Segunda-feira, 24 de Agosto de 2009

V A M P I R O S na D E M O C R A C I A

João Varela Gomes

 

Cantava  Zeca Afonso nos idos da Resistência Antifascista: ”... se alguém se engana com seu ar sisudo e lhes franqueia as portas à chegada, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada”. Pois eles –os vampiros – aí estão de novo empoleirados, impantes, sugando o sangue fresco das gerações já nascidas em liberdade  na vigência de um regime democrático.

De facto, houve alguém na democracia –e foram muitos – que nunca estiveram enganados com o seu ar sisudo - bem pelo contrário - quando lhes franquearam de par-em-par as portas. Logo à chegada confraternizaram com os velhos abutres do antigamente salazarento; e passaram a viver em harmoniosa sociedade com a multidão dos  novos vampiros de plumagem democrática.

 

Com efeito, tem-se verificado que sempre que um dos governos do duopólio burguês/capitalista toma posse já lá chega prenhe de vampirinhos em fúria de gestação. Saltam logo cá para fora cheios de apetite, agarram-se com sofreguidão às tetas do orçamento, sem o menor decoro nem respeito pelas virtudes da democracia que supostamente representam. A cena repete-se, pelo menos de 4 em 4 anos,  à vista de toda uma maioria do eleitorado que parece condescender com o indecoroso espectáculo. Assim tem sucedido desde o 1º governo constitucional partidário PS/Mário Soares, em 1976. Obviamente, nessa altura, o resguardo  ético era maior, as cinzas da revolução ainda fumegavam. M. Soares chamava então “tolerância” à promiscuidade com  vampiros capitalistas, com fascistas e até pides; e fazia dessa virtude grande alarde “democrático”. Bem entendido, a magnifica tolerância funcionava apenas a favor do restauracionismo filofascista; no reverso praticava-se  o ódio e a perseguição aos comunistas, aos revolucionários em geral, aos trabalhadores. Este paradigma – como é bem sabido – manteve-se até aos dias de hoje, atingindo esplendor máximo com as maiorias absolutas de Cavaco; e, agora,  com este discípulo canhestro do socialismo de gaveta ensinado pelo mestre Soares. A cujo magistério inicial  - merece registo - se deve ainda a tradição do favoritismo pessoal e partidário e da  negligência/licenciosidade no uso (e abuso) da res publica.

 

 

A presente quadra eleitoral está proporcionando à generalidade dos portugueses –aos cidadãos eleitores, em especial – um vislumbre objectivo e alargado da promiscuidade existente no nosso País entre o universo da política partidária burguesa/capitalista (PS, PSD, ocasionalmente CDS) e o universo dos negócios mais ou menos ilegais, mais ou menos sujos, mais ou menos fraudulentos.; mas todos em detrimento do Estado, em prejuízo do chamado Tesouro Público; isto é, da riqueza colectiva, daquela que pertence, por direito de nascimento, cultura e trabalho, a todos e cada um dos filhos de uma mesma Pátria/Nação. Os cidadãos conscientes não podem aceitar que um segmento restrito da sociedade enriqueça à custa do empobrecimento geral Designadamente, quando grande número dos  vampiros que prosperam e engordam no regime democrático foram, ou são, dirigentes políticos/ partidários eleitos pelo voto popular. Essa realidade é insultuosa em qualquer democracia decente que mereça um mínimo de respeito. Devia estar debaixo da alçada de uma lei penal específica. Logicamente, deve ser castigada nas urnas. Estamos cá para ver.

 

Ora sucede que, por um conjunto de circunstâncias internas e externas,  a caça aos vampiros tornou-se desporto internacional. O sistema capitalista em crise escolhe um punhado de gordos exemplares  para arcarem com as culpas e a responsabilidades pelo colapso económico /financeiro. São sacrificados para que os negócios prossigam ..... as usual.

