Domingo, 8 de Junho de 2008

FOI PARA ISTO ....... ?

A interrogação retórica diz respeito ao 25 d’Abril. A frase completa aparece construída  com três diferentes  pretéritos:

1º - Foi para isto que se fez o 25 d’Abril ?

2º - Foi para isto que foi feito o 25d’Abril ?

3º - Foi para isto que fizeram o 25 d’Abril ?

Pode admitir-se que diferentes grupos de pessoas utilizam cada uma das três versões  gramaticais. A primeira frase será usada  por aqueles que consideram o 25d’Abril como seu - por qualquer razão, em qualquer medida : os resistentes, os antifascistas, em geral. A segunda expressão corresponde aos supostamente neutrais, aos “politicamente correctos, aos “moderados”; a todos aqueles que já as Escrituras estigmatizavam como  “os abomináveis mornos”. A terceira versão é utilizada, em geral como   provocação, pelo  pessoal do antigamente, por todos os inimigos do 25 d’Abril, incluindo a escumalha neofascista/anticomunista.

No 34º aniversário a interrogação voltou a ser repetida nas  três modalidades; mas continuando a não suscitar resposta clarificadora. Atitude estranha, em particular por parte da esquerda fiel aos ideais revolucionários de Abril; que bem conhece essa resposta e sabe como ela é eficaz  e necessária  no combate político e na reposição da evidência histórica. Vamos então relembrar essa resposta :

- Não, não foi para isto que se fez (ou foi feito) o 25 d’Abril;

Para isto foi feito (eles fizeram) o 25 Novembro.

Como se vê, trata-se de uma explicação simples, definitiva e indesmentível.

Em linguagem filosófica dir-se-ia, apodíctica : isto é, algo demonstrativo por si; de cristalina evidência;  que convence sem esforço.

Além disto –além  do dever que nos cabe de silenciar de forma vigorosa os fascistas genéticos e os abomináveis moderados, para os quais o 25 d’Abril não foi feito – devemos ainda insistir sempre, sem descanso, noutra evidência apodíctica : a de que o sistema partidário burguês que governa o Pais desde  Novembro 75 tem uma designação corrente que até consta em simples manuais escolares: chama-se contra-revolução. (Calma aí, cães raivosos; já assim se designava antes de Marx e seu marxismo terem nascido).

Com efeito, só por absoluta cegueira, estupidez ou má-fé, será possível sustentar que o presente sistema democrático – após três decénios de continua degenerescência – contenha ainda um único grão da esperança revolucionária de Abril.  Contra-revolução é por definição, semântica e ideológica, a antítese da revolução. São campos antagónicos, inimigos. Quer no combate revolucionário, quer na luta de ideias.    

A esquerda política ou apenas ideológica, assume com orgulho, sem complexos, a sua identificação com a Revolução do 25 de Abril. Reciprocamente, seria de esperar que a direita  - dos moderados aos retro e neofascistas – reivindicasse a contra-revolução do 25 Novembro como título de glória; e riscasse do mapa das evocações o 25 d’Abril .. como aliás, já está decretado pelo cacique independentista do arquipélago da Madeira. Vontade de decretar o mesmo,  cá no “Cótinente”, não lhes falta. O ódio a Abril, aos trabalhadores assalariados (todos comunistas, para o efeito), a tudo que é honesto e limpo, rebenta-lhes pela costuras.

Assim sendo, por que carga de água, em cada sucessivo aniversário do 25 de Abril de 1974, essa gente contra revolucionária e reaccionária dos quatro costados volta a representar a pantomina da angústia pela revolução atraiçoada ? Numa primeira resposta óbvia dir-se-ia : a burguesia, é assim mesmo, por natureza hipócrita e pantomineira. A resposta e óbvia, mas curta. A decifração completa reside no pro-nome  isto. ( Foi para isto que...). Embora não haja ninguém que não perceba para onde remete o isto: para o estado a que chegou o regime democrático; para o “pântano” ( como lhe chamou um pantanoso  chefe do governo); para o país de tanga (expressão doutro eminente 1ºministro da burguesia democrática); na verdade, para a frustração, o desespero e a revolta que alastram pela sociedade portuguesa perante os resultados desastrosos dos 32 anos de permanente governança  dos partidos contra revolucionários  triunfadores do 25 de Novembro. Eis o busílis decifrado. A responsabilidade pelo pântano, pelo país de tanga, pela mediocridade e corrupção reinantes pertence, por inteiro, aos partidos burgueses que monopolizaram o poder político em Portugal a partir de Novembro 1975.  ISTO..... é duma evidência cristalina.

Os autores, conspiradores & cúmplices do 25 Novembro, deixaram há anos atrás, de se vangloriarem da proeza. A isso foram obrigados pela evidência do desastre para que arrastaram o país; e pela evidência da inescapável culpabilidade que nele têm. Passaram a representar a comédia da (falsa) angústia por um 25 d’Abril não cumprido! O gato  mal escondido ficou com o rabo de fora. A intenção era (é) a de atirar para cima da revolução de Abril com a responsabilidade do desastre que eles próprios provocaram; e de caminho, obliterar da história do regime democrático a nódoa da contra-revolução  Escolhem a ocasião das celebrações oficiais do 25 d’Abril, para derramarem pelos meios de comunicação social (onde dominam os contra-revolucionários), a sua farisaica angústia. Tartufos impenitentes, velhacos de barriga  cheia e arroto de fartura.

No entanto - sem grande surpresa, valha a verdade – a grosseira manobra tem vingado junto de certas entidades e individualidades, cujas funções obrigam a não condescender com provocações anti-constitucionais.

