Sexta-feira, 20 de Junho de 2008

A INSUSTENTÁVEL MISTIFICAÇÃO DA ECONOMIA PRIVADA

J. Varela Gomes

           
Num primeiro impulso escrevi coerência em lugar de mistificação. Incoerência, na medida em que os resultados do funcionamento do mercado livre e da iniciativa privada num neoliberalismo globalizado, não apresentam correspondência com as maravilhas anunciadas no discurso doutrinal. Muito pelo contrário.
            Alegam os prosélitos da economia de mercado livre que o facto dos resultados mediarem entre o medíocre e o desastroso, se deve a uma larga variedade de condicionantes que, raramente (quase nunca!) lhes são assegurados. Por quem ? Pelos governos, pelos deuses, pela “mão oculta” dos liberais do séc. XVII, pela ASAE ou outra polícia ? Ora, a bem dizer, o argumento já é, em si, uma mistificação. As alegadas variáveis podem cifrar-se em centenas, desde as petroleiras e mais as climáticas....até àquela borboleta marota que bate as asas na China para descontrolar a bolsa de Nova York
            Mas, para além da lógica mistificadora, os ardorosos advogados da receita neo-lib suscitam justificada desconfiança quanto à honestidade dos seus propósitos doutrinários. O facto é que o pessoal já os conhece de ginjeira. Desde o comércio medieval (para não ir mais longe) até ao moderno capitalismo, nunca ninguém acreditou no altruísmo ou numa solidariedade dos “agentes económicos” quando deixados à solta num idealizado mercado concorrencial. Nem os próprios. Lucro máximo é o deus supremo ao qual tudo sacrificam. A começar pelos princípios e a decência. A mistificação é insustentável.
            Disso não faltam provas. Quer a nível global, quer a nível de região, de país, de comunidades e sectores diversos. Ainda no século passado podia parecer extravagante a previsão de virem a ser os empresários privados a governar o mundo. Mas nos dias de hoje esse delírio está a converter-se em calamitosa realidade. Imposta ao mundo pela força agressiva da super potência americana, a doutrina do neo liberalismo global apresenta já um saldo assustador de tragédias humanitárias e de crises económicas. A especulação financeira, provocada e mantida pelos grandes conglomerados de capital privado, está desarticulando por completo o precário equilíbrio entre as classes e as nações, atingido após a 2ª Guerra Mundial. O flagelo da fome voltou, a pobreza alastra, milhões vagueiam por estradas e campos, pagam com a vida a fuga à miséria. Entre ricos e pobres o fosso aprofunda-se....e o ódio também. O medo e o desespero corroem o ânimo de pais e filhos. São esses os resultados - em focagem abstracta, esquecendo o sofrimento - de duas escassas dezenas de anos do poder absoluto da classe burguesa capitalista, em nome de uma insustentável mistificação das potencialidades e virtudes da economia privada .... privatizada ....ou a privatizar.
 
