Domingo, 29 de Junho de 2008

Continuação do post sobre Eduardo Lourenço

 

RECAPITULANDO
 APORIA 1 – O Intelectual na PolíticaEterna questão civilizacional! Talvez somente no século de ouro ateniense - o 5º anterior à sufocante e castradora era cristã - puderam os intelectuais coabitar, em termos “civilizados”, com os poderes da polis. Depois...Depois, cá pelo hemisfério norte/ocidental, foram centenas e centenas de anos de opressões confessionais em nome de Cristo, de Maomé e doutros profetas de menor êxito. Pobres intelectuais, obrigados a inventar provas da existência de Deus e da virgindade das respectivas mães e esposas. (Entendamo-nos: intelectuais somos todos nós, seres pensantes, capazes de articular ideias... mesmo que proibidas ou excomungadas). Lá chegou, finalmente, o 18º - o século das Luzes, da Razão, do Contrato Social, da proclamada morte do poder divino dos reis e papas. Grandes sonhos e utopias... maiores a decepção e o trauma. A burguesia, mal instalada no poder, criou logo um novo deus: o dinheiro; com o indispensável clero: os capitalistas. E os pobres dos intelectuais continuaram obrigados a ter muito cuidado com o livre pensamento... até aos nossos dias, ao suposto paraíso da globalização democrática/mercantil, das supostas garantias individuais do cidadão.Nos tempos modernos - digamos, pelo séc. XX em diante - a questão do Intelectual perante a Política, levantou paixões intensas, lutas ferozes entre inimigos ideológicos. Trocavam-se, então, frequentes acusações de traição. O caso Dreyfus rebentou em França no início de novecentos, causando impacto em todo o mundo; e convertendo o “J’accuse” de E. Zola em diploma de honra do intelectual militante, paladino da verdade e da justiça. Em 1927, período de grave crise económica com o fascismo a erguer a cabeça em toda a Europa, o ensaísta Julien Benda publica em Paris a sua denúncia “La Trahison des Clerks”; colocando, para sempre, os intelectuais traidores (os que pactuam com os poderes estabelecidos) na categoria de “baixo clero” da nova religião burguesa/capitalista. (É curioso notar que, até hoje, especialmente em Coimbra, os futuros bacharéis portugueses adoram mascarar-se de clérigos; quanto mais reaccionária a época, mais eles se embrulham na batina).E. Lourenço ainda se preocupou com “a velha antífona” de J. Benda. Por exemplo, no Prólogo ao “Complexo de Marx” (1979). Parecendo querer justificar a sua opção pelo intervencionismo político engagé (PS) que então praticava; de caminho, deixando um remoque “a esses Bendas portugueses, que haviam depositado esperanças na revolução de Abril”. Guerras, muitas guerras ocuparam o século, todas com profunda carga ideológica: a Guerra Civil em Espanha; a II Mundial, a Argélia; o Vietname; a Colonial Portuguesa, etc. E muitos outros crimes de natureza secreta e iniciativa imperialista foram sendo cometidos: avulta a gigantesca Operação Condor que conseguiu submeter todo o continente sul-americano ao domínio dos EUA (Chile, 1973, infâmia imperdoável). Em todos esses conflitos bélicos e campanhas contra a liberdade dos povos, se fizeram ouvir as vozes dos intelectuais: dos autênticos, com a coragem necessária; dos traidores, com as hesitações, as cedências e por fim a passagem para o campo da classe agressora /exploradora.Assim se chega aos nossos dias, com a vitória do imperialismo americano na dita Guerra Fria (ideológica); e, consequentemente, surgiram cada vez mais numerosas vagas de devotos clérigos, intelectuais arrivistas, cristãos-novos, ansiosos por mostrarem serviço aos novos patrões do mundo. Estes modernos clerks, desempenhando função antiga, agora acrescida da projecção mediática facultada pelas multinacionais do sector e governanças liberais, são apelidados (p. ex., nas páginas do “Le Monde Diplomatique”) como Os Novos Reaccionários. Acusação mais suave que a de traidores (caída em desuso), mas com idêntica carga pejorativa.Pode compreender-se que a situação mundial na actualidade, com o imperialismo americano hegemónico, ao ataque para a conquista da Ásia Central, do Leste europeu e do Médio Oriente, provoque desânimo no seio da intelectualidade veterana mais responsável. E daí, verificar-se o retraimento dessas vozes