Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

OS NEO-MAQUIAVÉLICOS

De uma maneira geral, pode dizer-se que o pessoal que está na cena política partidária burguesa a partir de 1974 tem feito as suas carreiras dentro dos parâmetros de um maquiavelismo adaptado à circunstância democrática. Um Maquiavel  entendido como moderno realismo, ainda mais  libertário e sem escrúpulos que o original; a que chamo neo-maquiavelismo, na senda dos neos de que tanto se ufanam: neo-liberais, neo-conservadores, neo-velhos, neos da treta.

     

Note-se que nem todo esse pessoal “nasceu” para a militância política após o 25 d’Abril. Apreciável número vinha do antigamente, da resistência antifascista lato sensu. De imediato, acode o exemplo dos históricos socialistas que - em tributo a Maquiavel - rapidamente meteram o socialismo na gaveta; dos maoístas em histeria verbal, que logo se agacharam como galinhas de capoeira, em nome do realismo maquiavélico; e vários outros.    
 

      Uns e outros - os do antigamente e os que renegaram no 2º dia da revolução – foram-se escondendo no pragmatismo, no anticomunismo, etc. Mas, na sequência do trambolhão do capitalismo neo-liberal, atiraram p’rás malvas as máscaras e os eufemismos, assumindo por inteiro a sua Ética à Maquiavel ; em boa verdade, aquela que lhes vai na alma, lhes serve o carácter  e lhes tem norteado as carreiras de sucesso e pecúnia.

 

      Dá  para suspeitar que a vasta maioria dos neo-maquiavélicos que ocupam a cena política/empresarial, da fama ou da riqueza, alguma vez tenha lido, ou sequer folheado, o aclamado autor florentino que viveu entre os séc. XV e XVI (1469/1527). Mas isso em nada impediu que, desde então, as sucessivas vagas de arrivistas ao assalto, não tenham percepcionado a filosofia de Maquiavel como excelente viático para o seu avanço na escala social.

 

     Por suposto, a adopção de Maquiavel, pela burguesia exploradora capitalista baseia-se na sua obra póstuma “O Príncipe” (redigida em 1520, publicada em 1532). Através de versões sumárias e citações avulsas fora-de-contexto mas  que fizeram a glória (póstuma) do autor, concluíram (correctamente) existir uma clara analogia entre o Príncipe renascentista e o Triunfador político/milionário dos modernos tempos. Com efeito, pouco difere o breviário ético por ambos adoptado. Uma máxima doutrinária ficou colada ao conceito de maquiavelismo: “Os fins justificam os meios”, quer na política quer nos negócios. Nesse sentido o autor escolhe para modelos didácticos dois condottieri de baixa moral e alta ambição - César Bórgia e Francisco Sforza – mimoseando-os com abundantes conselhos : o  príncipe seguirá os seus desígnios com tenacidade, sem escrúpulos de consciência; com realismo, sem se prender a princípios nem a ideologias,  visando apenas a eficácia; empregará mais a esperteza e a manha que a força; deve ter o entendimento treinado para virar conforme os ventos da fortuna e a mutabilidade das coisas lhe ordenem; convém ser o mais generoso possível com aquilo que não lhe pertence, pois esbanjar os bens alheios ainda lhe acrescenta a boa fama; usará uma linguagem enérgica e colorida, a ironia e o sarcasmo: deve evidenciar a ferocitá (a impetuasidade do animal selvagem); “Não existe maneira mais segura de garantir uma província conquistada do que arruinando-a” ( em Cap. V– “De como se devem governar as Cidades Conquistadas que antes viviam segundo as sua leis”); etc, etc.

 

      O leitor está, decerto, abismado ante o cinismo de Maquiavel. Mas isso constitui, exactamente, uma das afinidades  que mais encanta os neo-maquiavélicos da globalização américo/capitalista! Aliás, o cinismo e a hipocrisia  sempre foram imagens de marca da classe burguesa dominante. Nós por cá, nesta mimosa democracia burguesa libertária, bem conhecemos o género. Os anais desta III República estão repletos de exemplos.