            Porém interessa, particularmente, observar o caso português na actualidade. Desde logo, por que diz respeito a nós portugueses e lhe sentimos os efeitos na vida quotidiana; através da pele, pelas acrescidas dificuldades materiais; através dos sentimentos, pela acrescida dificuldade em ter orgulho no país em que nascemos. Acresce que aqui, neste Portugal restaurado no seu ancestral provincianismo bacoco, entre o respeitinho cobarde e o alarvismo do chico esperto, encontram-se excelentes condições de análise : com nitidez flagrante distinguem-se as sucessivas etapas do processo de apropriação do Estado pela corporação do empresariato capitalista; simultaneamente, ficam a descoberto a incompetência e a mendicância dos membros dessa corporação - a classe dominante burguesa.
            Com efeito, a corporação dos privados com a sua famosa iniciativa, dá espectáculo permanente sobre o modo como entende o liberalismo do mercado. Vive, sobrevive, prospera ou afunda-se, sempre de mão estendida para o poder político (isto é, para o Estado), implorando ou exigindo (consoante a correlação de forças), apoios, ajudas, privilégios, benesses, subsídios, etc; simultaneamente, reinventado direitos feudais que procuram remeter - no séc. XXI ! - a classe trabalhadora para a condição de servos da gleba.
            Explicitamente, vezes sem conta, centenas de suplicantes – empresários e proprietários, ferozes adeptos da iniciativa privada – invocam o nome do Grande Dispensador para que lhes acuda na aflição ou na ganância. O nomeado ! Todos o querem, ninguém o adora. Alto está. alto mora. O Estado ! Esse Monstro demoníaco secretamente desejado, para ser comido em ânsias de canibalismo possessivo. O primeiro e o último recurso, o alfa e o ómega, da economia....privada .
 Sim, é facto, dá para zombar, para escarnecer dos “chulos” do erário público, travestidos em liberais, em campeões de um mercado global, livre de peias e de fronteiras Caros mistificadores : Vocês, sem a ajuda da “mãozinha oculta do Estado”, nem uma cantina conseguiriam gerir. Alguns, mais atrevidos, chegam a propor o definhamento/abolição da administração e do sector público. Banqueiros anarquistas !? Era só o que nos faltava. Um desses espécimens, imaginado por F.Pessoa vai para um século (1922), argumentava em nome da liberdade individual; a qual já tinha garantido para ele próprio enriquecendo na banca. “Confesso que não olhei a processos; empreguei tudo quanto há – o açambarcamento, o sofisma financeiro, a concorrência desleal .... Ora eu trabalhava pela liberdade e havia de olhar às armas com que combatia a tirania ?! Pois é! Basta substituir anarquista por democrata de Novembro e.... já está.
            Após 32 anos de privatizações (1976-2008), de ataques de amplitude crescente contra o “Monstro” (o sector público), contra tudo o que cheirasse a Abril e ao espírito da Constituição, aí estão as estatísticas europeias (25 países) a revelarem os “magníficos resultados” da economia privada de obediência neo-liberal, cooptada pelos governos burgueses da governança neo-conservadora democrática. As estatísticas do Eurostad contam a história da ineficácia, da licenciosidade e libertinagem em matéria económica, criadas e fomentadas pelos governos da lusa democracia.
         Mas, na realidade, os habitantes do rectângulo sudoeste do continente europeu, não necessitam da prova estatística para se aperceberem da falência do sistema económico neo-lib/neo-con e da mistificação representada pelo seu sector de vanguarda :as empresas e o empresariato privado. Neste reduzido laboratório político/económico/sociológico, tão nosso conhecido e onde vivemos (para mal dos nossos pecados, quase sempre) a experimentação produz resultados fulgurantes.
            Sobre a economia privada a nossa gente - o nosso povo pensante - tem aprendido imenso. Vamos então passar os olhos por algumas das empresas privadas portuguesas que, de momento, fazem a glória do sistema neo-socialista só-cretino.
            O sector financeiro - banca e seguros- em lugar de honra, claro. Milhões e mais milhões de lucros que criam suspeitas no vulgar observador e ofuscam os arquimilionários administradores da privada, em alegre confraternização com políticos burgueses ex-pelintras da crava do café e cigarrinho. Entre as diversas “marcas” bancárias (incluindo a Caixa Geral empresa pública) não há diferenças nos objectivos e nos procedimentos. Todos pretendem esmifrar o pequeno depositante e facilitar a vida aos grandes tubarões. Competitividade ? Concorrência aberta ? Uma treta, responde a voz do povo. Pura mistificação. Na blogosfera circula uma carta dum cliente do BES que nesse banco adquiriu um empréstimo para aquisição de viatura. Enumera as taxas a que foi sujeito : 1- de abertura de crédito; 2- de abertura de conta ; 3- de extracto de conta; 4 - de manutenção de conta; 5 - taxa trimestral de garantia de 25 €; 6- taxa anual pelo cartão de crédito. Ficando sujeito às subidas arbitrárias dos juros. Tudo legal, regulamentado e autorizado pelo Banco de Portugal. E os milhões de lucros a que se destinam? Isso é com os senhores administradores, explica o Estado socialista liberal, aprontando-se para também privatizar a Caixa Geral e lá encaixar mais uma récua de militantes. São uns artistas na arte de repartir o bolo, escapar a impostos e inventar taxas--para o cliente anónimo.
            Nos seguros a música é a mesma, conforme é sabido. Publicidade aliciante, segurança garantida. Mas a verdade oculta dos contractos com as empresas privadas, só aparece no momento de respeitar qualquer seguro. A   mistificação vai revelar o verdadeiro artista da economia privada. Exemplo, para eventual blog : um m/familiar tinha o carro estacionado no parque reservado do bairro de apartamentos. A horas mortas, uma viatura em posição lateral incendeia-se e pega fogo ao carro do m/familiar, que fica meio destruído. Invocado o existente seguro contra terceiros, a companhia seguradora privada alegou : que a viatura que provocou o incêndio não tinha seguro; que o proprietário a tinha vendido recentemente; que o acidente não fora testemunhado; que o indivíduo que conduzia o carro que tinha provocado o incêndio não tinha seguro. Em conclusão, a Seguradora nada podia fazer Ao segurado restava-lhe comprar novo carro e fazer outro seguro mais dispendioso, prevenindo incógnitos futuros sinistros. Assim trabalha o sector financeiro na economia privada : indefectível na cobrança de créditos e na invenção de taxas ; artista consumado na mistificação dos compromissos e contractos.
            No sector económico, o mercado só é livre para as empresas privadas. Os clientes, os consumidores, a população em geral defronta-se com a ficção do mercado concorrencial, com a manipulação da lei da oferta e da procura. Designadamente nos sectores essenciais, ditos estratégicos: combustíveis, energia/electricidade, água, transportes, estradas, etc.
 A vertiginosa subida do preço dos combustíveis demonstra, com a máxima clareza, a falsidade da doutrina neo-liberal, quer a nível global quer nas economias nacionais. Em lugar do efeito miraculoso da “mão oculta do mercado” o que funciona é uma descontrolada especulação. O oligopólio (concertação entre os principais operadores) substitui-se à suposta competitividade existente na economia privada. Mas a “mão oculta” está lá : a do Estado burguês/capitalista acudindo para garantir o lucro do empresário amigo. Sempre assim foi, desde que Adam Smith no séc. XVIII fingiu acreditar na auto-regulação do mercado aberto.
No reino da hipocrisia socialista sócretina instaurado em Portugal, a mistificação do sistema económico neo-liberal assume evidência tautológica. De tal modo que estala até em contradições internas. Assiste-se a um fenómeno irónico : corporações do patronato saindo à rua para exigir a intervenção do Estado no mercado da concorrência liberal !!. São as empresas de transportes rodoviários; os industriais da pesca; os taxistas; os agricultores e outros proprietários de terras, florestas, etc, reclamando protecção, isenções, benefícios, ajudas para cobrir prejuízos. (Essa agora ! Então onde pára a famosa economia privada, com a sua a vocação para o risco e o horror ao Estado/Monstro? Afinal o sistema revela-se pronto a renegar a sua fé nas virtudes da livre iniciativa; e dá sinais de estar prestes a rebentar por implosão).
Entretanto, impõe-se perguntar pelas vítimas desta libertinagem económica, conhecida como mercado livre/concorrencial, sem fronteiras nem impedimentos de intrometidos Estados/Nação. Refiro-me ao cidadão comum, ao trabalhador por conta de outrem, ao vulgar consumidor, ao contribuinte indefeso, ao pensionista da miséria, ao filho das ervas que não possui nem propriedades nem empresas , quando muito uma profissão em risco de reciclagem, um emprego precário em vias de extinção. É verdade, manifestam-se, fazem greve, protestam, gritam o seu desespero e indignação na rua e na internet, são cem mil, depois duzentos mil....e o alegado engenheiro do neo-socialismo liberal, diz que os números não lhe interessam, só os argumentos....privados, privadíssimos.
Parece lógica a expectativa de ver o sujeito e sua equipa expulsos do poder por indecente e má figura, nas legislativas do próximo ano. Mas, uma dúvida de experiência feita, não deixa de nos preocupar : será que a maioria do corpo eleitoral português vai continuar acreditando nas mistificações socialista/PS e social democrática/PSD, votando nos autores da derrocada moral, intelectual e económica do nosso País? Se tal vier a acontecer, isso significará que a sociedade portuguesa permanece indissoluvelmente subjugada pelo espírito conservador do antigamente fascista, agora na versão da neo-burguesia.
 
