Quinta-feira, 23 de Julho de 2015

Da Tirania Neo-Liberal

Utilizei – deliberadamente – o antigo conceito grego tirania  - ou governo despótico- lá pelos idos dos 500 aos mil anos ac (antes  de nascer J.Cristo). Para os filósofos  de então, a tirania era considerado o sistema de governo mais nefasto e condenável na escala da “justiça social”.

Sabe-se que esse tema  -a justiça- e a correlativa procura/ definição do “homem justo”, foram  obsessão na cultura clássica grega; e ainda hoje/agora presidem ao julgamento ético na chamada civilização ocidental/cristã, graças ao monumental espólio literário/documental  que chegou  aos hodiernos tempos. Com efeito, o pensamento filosófico da Cristandade Ocidental e seus impérios  (nomeadeamente no campo social-político) e noutras religiões/crenças,  devem o mais válido das suas doutrinas aos pensadores da antiguidade clássica......e não a supostas revelações divino/proféticas.

Vejamos, no campo restrito da governação da cidade-estado. Era ponto assente: - o governo arbitrário/abusador do tirano, acabará substituido por uma oligarquia (de facções e partidos de interesses); que, por sua vez, mais cedo ou mais tarde, serão arredados do poder por uma democracia  (o goveno de muitos, em teoria). Ambas as alternativas, segundo a corrente filosófica dominante (Sócrates-Platão-Aristóteles), revelar-se-ão corruptas e interesseiras; nenhum desses governos cuidará verdadeiramente dos interesses do povo. Uma nova tirania surgirá, capciosa ou fatalmente. É o famoso “Eterno Retorno”, expressão descoberta! atribuída na era moderna, a F.Nietzsche (1844-1900).

Contudo, mais curioso ainda, é tropeçar nos Diálogos de Platão com personagens cuja ideologia, opiniões politicas, sentimentos pessoais e etc,  parecem uma  duplicata dessa seita de párvulos neo-liberais que por aí andam a empurrar o mundo super-tecnológico para as trevas da idade neo-lítica.

(Recorde-se, brevemente, que os Diálogos são escritos de facto por Platão, mas que ele jura e trejura que as palavras e frases saíram da boca do seu querido e adorado mestre Sócrates: ele seria apenas o escriba, incluindo da célebre Apologia proferida por Sócrates pouco antes de ingerir a cicuta, antecipando-se á sentença do tribunal onde estava a ser julgado por sedicioso).

Entretanto, demoremo-nos no diálogo “A República” de Platão/Sócrates (ou vice-versa). Dois dos intervenientes, os jovens Trasímaco e Polemarco de suas graças ...... então  não é que os sacaninhas são directos antepassados dos jotinhas labregos da sufulrosa e mal-cheirosa geração dos “traidores democráticos” do Novembro 75 em Portugal!?  

Diz Polemarco a abrir (Livro I-Secçao2): “Fazer o que é justo, ou Justiça, consiste –em suma- em beneficiar os amigos e prejudicar os inimigos”.Carrega Trasímaco (Secção3) “aquilo que é certo, ou justo, é aquilo que está no interesse da parte mais forte”. Sócrates argumenta com paciência dialéctica; mas os jótinhas gregos no séc.4º ac queriam deixar bem explicadinha a sua visão da vida. Pois vamos conhecê-la. Tem um  especial interesse e espantosa actualidade. Os nacionais jótinhas neo-liberais no recreio de S.Bento,  os arrivistas do “arco do poder” ficam retratados ao vivo a milhares de anos do aclamado progresso/sucesso da civilização. Afinal, sangue do mesmo sangue, a mesma ganância e egoísmo, maldade  e violência, a mesma impostura.

Na Secção 4-Livro I do diálogo “A República”, Trasímaco faz um pequeno discurso:

“Na sua opinião, a justiça é uma virtude para os covardemente simplórios e para os ingénuos. As pessoas só levam vidas “justas” porque são ignorantes e porque temem agir de outra maneira. Para os homens fortes e inteligentes, a injustiça é muito mais vantajosa. Nas questões de comércios e noutros cometimentos, o homem injusto é de longe mais bem sucedido: ele esquiva-se aos impostos, apropria-se dos fundos públicos e, de modo geral, leva uma vida bastante mais preenchida e feliz que o homem justo.