 

     À cabeça, como é devido, o príncipe fundador, Mário Soares de seu nome.   (Marocas, de cognome). O poder acima de tudo e de todas as coisas. Conquistá-lo e conservá-lo  por qualquer meio ... maquiavélico, foi o desígnio supremo. Disposto até a aliar-se ao diabo, disse-o e provou-o. “Feio, feio em política, é perder”, frase que lhe é atribuída e que faria inveja ao próprio Maquiavel. O qual recomenda ao seu ideal príncipe apresentar-se majestoso e magnificente. Mas foi o Marocas  no  apogeu das suas viagens faraónicas, rodeado por comitiva manuelina de aduladores e penduras, deslumbrando o mundo e os indígenas das Ilhas Seychelles! Colocando a democracia portuguesa, quinhentos anos após, na rota do grande Gama! É obra! É de Príncipe !

 

      No entanto, apesar  de ter dado tão boas provas como  discípulo aplicado de Messere Niccolo Mchiavelli, vai acabar os seus dias sem ceptro nem coroa. Mas resta-lhe a glória - que ninguém lhe disputa – de  ter marcado indelevelmente, a II Democracia Republicana Portuguesa com o vírus do neo-maquiavelismo, que ficou infectando a vida política e social e a própria alma da Nação até ao presente.

 

      A lição do “fundador” aproveitou as vagas seguintes  de ambiciosos sem freio e oportunistas esfaimados. Uns mais, outros menos, os condottieri (soldados/políticos de fortuna, que só combatem por interesse pessoal) fizeram escola, constituem o grosso das hostes partidárias burguesas. Vem ao caso sublinhar que no Portugal democrático, até ao actual governo, o príncipe que conquistou  a “província” mais notória e o cargo mais rendoso, foi um condottiere de pura linhagem maquiavélica: Durão Barroso, da extrema-esquerda maoísta a presidente da União Europeia! Isto sim, isto é carreira de Príncipe! De fazer torcer-se e retorcer-se de raiva e despeito o Marocas,  mestre iniciático. Além disso, a fenomenal ascensão do rapazola provocador do MRPP, traduz o alto valor estimativo que o império américo/capitalista atribuiu aos serviços prestados     pela rapaziada da “revolução cultural” na contra-revolução mundial, nomeadamente na situação portuguesa entre 1974-76.

 

      Mas, estamos a tempo de olhar para a situação portuguesa actual. Um partido burguês de etiqueta socialista, no governo há 4 anos e meio, gozando de  maioria absoluta sob a batuta autoritária de José  Sócrates; aguarda avaliação do eleitorado sobre desempenho pretérito e destino futuro, a 27 do corrente mês de Setembro.

 

      Ora –não sei se os leitores se deram conta – este Sócrates, na existente circunstância democrática, bem entendido, ajusta-se à figura do príncipe, tal como Maquiavel  a idealizou nos primórdios da Renascença italiana. Um condottiere, sem dúvida; enfim, não um César Bórgia, filho do Papa de Roma; mas serve bem para comparar com o perfil de um Sforza, montanhês do Trás-os-Montes lá do sítio, com  olhos ávidos sobre a cidade a conquistar.

 

     O percurso de Sócrates, como se sabe, mal deu para curso. A duras penas, lá conseguiu parturejar um diploma de engenheiro, com prática de arquitecto de aldeia. Mas nem disso precisava, valha a verdade; Sforza, seu protótipo, não precisou de adereços académicos para se tornar duque de Milão. Determinação feroz (ferocitá, no original), obsessão pelo mando e poder, escrúpulos, princípios e ideologia que bastem para alcançar o objectivo final, eis os talentos essenciais para o príncipe. Quem o diz é Maquiavel. Quem os ostenta é Sócrates; ainda nos lembramos quando ele se auto intitulava “animal feroz”. No período pré-eleitoral, debaixo de adversos ventos da fortuna, teve que vestir a pele de cordeiro vitimizado. Olhe que o mestre avisa que quando o príncipe exibe fraqueza está abrindo a própria cova! Esqueceu uma das máximas mais célebres do maquiavelismo : “Para conservar o poder convém ser mais temido que amado”.

