Domingo, 16 de Agosto de 2015

No aniversário da morte de Ramiro Correia

- NOMEANDO O TEMPO -

 

Por J.Varela Gomes Na Sessâo de Evocação/Homenagem dedicada a RAMIRO CORREIA

Efectuada na “Associação 25 de Abril”

Em Lisboa, a 15 de Outubro 2002

 

         25 anos após a morte de Ramiro Correia (aos 40 anos de idade) estamos aqui reunidos para evocar o homem, o amigo, o companheiro; para valorizar o seu trajecto profissional, a intervenção cívica e cultural; para o homenagear como exemplo singular de dedicação à causa da libertação da pátria onde nasceu ...libertação como projecto total , isto é humanista; isto é, revolucionária .

         Penso ser redundante percorrer nesta ocasião, passo a passo, de novo, a sua trajectória biográfica. Em Agosto de 1977, na Cidade de Maputo, perante o seu caixão, o de sua mulher e o do filho mais pequeno, coube-me o triste dever de invocar os passos fundamentais da vida -tão breve !- do Ramiro. Relendo o que então disse, pareceu-me que mantém interesse actual. Decidi, portanto, transcrevê-lo agora numa pequena brochura (.....).

         Convocar hoje, em 2002, a memória de Ramiro Correia representa, indubitavelmente, convocar a memória da Revolução de Abril , ou melhor dizendo, do Período Revolucionário de 1974-75. Creio que isso está claro para toda a gente. Gostaria de enfatizá-lo. Aliás -como orador nesta sessão- sinto-me obrigado a fazê-lo.

         Desde logo, porque é contra-corrente. Ou, pegando na frase agora costumeira, porque é “politicamente incorrecto”. Trata-se pois, e também, de uma afirmação/ protesto contra a conformidade geral ... contra o “nevoeiro cinzento” em que vive mergulhada a consciência nacional. (E a imagem não é minha; aparece por aí, com frequência, na prosa avulsa).

         Quanto a mim, o diagnosticado nevoeiro não é nada mais nada menos, que a amnésia selectiva que vem afectando a memória colectiva desde a predominância do sistema partidário burguês. Não se trata de uma amnésia total, como por vezes se julga. Longe disso. Na realidade, é parcial e farisaica , tal como a classe que a pratica e exibe. Só se esquecem -e só se lembram- do que lhes convem. Eu diria que é uma amnésia reacionáriaria.

         Ramiro Correia reunia na sua pessoa - e reúne na sua memória - múltiplos motivos para ser votado ao ostracismo pelo poder político que vem dominando esta II República Democrática.

         Considerando que estamos em casa dirigida por antigos camaradas militares, devo apontar como primeiro motivo dessa atitude o facto de Ramiro Correia ter sido membro das Forças Armadas. Com a decisiva agravante de ter pertencido de corpo e alma ao movimento militar que derrubou o fascismo e abriu as portas à liberdade. De ser um dos “implicados” no 25 d’Abril, como acentuava com irónica amargura o falecido Salgueiro Maia.

         A classe burguesa - que se encobre sob o significativo eufemismo de sociedade civil, - odeia os militares. (Ou despreza-os, se preferirem). Odeia particularmente, os militares que participaram no 25 d’Abril ; e entre estes, ainda mais, aqueles que desejavam uma ruptrura revolucionária com o passado fascista. Era o caso de Ramiro Correia.

         Creio que os prezados camaradas da Associação 25 de Abril, ao fim de um quarto de século de penosa sobrevivência e desconsiderações várias, reconhecem a realidade de um clima político-partidário hostil em relação à Instituição Militar,em geral ; e, em especial, marginalizando os protagonistas da acção libertadora de Abril. Lembremos ainda, o caso de Salgueiro Maia, heroi maior do 25 de Abril, sujeito a infames humilhações até à sua prematura morte em 1992. (Com 48 anos de idade). Ou ainda Melo Antunes (m.1999), um caso clássico da ingratidão dos vencedores, pois sendo um dos militares a quem a burguesia mais deve, faleceu em 1999 quase ignorado ; e parecendo não ter deixado saudades.

         No fundo, o fantasma revolucionário -o famoso PREC- ainda hoje provoca calafrios (e diarreias) na auto-denominada sociedade civil; a qual vivia mansamente à sombra do fascismo e não perdoa aos Capitães de Abril os incómodos de 74 e o cagaço do 11 de Março 75.