Naturalmente, tais acções devem ser cometidas em larga escala. Arrebatar bolsas, ou fazer roubos insignificantes não é de modo algum vantajoso. Pois uma pessoa sozinha  é apanhada e castigada. Mas se alguém consegue submeter à sua autoridade o conjunto dos cidadãos e torná-los escravos, então não existirá qualquer receio de ser apanhado. Em resumo, a vida do tirano é de longe a melhor”.

Que tal, ein? Até parece o Passos a falar! Ou o outro, agora na gaiola. Ou o Durão, agora num poleirão!Ao Santana saíu-lhe o euromilhões. São todos uns sabichões .....o que rima com vilões e outras coisas em ões. (Não sei porquê, veio-me ao espírito o nome do filósofo Ali Bábá....talvez por ter muitos admiradores lá prós lados do “Arco do Poder”. Será nome de casino? Ou de academia, para os muitos Trasímacos e Polemarcos deste maravilhoso mundo global da tirania capitalista neo-liberal?).

Entretanto, o planeta foi girando: a Renascença da civilização cristã-ocidental estava ao virar da esquina, em particular na península italiana, com os seus artistas, homens de génio e engenho mais a desenfreada ambição do poder. Nesse campo, de disputa e intriga política, distingue-se “um educador do povo” de seu nome Niccolo Machiavelli (1469-1527) que goza duma singular notoriedade até aos dias de hoje, também aqui entre a ambiciosa classe política cá do sítio. A moral do seu discurso, o”maquiavelismo” ( O fim justifica os meios) agrada sobremaneira aos governantes & acólicos do quintal lusitano e tem sido usado  com afinco e devoção nos 40 anos do regime demo-crático/demo-partidário (demo de demónio).

Sucede até –merecendo o devido destaque- que os dois mais destacados governantes, nos últimos anos, desta desastrosa II República demo– José Pinto de Sousa (arrogado Sócrates)  e Pedro Passos Coelho - são eminentes maquiavélicos, não apenas na práxis política e no carácter pessoal, mas também revelando-se leitores  aplicados de O Príncipe, o famoso manual operativo dos políticos sem escrúpulos. Príncipe, como o primeiro inter pares , o ditador, o poder absoluto, o tirano em resumo.

Ensina Maquiavel aos arrivistas/ carreiristas, em 26 Capítulos, folheando a esmo: “O príncipe deve ter o entendimento treinado para virar conforme os ventos da fortuna e a mutabilidade das coisas lhe ordenem – deve ser o mais generoso possivel com aquilo que não lhe pertence, pois   esbanjar os bens alheios, além de não te tirar a boa fama ainda ta acrescenta – o novo príncipe deve logo mostrar ferocitá (a vitalidade do animal selvagem); Da crueldade e da clemência: é mais seguro ser temido que amado, pois o amor quebra-se, mas o medo mantém-se. Nunca faltaram a um príncipe pretextos legítimos para justificar a sua falta de palavra. Nâo existe maneira mais segura de submeter uma provincia conquistada do que arruinando-a. Convém fazer o mal todo de uma vez para o tornar menos amargo;e o bem, pouco a pouco, para melhor ser apreciado. Sendo a fortuna mutável, pois é mulher, para a conservar submissa é necessário bater-lhe e contrariá-la.

Esta pequena amostra do pensamento de Maquiavel, são extractos da sua obra mestra O Príncipe, publicada post-mortem em 1532 (m.1527); e, desde então, aclamada como livro sagrado de instruções por todos os canalhas que ambicionam o poder. É fantástico: o livreco não passa de um amontoado de esterco filosófico, exaltando o cinismo na politica e a falta de escrúpulos para  políticos e candidatos. Todavia, é forçoso verificar que os conselhos maquiavélicos atingiram  a moderna classe politica, suposta democrática. Em Portugal inclusivé. Por exemplo, quantas vezes ouvimos o ex-princípe Pinto de Sousa, agora recluso 44 na cadeia de Évora, gabar-se, clamar bem alto a sua ferocidade? Que era um animal feroz? Revelando-se assim leitor e discípulo aplicado.