 

     Seria um exercício interessante tentar apurar quanto do  maquiavelismo exibido por  Sócrates na sua acção governativa é fruto de instinto natural, ou resultado de alguma reflexão apoiada; inclusive na obra  de  Maquiavel “O Príncipe”, que temos vindo a referir. À primeira vista o sujeito não parece dado a leituras. Mas surpresas também as há. Acresce o facto  que muitas das atitudes e decisões de Sócrates parecem seguir à letra os conselhos de Maquiavel aos seus discípulos. Não é só a ferocitá : a impetuosidade do animal feroz no discurso e na acção ; mas, “vender o que não lhe pertence”, não é, exactamente, aquilo que o PS/Sócrates tem feito desbaratando o património nacional ? e “a melhor maneira de garantir uma província conquistada é arruiná-la“, não é exactamente aquilo que o PS/Sócrates tem feito com os departamentos (províncias) da Administração Pública do Estado? Não destruiu, inclusive usando o temor/terror recomendado pelo mestre florentino, o aparelho do Estado, partidarizando-o na quase totalidade ? Este aprendiz de artes maquiavélicas revelou-se mais papista que o papa. Atrás de si vai deixar um mar de escombros; herança igual à de muitos  outros da mesma laia e da mesma escola.

 

     Infelizmente a mensagem/síntese da Ética à Maquiavel –triunfar  a qualquer preço- chegou até aos dias-de-hoje, recuperada pela burguesia neo-liberal/retro-conservadora em crise de  filosofia doutrinária. Do príncipe/condottiere renascentista, passando do Rei-Sol (L’Etat c’est moi) a Napoleão imperador (são 773 as anotações que fez no seu exemplar de “O Príncipe”) chegámos aos tempos modernos, aos príncipes da indústria e da especulação financeira,  às principescas  vedetas do cinema, do rock, aos campeões do desporto, gente que professa o individualismo neo-maquiavélico sem disso se aperceber; apenas  por que é o que se usa - e é correcto usar - no império burguês/capitalista.

 

     Tornou-se dominante na sociedade actual o culto do herói, a crença na virtude do individualismo; traduzida em chavões imbecis mil vezes repetidos : querer é poder; a vontade ( fé, determinação) remove montanhas; o sucesso é a medida de todas as coisas (principalmente, na política e nos negócios, dizem os neo-maquiavélicos); a fortuna –porque é mulher!- bafeja os audaciosos; e outras imbecilidades do mesmo jaez.

 

      Assim vai o mundo e vão as mentes. Todavia ainda custa verificar que a classe pensante (nas artes, nas letras, nas ciências) pareça, também ela, fascinada por este tardio neo-maquiavelismo. E de acordo se comporte  no quadro da participação pessoal/cívica; afora as honrosas excepções. Sucede que os “intelectuais” são convidados às dezenas – ou centenas, em períodos eleitorais – para perorarem na televisão; sem dúvida, o palco da   maior audiência possível. E lá vão eles, contentes e prestativos, fazer o  número “politicamente correcto” com que contava a estação patrocinadora.  Num aspecto é raro falharem: toda a atenção sobre a personalidade dos lideres, dos chefes, dos heróis vedetas, sobre o combate dos pugilistas/políticos, o que ficou KO, o que ganhou aos pontos; luta livre, luta individual, só isso interessa, só isso é marketing. O resto é paisagem. O povo o que gosta é disso, afirmam os especialistas. Vamos servir-lhes o que eles comem.

 

           Os especialistas multiplicam-se como coelhos. Eram simplesmente, comentadores ou analistas; agora são politólogos, sociólogos, estrategas, historiadores encartados. Quanto a mim, os mais nocivos são estes últimos.