         Não será este o local nem a ocasião, para averiguar as causas profundas do ressentimento da sociedade civil, em relação à sociedade militar emergente do 25 de Abril. Causas sócio-políticas (ou de opção de classe, se preferirem) existem sem dúvida e são universais. Causas específicas são decerto, as resultantes dos quase 50 anos da reles ditadura salazarenta. Com efeito, poucas famílias haverá em Portugal que não tenham sido afectadas por uma cumplicidade, uma cobardia, uma abjuração ; por servilismos, medos e cedências. Serão, essencialmente, motivações de ordem psicológica; mas de efeito sustentado, assimiladas no inconsciente, porventura originando mazelas irremediáveis na tão demandada Identidade Nacional. (Diria o outro, para os analistas angustiados : “É a espinhela partida, estúpidos !”).

         Neste enquadramento, entendo que evocar Ramiro Correia em sessão pública, nesta ano de (pouca) graça de 2002, equivale a uma Tomada de Posição. Por assim o entender aqui estou na Ass 25 de Abril, recuperando a memória do querido companheiro Ramiro, na companhia de camaradas. amigos e admiradores de várias gerações e sensibilidades ideológicas; mas que, em conjunto, não perderam o respeito pelos ideais de Abril, de ruptura com o passado fascista, de crença num futuro possível de solidariedade activa, de equidade na justiça e na distribuição da riqueza.

         Sonho e Utopia ! Ouve-se com insistência -e dissimulada zombaria- em relação ao projecto revolucionário anunciado no Programa do MFA e nascido do ventre popular nos dias de júbilo e triunfo.

         Sim, Ramiro Correia foi um cavaleiro “sans peur et sans reproche” (sem medo e sem mácula) do sonho e da utopia. Honremos nele -na sua memória- por palavras suas “o sonhador nunca vencido, que entregou intacto ao futuro, o sonho por cumprir”. Ramiro foi, perante a circunstância revolucionária, um Sonhador do Possível....da Utopia Possível. Interessa que isto fique sublinhado como correctivo ao sorriso manhoso dos idealistas pragmáticos (passe o oxímoro). Poeta também ele era , mas não sentado à beira da estrada a ouvir o vento que passava e lhe traria notícias do país. Numa decisão natural, que lhe ia ao carácter e à inteligência, pôs-se ao caminho com confiante optimismo. Desportivamente, se preferirem, para ganhar ou perder, ele que fora um atleta campeão. Soara a hora de estar à altura, de enfrentar os riscos, de jogar o destino em nome das paixões confessadas. Tinha ele escrito, a quatro anos de distância da alvorada de Abril : “Ser um homem....é recusar com coragem os caminhos aviltantes de quem mente”. Parecia adivinhar a chusma de renegados mentirosos que se refugiaram no regaço de reacção burguesa, mal o tropel   de Abril levantou a primeira poeira.

         O projecto/sonho de Ramiro Correia, e as formas de lhe dar corpo, encontram-se amplamente descritas pelo próprio em numerosas intervenções, entrevistas, etc. (Que, aliás, justificariam uma recolha antológica). Em vida, numa urgência premonitória, arranjou tempo para promover e colaborar na edição de dois livros de indispensável valor documental : MFA e Luta de Classes ; MFA - Dinamização Cultural e Acção Cívica .

         Ramiro Correia tinha perfeita consciência -e repetia-o vezes sem conta- que o caminho se faz caminhando. Isto é, que a revolução se constroi - se vai construindo- não obedecendo a certezas finalistas, ou a esquemas teóricos.   Escreveu: “A construção do socialismo não é um acto de fé, nem vive de dogmas. É um trabalho. Vive da inteligência na análise das situações” (em MFA-Luta de Classes). Ou ainda : “...a nossa acção na 5ªDivisão manifestou sempre um profundo respeito pelo povo....não procurando, portanto, controlar-lhe a vontade revolucionária, mas sim criar a consciência das necessidades estimulando a organização popular; ou seja, o efectivo avanço da revolução” (em entrevista, Out.75).

         Entendo que interessa sobremaneira sublinhar estoutra conclusão : A acção cívica e política levada a cabo pela 5ªDivisão junto das populações , foi de orientação e apoio - de dinamização, na feliz designação adoptada -; jamais se exerceram pressões intimidatórias, ou se optou pela demagogia das promessas . Orientação geral no sentido do socialismo ? Isso expressamente. O que não pode suscitar qualquer reparo, numa circunstância onde até o PPD se reclamava do socialismo ; e, mais ainda, onde a Constituição aprovada em Abril de 1976 o consagrava logo no Artº1º: uma República...empenhada na sua transformação numa sociedade sem classes. E no seu Artº2º: assegurar a transição para o socialismo.