Também, temos de reconhecer, que o novo princípe Passos Coelho (& Cª) está cumprindo a máxima maquiavélica “fazer o mal todo duma  vez, com violência brutal, e o bem pouco a pouco ... até esquecer”.

Ora aí está. A conclusão é minha! (Vou cobrar direitos de autor). Ou seja: o virus do abjecto cinismo maquiavélico (nascido na circunstância da Renascença italiana do séc.XVI, onde no próprio Vaticano reinava a libertinagem sem barreiras ético/morais); esse virus maligno/vicioso/criminoso, impregna o catecismo ideológico do Admirável Império Neo-Liberal no sec.XXI. Não faltam comprovações, experiências em vários países e governos por esse império global fora  de tiranias capitalistas, confessando-se obedientes catecúmenos dessa ideologia de saque e empobrecimento. Podemos situar a estreia do neoliberalismo na arena da luta ideológica no mundo global moderno, em 1973, com o golpe fascista de Pinochet, assassinatos e destruição ... e o bando dos “Chicago Boys” capitaneados pelo  profeta Milton Friedman voando para o Chile prontos a colaborar/dirigir o governo do novo princípe/ditador/tirano na refundação de um mercado sem peias, privatizações em todos sectores, etc,etc; conhecemos  bem a estória e os seus catastróficos resultados.

A partir do ensaio chileno, na esteira e no enquadramento  da Operação Condor (tenebrosa e sanguinária contra-revolução geral  militaristta nos países da América Latina organizada pelos EUA/CIA ) a doutrina neo-liberal  de rapina, empobrecimento, privatizações, etc, foi conquistando mercados e continentes. Seguiu-se a  velha Europa com a bruxa inglesa Margaret Tatcher (grande amiga de Pinochet e de Grobatchev!). Fiquemos por aqui. Já em 1976, o 1º governo da II Democracia Portuguesa, chefe M.Soares, estava agachado a pedir empréstimos ao FMI, em nome de leais préstimos contra-revolucionários.

Na hipótese de algum leitor desejar maior informação sobre  “The Shock Doctrine/Disaster Capitalism” recomendo a obra assim titulada pela autora Naomi Klein. (A qual, note-se, 1ªedição-2007, cita Maquiavél ao lado de M.Friedman no Cap.3) Está também on-line num You Tube de 71 min. com legendas em português. Há ainda uma edição 2012-Lua de Papel, da obra “Liberdade para Escolher” do casal de “missionários evangélicos” Milton e Rose Friedman.

Vamos admitir que, pelo menos, uma dezena de políticos portugueses em exercicio de funções governativas –PSD- conhece algo do catecismo neo-liberal; tendo em conta que o respectivo Governo,  produziu toneladas de legislação em estrita obediência aos dogmas doutrinários. Claro, que estiveram por cá largos meses  os Chicago boys, mascarados de troikas, nuvens de assessores e outros infiltrados, bem instalados e melhor remunerados pelo manso contribuinte democrático. Enfim, era inevitável e irrevogável, como eles dizem. A nossa classe política também viajou pelo mundo à fartazana, amanhou-se com belos tachos e reformas. Nada de mesquinharias e misérias; isso é para o Zé Povo, que já vem habituado desde o Salazar.

E assim chegámos ao principal sujeito do discurso: o Zé Povinho e  a Ti Maria e Família com 200 euros/mês´.

 Discurso por discurso, veio-me à lembrança um livrinho que já vai na 7ª edição, com traduções noutros países. Tem por título, exactamente:   Discurso sobre o filho-da-puta

O autor Alberto Pimenta adverte logo de início que filho-da-puta é apenas um modo de mal-dizer (isto é, o bom nome das “senhoras mães não está em causa); mas que o filho-da-puta existe em todos os lugares, isso é um facto ... excepto nos dicionários como  ironicamente  escreve. Ora,  todos nós sabemos que a expressão é vernáculo popular português, ofensivo contra alguém e instituições considerados de mau caracter ou más intenções. Confesso que a uso muitas vezes nos meus solilóquios e indignações públicas tendo sempre como alvo os governantes e apaniguados  que levaram Portugal  a este estado de degradação ético/moral, ruína empobrecimento e miséria. Malditos sejam, todos os filhos-da-puta, “que estão construindo os amanhãs como pontes para ontem”.( in A.Pim.).

