Recolher as armas fornecidas por adversários e inimigos; seleccioná-las; distribui-las pelos porta-vozes, em tempo oportuno. Aquilo que se chama, em inglês bem adequado  intelligence. Não é trabalho para curiosos,  para acasos fortuitos... como comigo sucedeu em relação às entrevistas de M. Carreira. Façamos votos para que  essa ferramenta –de eventual utilidade – esteja ao dispor de uma esquerda combativa neste ano de várias  pugnas eleitorais.

 

Muitas mais cerejas iremos tirar do cesto das anotações. Ou vice versa. Puxemos por outra qualquer; elas estão tão entrelaçadas! Sai a questão da confiança dos portugueses no sistema político, tema que está sendo recorrentemente invocado pelo 1º Ministro Sócrates, como bandeira partidária conquistada por ele e pelo executivo socialista; e como argumento máximo da propaganda por uma nova maioria absoluta.

 

O homem  alucinou ! O poder absoluto subiu-lhe à cabeça ! O gajo é um pantomineiro de estalo. Por aí fora. São pontos de vista que alastram pelo País fora à medida que aumenta o número  de portugueses afectados  pelo desastre da governação socialista. O triunfalismo socrático apoia-se, segundo o próprio, nas sondagens de opinião. Até às legislativas vão suceder-se dezenas, através de um ano anunciado como super tempestuoso. Ver-se-á então onde vai parar o homem alucinado.

 

Entretanto, o homem tem vindo a alucinar  progressivamente. Neste momento ele julga-se “o sistema”. Assim a modos de um Salazar durante decénios, de um  A.J.Jardim ao vivo; dois exemplares castiços, para só  ficarmos  por cá, entre os alienados da paróquia, verificando que a terra  lusa é propícia ao desenvolvimento da espécie daninha. Ele já  está em propaganda eleitoral como se as próximas legislativas fossem o plebiscito do partido único e ele o  líder predestinado.  Repetindo a trágico-comédia dos  “chefes políticos” possuídos pelo delírio do poder o sujeito pensa,  convictamente, que o povo o adora; que o vai  eleger uma e outra vez, por maioria absoluta, que os portugueses têm uma confiança inabalável na sua chefia....e nele próprio. (Isso é mais que pressuposto no universo dos alienados).

                    

Passemos de relance, com raiva contida, pelo substantivo abrangente “os portugueses”, de uso corrente por ditadores e afins e tão ao gosto dos  dirigentes demoreaças logo que se alçam ao poder. A expressão mais refinada salta quando anunciam sacrifícios e responsabilidades; nessa altura é da praxe o “todos”. (Já aludi a esse tique de demagogia barata noutra ocasião). Sócrates - como Cavaco, Sampaio, Soares, etc -   não falha. No subconsciente da politicagem burguesa, os portugueses –todos, não eles- são figurados como uma massa indistinta de vultos, de gente mansa e ordeira, tementes a deus e à autoridade estabelecida. Um rebanho. Assim pensava Salazar. Classes sociais não contam, ricos e pobres, velhos e jovens, analfabetos e letrados, desempregados e tachistas, etc,  tudo para o mesmo saco  na mundovisão patriótica da “classe política” que nos governa e ao mundo. Um mundo binário, dual, simples : os que mandam e os que obedecem. Os exploradores e os explorados, na visão de um tal Marx. Ora, dúvida não pode existir em que lado está - e onde anseia ficar - o “adorado” Sócrates  e a camarilha socialista que confiscou em seu proveito o aparelho do Estado.