mais nobres no debate público. No entanto, a razão muito mais concreta por que tal se verifica, consiste no real controlo dos meios de comunicação social exercido pelos conglomerados capitalistas.Dever-se-á admitir que o poder hegemónico da classe burguesa/capitalista (dita neoliberal) venceu a resistência crítica do intelectual honesto? (Aquele que recusa estabelecer compromissos com o poder dominante, segundo H. Marcuse).Infelizmente, a contragosto, nas presentes circunstâncias, vejo-me inclinado a responder pela afirmativa. Com a agravante, de não estar à vista uma próxima alteração do equilíbrio de forças a nível planetário; e de ele poder terminar por uma catástrofe de proporções inimagináveis.“Apesar de tudo, os intelectuais - os autênticos - são mais que nunca necessários. O seu papel é hoje o mesmo que outrora... consiste em ser a má consciência do seu tempo, da sua época. Devem denunciar as injustiças, as taras do sistema, os mecanismos alienantes. Sem concessões“. (Fim de citação, “Le Monde Diplomatique”, Out. 2002). APORIA 2 – Os Intelectuais Portugueses perante a PolíticaO nosso Portugal é um país pequeno e periférico (não apenas no sentido geográfico, infelizmente), com reduzida expressão nos negócios do mundo. Dessa realidade compartilha, necessariamente, a nossa intelectualidade.E no entanto, o seu papel no que concerne à vida política interna e respectiva luta de classes, despertou um interesse e atingiu uma exemplaridade laboratorial, digamos, de nível e valor universal. Assim o venho afirmando há várias décadas, deixando registo aqui e acolá; muito particularmente, em relação à Revolução de 1974/75.No contexto apontado, o caso dos intelectuais portugueses - por estatuto profissional, por actividade, ou opção - resultou de tal forma esquemático, que o torna de simples recorte. Comecemos por recordar que a posição da nossa intelectualidade perante o regime fascista, durante a sua longa vigência de meio século (1926-1974), concita uma apreciação, quase unânime, de aprovação e louvor. Na verdade, a quase totalidade de duas gerações de trabalhadores intelectuais portugueses, sempre assumiu posições de resistência contra o poder totalitário da ditadura fascista. Honra lhes é devida. Não vem ao caso distinguir entre milhares de nomes. Não apenas de literatos, atenção; também artistas, músicos, cientistas, académicos, jornalistas, médicos, advogados, etc. Uns mais heróicos e sacrificados;  outros recusando, simplesmente, pactuar. Mas todos dignos do respeito dos seus concidadãos. Transcrevendo-me: “Eram raros os homens/mulheres de cultura que se confessavam adeptos do chamado Estado Novo. Quando tal sucedia, eram votados ao desprezo pelos seus pares”.Entretanto acontece o “25 de Abril 74”. Um golpe militar, contendo predisposição revolucionária. E, então, ficou declarada a “guerra de classes”. Num primeiro momento, aquela (sinistra) Junta de Salvação Nacional tranquilizou a burguesada nacional e internacional. Mas logo a seguir irrompeu o movimento popular, o MFA dos capitães radicalizou-se, Vasco Gonçalves 1º ministro, a descolonização, o 11 de Março, as nacionalizações, etc. O pânico instalou-se nas hostes reaccionárias: ...ó Carlucci manda vir já os porta-aviões... acudam reaças europeus, mandem dinheiro, muito dinheiro, o meu partido é socialista só a fingir; temos que pagar a bandos de arruaceiros terroristas para acabar com os comunistas; etc. (A voz off é de M. Soares).E enquanto os burgueses ricos fogem para os Brasis e Espanhas, uma substancial fatia dos intelectuais progressistas descobrem-se filhos, amantes e putativos herdeiros dos bens e privilégios da burguesia. Arrivistas da 1ª hora, correm a inscrever-se nas fileiras da contra-revolução, prontos para as alianças mais escabrosas e indignas. Muitos vão colaborar em jornais e publicações financiados por capitalistas exilados e serviços secretos estrangeiros. O caso mais representativo foi o “Jornal Novo”. Financiado e dirigido pelos capitalistas do Grupo CUF/Melos e funcionando no palacete do velho patrão, lá se acolheram dezenas dos “novíssimos reaccionários”... incluindo o intelectual heterodoxo Eduardo Lourenço. Uma outra numerosa parcela da intelectualidade - estudantil/maoísta, afim, ou de recrutados na altura - em acções de rua e nas escolas, ainda conseguiu superar o fervor dos seus maiores, mantendo o clima de agitação propício à conspiração contra-revolucionária.Nestes termos, em Portugal, no ano II da Revolução Libertadora, e no quadro da luta revolucionária/luta de classes, foi possível observar aovivo, a súbita mudança de campo dos clérigos intelectuais, a catarse das suas reais propensões de classe, mal soou a hora do combate decisivo (a traição, como diriam aqueles tristes Bendas na primeira metade do séc. XX). Servirá para alguma coisa, ficará como ensinamento, a fulgurante reconversão dessa gente letrada de alienação progressista, em “lacaios do imperialismo”? (outra expressão caída em desuso; mas, para a qual não encontro nenhuma mais apropriada). Talvez possa, apenas, contribuir para melhor definir a famosa “identidade portuguesa”... na vertente relativa aos bacharéis provincianos.Eles aí estão, 30 anos depois da sua espectacular deserção, todos amesendados, um a um, na manjedoura capitalista. (ver lista nominal completa dos colaboradores do extinto “Jornal Novo”, do “Tempo”, de “O Jornal” e outros pasquins de jurado credo no “socialismo de rosto humano”). Hoje ocupam toda a comunicação social (incluindo, como capatazes, a de propriedade capitalista), os aparelhos partidários e o do estado burguês, trocam benesses, regalias e prémios; e, finalmente, podem extravasar - por via das reformas administrativas - todo o ódio contido contra a classe trabalhadora, que ocultaram durante anos de hipocrisia e malabarismos.Vozes espúrias, mesmo aqui neste pátio das traseiras da Europa, clamam agora contra a “cobardia dos intelectuais”. Tarde piastes, prezados vigilantes. Eles - os cobardes prósperos - estão firmemente implantados no terreno, com raízes que ainda colhem seiva no “anterior regime”. Muitos sinais, quer aqui dentro, quer externos, indicam que eles - os intelectuais mediáticos, os novos reaccionários - podem acabar por se reencontrarem como neoliberais filofascistas.Vozes mais antigas - nuns remotos anos 80 - já se queixavam do “Silêncio dos Intelectuais” portugueses. Entre as quais, curiosamente, a de Eduardo Lourenço.APORIA 3 – O Intelectual Eduardo Lourenço perante a PolíticaCom efeito, o nosso pensador - um tanto paradoxalmente - escreveu por esses anos de intervenção política activa, um libelo condenatório sobre o silêncio a que estariam remetidos os intelectuais lusos. Texto esse destinado a um colóquio internacional realizado na cidade francesa de Nice. Foi traduzido e publicado, cerca de cinco anos depois - a 16 de Março 1985 - no semanário “Expresso”, com autorização do autor: Por se manter o interesse e a actualidade da análise nele contida, consoante alega a redacção do jornal.Com mais 20 anos por cima, o texto permanece, de facto, ainda hoje, um útil auxiliar cartográfico para quem pretenda orientar-se no labirinto ideológico/militante de EL. Na medida em que nessa intervenção para auditório estrangeiro, ele critica o papel da intelectualidade lusa no quadro da história contemporânea de Portugal; em particular, no período revolucionário de 1974-75. Recordando, em primeiro lugar, o “anterior regime” (como sempre prefere grafar), Ed. Lourenço reconhece ter existido na época, uma certa hegemonia marxista, numa frente cultural progressista que o Regime suscitou contra si; mas logo anota que alguns opõem uma resistência ideológica não menos determinada a esse marxismo. (Ele próprio, marcando distâncias... heterodoxas). Vindo do céu militar (sic), ocorre o 25 de Abril. Prossegue na descrição da vivência cultural do momento, não esquecendo frisar a existência de muitos intelectuais que “não são marxistas ortodoxos”; mais as novas gerações esquerdistas de várias obediências, que são as que irão fazer-se ouvir nos jornais, na rádio e na televisão”... Merece-lhe referência, o Jornal Novo que reúne um punhado desses escritores ou intelectuais, socialistas e liberais. Afinal, pelos vistos, as carências, as ausências, o silêncio dos intelectuais, cuja denúncia era o tema da comunicação aos seus confrades em Nice, tinham-se desvanecido. Pelo contrário, uma denodada falange de socialistas liberais - na qual o nosso homem ocupava lugar voluntário - estava decidida a barrar o caminho a uma tentativa militar-marxista. Escreve depois: A Revolução que iria mudar de figura após o 25 Novembro de 1975. O sublinhado é meu, evidentemente. Já tenho escutado as mais extravagantes interpretações heterodoxas relativas ao Processo Revolucionário Português; mas esta de mudar de figura deixa-me... de cara à banda. De imediato, inconsequente, culpa os intelectuais que teriam falhado, mais uma vez, na sua missão. Nova reviravolta, eis que descobre um pequeno número de intelectuais, feitos jornalistas de urgência revolucionária... os criadores de mitos, os autores dos diagnósticos mais pertinentes sobre a situação nacional. O nosso homem, novamente, na 1ª linha dos criadores de mitos e diagnósticos.Na parte final da sua exposição a inocentes literatos estrangeiros, atira-lhes com uma inesperada bomba: O “regresso” de Salazar... esse previsível volte-face... com a queda de Mário Soares (exonerado por R. Eanes, em Julho de 1978) volta a sair das sombras o fantasma mal recalcado de Salazar... saem novos ou velhos mestres da contra-revolução... Eduardo Lourenço deve ter deixado a assembleia de Nice, estupefacta, de boca aberta. Nãoécasoparamenos: Contra-Revolução salazarista em 1978, dirigida por Ramalho Eanes !!!! A história da ruptura brutal do 25 de Abril (como textualmente escreve) conta com mais um mito lourenceano. Finalmente, enxergou uma contra-revolução... embora mitológica e fantasmagórica.Poderíamos terminar por aqui, considerando ter ficado exposta a fragilidade analítica de EL... na área política, em exclusivo, repete-se. Em princípio, devido ao seu preconceito anti-Marx(ismo); sobrecarregado por influências/obediências resultantes de um alinhamento partidário... incompatível com um pensamento (razoavelmente) independente.Falta, porém, pôr em evidência - e deixar registado - que o essencial da tese desenvolvida no texto de 1980 (ratificado em 1985, e jamais enjeitado ou revisto pelo autor até aos dias de hoje) é a obliteração (l’effacement, jáquevoltámos aos salõesqueirozianos) dacontra-revolução defachadasocialista de 1975. Ou seja: o nosso intelectual, observador engagé dos avatares revolucionários portugueses, não deu pela presença do embaixador americano Carlucci e manejos do imperialismo; também não lobrigou a campanha terrorista anticomunista dirigida pelo ELP e padralhada caceteira; não se apercebeu dos movimentos independentistas na Madeira e nos Açores; considerou invisível a conspiração dos militares ditos moderados; etc, etc. Nem deve ter percebido que a espórtula que recebia pela sua colaboração no “Jornal Novo”, provinha dos fundos da Família CUF/Melos... grandes amigos de Salazar e - ó maravilha - também do “socialismo de rosto humano” do Dr. Soares.A sabedoria popular costuma frisar que “O pior cego é aquele que não quer ver”. O que em política - e no comportamento humano elementar - se traduz por: as pessoas só se apercebem (só inscrevem) aquilo que lhes convém; para garantir/atingir as suas ambições pessoais e os seus interesses de classe. E fazem-no, na maioria dos casos, automaticamente; isto é, sem cálculo malévolo. No entanto, la raison oblige:  isto é, os intelectuais críticos - e não apenas os heterodoxos - devem prestar maior atenção aos seus flancos e retaguarda.Nas suas confabulações sobre o destino da grei lusitana, EL confere enorme relevância aos traumas e aos mitos. O trauma/mito do Império, por exemplo, é recorrente em toda a sua obra, tornando-se mesmo obsessivo. Chega a considerar a independência das colónias africanas como “o maior trauma da história de Portugal”. Curiosa/sintomaticamente, não reconhece o binário dialéctico Revolução 74/Contra-      -Revolução 75, que tão fortemente continua traumatizando a sociedade portuguesa, condicionando o seu destino... tendo provocado um terramoto na boa consciência dos intelectuais antifascistas, ditos progressistas.EL ainda saudou (inscreveu) o 25 de Abril... a “divina surpresa”, como lhe chamou. O que se regista a seu favor, pois outro colega, o filósofo José Gil, só inscreveu, no seu sismógrafo político, um sobressalto. Mas quanto ao segundo termo dialéctico, EL afasta-o