 

                                     Lisboa, 20 Junho 2015-06-21

                                          Fez) J. Varela Gomes

publicado por samizdat às 07:05
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Quarta-feira, 15 de Julho de 2015

ESCUTA, Eleitor Anónimo: Votaste em mais do mesmo

Publicado em Alentejo Popular Nº 318 (5 Novembro de 2009)

 

Num livro, cuja tradução atingiu as cinco edições no Período Revolucionário, o autor Wilhelm Reich, conversa com o chamado “homem comum”. (John Doe, na figuração anglo/americana; Zé Ninguém, na traduzida adaptação). Em escassas 100 páginas, encontramos um duro libelo de responsabilização individual, um apelo lancinante ao Eleitor Anónimo. (Minha adaptação para efeitos circunstanciais). Respigemos.

 

“Deixas que outros homens assumam o poder em teu nome. Confias aos homens que detêm o poder, mais poder ainda para te representarem. E só demasiado tarde reconheces que te enganaram uma vez mais. Ouvi depois os teus prantos e lamúrias, as imprecações de raiva e desalento. Conheço-te e entendo-te. E vou dizer-te quem és Zé Ninguém, porque acredito na grandeza do teu futuro que, sem dúvida te pertencerá. Por isso mesmo, antes de tudo, olha para ti. Vê-te como realmente és o ”homem médio” o “homem comum”. Ergueste tu próprio os teus tiranos e és tu que os alimentas; apesar de terem arrancado as máscaras, ou talvez por isso mesmo. Eles próprios deixam entender que és uma criatura inferior, incapaz de assumir responsabilidades, e que assim deverás permanecer . E tu nomeia-los novos salvadores e dá-lhes vivas. E é por isso que eu tenho medo de ti Zé Ninguém; um medo sem limites. Porque é de ti que depende o futuro da humanidade. Porque tu és “o povo”, a “opinião pública” e a “consciência social”. Já alguma vez pensaste Zé Ninguém, na responsabilidade gigantesca que estes atributos te conferem? “

 

Dentro do que sei, não existe na cultura popular portuguesa uma personagem equivalente ao John Doe/Zé Ninguém com quem conversa Wilhelm Reich no seu ensaio escrito em 1945. (Viria a morrer em 1957, aos 60 de idade, numa penitenciária americana para onde fora atirado na “caça às bruxas” anticomunista desencadeada por Mccarthy. Cientista de origem germânica, biólogo reputado, vagueara pela Europa sempre perseguido pelo nazis. Em 1939 procurou abrigo nos EUA; os fascistas americanos completaram o trabalho dos nazis hitlerianos).

 

Na realidade, a figura popular que ainda persiste no imaginário nacional é a do Zé Povinho, criada por Bordalo Pinheiro em plena monarquia constitucional, vai para século e meio. Era a de um popular desassombrado, que não se deixava enganar pelos políticos da época, a cujas lérias respondia com um ostensivo manguito. Ora, depois de 50 anos de opressão fascista, e 30 de hipocrisia democrática, o desassombro murchou, o manguito virou gesto mole, envergonhado. Com efeito, nos dias de hoje, o Zé Povinho comentador verrinoso da política doméstica, de peito aberto e risada franca, deixou de existir. O tipo sociológico mais emblemático na sociedade actual é o “Zé politicamente correcto”. Na feira cabisbaixa, segue em rebanho, abdicando dos próprios interesses, Maria vai com as outras.