 

Quando ao fim de três anos  de governo suposto/socialista o seu líder entra em campanha eleitoral jogando como trunfo decisivo a confiança dos  portugueses (todos!?) na sua pessoa e na equipa que dirige, um incrédulo espanto apossa-se do espectador/eleitor mais desprevenido. Há sobejos motivos para isso. Imensa gente, desempregados, famílias, trabalhadores, profissionais, estudantes, pelas cidades e pelos campo, ficam com a ideia que o homem perdeu completamente a noção do real, que não anda por cá, está vivendo numa tresloucada ilusão.  Num outro fortuito acaso de zapping televisivo apanhei um programa/debate onde se apreciava orçamento. Às tantas, o representante da direita parlamentar, respondendo ao membro do governo presente, de mãos na cabeça (literalmente) exclamava : Confiança no governo !? Mas isso é uma afirmação extraordinária. Contra todos os dados existentes. O senhor não conhece as estatísticas, os relatórios nacionais e de origem externa, dando conta do recuo de Portugal em quase todos os indicadores de desenvolvimento e progresso? Particularmente nestes últimos três anos? Etc. Pois é. Até mesmo a assumida direita cristã/capitalista leva as mãos à cabeça. Por muitas e melhores razões cabe à esquerda ideológica e política bradar aos céus, atirar na cara de Sócrates & Cª. com a indignação que se manifesta nas ruas e nos locais de trabalho, onde os epítetos mais suaves são os de mentirosos e aldrabões.

 

Contudo, a questão da confiança nas políticas da burguesia e nos políticos que as advogam e defendem merece  algumas anotações suplementares ....de eventual utilidade. Desde logo, convém frisar que do ponto de vista da esquerda ideológica  não se coloca a questão de uma maior ou menor confiança; a lógica posição da esquerda é a de desconfiança total, instintiva e absoluta em relação a toda e qualquer medida proposta ou levada a efeito pelo governo demoreaça de José Sócrates. Três anos de comédia de enganos, chegam e sobejam para aquilatar da qualidade traiçoeira do bicho e da matilha. Nesta altura, neste ano em que se decidirá o futuro próximo do país, as ilusões –se as houve – estão desfeitas. Nenhum dirigente político ou sindical se deixará apanhar pela velha e relha rasteira do “ diga lá qual é a vossa alternativa; apresente soluções”. A esquerda não tem que oferecer soluções a inimigos ou antagonistas; muito menos em tempo de guerra ou de luta decisiva. De momento, a missão é essencialmente  desacreditar  e tornar a desacreditar,  a governação calamitosa do Partido Socialista  nos últimos três anos. Não faltam armas e material para o efeito; antes pelo contrário. E deixar claro perante o eleitorado que um novo governo se obrigará a reverter as medidas mais danosas e as  pseudo-reformas da equipa socretina.

 

Anotada, embora sumariamente, a cartilha respeitante à confiança que os portugueses depositam na orientação governativa da maioria absoluta socialista, resta o capítulo relativo à confiança nos agentes ao serviço dessa política. Avaliar da (in)competência de cada um e dos respectivos podres seria tarefa monumental, descabida no contexto. E no entanto!...No entanto, há que reconhecer que é no descrédito individual que mais se alicerça o sentimento de desconfiança do eleitor comum. Os abusos e privilégios que exiba qualquer um que detenha uma parcela de poder – ministros, deputados, autarcas, a multidão dos assessores, consultores, chefes, chefinhos e chefões, etc – está, por natureza da função pública, sob o exame interessado dos cidadãos e da comunicação social. Trata-se de vigilância legítima, inerente à  democracia e, como tal, deve ser respeitada. Mas o facto, o lamentável facto, é que a nossa rapaziada política comporta-se como se estivesse ainda no recreio da escola primária. Dando escândalos sobre escândalos. Alguns, enfim, de menos importância; outros do foro criminal. No caso do partido socialista –objectivo prioritário nestas anotações- onde abundam os carreiristas, mais os arrivistas, os paraquedistas e os oportunistas de toda a pelagem, a licenciosidade e a libertinagem atingiram, na presente legislatura, novos máximos. A imprensa, a internet, a vox populi comentam sem cessar. Este quadro concorre decisivamente para o descrédito do actual governo; mas também de todo o sistema democrático de representação partidária. Para evitar acusações avulsas e generalizantes seria, de eventual utilidade, a divulgação  das “carreiras políticas” de algumas personagens proeminentes da burguesia partidária; com destaque para as do pessoal  do partido que almeja tornar-se único e eterno no poder democrático. Seria uma das tarefas da acima mencionada intelligence. Detalhando quanto custa ao erário público cada uma dessas personagens : em remuneração de funções,   mais subsídios de residência, transportes e outros, abonos de viagens e deslocações, viatura oficial, telefones, etc, serviços especiais de apoio social (ver site Presidência do Conselho); nunca esquecendo a acumulação de pensões pagas pela Caixa Geral de Aposentações. Há quem confesse pelo menos três; por junto, anda por aí muito político carreirista permanente ou ocasional, que limpa mais de 10 mil €/mês. Extraídos da vida e do trabalho de uma população pobre, com trabalho precário e futuro incerto. A quem Sócrates & Associados recomendam poupanças. Malandragem!