para o “regresso dos Bourbons” (são os automatismos da velha cultura afrancesada... que também afligem EL). Assim, com uma dialéctica amputada - à qual corresponde uma compreensão igualmente amputada - permanecerá por longos anos, a repetitiva e angustiada questão: Como chegámos a este ponto (de baixa mística)? Para abreviar, com vossa licença, respondo “à americana”: Foi a contra-revolução, estúpidos.Creio, efectivamente, que 1985 foi um dos anos charneira no trajecto profissional de EL. Um crítico admirador (Arnaldo Saraiva, em “Cartografia Imaginária”) afirma que “...até ao 25 de Abril a sua voz não se fez ouvir... com esse grande abalo, saíu do seu retraimento”. A discípula, biógrafa e entusiasta “lourenceana” M. M. Batista, reconhece (em “A Paixão de Compreender”) que: “pela primeira vez, em 1985, tomei contacto com a obra de EL... apesar de pouco conhecida... um quase ‘segredo”.Embora pareça excessiva tanta invisibilidade (que não existia para mim, contemporâneo de EL, desde um remoto Colégio Militar), julgo ser correcto fixar em 1985 o início do sucesso mediático, com a divulgação sustentada da sua obra. O facto de o texto “O Silêncio dos Intelectuais” ter sido recuperado para publicação em Junho desse ano pelo “Expresso”, semanário referente da sociedade burguesa, pode ter funcionado como ‘atestado de credibilidade’. O Sistema (grosso modo, a burguesada parola/capitalista, submissa aos ditames do imperialismo dominante) não ama os intelectuais, como é sabido. Serve-se deles. Desconfiava de EL: muito hermético, imprevisível, com fumaças de espírito independente. Esteve à experiência. Finalmente concluíram que dali não viria perigo algum para a estabilidade do edifício. E só imaginar se pode o que mais teriam congeminado.Num excelente livro/ensaio sobre EL - “O Regresso do Corifeu” (editorial Notícia, 1998) - M. Manuela Cruzeiro aborda Os Paradoxos da Ética Política, partindo de uma citação do próprio EL em que ele afirma que foi sua pretensão “deslocar a habitual perspectiva política para um horizonte (diferente) simultaneamente cultural e ético”.Ora, de certo modo, como transparece, o meu “cerco” ao reputado filósofo doublé de comentador político, procura, exactamente, identificar o seu status ético. Os paradoxos em que teria incorrido o heterodoxo EL aproximam-se da noção de aporia: no sentido que retiro do Dicionário Etimológica de José Pedro Machado, de embaraço, dificuldade, dúvida; em resumo: incerteza.M. M. Cruzeiro debate-se com essa incerteza, na companhia do seu personagem, através das magníficas vinte últimas páginas do seu ensaio... que, em si mesmas, constituiriam uma outra aporia a debater... se ocasião houvera. Também julgo, com a autora, “que toda a reflexão política de EL é atravessada por um equívoco, não apenas intuído, mas claramente vivido...”. Eu diria mesmo... claramente exposto. EL refugia-se amiúde no seu labirinto mental. Mas não veste a pele do fariseu social. As suas posições/opções de carácter ideológico e político transparecem claramente naquilo que escreve. Sente-se infeliz no seu papel de interveniente, de intelectual engagé? Prestes a abandonar uma passagem efémera pelo “mundo envenenado” da política, como pensa M. M. Cruzeiro? Seria uma incógnita em meados dos anos 90. Mas o mundo (incluindo, o envenenado) continuou a girar. E EL continuou a não resistir ao “bichinho” da política. Podem assinalar-se várias intervenções suas nesse campo, até e no corrente ano de 2005. Quase todas sobre a Europa... que o desencanta desde 1993 (cf. bibliografia). Mas estou a folhear uma revista “Visão” (PS) de Agosto. Lá está o nosso comentador botando sua opinião sobre a “seriedade política dos dois virtuais candidatos às eleições presidenciais”. Seriedade de Mário Soares? Então, evaporada está a lucidez de quem, num longínquo 1982 (“O Jornal”, 19 Dez.), lhe chamava “o autocrata que se ignora”, “o caudilho à sul-americana”, “o malabarista de recursos inesgotáveis”, etc.Entretanto, como atrás se mencionou, EL foi galardoado com o Prémio Camões em 1996, cooptado administrador da Gulbenkian em 1999, subiu ao palco da SIC em 2004. Pode ser que seja coincidência (mas também pode ser que não seja), mas o facto é que, desde que