 

     Para a grande maioria deles, a história dos povos, das nações, da humanidade, não é uma ciência dialéctica, mas a crónica realista “à Maquiavel” das façanhas dos vencedores ; reis, imperadores, aventureiros da guerra e da fortuna, ditadores e golpistas, espertalhões e oportunistas da democracia.

 

      Ilustrando o género : Há meia dúzia de anos, a um desses mestres de ciência política, ouvi afirmar, em sessão pública, que Salazar venceu sempre os adversários antifascistas porque era mais “esperto” que todos eles. O sujeito foi um dos entusiastas de eleição do Manholas para o trono RTP do “maior (sacana/espertalhão) português de sempre”. Na presente conjuntura eleitoral, continua com lugar assegurado nos media nacionais e privados, recebido com respeitosa vénia.

 

       Um outro catedrático de ciência política da mesma laia e na escola da “esperteza”, Adriano Moreira, antigo figurão do fascismo, é hoje (quase aos 90 de idade)  mestre reverenciado de democracia geo-ética. Logo em 1977 fez publicar, do Brasil onde se tinha refugiado, um ensaio de conotação maquiavélica “O Novíssimo Príncipe”. O emérito professor elegeu um colectivo, as Forças Armadas, como o anti-herói do 25 d’Abril ! O homem devia estar tão traumatizado que tresleu Maquiavel, o glorificador da acção individual na feitura da história. Ora, ilustre intelectual para todas as estações: em 1977 já tinha  disponível, pronto a usar, o Novíssimo Príncipe Contra-revolucionáro, o Dinossauro Excelentíssimo Mário Soares! Ambos sois, seguramente dois bons espíritos reencontrados. Ambos merecem uma coroa principesca como condottieri campeões do neo-maquiavelismo.  
 

 

     José  Sócrates não será recordado – para desgosto seu – como um príncipe maquiavélico de envergadura comparável aos dois expoentes atrás mencionados. Entretanto, a Nação portuguesa, no conjunto global, desceu à categoria periférica. Sócrates está bem nessa dimensão. Chico esperto, vendedor de feira, já dele foi dito, justamente. O seu perfil de ambicioso autista corresponde ao modelo pimba do novíssimo príncipe da novíssima burguesia pimba 

 

     Contudo, convém lembrar que o príncipe de Maquiavel foi, no séc.XVI, um herói  “revolucionário”; na medida  em que afirmava a vontade  individual contra a realeza  de graça divina e o privilégio de berço da fidalguia. Em contrapartida, para os actuais neo-maquiavélicos só interessam os fins, a vitória, o triunfo a qualquer preço sem olhar aos meios. Essa é a ética predominante na cultura burguesa hodierna. Daí resulta que os príncipes da política e  os gangsters de sucesso suscitam igual admiração; as prostitutas de luxo e os artistas laureados o mesmo aplauso. 

 

      Neste quadro de valores, o jogo eleitoral está qo nível de um campeonato desportivo. Dirigentes, treinadores e jogadores afirmam ambição sem limites, a vontade de ganhar e a força de acreditar, garantem êxitos e futuros radiosos, prometem  muitos golos, taças e glórias, trabalho duro e  amor à pátria e à camisola, cada jogo um combate decisivo, só a vitória interessa, etc, etc.

 

          José Sócrates, também conhecido no meio pelo Zé Promessas, possui todas as características do  treinador feroz que não olha a processos nem a delicadezas para vencer. Mas as últimas quatro épocas correram-lhe mal.  Mesmo bastante mal. Adeptos, público em geral, populações inteiras, estão fartos de lhe aturarem as fanfarronadas, a demagogia, a incompetência. Vai para casa Zé Sócrates, volta para a aldeia donde nunca devias ter saído, limita-te a treinar o clube lá da terra, não tens tamanho nem cabeça para maiores intentos. 
 