 

Portugal, uma imensa Madeira! eis o sonho de Socrates e dos socretinos. Vamos dar cabo dele (o sonho). E porque as culpas são do sistema - assim se desculpam eles - vamos dedicar-lhe (ao sistema) umas novas   Anotações de Eventual Utilidade, em próxima edição.

publicado por samizdat às 16:58
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Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

Anotações de eventual utilidade em ano de eleições

O SISTEMA

 

J. Varela Gomes

 

No discurso oficial e partidário burguês, nos meios de comunicação, entre os eruditos da política, os semi-eruditos e mesmo nas conversas do comum cidadão/eleitor tornou-se usual (ou moda) designar pelo substantivo abrangente “sistema” toda a constelação de procedimentos e fenómenos relativos ao poder executivo e administrativo. Nessa acepção lata, aquilo que agora se chama “sistema político” corresponde na prática a um qualquer regime político. A democracia seria portanto, o regime democrático. Ora repare-se que no Portugal suposto modernaço, posterior à revolução popular de 1974/75 pouco é usada essa designação; e jamais a de Novo Regime. Pelos vistos e ouvidos, passámos a viver no “sistema democrático”.

 

Em contrapartida, a designação de “anterior regime” para o ranhoso salazarismo permanece até aos dias de hoje, respeitosa e enfaticamente pronunciada pelos representantes do “posterior regime”; incluindo todos os seus quatro presidentes. Parece portanto que, para o pessoal “politicamente correcto”, regime há só um, o fascismo e mais nenhum. O resto são sistemas, mais ou menos ajeitados às circunstâncias de momento e à ganância predominante. Guardando no relicário do seu subconsciente a saudade pelo anterior regime, a burguesia portuguesa dos neo-conversos em democracia, encontra-se no momento mais feliz da sua involução, perfeitamente identificada com o sistema socretino de maioria absoluta e tendência totalizadora. ”Mas isto ainda é melhor que o ‘ancien régime”, dizem eles no francês reaprendido na europa dos tachos. Têm razão. Com efeito, é curioso anotar-se como a situação do sistema burguês/capitalista nos alvores do séc. XXI se assemelha cada vez mais à situação do sistema aristocrático nos alvores da revolução francesa.

 

Esta actual classe burguesa/capitalista é a expressão decadente de uma classe que, a seu tempo, foi revolucionária; no sentido em que combateu pelos seus ideais, contra o “velho regime” dos reis absolutos e dos indecorosos privilégios da nobreza ; por vezes de armas na mão, como sucedeu em Portugal na Guerra Civil de 1832/35. Karl Marx vaticinou ao capitalismo burguês um curto reinado. No entanto, já conta com dois séculos. Embora relativamente pouco, em termos históricos, a sua permanência como classe dominante, em termos humanos e de organização da sociedade, tornou-se intolerável. Consoante a presente crise – mais uma - está demonstrando.