ficou consolidada a glória mediática de EL, o “malabarista” Soares, passou a funcionar como fanal ideológico do filósofo da cultura... nas posições europeístas, antiamericanas, contra globalização, etc. Um novo Soares rejuvenescido aos 80 de idade, lutador anti-imperialista !!... Só dá para acreditar por quem é tolo, ou quer mesmo acreditar. Ora EL ainda não está tonto.Subiu voluntariamente, pelo seu pé, ao trono da SIC para se deixar coroar por Herman José. Em 1997, o socialista de esquerda, Mário Soares, grande vencedor da contra-revolução de Novembro 75, subira também os mesmos degraus para receber das mãos do seu dear friend Frank Carlucci (socialista de rosto humano, infiltrado na CIA) a coroa de rei de opereta.Pode ler-se na Internet, em blogues datados de Out. 2004: “O que se seguiu foi um dos momentos mais acabrunhantes e vergonhosos que alguma vez vi em directo”... “No fundo, no fundo, o homem foi sempre um mestre-escola deslumbrado com o brilho alheio. Exilado, a revolução fez dele o bonzo do regime democrático. Ele acreditou. Coisas do destino mítico...”.Cada qual julgará a posição de EL perante a situação política vigente no nosso País e no mundo. Ou seja, se ele conseguiu manter a sua intervenção político/intelectual dentro dos terrenos da cultura e da ética... como afirmava pretender; ou se isso foi apenas uma declaração de intenções sem qualquer consequência numa conduta prática (praxis), ditada imperativamente por uma opção de classe (burguesa), abraçada em pânico por EL, logo que se desenhou a hipótese de uma revolução após o 25 de Abril. Em resumo: decidir se Eduardo Lourenço é um intelectual no sistema (estar: sem compromissos com o poder da classe dominante); ou, pelo contrário, se se converteu em intelectual do sistema (ser: parte do...). APORIA 4 – O Paradigma do Intelectual MediáticoQue E.L. esteja convertido em intelectual mediático não oferece dúvida. É um facto comprovado por um percurso biográfico - mormente após o 25 de Abril - de sucesso público; e pelas consagrações multiformes que o sistema lhe tem vindo a conceder. Disso não lhe cabem responsabilidades, foi a contragosto que lhe sucedeu? Não colhe a pergunta. Gosta da sua projecção mediática... e não pouco! Trabalhou - é indiscutível - para realizar essa ambição. Ambição, aliás, mal dissimulada. Desde logo, na “Carta Aberta a um Português que ainda não foi a Belém”, que saíu publicada no Diário de Lisboa em 11 de Maio de 74... isto é, escassos 15 dias depois da vitória revolucionária. Carta, na verdade, dirigida a ele mesmo, recém chegado da Côte d'Azur, sangrando-se de um entusiasmo precipitado na adesão aos novos poderes. Desse ponto, até ao prémio de carreira SIC em 2004, vai todo um arco de 30 anos de carreira mediática; que ele assumiu em directo pela televisão, embora algo embaraçado: “ Os meus amigos devem estar admirados de me verem aqui. Eu próprio estou admirado”. Para concluir, vencido: “Pois é... a sociedade do espectáculo acaba sempre por levar a melhor”.Estabelecido este paralelo, EL emerge como modelo paradigmático. Deve, porém, fazer-se notar que o seu caso não corresponde ao paradigma extremo (estereotipo); aquele que - por exemplo et pour cause - provoca violenta condenação à intelectualidade progressista francesa: os aduladores servis do imperialismo americano e da Nato; da ditadura da globalização económica; da destruição do estado da solidariedade social; enfim, do combate sem quartel aos trabalhadores, com simultânea exaltação das supostas elites e classe exploradora. EL é mais comedido (alguns diriam mais esfíngico; outros, mais disfarçado). Seja como for, tem manifestado, recentemente, uma salutar capacidade de indignação. Desde a 1ª Guerra do Golfo (1991), nitidamente em 1999, ano do infame desmembramento da Jugoslávia, com o bombardeamento de Belgrado pela aviação americana, etc, EL não poupa críticas - algumas violentas - à agressividade da política expansionista dos EUA; à apatia e submissão da Europa; condenando, nomeadamente, a cobardia da maior parte dos intelectuais do Velho Continente. Esta sua atitude consta de vários artigos publicados na imprensa nacional (ver Revista Visão) e no volume “A Europa Desencantada” (ed. 2005). Trata-se, por