Nota – A doutrina do imperialismo global americano inclui dois conceitos básicos : o neo-liberalismo, que acima mereceu reparo; e o neo-conservadorismo. Este último –um paradoxo nada inocente- esconde o “sonho” de remontar a uma idade de ouro, em que a sociedade teria estado idealmente organizada entre patrícios e plebe, ricos e pobres, elites e trabalhadores sem direitos; exploradores e explorados, em suma. Esse sonho, merece ser exposto e analisado. O que fica para outra ocasião.
 

Lisboa, 15 Junho 2008-06-15

 
Fez) J. Varela Gomes

 

publicado por samizdat às 19:34
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2 comentários:
De andrade da silva a 8 de Julho de 2008 às 00:17
Finalmente na blogoesfera. Considero este artigo sereno e preciso pela desmistificação que faz, sobretudo da circunstância de que há falsos sociais-democratas a cornearem a social-democracia com o neo-liberalismo, dando cabo do desenvolvimento e da paz social na Europa.

Por este caminho os sinos tocarão a rebate, uma vez mais com grandes custos para os elos mais fracos de toda esta cadeia. Uma vez mais o Srs., darão umas migalhas, até o banqueiro do BPI já o propõe e tudo voltará ao remanso , sem nenhuma necessidade de nenhum 25 de Novembro, porque também 25 de Abril rebelde já é história.
abraço
andrade da silva


De Sport TV a 25 de Novembro de 2010 às 01:03
Vi na televisão que a greve geral registou grande adesão, segundo os sindicatos. Já o Governo desvaloriza os números, situando a adesão nos 18%. Mais uma vez as conclusões divergem.


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