Na circunstância, reveste ‘eventual utilidade’ recordar algumas reservas/cautelas em relação ao modelo capitalista liberal, anotadas por contemporâneos do período áureo do domínio burguês (segunda metade do séc. XIX). Um pensador da época, frequentemente citado pelos intelectuais de serviço, Alexis de Tocqueville, escreveu em dois volumes uma aclamada obra sobre “A Democracia na América”. No primeiro, (1835) declarava-se impressionado por uma sociedade regida pelo princípio da igualdade, onde existiam oportunidades iguais para todo e qualquer habitante. Os franceses de oitocentos aplaudiram entusiasmados; tinha nascido o mito do sonho americano. Entretanto, o autor apercebera-se que, por detrás do governo democrático, se esconde sempre o perigo da “tirania da maioria”. Assim o escreveu no segundo volume (1840) ... que muitos, mal o leram e nunca o citam. De facto, essa realidade continua escondida por detrás do sonho americano ainda no hodierno séc. XXI, enquanto os actuais sistemas democráticos se transformaram por toda a parte em “tiranias da maioria burguesa” – nos EUA já então; no Portugal do alegado socialista Sócrates, com particular cinismo.

O conceito da tirania (democrática) da maioria é retomado em Inglaterra pelo filósofo/sociólogo J. Stuart Mill no famoso ensaio “Sobre a Liberdade” publicado em 1859. Diz ele, que a tirania da maioria é agora (há 150 anos exactamente !) incluída entre os perigos contra os quais a sociedade precisa de se precaver. Mais alarga a aplicação do conceito: à “tirania da magistratura”; à “tirania da opinião dominante” (o autor adivinhava o “politicamente correcto” !); aos perigos do unanimismo. “Todas as mudanças políticas da época (da dele, da democracia em ascensão) o promovem, dado que todas tendem a nivelar por baixo”. (Cairia fulminado se voltasse às democracias actuais, com a “tirania da televisão” e a promoção a chefes de governo de vendedores da banha da cobra).

 Em obra posterior “Considerações sobre o Governo Representativo” (1861) Stuart Mill torna a denunciar o perigo da massificação e da tendência natural do governo representativo da civilização moderna (ao tempo) de resvalar para a mediocridade colectiva. Aborda a possibilidade de num governo de maioria numérica o poder venha a ser dominado pelos “sinistros interesses dos que ocupam o poder”. As considerações do filósofo estendem-se por dezoito capítulos cobrindo praticamente todas as áreas que ainda hoje preocupam – ou deviam preocupar – os políticos e politólogos da nossa praça. Tais como: o funcionalismo público; as virtudes necessárias aos governantes; a duração dos mandatos; da extensão do sufrágio e da maneira de votar; do poder executivo; dos corpos representativos locais; etc.

Esta breve incursão pelo pensamento político no séc. xix, teve em vista deixar anotado que a democracia burguesa sendo, em teoria, um sistema representativo da vontade popular (revolucionária, na origem) cedo começou a ser confiscada por interesses inconfessáveis (sinistros) resvalando para um sistema político bipartidário unívoco, sempre à espreita para  transformar a superioridade numérica eleitoral na tirania da maioria.

A possibilidade do desvio da ideia democrática pela classe burguesa dominante foi desde logo percepcionada pelos intelectuais mais esclarecidos da época (Tocqueville e S.Mill são disso exemplo). Aliás, bastava ver que o maravilhosa sonho americano da igualdade excluía, à partida, as mulheres, as centenas de milhar dos escravos negros, os indígenas donos da terra, etc; em pouco tempo só os cidadãos censitários (com rendimentos e pagando imposto) tinham direito a voto. A democracia tornou-se um instrumento ao serviço dos interesses dos proprietários e dos comerciantes ricos. No entanto, o sistema na sua fase incipiente mantinha respeito formal pelos dois princípios teóricos base da ideologia burguesa: o individualismo, consignado na Declaração dos Direitos Humanos; o mercado livre, de acordo com a doutrina económica liberal. Com o decorrer da história, pelos séculos xix e xx, com os imperialismos burgueses – britânico e depois americano – dominando o globo, a democracia foi deixando pelo caminho, como lastro inútil, valores e virtudes. O poder absoluto da realeza no “antigo regime”, com a sua corte de prebendados e cortesãos, parece estar hoje representado pelo poder absoluto da burguesia, através do sistema partidário “dois do mesmo” e respectivos batalhões de atentos e veneradores  políticos carreiristas.