 

Circula por aí, estranhamente consensual, uma causa explicativa para este fenómeno: o medo! Da esquerda à direita, da burguesia ao proletariado, do universo rural ao urbano, todos parecem concordar com o diagnóstico. Até mesmo observadores e sociólogos estrangeiros, de passagem pelo paraíso democrático português, depressa emitem um parecer concordante: este povo tem medo; vive amedrontado, etc. Numa paralela visão, D. Manuela F. Leite chamou-lhe “asfixia democrática”. Tanta unanimidade deve significar alguma coisa pouco honrosa para a ditosa pátria bem-amada, nestes alvores do séc. XXI.

 

Não vem aqui ao caso aprofundar a análise dessa nódoa na identidade nacional, a que os 50 anos de sujeição fascista e outras ancestralidades inquisitoriais não serão, evidentemente, alheias. Limitar-me-ei a sublinhar um sintoma bem mais concreto que o difuso conceito do medo, até pelos efeitos directos que teve nos recentes mapas eleitorais : a cobardia cívica.

 

Poderia, em nome da neo-delicadeza sócretina, optar por definir o sintoma de maneira mais amável: por exemplo, indiferença cívica; ou preguiça; ou descrença no sistema. Mas W. Reich não me perdoaria. Por que ele –e eu – queremos acordar em ti, cidadão comum, o sentido da responsabilidade cívica. Antes de tudo, olha para ti Vê-te como realmente és: um cobardolas quanto baste, procurando sombra e encosto ao poder onde quer que o vislumbres.

 

Uma das manifestações mais notórias da tua cobardia, Zé Anónimo, é o teu gosto pelo anonimato. E nesse aspecto, o sistema eleitoral democrático do voto secreto facilita a tua vida. Para efeitos de escrutínio o teu voto é anónimo. Se te abstens ou votas em branco, o teu nome não será divulgado; e podes sempre dizer, posteriormente, que votaste neste ou naquele partido que, de momento, mais te convém nomear. Aliás, já sucedeu coisa idêntica em 1985/95 (governos PSD). Também então a hostilidade popular contra Cavaco se afigurava esmagadora; mas foi ganhando eleições sucessivas. Posteriormente, não se encontrava uma única pessoa capaz de confessar que tinha votado em mais do mesmo.         0

 

O ciclo eleitoral que terminou a 11 de Outubro deixou um travo amargo; que corresponde à decepção provocada pelo insuficiente castigo infligido a Sócrates & Cª pelo eleitorado. Em particular pelo Eleitor Anónimo, que votou em mais do mesmo, talvez pensando - ou impelido a pensar – que era útil/necessário escolher o mal menor. Efectivamente, a secreta esperança da esquerda partidária e ideológica baseava-se numa realidade que parecia consistente : a enorme vaga de descontentamento popular que varria o País após 4,5 anos de governação arbitrária do PS, as centenas de milhar de desempregados, sectores inteiros de profissionais e funcionários num movimento de protesto sem paralelo, corrupção e abusos expostos na praça pública. E no entanto, conforme se verificou, nesse contexto social/político extraordinariamente favorável, a decisão dos eleitores foi contra-corrente; e constituiu, senão surpresa, pelo menos perplexidade.  

 

Erros na direcção da campanha, decerto os houve. No meu entender o mais negativo de todos, foi o de ser perdido a orientação estratégica à priori vencedora: seria a de ter mantido a pretérita governação socialista sempre presa na barra do tribunal, sofrendo julgamento impiedoso. O que teria implicado evitar a todo o custo deixar-se enredar nas malhas das promessas e dos programas para o ver vamos.(TGVês e aeroportos, por favor ! !) Nessa táctica ilusiva, Zé Sócrates mostrou ser mestre; sabendo bem, por experiência acumulada que, para o criminoso, o prevaricador, o culpado, olvidar o passado equivale à absolvição.

 

Mas ....Escuta, Eleitor Anónimo: qualquer que tenha sido a orientação das campanhas partidárias, isso em nada altera ou diminui a tua responsabilidade cívica; que ficou irremediavelmente comprometida quando votaste contra os interesses dos desafortunados em geral e dos trabalhadores, classe a que tu próprio, cidadão comum, pertences.