         Podeis crer que não foram os “perigosos” revolucionários da 5ªDivisão quem escreveu ou inspirou essa I Constituição do regime democrático. Muitos de nós estavam presos ou exilados; a totalidade, excluída. Obviamente, não tivémos qualquer responsabilidade na inobservância dos princípios consignados na Lei Suprema da Nação; nem na impotência manifestada perante a sua sistemática sabotagem, a coberto dos primeiros governos constitucionais. Igualmente não fomos tidos nem achados no absoluto desrespeito do disposto no Título X da mesma Constituição, onde era estipulado (artº273º) . “As Forças Armadas têm a missão histórica de garantir as condições que permitam a transição pacífica e pluralista da sociedade portuguesa para a democracia e o socialismo” Afinal,. nem mais nem menos que a missão atribuída e desempenhada - com dedicação e sucesso - pela, entretanto extinta, 5ªDivisão / Codice.

         O facto é que dentro da estrutura militar portuguesa nunca tinha existido -nem voltou a existir- um departamento tão criativo e tão abnegadamente criador como foi a 5ªDIVISÃO/EMGFA ...de onde esteve arredado o militarismo clássico .... onde a a colaboração entre militares, artistas, literatos, músicos professores, arquitectos, cineastas e centenas de voluntários de todos as habilitações, atingisse semelhante intensidade fraternal....cuja ligação às massas populares se tenha feito através de vivência comum e continuada nos próprios locais em que habitam e labutam.

         A imagem e o nome de Ramiro Correia ficaram indissoluvelmente associados à Dinamização Cultural. Para muitos estudiosos, para muitissima gente indeferenciada, a Dinamização Cultural foi a realizaçao mais bela e simbólica da Revolução de Abril. Aquela que perdurará no tempo da história, nas memórias e nos livros...para além, muito tempo depois de ter morrido connosco o sufoco de emoção provocado pela lembrança dessa época apaixonante

         Para as hostes e partidos políticos reacionários a Dinamização Cultural e o seu mentor Ramiro Correia foram alvos prioritários a abater. Tal como o conjunto da 5ªDivisão e seus dirigentes. Eles bem perceberam ! E , dessa aversão derivamos muita honra . Triunfaram no seu propósito, como é sabido. Encontraram ressonâncias favoráveis dentro das Forças Armadas, inclusivé no MFA. Na verdade, o encerramento manu militari da 5ªDivisão, em Agosto de 1975, representa a.1ª grande vitória das forças que, por uma razão ou outra, se opunham à marcha redentora da revolução..

         O retrato de Ramiro Correia em corpo inteiro - como cidadão, médico, desportista, oficial da Arrmada, homem de cultura e de imaginação criativa , revolucionário, organizador eminente e dinamizador de vontades - tem sido desenhado, desde a sua morte trágica, por muitas mãos amigas em tributo saudoso. Vários desses depoimentos estão transcritos no meritório livro de homenagem Ramiro Correia, Soldado de Abril dos jornalistas Joaquim Vieira, E. Miragaia e M. Vieira, editado em fins de 1977.

         Creio que não melindrarei ninguém - nenhum dos camaradas e amigos que escreveram palavras admiráveis e sentidas sobre o nosso Ramiro - se destacar o texto de O mais velho , o também nosso Vasco Gonçalves. Trata-se de um texto de valioso sentido pedagógico ,que termina do seguinte modo :   Ramiro Correia viveu pouco tempo, mas não viveu em vão. A sua vida contem um alto significado humano e patriótico. Assim o atestam as grandiosas manifestações de pesar pela sua morte.

               Esta ideia de que não viveu em vão é um bálsamo para a saudade dos camaradas que com ele privaram e mais de perto acompanharam e conheceram a sua obra ..... A melhor maneira de nos mantermos fieis à memória de Ramiro Correia, ao seu trabalho pioneiro de Dinamização Cultural e Acção Cívica das Forças Armadas em Portugal, é estudarmos a sua obra, aprendermos os ensinamentos da sua experiência e du sua reflexão e levá-las à prática.

               Assim ele estará vivo entre nós e no seio do nosso Povo. (Nov.77)

 

Não podendo eu dizer, a respeito de Ramiro Correia, muito mais -e melhor-do que aquilo que já foi escrito e dito -inclusivé nesta sessão....limitar-me-ei a sublinhar dois ou três aspectos complementares que me parecem de interese .