Portugal, atrasado 50 anos pela anacrónica ditadura fascista, adoptou o sistema americano logo após o surto revolucionário de 1974/75, por força da pressão contra revolucionária interna e internacional. Rapidamente, em trinta e poucos anos, a burguesia portuguesa percorreu o arco completo da decadência da burguesia neo (liberal/conservadora) colocando o país à beira do desastre. O ilustre líder socialista Sócrates atira com a responsabilidade do descalabro nacional para cima da crise global do sistema. Mas o alegado engenheiro ainda há poucos meses era um denodado adepto e diligente cumpridor do programa neo-liberal ! Aliás continua aplicando as medidas de salvação do sector bancário e empresarial que Washington decreta e a Europa obedece. Está amarrado à crise por culpas próprias e intransmissíveis.

O sistema burguês capitalista está portanto em processo de julgamento, quer a nível global, quer em cada nação assumida como democrática. O caso português a nós diz respeito. Particularmente em ano de eleições. Um ponto axiomático deve ser realçado: os julgamentos são de pessoas; não são de conceitos, mais ou menos abstractos, como sistema ou crise. Será conveniente, que esse princípio – o de chamar os bois pelos nomes – não seja esquecido no decurso das próximas pugnas  eleitorais.

Obama, o messias do momento, no seu discurso de posse, aponta alguns gananciosos e irresponsáveis como responsáveis pela crise. Façamos votos para que esses alguns venham a ter nome; e que não fiquem impunes, provavelmente indemnizados e a rirem-se de todos e do mundo. Cenário que já estará a ser maquinado aqui, em relação aos gananciosos nativos. Temos  experiência anterior: os fascistas – mesmo os de nome bem conhecido - ficarem a rir-se dos que lutaram pela liberdade.

Entretanto, pedem registo algumas anotações (de eventual utilidade)  respeitantes ao suposto sistema democrático que se crê universal e eterno. Com efeito, o facto de a palavra/conceito ‘democracia’ estar a ser correntemente substituída por sistema tout court (sem mais) representa, consciente ou inconscientemente, a redução a um mecanismo, ao aparelho de poder. Abreviando: na mente da classe política portuguesa e de grande parte do eleitorado, a ideia  de sistema (adjectivado) democrático, perfila-se como sendo fundamentalmente o sistema eleitoral de representação partidária. Por intermédio do qual, a idealizada participação do indivíduo/cidadão na vida da colectividade aparece reduzida a um voto, em norma de 4 em 4 anos, num partido político, por hipótese representante dos seus interesses e aspirações. Ora a realidade, a crua realidade, é que a burguesia triunfante no último quartel do séc. xviii não iria instituir nenhuma democracia que pudesse ameaçar o seu domínio. Foi aperfeiçoando as suas estruturas de defesa e embuste, os esquemas de manutenção do poder sem olhar a princípios. Um dos mais eficazes e duradouros desses esquemas tem sido, exactamente, o sistema bipartidário unívoco de alternância governativa entre dois partidos (duas faces) da mesma moeda (ideologia).

Com pequenas variantes o sistema está em vigor desde o centro imperialista nos EUA até à periferia satélite de Portugal. Temos podido assistir aqui “ao vivo” à involução do sistema democrático a partir do primeiro governo constitucional com  Mário Soares e suas pretensas ilusões socialistas que mal ocultavam a ambição de poder pessoal; até aos dias de hoje da maioria numérica do PS, situação  que bem ilustra como, por via eleitoral, se pode chega à tirania da maioria.