 

                                         Lisboa, 15 Setembro, 2009

publicado por samizdat às 12:31
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PROMESSAS - PROGRAMAS – PROPOSTAS

        Decorridos que vão, neste sistema democrático da III República, cerca de vinte processos/campanhas eleitorais para escolha de governos nacionais, através de votação em listas partidárias de deputados (supostos representantes dos cidadão eleitores); depois de tão vasta experiência (afora as muitas centenas de eleições autárquicas), parece que deixou de fazer sentido, que seria um absurdo lógico, um infantilismo néscio, continuar a pensar-se em termos de uma jovem e inocente democracia, onde todos estaremos a aprender, etc, etc, blá, blá, blá. 

 

         E no entanto...! O facto é que o discurso político corrente neste ano 2009 de todas as eleições - mormente o emitido pelos partidos do rotativismo burguês/capitalista – apresenta-se como chapa única para desmemoriados, ingénuos impenitentes prontos a serem ludibriados pela vigésima  vez. Começa assim o conto do vigário PS/PSD : ”É preciso que  muitas coisas mudem ....blá, blá, blá.” (Para que tudo fique na mesma, ou pior, resmunga o cidadão eleitor que tem memória e não é parvo).

 

         Na paróquia lusitana, a propaganda eleitoral mais néscia e infantilizada é, sem dúvida, a que adopta a estratégia das promessas. Faz espécie que haja ainda alguém em Portugal que –já nem digo que acredite – mas que perca tempo e paciência a escutar semelhante arenga. Os socialistas do PS são, indiscutivelmente, os “verdadeiros campeões” das promessas eleitorais, desde o 1ºgoverno constitucional da “verdadeira democracia” soarista. Vem aí o paraíso. O bacalhau a pataco. Mais o maná (a mama) de Bruxelas. É fartar vilanagem, rejubilava o pai da “verdadeira”. Estava lançado o mote para a  burguesia restauracionista encher o bandulho Veio depois o oásis de Cavaco no mesmo comprimento de onda. Dupont & Dupont, estão bem um pró outro. Mas a culminância das culminâncias chegou com o vendedor de promessas, capaz de vender frigoríficos aos esquimós. O inefável socialista (tinha que ser), o animador da festa na aldeia,  Zé Sócrates.

 

         Sobre promessas e respectivos vendedores mais ou menos saloios, quero efectivamente acreditar que não vale a pena gastar muita cera. Seria a última das decepções se, por sorte malvada, contra o bom senso e uma elementar lógica, o povo português fosse condenado, no próximo acto eleitoral,  a mais do mesmo.    

        

         Os programas partidários eleitorais têm sido invocados como receituários miraculosos para as maleitas e achaques da lusa Pátria. Comentadores sisudos, damas e cavalheiros às centenas, por grupos selectos ou dispondo de coluna aberta nos trivial media, manifestam-se ansiosos para saudarem a revelação do evangelho salvador do sistema burguês/capitalista. Pois é disso – e apenas disso – que se trata no universo do politicamente correcto.  

 

         Ouço dizer que os participantes nesse circo dos comentadores são generosamente pagos por cada presença televisiva ou artigo publicado. Será essa a motivação suficiente para a generalidade. Muitos deles surgem agora classificados numa nova categoria profissional : comentadores residentes. Isto é, emprego fixo de baixo esforço, vulgo tacho.  Outros haverá que antes procuram notoriedade, candidatos a posta gorda : presidentes (seja do que for), administradores ou gestores de empresas do Estado (idem). Todos preocupados com o porvir: o deles, pessoal, está bem de ver-se; depois, lá ao fundo do túnel, o ideal da dedicação à causa pública Enfim, estão dentro dos parâmetros do “trivial pursuit”  para carreiristas na roleta do rotativismo governativo vigente.

        
          Efectivamente, parece existir uma contradição digna de registo entre o invocado interesse pelos programas partidários eleitorais e a pobreza e escassez dos debates  de ideias; sobretudo ao nível superior de confronto  ideológico. Mas essa contradição pode ser só aparente; pois a táctica de fugir ao debate de ideias  é tradicional nas formações políticas que advogam o  pragmatismo/oportunismo ideológico. Vício costumeiro no Partido Socialista Português, latente no PSD e restante direita. Ora a presente  crise do sistema e ideologia neo-liberal, ainda mais obriga os partidos eleitoralistas da burguesia nacional a evitarem qualquer esboço de um confronto de ideias de que sairiam  fatalmente humilhadas. Em consequência estamos assistindo a uma campanha morna de deliberado meio-gás, onde os programas partidários nem citados estão sendo e as ideias salvadoras cada vez mais se assemelham às promessas tontas de Zé Sócrates. Nestas circunstâncias, se a esquerda político/partidária conseguir forçar o debate ideológico, o resultado ser-lhe-á altamente favorável.
 