 

Seja como for, lá fora como cá dentro, a caçada pôs a descoberto esconderijos e cavernas onde se acoitam os bandos de vampiros, os off-shores e paraísos fiscais onde guardam o saque, a salvo de eventuais arremedos da tolerante justiça da classe deles todos. Em relação ao nosso País, ocorre a coincidência favorável (também as há!) de os escândalos e o alarido à sua volta, terem-se  justaposto ao ano eleitoral. Vampiros e vampiragem converteram-se, ipso facto, em temas  de primeiro plano, em armas importantes no combate eleitoral. Cabe aos partidos e formações políticas isentos dessas práticas nefandas (PCP e Bloco, desde logo) não desdenharem essas armas/argumentos; pois, à partida, conferem uma esmagadora superioridade ética e intelectual.

 

No contexto de luta eleitoral, terá que ficar destacada a ligação dos grandes bandos de vampiros (gangs, no inglês da moda) aos partidos  burgueses da governança democrática. Aliás - é essencial realçar - são mais que ligações: trata-se de uma   pública e notória promiscuidade, comentada diariamente nos media, objecto de generalizada condenação (Em muitos casos: a hipocrisia é a vénia que o vício presta à virtude).

 

No decurso das três décadas de regime democrático, os vampiros dos partidos burgueses/capitalistas que têm governado o País, foram ocupando feudos da administração do Estado, nas autarquias, nas empresas públicas e suas variantes, multiplicando nichos e ninhos, criando uma rede de interesses  ilícitos e abusivos que desafiam qualquer controlo e provocaram danos irreparáveis na estrutura e na autoridade do Estado. Os vampiros na democracia comem tudo e não deixam nada. Ultrapassaram em 30 anos, o pior dos cenários imaginado por Zeca Afonso na sua canção.

 

Na duocracia alternadeira do regime português sobressaem, obviamente, duas “famílias” de vampiros políticos. A que nasceu e prosperou no seio do PS; e aquela  que se instalou à sombra e protecção do PSD. Não são famílias desavindas ou adversas, longe disso. Repartem o bolo ... rotativamente. As maiorias absolutas representam períodos áureos de engorda e de crescimento numérico e territorial do vampirismo partidário. Com Socrates novos recordes  tem sido atingidos. O Banco de Portugal, a Caixa Geral, Galp, EDP, PT, etc, etc, regorgitam de vampiros, amigos e compadres do chefe. A carreira de A.Vara é clássica : de empregado de balcão a administrador da CG Depósitos, duplica prémios, vencimento e pensão a seu bel-prazer. A mesma libertinagem  na TAP, nas Entidades,  Empresas, Observatórios e outras bizarrias,  onde os dinheiro públicos (dos contribuintes) cobre todos os défices e o horizonte dos abusos parece não ter limites. Anote-se que igual filosofia governativa norteou Cavaco quando dispôs de maioria absoluta entre 1987-95. O “cavaquismo” ficou a designar  o surto de enriquecimento rápido facultado pelos dinheiros frescos da CEE e pelas privatizações  dos bens nacionalizados pela revolução; do que  beneficiou grande número dos dirigentes do PSD, gente de origem humilde ( como soe dizer-se); mas com  apetite de pedir meças a qualquer vampiro socialista, doutorado em Macau na arte de sacudir as patacas das últimas árvores  do império.

 

Entretanto, voltando às coincidências favoráveis - ou seja, a crise mundial e a abertura da caça aos vampiros em Portugal – vamos passar os olhos pelas considerações de um intelectual super-mediático da nossa praça (J. Pacheco Pereira, jornal Público, 11Julho pp) “...sobre a responsabilidade dos partidos políticos naquilo que de ilegal fazem os seus dirigentes, em particular nos crimes que envolvem o exercício do poder”.(ipsis verbis). Ou: “Os partidos que são os esteios da democracia portuguesa –PS,PSD, PP – convivem sem dificuldade com práticas que dão origem a carreiras que desembocam no crime. São escolas de crime e devem ser considerados responsáveis pelos crimes praticados pelos seus altos dirigentes” (Saldanha Sanches, Expresso, 15 Jul.pp).  Ora toma, que já almoçaste! Soares, Guterres, Cavaco, P.Portas, D.Barroso, Socrates  têm razão para amaldiçoar a crise. Até os confrades os querem amarrar ao pelourinho!