 

O mais notório e afrontoso atentado à democracia instituída, localiza-se na ilha da Madeira, está em exibição vai para três décadas e promete continuar. A classe dominante – a burguesia rasca emergente do Novembro 75 – decidiu achar graça às palhaçadas do A.J.Jardim, tolerar e minimizar o despotismo boçal do sujeito, a licenciosidade e os insultos em que se compraz. O nº2 da hierarquia do Estado – o socialista Jaime Gama, presidente da Assembleia da República – deslocou-se à capital do reino insular para aí, em cerimónia oficial, elevar o cacique local às culminâncias de exemplo democrática para o restante país. O nº1, o Presidente Cavaco, seguiu-lhe os passos, poucos dias depois, com resignada condescendência.

 

Foi para isto que se fez o 25 d’Abril ? Pergunta ociosa. A resposta correcta é: Para isto foi feito o 25 Novembro

 

Alastra o desemprego e a pobreza; aumenta o preço dos bens essenciais, enquanto os salários são congelados; restringem-se as direitos e conquistas dos trabalhadores, em simultâneo com a liberalização nos despedimentos; a emigração, a fuga para longe desta pátria madrasta voltou a tornar-se o recurso e o sonho de centenas de milhares de portugueses; serviços públicos são substituídos por avenças a privados, o património nacional é vendido ao desbarato; o poder partidário burguês está orientado para o assalto ao aparelho do Estado, para o favorecimento de amigos e correligionários; a corrupção tornou-se banal, tolerada e impune; os tribunais, as polícias, as fiscalizações e a fiscalidade perdem a confiança dos cidadãos que suspeitam de estarem ao serviço dos ricos, contra ao mais desprotegidos; um clima de descrença, de medo instala-se na sociedade portuguesa, fazendo lembrar o estado de espírito existente  no “anterior regime”; e mais se poderia acrescentar

 

Foi para isto que foi feito o 25 d’Abril ? A resposta correcta continua a ser :  Para isto foi feito o 25  Novembro.

 

- A apologia e o revivalismo do regime fascistas e dos seus cabecilhas  corre à solta   nos meios de comunicação social públicos e privados, na toponímia das cidades, na publicidade de rua, enche as montras das livrarias, é tema de concursos, de colóquios e conferências onde a contrafacção histórica é timbre. Adriano Moreira discípulo dilecto do sinistro Salazar, fantasma sobrevivo do pior fascismo, anda por aí escutado com respeito, com tribuna aberta em toda a comunicação social, dando lições de democracia à sociedade “politicamente correcta”. O cónego Melo, bombista, caceteiro, arguido em crimes de morte, inimigo jurado do 25 d’Abril, foi agora alvo de homenagem na Assembleia dos Deputados, sob a forma de voto de pesar pelo seu falecimento; voto a favor da maioria, voto contra e de repúdio apenas do PCP e do Bloco de Esquerda.

 

Poderá alguém afirmar que o 25 d’Abril foi feito para isto ?

 

Para ISTO que eles – fascistas e filofascistas – fizeram o 25 Novembro.

 

Posto isto, no seu devido lugar, é altura de avisar a malta . Avisar  todos aqueles que lutaram pela libertação de Portugal do jugo de 48 anos de fascismo, os resistentes de antes e de agora, os portugueses e  portuguesas nados e criados em liberdade.... que não devem deixar-se  enganar pela interrogação e dúvidas retóricas dos inimigos de Abril, dos contra-revolucionários de Novembro. São gente possuída pelo fantasma da má consciência. A má consciência da traição à esperança de Abril, na regeneração de um passado próximo pouco honroso, na possibilidade de criar uma comunidade nacional mais decente e fraterna. Aparentando angústia por um Abril não-cumprido, essa gente enquadra a figura do criminoso que  depois de matar uma esperança recém-nascida ainda  tem o arrojo de a culpar pelo crime. Toda a cautela é pouca em relação a farsantes de semelhante índole. Contestá-los sempre e denunciar vigorosamente as suas manobras e insídias é tarefa que incumbe aos defensores das realizações e da memória da Revolução de Abril.

“Houve vários 25 d’Abril” é outra tese insidiosa que pretende, em última análise, estabelecer que o 25 Novembro representou o “verdadeira” conquista da liberdade. Lamentavelmente, esta posição tem vindo a ser avalizada por ninguém menos que Otelo Saraiva de Carvalho, comandante operacional do movimento revoltoso militar de 1974. Neste aniversário de 2008, Otelo foi a França  convidado por emigrantes para celebrar a data, passou por Espanha onde foi entrevistado, voltou aqui a botar fala para  microfones e jornais. De mistura com elogios a Cavaco e ao governo socialista, explanou as suas dúvidas sobre o “verdadeiro” 25 d’Abril . Quanto ao acontecimento concreto, naquele dia exacto de 1974, considera-o um espectáculo no qual desempenhou os papeis de actor, encenador e realizador. E por aqui se ficou o pseudo revolucionário exacerbado do Copcon, actor envelhecido dando um triste espectáculo de si próprio.

Invocando a “punhalada nas costas” que arremessou contra V.Gonçalves no Verão de 75, recomendo-lhe que saia da cena de uma vez por todas, vá para casa descansar, pois o seu equilíbrio mental acusa sinais de grave deteriorização. E pode dormir uma eternidade, pois a defesa da honra e do compromisso do 25  d’Abril, a memória da sua esperança libertadora, ficam ao cuidado daqueles que nunca traíram.  

 

Nota:  O presente texto e outros por mim editados, encontram-se na Internet

 

Lisboa, 14 Maio, 2008-05-14

Ass.) J. Varela Gomes

 

 

publicado por samizdat às 17:31
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