         Por estes dias acompanhei um debate na TV participado por meia-dúzia dos habituais políticos/comentadores. Entre eles uma dama de extenso e saltitante currículo e ainda no activo disputando conchegos. Às tantas irrompe-lhe da alma a exclamação do pensamento/programa político da burguesia portuguesa : “Mas dêem-nos ideias. Estou compradora de ideias”. Prezada senhora : eis-me ao seu serviço. Aliás, na senda de uma ideia mestra do alegado engenheiro (200 paus por nascituro a receber ao atingirem a maioridade). A minha variante –ainda mais genial – seria substituir o fundo pecuniário pela oferta de um carro ....a receber aos 18 anos, bem entendido. De uma assentada resolver-se-ia a crise nacional/ mundial da indústria automóvel, o desemprego, etc. Em resumo: uma nova era para o capitalismo! Que me diz à ideia? Oferta gratuita que fica ao dispor dos engenheiros e financeiros socialistas e sócio-democratas; a qual –passe a imodéstia – penso ser mais rendosa (imensos lugares de administradores) que os “magalhães”, as três auto-estradas Lisboa-Porto, a energia solar que consome electricidade, etc. Como se nota, a esquerda não regateia auxílio à burguesia exploradora, logo que esta manifesta uma desesperada carência de ideias salvadoras.     
 
         Ridicularizar é fácil. Ridicularizar a fixação da classe política burguesa pelas ideias avulsas, pelos fait divers,  pelas inovações parolas, dá um certo gozo, sem dúvida. Mas atenção. Por detrás da parolice está a   manha dos politicos manholas portugueses, os herdeiros dos frades e fradiques que foram reduzindo Portugal a uma corte de aldeia. Não lhes falta conversa fiada sobre questões desviantes de lana caprina; em contraste com uma rigorosa circunspecção  quanto aos assuntos de importância  e interesse colectivo. Os quais - ao que dizem - não são assuntos para ser discutidos na praça pública. (Não queriam mais nada; na bagunça das eleições!). A escola salazarenta revela-se bem enraizada nesta democracia filofascista. Aníbal Cavaco e Manuela F. Leite, cópias fieis; Zé Sócrates & sua trupe, imitações em loiça das Caldas.
 
         Decididamente, considero que a designação de Propostas é mais adequada em ocasião de escolhas eleitorais, (por cidadãos chamados um-a-um, pelo seu nome, à boca da urna de voto) que a mais consagrada designação de Programa. A CDU utiliza ambos os termos mas, acertadamente,  não os confunde. Com efeito, parece mais directo e objectivo o conceito de proposta (Concorda ou não concorda  com esta solução? Em relação àquela?), que a de programa (Vamos lá estudar essa declaração de intenções). Na verdade, a fórmula programática parece mais destinada a iniciados; enquanto que a primeira se dirige aos indolentes/ cépticos, aos resignados/acomodados. À tal massa de abstencionistas potenciais a recuperar para o  mais elementar dos deveres de participação democrática; ou seja, o exercício pelo voto de uma  opinião pessoal, um sinal de quem está vivo e pertence à comunidade onde nasceu ou que adoptou.
 