         Evoco em primeiro lugar, a singular capacidade de Ramiro Correia em mobilizar vontades, o entusiasmo contangiante, a confiança que inspirava, a rapidez e audácia das decisões ...todo um conjunto de atributos que distinguem o “lider” natural (passe o anglicismo, na onda americanófila) Um quarto de século de democracia partidária, durante a qual assistimos ao aparecimento periódico de fornadas de centenas de “lideres”....Qual deles se avantajou à estatura de Ramiro Correia ? Qual se mostrou capaz -como ele- de galvanizar uma campanha cívica e popular de âmbito nacional e duração sustentada, como foi a Dinamização Cultural ?

         Destaco em seguida, o excepcional à-vontade que Ramiro Correia manifestava na expressão e no combate de ideias. Era para ele um terreno de eleição, de onde saía invariavelmente ganhador. Seja-me permitido dizer que nessa área, Ramiro Correia foi um lídimo representante da 5ªDivisão que, por norma, obtinha ganho de causa nos confrontos de reflexão política ou doutrinária em que intervinha, ou se via obrigada a intervir.

Notava-se em Ramiro Correia o prazer que lhe dava a esgrima da inteligência. As suas certeiras paradas e respostas advinham da mais funda honestidade de propósitos e sinceridade de convicções. Ficou célebre o debate no Centro Nacional de Cultura, em Junho de 75, com concorrida participação; e onde Ramiro Correia desfez com magistral simplicidade, os ataques de um largo sector de intelectuais, “vencidos das utopias” e já de malas aviadas para a bela sociedade liberal dos prémios e comendas. Mais uma vez se verificou a sabedoria do velho aforismo : Se a vossa moral é corrupta..... a vossa lógica corrompida está.

         Ramiro Correia foi objecto privilegeado de ataques e calúnias por parte das forças inimigas da revolução. Destruiram-lhe o carro à bomba; acusaram-no de maquievélicas intenções. De extremista, inclusivé Um homem que era a ponderação em pessoa!. Para o apoucar, uma figura grada do “socialismo em liberdade” e, na altura, “ministro em greve” (já falecido) apodava-o de “obscuro dentista”. Respondi-lhe à letra, metendo-o na ordem. Em 1985 outro puxão de orelhas tive que ministrar a um semanário do mesmo quadrante partidário, devido a mesquinharia idêntica.

         Não, não reconhecemos capacidade a nenhum turiferário do imperialismo e da governança capitalista, a nenhum rernegado com a barriga cheia de tachos e gamelas, para se atrever a rebaixar a figura e obra de Ramiro Correia ao nível dos seus míseros intuitos de carreirismo político , de ganância pelo poder, por privilégios e enriquecimento pessoal. Ramiro Correia, os seus colaboradores na Dinamização Cultural, os seus companheiros da 5ªDivisão pertencem a outro universo de valores : eram gente honrada, empenhados de corpo e alma na tarefa exaltante de libertar o sua Pátria do medo e do obscurantismo ancestral, de abrir os horizontes da civilidade e de um progresso humanizado. Sempre nos bastou o sentimento do dever cumprido. É um brasão de nobresa , que não está ao vosso alcance.

         Cabe neste momento, fazer o chamamento de outros companheiros entretanto também desaparecidos do nosso convívio, para que marquem presença na galeria onde colocámos Ramiro Correia. E pela mesma razão : porque se nobilitaram Beyond the Call of Duty .(Para Além do Cumprimento do Dever)   (Seria essa a divisa da 5ªDivisão Revolucionária).

         Chamo em primeiro lugar, o coronel Robin de Andrade. Por precedência de função, (e não só, pois era muito antiga e forte a nossa amizade e respeito mútuo). Foi chefe da 5ªDivisão de Outubro de 1974 a Junho de 1975. O seu corpo foi cremado em Maio de 1977. Sobre ele escrevi, em elogio fúnebre : “No historial de Resistência Militar Antifascista ocupa por direito próprio lugar de primeiro plano. Nesta perspectiva, ao lado dos Capitães de Abril de todas as épocas, resgatou a honra do Exército; e morreu credor de uma dívida de reconhecimento público”. Mereceu o respeito, a estima e a consideração de todo o pessoal que passou pela 5ªDivisão. Bateu-se com lealdade inexcedível , em defesa do departamento que chefiava e dos seus elementos mais revolucionários. Pagou caro essa atitude e viu ser-lhe negado o acesso ao generalato, para o que reunia todas as condições . (Aliás, o mesmo sucedeu em relação a todos os militares com ficha pidesca antifascista, nomeadamento todos os coroneis).