 

Poder-se-iam extrair vários outros mimos de semelhante  teor (“as carreiras criminosas começam nas jotas”), quer do texto de P. Pereira, quer da glosa de S. Sanches. Este último mostra-se estupefacto pelo silêncio que acolheu as acusações da P.Pereira. ...como se fossem meras banalidades. “Ninguém ligou, ninguém se indignou, ninguém o ameaçou com um processo por difamaçao”. Pois não, meu caro. E você nem sabe da missa  a metade (ou não quer saber). Nós, que continuamos na resistência anti(ameaça)fascista ...desse silêncio estamos surdos.

 

Ora, embora estando colocado na praça  pública o debate sobre a responsabilidade criminosa dos partidos e seus dirigentes na promiscuidade política/negócios, não devemos esperar, neste capítulo, alteração de monta no funcionamento do sistema democrático vigente. Quanto muito, uma ou outra cosmética ocasional. Um Isaltino condenado em tribunal, mas continuando imperturbável, à sombra de sucessivos recursos, a sua carreira de vampiro credenciado. Arguidos em processos de corrupção são incluídos em listas partidárias como futuros “representantes da Nação”. O Alberto João solta uma gargalhada de desprezo alvar, seguro da  sua absoluta impunidade. A patroa do PSD  diz que assuntos de corrupção não são para ser debatidos em campanhas eleitorais. Socrates segue o conselho. Podem os vampiros dormir descansados, de consciência tranquila (como é  da praxe), nas cavernas de Ali-Bábá,  em companhia de outros morcegos hematófagos. Lá para as calendas gregas, o Conselho da Prevenção da Corrupção (tal coisa existe mesmo, imagine-se!!), mais auditorias externas pagas a peso de ouro, comissões e missões após dezenas de estágios no estrangeiro exótico, irão então, calmamente, debruçar-se sobre o momentoso problema. Haja tolerância. Eles são todos gajos porreiros,  frades da mesma confraria.

 

Todavia, a intervenção dos partidos e dos políticos honestos, neste exacto momento pré-eleitoral interno e de crise mundial do capitalismo consiste, precisamente, em quebrar essa táctica de apatia e dilação de que a burguesia usa e abusa para iludir o povo eleitor. Quero crer que a situação de fragilidade em que se encontra o sistema capitalista oferece condições excepcionais para uma denúncia vigorosa da promiscuidade existente entre os governos burgueses e as máfias capitalistas. No caso português, essas condições apresentam-se particularmente favoráveis.

 

Na realidade, a burguesia capitalista está confrontada com acusações e situações de flagrantes crimes económicos ( falências fraudulentas, fuga aos impostos, tráfico de influências, lavagem de dinheiro, roubo puro e simples, etc) que, além de  implicarem uns tantos  agentes prevaricadores expiatórios, puseram em causa –estrondosamente e sem remissão -  a credibilidade (o bom nome) do sistema liberal da economia de mercado. Ficou feita, sem apelo nem agravo, a demonstração da promiscuidade sistémica, dos conluios desonestos entre os sisudos financeiros/ economistas e os políticos/ demagogos da burguesia. Os governos e os partidos da governação democrática, designadamente no nosso País, estão comprometidos dos pés à cabeça, nessa conspiração contra os direitos e os interesses do cidadão comum. Dirigentes partidários em uníssono com empresários e administradores de grupos económicos tentam desesperadamente, negar a evidência, desviar as atenções para as trivialidades. Para os fait-divers, como eles amam dizer;  com a preciosa e prestimosa colaboração dos media ao serviço do “politicamente correcto”. O futebol é receita garantida; a gripe de A a Z também dá jeito.

 

Mas há uma instituição da máxima relevância nacional, que os vampiros da política partidária burguesa conquistaram para sua caverna residencial; e onde continuam instalados sem, aparentemente,  serem denunciados ou sequer incomodados. Trata-se, nem mais nem menos, do Estado. Ou seja, por miúdos, o conjunto dos organismos necessários para manter a solidez, a saúde e  a perenidade do corpo da Nação. Para além dos partidos, note-se bem; para além da ganância de políticos arrivistas, autênticos vampiros, que pela liberdade e direitos  democráticos do povo onde nasceram, nunca sacrificaram um átomo do seu egoísmo.    