         Por muito distante que pareça estar a conquista da cidade fraternal, o imobilismo absoluto é a resposta estúpida, a atitude de um cúmplice com a maldade do mundo. Como bem faz notar a esquerda partidária (PS não mora aqui) se 20% nos seus resultados eleitorais já constituem o espectro que tira o sono à direita neo-liberal, então 25 ou 30%  chegariam para a endoidar. Não será a vitória final, ali adiante ao virar da esquina, mas iria/irá pôr em respeito  toda essa cambada de exploradores, corruptos, traficantes, aldrabões, vampiros sugadores, que infestam a atmosfera política e social das democracias burguesas/capitalistas e as convertem numa selva de voraz ganância sem rei nem roque.
 
         A talho de foice, passando os olhos pela imprensa generalista recente, nota-se um empertigamento (passe o termo) na opinião e nos comentários relativos ao momento político/eleitoral. Sinal positivo, que é de saudar, de encorajar e –com a devida vénia- de glosar em alguns casos. Aqueles que possuam potencial despertador de mentes adormecidas.
 
        Para primeira anotação aponto um artigo do economista F.Sarsfield Cabral (Público, 10 Agosto pp), ironicamente intitulado “Querida Corrupção”. Escreve o autor: “Os políticos dizem-se preocupados com a corrupção, claro. Mas estarão mesmo? Não parece. (...) A classe política e os aparelhos partidários revelam fraco empenho em combater a sério a corrupção. Percebe-se porquê (...) Não existe em Portugal uma consciência ética forte que censure a corrupção (....) o aumento da promiscuidade entre política e negócios ..é.. um dos pontos negativos do governo Sócrates.”. Termina o autor :  “.... repetindo o que tida a gente sabe, é prioritário tirar a justiça portuguesa da lentidão e da ineficácia em que se atolou. Uma justiça assim não ajuda a combater a corrupção”. De uma penada, um ilustre comentador mediático (residente?) aborda dois temas - corrupção e justiça – que a esquerda político/partidária tem, seguramente, incluídos na sua agenda eleitoral. Existem inúmeros exemplos de casos concretos em ambos os temas, cuja divulgação em campanha contêm – em m/entender - muito maior poder esclarecedor que horas de “parte vaga” (É preciso mudar....aumentar a produtividade, as receitas...diminuir o défice, a burocracia...reformar a saúde, a educação ... e o raio que os parta também). A denúncia de situações concretas da corrupção e da injustiça burguesa, constitui um instrumento pronto a usar e o mais eficaz para demolir o  que resta do edifício de mentiras e da demagogia bacoca do alegado engenheiro  e dos economistas engenhocas do bando capitalista. Além disso, insistir nessa orientação táctica é, não só recusar o combate/debate no pântano da  parte vaga,  como ainda evitar as armadilhas da conversa de chacha.  (Fait divers, dizem eles), São TGV que ninguém vê, aeroportos suspensos das nuvens, obras de Stª Engrácia inauguradas  vezes sem conta, com previstos reajustamentos no horizonte, etc. Eles e elas, adoram projectos gigantescos, atirarem com milhões sugados do erário público para os bolsos sem fundo de amigos privados/ou-nem-tanto, oferecendo-lhes gestão simplex, sem  controlo nem prazo.
 
         Nem de propósito. O professor Santana Carrilho (Público, 19.08.09,  apoiando-se em trabalho da jornalista Clara Viana na edição do dia 16) desmonta uma dessas modernas “empresas majestáticas”: “Parque Escolar, EPE”, um investimento de 2,5 mil milhões de euros. Nota justamente, S.Carrilho que uma “Entidade Pública Empresarial” é uma coisa híbrida , promíscua (como as fundações modernas, sublinha) que retiram do saco público, directamente ou por expediente, todo o dinheiro, incluindo para cobrir a quota dos privados no empreendimento. Na realidade, o Estado é o verdadeiro e único dono da coisa; a coisa EPE, não passa de  um subterfúgio, um logro, para que o próprio Estado (burguês/capitalista) possa escapar às  leis que  regem as instituições .... do  próprio Estado !!  Através desta esperteza saloia – no mínimo, anti-constitucional, provável figura criminal – os executivos governamentais (PS; PSD; CDS, vampiros da mesma estirpe) – nomeiam os corpos gerentes que, a seu bel-prazer, podem fixar o salário, as regalias, o modelo de gestão; dispõem de  isenção de taxas, de poderes para  tributar, embargar, decretar demolições e expropriações. Em cúmulo de privilégio, os trabalhadores/administradores da  EPE têm direito a patrocínio judiciário gratuito por advogado contractado/pago pela empresa. Os estabelecimentos escolares não foram tidos nem achados, sobre  obras e alterações. Arquitectos convidados por ajuste directo (que já embolsaram 20 milhões €)  podem traçar e retraçar no património imoliliário público como se  propriedade privada fosse.
 