         Logo em seguida vamos invocar a memória dos colaboradores não-militares da 5ªDivisão, entretanto desaparecidos. Faço esta chamada com especial intençao. Eles não foram os civis que conosco trabalharam ; foram nossos camaradas, no sentido mais genuino do conceito Estão aqui presentes muitos, felizmente sobrevivos. Está aqui presente o Rodrigo de Freitas, desde a primeira hora, um dos elementos fundamentais da estrutura da CODICE, coordenador responsável do sector artistico... além dos outros sete instrumentos que punha a tocar num voluntariado sem descanso. Vocês bem sabem que não havia galões, ou autoridade imposta, nos vários departamentos da Divisão. Formávamos uma equipa, uma verdadeira equipa, na entrega total, no desempenho abnegado das missões cívicas e revolucionárias que nos estavam atribuidas. Organismo militar tão aberto - tão civil...izado - jamais houve em Portugal.

         Honremos ao lado de Ramiro Correia, na mesma galeria evocativa, os nomes de alguns que já partiram, mas que por obra valorosa devem ser recordados : Moniz Pereira, infatigável no seu esforço de apoio, quer no sector artístico, quer nos programas rádio; Marcelino Vespeira, autor de alguns dos símbolos gráficos mais conhecidos do MFA ; João Hogan (m.1988), Henrique Manuel e Fernando Azevedo (recentemente falecidos), eminentes artistas plásticos, cuja magnânima colaboração foi oferta permanente ; Virgilio Martinho (m.1994). escritor e dramaturgo, acompanhando as campanhas de dinamização por esse País fora.

Neste ponto seja-me permitido abrir o parenteses devido a Carlos Paredes, vítima há longo tempo de grave doença sem hipótese de regressão, e cujas qualidades humanas e artisticas ultrapassam o comum dos mortais. Ele foi o coordenador entusiasta e dedicado do sector musical da Dinamização ...que vou agora chamar Popular, pois penso que assim melhor se adapta ao carácter do Carlos, ao seu desvelo pelos mais humildes e à sua preocupação pedagógica. (Uma salva de palmas para ele, para que saiba da nossa amizade e reconhecimento). Ao lado de C.Paredes, a 5ªDivisão/Codice contou com outros dois portentosos artistas populares: Zeca Afonso (m-1987) o mítico poeta compositor/cantor, autor da famosa “Grândola, Vila Morena”,senha do Movimento dos Capitães, Hino da Revolução de Abril; e o seu companheiro andarilho das trovas da resistência Adriano Correia d’Oliveira, de quem se comemora hoje, por coincidência, o 20ª aniversário de uma morte por desencanto . Estes dois vultos, glórias nacionais, são também - podemos dizê-lo com orgulho - glórias da Dinamização Cultural

         Vou fechar a chamada dos companheiros desaparecidos do número dos vivos ( com receio de ter cometido alguma omissão de monta) evocando José Conduto, nosso camarada miliciano, um entre as largas dezenas que acorreram a colaborar com a 5ªDivisão de alma limpa e intenções puras, operador nas emissões rádio, e que também “se foi embora” ferido de desencanto; e por fim (mas não em último lugar), também oficial miliciano, Luis Craveiro Martins (m.1985), de uma dedicação extrema, “aguentando” a derradeira campanha em Bragança para além de todas as ordens para destroçar. Conosco se expatriou para Angola depois de Novembro. Voltou, foi julgado não sei quantas vezes, e através de dificuldades de toda a ordem estava prestes a licenciar-se em economia. Uma doença traiçoeira levou-o jovem ainda. Fcaram dois filhos pequenos. Adultos agora, aceitem a nossa homenagem ao vosso Pai, a mesma que estamos prestando ao Ramiro Correia que, de certeza, se vivo fosse, a ela se associaria.

 

 

         Pensei, para terminar, convocar por uma última vez, em espírito, o Ramiro e trazê-lo de volta ao País e ao Mundo que abandonou tão subitamente, faz agora um quarto de século.

         Antes mesmo de começar a concretizar a ideia as dúvidas assaltaram-me. A primeira das quais, talvez a mais importante, foi : Essa virtual revisitação tornaria feliz o nosso Ramiro.?