 

Em teoria, a função pública é independente do poder político/ partidário. Sabe-se, no entanto,  como esse principio constitucional/ democrático foi convertido em farsa nesta III República Portuguesa. Os executivos eleitos desde 1976 passaram a entender que o voto popular lhes conferia direito de abuso e posse sobre o aparelho do Estado,  respectivos  funcionários, bens e propriedades. Procedem como donos e senhores, particularmente na Administração Pública; e nesta, nas áreas das Finanças, Orçamento e Património. Ao terminar o consulado de Socrates &  socretinos,  há organismos do Estado irrecuperavelmente  desvitalizados  ... estamos a falar de vampiros, note-se. Nas famosas reformas executadas e anunciadas deve procurar-se o escondido ovo de Colombo: a alienação do património. Ele lá está, gato escondido com rabo de fora, na última em data (semana passada): a das Forças Armadas.

 

A crise actual dos “sagrados” valores do capitalismo liberal, levou já alguns espíritos  mais avançados a sugerirem que numa eventual revisão constitucional seja incluída a moldura penal para crimes de abuso de poder e malversação no exercício de cargos políticos. Tudo bem. (Embora a eventualidade de tal suceder, no regime vigente,  me pareça zero).

Não obstante, como o tempo é de cerejas (eleitorais) acrescentaria que esses crimes (e outros conexos) fossem considerados de lesa Estado/Nação, ou mesmo de lesa-Pátria. E que, após investigação de iniciativa cívica sobre as lesões sofridas pela Administração Pública, seja decretada a exterminação higiénica de todos os vampiros incrustados nos organismos do Estado por via partidária. A Nação exangue agradeceria.

 

Lisboa, 6 Agosto, 2009

publicado por samizdat às 15:16
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Sábado, 8 de Agosto de 2009

UM CONSPIRADOR BESTIAL !