       Mas não se imagine que existe apenas um ou dois exemplares de EPM – Empresas Públicoprivadas Majestáticas (Proposta de nova sigla; ao gosto da transparência demo-burguesa). Elas proliferam como cogumelos; até 27 Setembro os socialistas, amigos e companheiros, aguardam farta colheita.
 
Um outro caso de pilhagem majestática, merecedor de denúncia na presente emergência eleitoral, será o das “Estradas de Portugal, EPE”. O pouco  que vem a lume, dá para sobressaltar o menos patriota dos cidadãos; aquele que se diz indiferente à política e suas eleições. Eis uma poderosa razão para não esquecer agitar estes monstruosos casos de vampirismo partidário. Há muitos outros, iguais ou parecidos: no Banco de Portugal, na Caixa Geral, na GALP, na TAP, na mutilada CP com dezenas e dezenas de gestores; nas Zonas Ribeirinhas, na Qren, nos Pin ... os vampiros afiam o dente  na alucinação saqueadora do património da Nação, tarefa onde se acotovelam as clientelas da classe política burguesa/libertária que governa o País há três décadas.             
 
Promessas, Programas, Propostas, facilmente derivam para o vago;  a  parte vaga da propaganda. Nisso são mestres os demagogos da direita partidária. O que mais os atemoriza, no contexto da actual campanha eleitoral, é a exposição e o debate sobre  casos concretos de espoliação e esbanjamento de recursos públicos, como os acima nomeados. O campo do concreto é o campo de morte da duocracia burguesa. Fogem dele como o diabo da cruz. Solertemente, citam estatísticas, percentagens, quadros comparativos; e insistem na economia teórica e abstracta - o Economês - como  tema principal, senão único, do confronto eleitoral
 
A posição da esquerda político/partidária é exactamente contrária. A de não abandonar o terreno vantajoso do concreto. Mantê-los aí debaixo de fogo. Chamando um precioso testemunho: o dos trabalhadores dessas empresas, de antes e depois do estatuto majestático, de sindicalistas, de reformados e ex-funcionários. Quero crer que esta abordagem terá um efeito esclarecedor muito positivo no eleitorado; em particular no descrente e desmotivado.

 

O compêndio de História de Portugal nos meus tempos de curso liceal (meados do séc. XX), atribuía ao rei João II, quando subiu ao trono em 1481 (aos 26 anos) o seguinte desabafo : ”Sou rei; mas apenas das estradas e caminhos de Portugal”. Com efeito, recebia de seu pai, um reino “privatizado” na posse da grande fidalguia, do alto clero, de familiares e favoritos . O antecessor, Afonso V, tinha sido um rei contra revolucionário (remember Alfarrobeira), neo-liberal na época; isto é, esbanjador e desleixado. Assim a modos dos nossos “primêros”, desde o majestático Soares; estes modernaços lideres democráticos, nem estradas nem caminhos deixam na posse do Estado Republicano!
 
O  jovem João II resolveu a situação com rapidez : expropriou os mais ricos, mandou matar os recalcitrantes e, ele próprio apunhalou o cunhado, duque de Viseu (Cavaquistão, terra fértil em salazares). Por um curto reinado de  14 anos (morreu aos 40) ficou consagrado na História como o melhor rei português de todos os tempos, o obreiro da odisseia marítima lusitana. À qual devemos ainda  o que resta da  grandeza do nome Portugal. 
 
Lisboa, 26 Agosto, 2009
publicado por samizdat às 11:35
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