Em matéria política, este nosso País é um pequeno laboratório! Laboratório de aldeia seja; mas, talvez por isso mesmo, de mui fácil leitura. Já não bastava a Região Autónoma da Madeira, com o seu cacique - mor desfrutando de poder absoluto há trinta anos - por via eleitoral !! - acumulando arbitrariedades e desprezo pelas minorias ante a passividade cúmplice dos alternadeiros governos da República.

Temos agora um partido mascarado de socialista que se pretende candidatar a um novo mandato de maioria absoluta, de tendência e projecto ditatorial. Era só o que nos faltava ! E a este pobre País ! Como se não faltassem provas dos sinistros intentos dos que têm ocupado o poder nos últimos três anos ! Como se não estivesse  à vista de todos o assalto e confisco do aparelho do Estado pelas hordas gananciosas dos boys&girls carreiristas da política, ora PS amanhã PSD. Como se os Varas, outros varões e vilões, não representassem o arquétipo dos neo-socialistas e neo-liberais; na verdade, mais velhos que os filósofos gregos e  por eles já odiados como seres abomináveis. Como se a governação socretina fosse mais alguma coisa que uma colecção de expedientes de ocasião; de esquemas de suspeitosa intenção, a que chamou reformas; de navegação à vista, cujo único farol foi (e é) o poder. O poder sem limites (absoluto) que sempre deslumbra o provinciano determinado a conquistar a grande cidade sem olhar a meios.

 

A classe burguesa está satisfeita com o Sistema Democrático avacalhado que rege a metade ocidental do globo. Pudera não! Se mesmo nas piores crises nunca lhes faltou, vindo dos cofres celestes, o maná capitalista! A burguesia portuguesa, representada pelos dois partidos alternadeiros, comunga dessa satisfação. Defende o Sistema com unhas e dentes; ignora olimpicamente a menor sugestão de reformar a viciada fórmula eleitoral de que vem beneficiando.

Todavia, a fórmula universal da  democracia representativa, em nome da eficácia e de manter a ficção, distribui as hostes burguesas por dois partidos. Como por cá se usa. São dois cães a um osso, que lutam entre si pela maior porção  de território, pelos mesmos tachos de ração. Assim a modos de dois bandos de gangsters numa cidade sem lei, lutando pelo controlo dos bairros e dos ilícitos mais rendosos. (Mal acomparado será. Mas que tem parecenças....lá isso tem).

Ora a alternância no poder não condiz mesmo nada com o feitio autoritário (de pendor fasciszante) do actual 1º ministro. O seu modelo, o seu sonho, está na Madeira do Alberto João, na Itália do Berlusconi ; em resumo, numa tirania da maioria. Mas para isso alcançar precisa de um partido forte, vencedor indiscutível de todas as eleições; sejam nacionais, regionais, autárquicas, ou mesmo da freguesia lá da aldeia. A modos de uma União Nacional nos bons velhos tempos do mestre escola Salazar.

E é aqui - a meu ver – que se explica o segredo da fúria reformista do actual executivo, visando com intensidade máxima os funcionários públicos. No projecto (sinistro) do demagogo Socrates, o assalto, desmantelamento e confisco do “velho” aparelho do Estado, tem tido por objectivo - e continuará a tê-lo enquanto não for travado – a substituição do velho por um novo aparelho de fieis socialistas unidos por cumplicidades, dívidas de favorecimentos vários, dependência e obediência total ao chefe do partido. Uma espécie de máfia. Isto, este monstruoso polvo burocrático/partidário de vocação totalitária/ fascista, tem estado a crescer à vista de toda a nação perante uma geral indiferença e subestimação. A denúncia consistente desta verdadeira conspiração contra a democracia, neste ano de todas as eleições, pede algum trabalho de intelligence; isto é, a anotação de dados e sua difusão em condições e tempo de eventual utilidade.

          Ao assunto voltarei certamente, em próxima edição. 
publicado por samizdat às 10:33
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