João Varela Gomes     
Provavelmente, será a exclamação em titulo a que vai ser proferida por qualquer leitor desprevenido – que não  conheça Vasco Lourenço – após leitura, ou mero folhear, do livro/entrevista “No Interior da Revolução” editado em Maio do ano corrente.
      Com efeito, numa longa entrevista (570 páginas) conduzida por Manuela Cruzeiro investigadora do Centro de Documentação 25 d’Abril – Coimbra, o autor entrevistado não se coíbe de dar a entender – e em assumi-lo expressamente – ter sido “o maior” (o Deus ex machina) durante todo o período revolucionário, desde a conspiração que antecedeu a Acção Militar em 25 d’Abril 1974, os 18 meses seguintes até ao Golpe Contra-revolucionário de 25 Novembro 1975, e a consequente consagração e glória pessoal  para o narrador.
      Segundo o herói/protagonista, ele esteve em todas, impôs-se a todos os adversários aos berros e ameaças, venceu todos os confrontos – militares, políticos, homem-a-homem – exibiu a sua prosápia, até mesmo  no Pentágono e no Kremlin! Na gíria popular “não houve pai para ele”; um gajo bestial, em suma !  
      Embora a entrevista agora editada tenha tido lugar em 1995, o que conta é  a data da publicação autorizada, prefaciada, etc. Confesso que 35 anos passados, morta e enterrada a revolução por obra e (des)graça de vários Vasco Lourenços, custa-me escutar este tipo de conversa; fanfarronadas de adolescentes impenitentes, divagações de veteranos reformados enaltecendo façanhas dos tempos áureos. Mais me custa ainda, participar em qualquer espécie de contra ponto com os coveiros da revolução. Já o fiz em diversas ocasiões, verificando à posteriori a completa inutilidade do esforço. Será portanto apenas por descargo de consciência e, principalmente, pela grande consideração que tenho por Manuela Cruzeiro, que vou ajuntar umas poucas observações; procurando limitar-me às situações em que apareço pessoalmente referido.
      Vasco Lourenço (VL) gaba-se, com frequência, ao longo da entrevista, da sua boa memória. Com isso quer, naturalmente, dar a entender que tudo o que recorda traz o selo da absoluta veracidade. Analisemos então a mercadoria oral com a recomendada cautela.
      A páginas 440 o narrador, questionado pelos dados precisos que M.Cruzeiro lhe coloca, passa pela rama a Assembleia do Exército que teve lugar em 24 Julho 75; aliás convocada, à balda, pelo próprio VL, como peça da conspiração em que estava empenhado. A moção proposta consistia na dissolução da 5ªDivisão e no afastamento de V. Gonçalves. Extraordinariamente, admite não ter presente os pormenores da reunião; que a troca de palavras foi tão azeda que se decidiu pela retirada estratégica..... “retiro a proposta por não estar para aturar crianças”. Ora essa reunião está descrita no livro de m/autoria “A contra-revolução de fachada socialista”, publicado em 1981, numa edição de dois/três mil exemplares. Aí se lê que a moção de VL foi vencida na argumentação e na votação final; VL no auge do desespero desata aos insultos, gera-se um grande pandemónio (“talvez o maior registado em reuniões do MFA”); com o “manipulador de assembleias” (como o chamei na altura) a fazer menção de se atirar a contra mim e  a exclamar para Duran Clemente que se tinha interposto “A ti posso admitir algumas coisas, mas àquele gajo hei-de acabar por lhe dar um tiro”.
     VL,  com a sua memória suposta fotográfica, situa essa cena de iminente confronto físico, numa reunião no dia 12 Março 75, que eu teria convocado e a que presidiria, destinada à escolha de novos membros para o Conselho da Revolução. Essa é a versão apócrifa de uma reunião convocada e manipulada por VL (mais uma), que levou de vencida,  tendo conseguido nomear para o CR   fieis comparsas, alguns quiçá implicados no golpe do dia 11. Não, não me pôs na rua com a ameaça de me “enfiar cadeiras pela cabeça abaixo”, Saí, isso sim, enjoado com tanta manipulação e baixa intriga.    
     Não vou perder mais tempo a rebater uma a uma as certezas, as façanhas, as opiniões, os palpites de  VL sobre a revolução portuguesa. Nos três decénios entretanto decorridos já escrevi centenas de paginas, publiquei vários livros, assinei dezenas de comentários. Do ponto de vista pessoal esqueci agravos. Mas do ponto de vista patriótico e revolucionário nada esqueço e nada perdoo. VL sabe ser essa a minha posição.
     A determinada altura do processo, o conspirador emérito agora entrevistado, aos berros (modo de expressão habitual, segundo o texto) atira-me à  cara com a afirmação de “não admitir que haja alguém que se considere mais revolucionário que ele”. Meses depois, quando a revolução é esmagada, afirma-se como um dos vencedores do 25 de Novembro. Porventura,  o principal. No final da entrevista (2009/pág.549) ainda tem a ousadia de declarar “Em minha opinião, estavam criadas condições para uma verdadeira política de esquerda”. Manuela Cruzeiro não conseguiu reprimir o espanto : “Desculpe interromper, mas foi justamente o contrário de tudo isso que aconteceu !” Não se atrapalha o cronista : “Voltamos ao problema das pessoas. A começar no Pinheiro de Azevedo...”.