         Para já, para atenuar o choque que reputo altamente provável, decidi entregar o papel de guia/cicerone a um qualquer representante do pessoal modernaço que fabrica a chamada opinião pública, nos meios de comunicação social, nos parlamentos, nos vários e abundantíssimos foruns e conclaves. Abdiquei de me pronunciar pessoalmente com receio que a minha provecta idade (perto dos 80), os golpes e as decepções sofridas conduzissem a uma perespectiva denasiado catastrófica. Assim, ponho a falar os comentadores encartados da situação actual da res publica, transcrevendo uma recolha feita a esmo nas últimas semanas:

         - O País está de tanga....em crise económica e financeira ....apertando o cinto

         - Um País deprimido...numa aflitiva falta de auto-estima...(onde) a maioria suspeita de nada em especial, mas de tudo em geral   

         - Um País que apresenta os piores indicadores económicos, sociais e culturais da Europa

         - Um Portugal néscio, novo-rico, deslumbrado e venal....exibindo os estigmas que o vêm amesquinhando ao longo dos últimos vinte anos

         - A corrupção de alto a baixo...a venalidade endémica...a decadência da ética política...a administração pública desmoralizada

         - O sistema político português está fora de prazo, como um iogurte deixdo fora do frigorífico.   Por isso é que cheira tão mal

        

Estes são alguns extractos de opinião -podiam ser centenas- recolhidos em jornais ditos “de referência”. Quem isto escreve é pessoal que não põe em causa o sistema ! (Quem a isso se atreve, nâo aparece nem escreve na comunicação social da seráfica democracia pluralista lusitana; quanto muito, por especial deferência, sobram uns segundos ou umas linhas ...” no dia em que o rei faz anos” ).

 

         Vê lá tu Ramiro que eles agora até falam na necessidade de criar uma nova mentalidade ! De dinamizar e apoiar a criatividade popular. De ser a altura de recuperar o orgulho perdido. Etc.etc. Sim, ouviste bem, dinamizar! Apoderaram-se (também) das palavras, chuparam-lhes o conteúdo como vampiros , deixaram só a casca. Revolução? Todos os dias uma! Na moda, no trânsito, na educação, na saúdde, etc, etc. Mudança ? Mas todos os dias, a toda a hora , vomitam o discurso da mudança Tanto falam de mudança ...enquanto tudo fica no mesmo lugar, que fico a pensar se a moderna sociedade civil não anda a confundir o significado da palavra com o velho “marcar passo” da sociedade militar.

 

Ramiro, Querido Amigo tão breve :

                                                     Nós bem sabíamos   -tu, principalmente- que era preciso ajudar a nascer o Homem Novo. Fizeste um esforço ímpar nesse sentido. Uma Obra que foi ignorada.

           Mas sabes ? Afinal houve um modelo do Homem Novo. Foste tu.. És tu esse modelo, com as tuas múltiplas qualidades/dons de ser humano integral, mais a tua ingénua sinceridade em querer fazer brotar a felicidade dos outros, ....da tua terra,.... talvez do mundo.

         Os deuses mitológicos decerto aprovaram o teu intento. Mas, na sua milenária experiência, sabiam que para algum humano se converter em modelo e exemplo (heroi,... diriam no seu grego homérico) teria que morrer na flor da idade. Neptuno e Tetis levaram-te então para os seus palácios no fundo do mar. Para que sobreviva o teu exemplo, o modelo do Novo Homem, que deixaste esboçado

 

         E apenas me falta o mais difícil. Nomear o Tempo. Compromisso que assumi há 25 anos, em Moçambique, perante os restos mortais do Ramiro Correia , de sua mulher e filho. Como dar nome ao tempo que estamos vivendo , sem passar uma mensagem de desânimo ? Tempo de alarme e angústia, foi a primeira sugestão que me veio ao espírito. Mas o Manuel Duran Clemente, Capitão de Abril, connosco desde a 1ª hora, semper fidelis até ao derradeiro minuto da Revolução (quando deu presença pela indómita   5ªDivisão, com imagem registada pelas câmaras da Televisão) achou a minha definição demasiado próxima de uma declaração de estado de calamidade. Pode ser. É possível que alguma desilusão acumulada da minha parte, faça carregar a perspectiva   Acordámos então na seguinte fórmula :

         - A época que o Mundo atravessa , com o País Português nele conglobalizado, é  

                                 Tempo de Alerta e Angústia  

 

Fica uma réstea de luz num horizonte escuro.   Pode ser sinal de novo dia. Façamos votos e força para que, efectivamente, ele nasça.

                                                                                    

                                                                                             TENHO DITO

                                                          

 

                              

 

                                             J. Varela Gomes

publicado por samizdat às 10:27
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