 

Com frequência, a televisão mostra grupos de trabalhadores junto a fábricas e locais de trabalho, olhando desalentados para as portas fechadas, onde tu e mais alguém da tua família trabalharam anos a fio; e até chegaram a pensar que a casa era em parte vossa. Procurei nos mapas eleitorais os resultados do escrutínio em localidades sedes de industrias e/ou elevada actividade económica, com grandes escolas, hospitais, instituições de numerosos colaboradores. Tenho-te a dizer, Zé Eleitor, que me custou concluir que mesmo em círculos eleitorais onde a falta da emprego e os despedimentos se contam aos milhares, o teu voto, ou   se quedou pela abstenção, ou foi oferecido aos que te estão empurrando para a miséria e o desespero. Revertendo a Wilhelm Reich: E tu nomeia-los novos salvadores e dá-lhes votos. E é por isso que eu tenho pena de ti, Zé Ninguém/Eleitor Anónimo; uma pena sem limites.      

 

O novo elenco executivo chefiado por Sócrates provocou um coro de apreciações muito pouco lisongeiras, desde os comentadores avençados aos políticos de serviço. Os porta vozes partidários reconhecem o mais do mesmo, a evolução na continuidade da velha tradição salazarenta. Os augúrios apresentam-se nada auspiciosos.

 

Em contrapartida, no arraial socialista parece reinar a convicção optimista de que vai ser canja dar a volta, caso-a-caso, à maioria numérica da oposição parlamentar. Em particular, Sócrates, cujo ego e arrogância estão obviamente inflamados pelo sucesso da manobra eleitoral. Manteve o núcleo duro dos fieis yesmen, acrescido doutra metade de anónimos ministros tecnocratas destinados a simples executantes da vontade do chefe. Manterá –podemos estar certos – todos os aparatchiks, controleiros, homens-de-mão, informadores, etc, com que enxameou a Administração do Estado, as empresas públicas e semi-públicas. Figuras nefastas como Constâncios, Varas, galpistas e teleconos, às centenas, mercê da sua fidelidade canina, continuarão a gozar bela vida dos “direitos adquiridos”. A transfiguração do animal feroz em paciente negociador ficará em banho maria, debaixo da capa do Tartufo de fé democrática. Mais perto estará o modelo manholas/soares. O lema dos fanáticos pelo poder absoluto é “aguentar”; aguentar a todo o custo, aliando-se ao diabo se preciso for. Esse catecismo foi o seguido pelo Manholas Salazar e declarou-o Soares Manholas. Teremos agora um Sócrates Manholas? O anonimato e o segredo fazem parte desse modelo. “Fazê-la pela calada”, já as nossas avózinhas toscavam nos hipócritas da sacristia. Actualizando: nos hipócritas da democracia.

 

A questão do anonimato em democracia representativa, à luz da diáfana transparência de que cada um se louva, mereceria longas palavras. Atalhando; e dando de barato que o executivo governamental possa ser preenchido apenas por pessoas da confiança do 1º ministro, já não é admissível que os “representantes do povo soberano” - o poder legislativo – seja constituído, na maior percentagem, por indivíduos totalmente desconhecidos do eleitorado, inclusive quanto ao currículo e às habilitações que os recomendam para a função.

 

Trata-se, na realidade, da subversão da essência do sistema democrático representativo, tal como o conceberam os filósofos de oitocentos e os patriarcas da primeira das modernas constituições burguesas: a americana, em 1776. Ora dessa subversão, não tomam conhecimento os sábios do direito constitucional, nem os protagonistas do sistema. (Pudera não! Tens-lhes rendido uma vidinha opípara.) Argumentam que o mesmo se passa em todo o globalizado mundo capitalista. (Pudera não! São todos farinha do mesmo saco).