      E assim, também para nosso espanto, fica explicado o triunfo da contra-revolução restauracionista e filofascista portuguesa nos idos de 1975!! Método expedito, nível 4. (Correspondente à 4ª classe do ensino obrigatório). Mas que serve perfeitamente para apagar da cena da luta política/luta de classes no Portugal revolucionário de 1974-75, as questões mais comprometedoras para os vencedores finais. Em especial as que dizem respeito à decisiva ingerência externa; nomeadamente a do imperialismo americano e seus satélites europeus. Ora, na memória fotográfica de VL, nem sequer ficou impresso o papel do embaixador Carlucci, que dirigiu a estratégia   contra revolucionária no terreno, conduzindo os “moderados” militares no Grupo dos 9 e os paisanos do PS  pelos caminhos escabrosos da traição. A entrevistadora M. Cruzeiro ainda  conseguiu forçar uma questão sobre a NATO (pág.400) e as visitas “dissuadoras” da 6ª Esquadra americana ao Tejo, coincidindo com todos os momentos cruciais do processo (Logo no glorioso  25 d’Abril, aqui estavam em força). Coincidências, concorda vivamente VL. E mais não disse. A teoria das coincidências tem, entre outras, a utilidade de encerrar o caso da revolução portuguesa em vaso fechado. Uma luta de galos na capoeira doméstica; metáfora que, aliás, deve traduzir o pensamento de VL e restantes  vencedores do 25 Novembro. Mas, mais espantoso ainda, é verificar-se que esta visão “científica e descomprometida”, vem sendo adoptada por historiadores de capelo e borla da nossa praça académica!
     O voluntarismo -a acção do príncipe- (VL abona-se em Maquiavel no Capítulo final, pág 560) eis, segundo o cronista, a chave mestra para explicar a revolução portuguesa e seu funesto desfecho; subentendendo-se que o príncipe é ele, Vasco Loureço. Tendo criado esse cenário auto-glorificador, VL não deve admirar-se das reacções negativas que provocou e venha a provocar. Gabarola, é a qualificação mais suave que lhe aplicam. (Ele próprio admite, a pág, 349, vir a ser acusado de “presunção ou bazófia”). Quanto a mim, prefiro antes reconhecer no enorme ego exibido por VL, um caso que se tornou banal entre os “vencedores” do restauracionismo contra revolucionário; os arrivistas da democracia, em sentido amplo. Conhecemos o género. Eles andam por aí, satisfeitíssimos consigo próprios (VL afirma-o repetidas vezes), nunca se enganaram, nem se arrependem de nada. Temos M.Soares como arquétipo; Sócrates como epígono. Todavia, apesar de tudo, no campeonato dos vencedores da contra-revolução, VL tem mais motivos para se ufanar do que essas duas flores do “verdadeiro” socialismo  (o da gaveta).
       No entanto, com franqueza, seja-me permitido exprobar ao magnífico herói da burguesia filofascista, determinados excessos de memória; que aparentam ser fruto de um solipsismo bacoco de que, pelos vistos, continua a sofrer, 35 anos após a exaltação revolucionária. Concretamente, refiro a memória/palpite, a memória para amesquinhar quem lhe faz sombra; e a desmemória (neologismo criado por M. Cruzeiro), espécie de salto à vara por cima  de evidências incómodas   que possam pôr em causa fantasias ardilosas, ou beliscar  vaidades.
      Folheando um pouco  a entrevista/livro, vou apenas deter-me à  menção do meu nome, ou da 5ªDivisão. Pág. 254: o episódio da m/prisão, um curto mês sobre o derrube do fascismo. VL descreve-se como o herói da m/libertação. Eu estaria em pânico, invocando os meus amigos comunistas e com receio de ser morto. Contra palpite : Ele lá saberá, pois pertencia ao gabinete do Jaime Silvério Marques, autor da armadilha. (O episódio consta em várias publicações minhas e de outros, vai para mais de 25 anos). A pág. 257: “O Varela Gomes não se livra da fama de ter estado na origem da saída de muitos documentos importantes ....dos arquivos da PIDE directamente para Moscovo”. Contra palpite: VL e seus amigos socialistas estarão da origem do desvio de 10 maços de documentos da Presidência do Conselho descobertos recentemente em Massamá/Queluz. Cap. XII – 11 de Março 75.  Hoje (sic !!), estou mais inclinado de que foi o KGB a provocar o golpe (pág.368). Varela Gomes e a 5ªDivisdão tentaram aparecer como os principais responsáveis pelo falhanço do golpe (pág.364)....porque tinham ligações com o Partido Comunista que por sua vez as tinha com o KGB (pág.373), etc. Os dislates amontoam-se. Contra palpite: VL e seus amigos socialistas estariam envolvidos no golpe. Através da CIA tinham tido conhecimento da data. Puseram-se a salvo. O silêncio quase absoluto do rei de todas as Assembleias, (como VL se considera) na efectuada na noite de 11/12, traduzia o pânico em que se encontrava temendo vir a ser denunciado.
     Para amostra já chega. Para aquilatar (ironizando) da  elevação e do rigor científico posto na análise histórica - ao cabo de 35 anos !! de digestão intelectual - pelo assumido patrão/herói (boss, fica mais na cor) de todo o processo de traição para a democracia. (Ressalvo: em lugar de traição pode ler-se transição). A história dos palpites, junta-se à das coincidências.
     Sobre o pendor para tentar diminuir e ofender adversários, já alguns reagiram. Não foram lapsos, é feitio, diz o narrador de si próprio, a páginas tantas da longa entrevista. Na minha opinião,  o personagem que resulta mais maltratado é Otelo. Insidiosamente, entre repetidas afirmações de amizade inquebrantável, resta um Otelo marioneta de VL, um indivíduo indeciso, ao sabor das circunstâncias, da vontade da personalidade mais forte que  o pressione no  último momento. Fica um retrato lastimoso, que de modo algum se encaixa com o do festejado herói do 25 d’Abril; o comandante impávido da insurreição militar, para quem o insucesso da tentativa anterior em 16 Março em nada alterou a determinação. Entre esses dois Otelos não existe paralelo. Será apenas um enigma psicológico ?
     Mistérios e mais mistérios. Sobre os quais VL salta à vara com a ligeireza de um acrobata de muitas conspirações, golpes de rins e branqueamentos mnemónicos. VL sabe muito mais do que aquilo  de que achou conveniente lembrar-se. A desmemória funciona como a face oculta da memória. É inconcebível acreditar que lhe passou ao lado a grande ofensiva internacional contra a revolução portuguesa. No Grupo dos 9, onde pontificava, estavam Victor Alves,  íntimo do embaixador americano Carlucci; Melo Antunes, agente secreto de Kissinger (cf. ed. D.Quixote, 2008) ; e outros, ligados à rede bombista, às milícias armadas, ao independentismo nos arquipélagos insulares, etc. Não deu por nada? Abençoada inocência! No seu extenso panegírico biográfico também pouco ou nada consta quanto aos seis anos (1976-82) de conselheirismo liquidatário. Os berros deixaram de se ouvir, a paz de espírito e a tranquilidade da consciência passaram a ser  apanágio do truculento herói. E assim termina, com final feliz para o próprio, a história do conspirador bestial  que mais contribuiu para que Abril se transformasse em Novembro. 
     A entrevistadora Drª M. Manuela Cruzeiro em frequentes ocasiões, inclusive no prefácio da  presente edição em Nov. 2009, faz notar que a história oral não é, por natureza, consensual. Sem dúvida; trata-se de uma narrativa eminentemente personalizada. Um instrumento subsidiário, de importância relativa, que deixa em aberto pistas para ulterior confirmação e eventual exploração.
     Claro que o entrevistado não pode ser largado em roda livre. M. Cruzeiro monta, para cada entrevista (e já são 4 as publicadas em livro) um percurso muito bem estudado  com passagens obrigatórias pelos pontos cruciais; mas também  procurando evitar excessos de entusiasmo. Acredito que, no caso  presente, a velocidade egocêntrica de Vasco Lourenço lhe tenha criado problemas especiais, Quanto a mim, se acidentes houve e  feridos se queixam (não é o meu caso) a responsabilidade cabe toda ao narrador que não obedeceu aos sinais de trânsito para que a entrevistadora tentava chamar-lhe a atenção.
     Curiosamente (ou nem tanto assim), essa corrida de campeão desenfreado acabou por desenhar, com nitidez, o perfil psico/sociológico do protagonista. Como ele, repetidamente, se proclama o maior, o nº1, modelo e espírito do MFA , assim autoriza a que observadores, bem ou mal intencionados, tomem o símbolo pelo todo; invoquem o que ele diz como expressão e prova da verdade dos factos. Esse é o eventual desastre; o perigo que espreita o uso desabusado da história oral. (Segundo o jornal Público -8.7.09- foi assinado um protocolo entre a Ass. 25 d’Abril, a Fundação M. Soares, ISCTE e Univ. Nova, para recolha da história oral. VL irá contactar os militares a ouvir. Ficou-lhe o jeito. Espera-se o pior).   
     Vasco Lourenço pode imaginar que ao apresentar-se como o herói do processo revolucionário /contra-revolucionário granjeia a admiração e o respeito dos seus compatriotas; que assegura um lugar de relevo na história. Não creio que isso vá suceder, nem isso me interessa. Do que tenho a certeza é que esta sua exibição megalómana, agora caída no domínio público, vai atingir em cheio o pouco que ainda resta do capital de prestígio e simpatia pelo  MFA ;  além de oferecer aos inimigos do 25 d’Abril campo fértil para o denegrir. 
 Lisboa, 16 de Julho,2009
publicado por samizdat às 07:43
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