 

Limitemo-nos porém, à nossa portuguesa circunstância. Num novo parlamento de “mandatados pelo povo” (dizem eles, sem se rirem) mais de metade são estreantes. Na sessão inaugural de Outubro pp, no relance televisivo, pareciam escolares no regresso às aulas. Não sabiam os lugares respectivos; e muito menos saberiam qual o circulo que representavam. Refiro, sem hesitar, os dois agrupamentos mais numerosos, pois cada vez mais se parecem com associações para fins carreiristas. Um deputado do PSD tomou posse e largou o mandato meia-hora depois. Um outro, muito jovem e esfuziante, quando perguntado por uma jornalista como encarava a nova função, respondeu presunçoso que transitava de director-geral; três ou quatro do PS transitavam de 10 anos em Bruxelas; aliás, quase todos estavam, em “trânsito” de cadeira para cadeirão, de tacho para gamela, de deputados para ministros, de assessores para secretários de estado e vice-versa, numa dança buliçosa de clube de privilegiados. Uma desconhecida ex-deputada socialista, num suplemento/revista, em pose de modelo, confessava-se “jeitosa”; e que antes do mandato como representante do povo fora chefe de gabinete de um qualquer ministro. Deu-lhe jeito.

 

Povo, povo que lavas no rio, foste tu que lhes deste beijinhos nos mercados e o voto nas urnas.

 

Nesta legislatura está prevista mais uma revisão constitucional. A oitava ou nona, ao que julgo. Nem o mais ingénuo observador do panorama político nacional pode esperar qualquer reformulação, num sentido ético ou duma maior justiça social: ) quer no sistema de representatividade democrática; ) quer na delimitação de poderes; ) quer na moralização da vida colectiva.

 

Nos três capítulos apontados a ilusão reformista acaba antes de começar esbarrando contra a sólida muralha dos “privilégios adquiridos”, aonde se junta a maioria parlamentar burguesa. Aliança essa fácil de mobilizar e com que conta Sócrates para se aguentar no quadriénio seguinte. Nada, ou quase nada, será efectivado quanto ao combate à corrupção, aos privilégios e favoritismo, aos abusos e respectiva impunidade. “Não queriam mais nada! Tirem o cavalinho da chuva!” Será esse o invariável tipo de resposta que a maioria do parlamento recém eleito dará às propostas da oposição de esquerda.

 

Não se duvida da postura combativa dessa oposição; em particular, o PCP/Verdes, com longas provas dadas dentro e fora de S.Bento. Palco aberto, verdadeiramente público graças à televisão, e onde os mandatados pelo povo eleitor deviam mostrar o que valem. No entanto, como é notório, nos dois partidos de maior presença, há muitos que só fazem número, entram mudos e saem calados.

 

Os partidos contestatários da ordem burguesa/capitalista estão, certamente, em S.Bento sem ilusões quanto à sua capacidade em condicionar a orientação de classe dos governos de maioria. Na tribuna que conquistaram – de audiência nacional, torno a sublinhar – a acção mais profícua que se lhes oferece desempenhar é a da fiscalização implacável, uma-a-uma, das decisões, medidas e iniciativas do governo. Sem perder tempos de intervenção com assuntos inconsequentes, evitando as armadilhas em que a manha socialista é perita.

 

Logo na primeira semana de exercício, o chefe Sócrates dá sinal de que a política do “mais do mesmo” está para continuar. Nomeia, em momento de suposta crise – um governo sumptuoso em termos de efectivo (16+38= 54), a multiplicar por assessorias de várias centenas de boys e girls, frota automóvel, indiscriminadas ajudas de custo, subsídios e benesses, etc. Um governo de assalto ao aparelho do Estado. Exactamente como o anterior. Pois que um dos objectivos supremos da ambição socretina foi - e, pelos começos, continua a ser- a destruição do Estado/Administração Pública independente do domínio partidário, tal como pressupõe a Constituição; substituindo-o pelo arremedo em re-formação, controlado por comissários partidários (secretários de Estado) e capturado por um partido eternizado no poder (nacional socialista, apetece dizer).

 

A denúncia desta enorme subversão do Estado de Direito Democrático mal foi ouvida no decorrer das pretéritas campanhas eleitorais. Não poderá passar, como simples fait-divers, na actual legislatura. Certamente será discutida a fundo e com seriedade pelos parlamentares eleitos em nome da esquerda ideológica e partidária. Talvez então o Eleitor Anónimo realize a irresponsabilidade do seu voto timorato.    

 

                                 Lisboa, 30 Outubro, 2009

 

                                           ass) J. Varela Gomes

publicado por samizdat às 21:50
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