conseguinte, de uma posição distinta (pela positiva) da posição dos arautos da globalização neoliberal made in USA, os novos reaccionários, tal como são apodados em França. No entanto, não quer isto dizer que numa nova contracurva do seu labirinto mental, não venha EL a mudar de opinião. Já em 2004, a Europa começa a ser acusada de “suicidária”; em Maio de 2005, no diário Público, chama ao “Não” francês à Constituição europeia “A Débacle Branca … que só tem paralelo simbólico na débacle de 1940”. Ora, a confirmar-se um novo alinhamento com M. Soares, outras contraversões são de aguardar.Não obstante, existirá sempre a favor de EL, a sua vasta obra de pensador apaixonado por compreender, a sua alta qualificação como crítico literário e artístico, o valor estilístico da sua prosa, a merecida reputação como filósofo da cultura, dentro e fora do País natal... e muitos outros atributos e talentos nos domínios em que pode considerar-se uma indiscutível autoridade: da Filosofia, da Literatura, da Cultura; e do Saber no sentido geral e universal. Em contrapartida, penso que a intensa e teimosa intervenção de EL na área política e ideológica está excessivamente motivada por razões subjectivas e de opção burguesa. O que em nada concorre para a sua glória e reputação intelectual.Resta acrescentar que o paradigma do intelectual mediático – neoreaccionário -, só agora no séc. XXI, reconhecido e repudiado em terras gaulesas, possui entre nós, nestas mansas terras lusas, um modelo precoce de recorte muitíssimo mais chocante; diríamos mesmo, porno-gráfico. Com efeito, a “débacle” ética/moral da burguesia portuguesa, provocada pela surpresa do 25 de Abril e pela subsequente luta de classes, deu (também) origem a uma contra-revolução cultural, que antecipou em Portugal a espantosa e fulminante transformação de uma comunidade cultural e intelectual de passado honroso, numa matilha de cães de guarda, disputando favores a políticos e patrões; sacrificando a dignidade por uns míseros nacos de espaço mediático. É um paradigma que permanece actual e operativo - pois a contra-revolução política continua, acompanhada de sua vertente cultural. Portugal constitui na Europa, certamente, o mais antigo e fiel caso de subserviência “democrática” da intelectualidade mediática à nova ordem cultural do império capitalista.O choque da contra-revolução - o trauma da restauração de um poder que se acreditou banido para sempre - deixou na “identidade nacional” um estigma de incapacidade e impotência, cujos efeitos na autoestima colectiva e no respeito de uma comunidade por si própria, aí estão, à vista de todos... traduzidos na desmoralização do regime democrático; no aborrecimento dos portugueses por terem nascido num País que - mais uma vez - demonstrou não ter emenda. APORIA 5 – Opção Ideológica e Prestação IntelectualÀ primeira vista, o enunciado desta aporia não abre nenhuma “dúvida plausível”. Pois parece evidente que a opção ideológica qualquer que ela seja, determina - ou, no mínimo, influencia - a prestação intelectual. Porém, depressa surgem algumas hesitações. Uma primeira diz respeito a uma definição relativamente rigorosa do 1º termo; ou seja, “opção ideológica”. (Mais complicado seria ainda, se tivéssemos utilizado a expressão marxista “opção de classe”). Haverá um momento temporal - um lapso curto de tempo - para assumir uma posição ideológica consistente? Talvez... mas só em condições excepcionais, de grande tensão dramática. Nos casos correntes, a opção ideológica (de classe, se preferirem) ir-se-á construindo/reconstruindo no dia a dia pelo somatório das decisões e atitudes.No entanto, existe uma condicionante inicial que não é lícito, que é impossível, ignorar. Trata-se de “circunstância”; da circunstância em que se vê o individual humano que começa a ter consciência da sua existência. A época... o local... o meio familiar e o meio social envolvente... o seu papel em cada um desses grupos humanos... as crenças e crendices prevalecentes (a ideologia, grosso modo)... a educação... etc. Junte-se a todas essas variáveis um lastro psicológico congénito sob constante pressão exterior... e teremos uma problemática de difícil dilucidação.Porque não somos especialistas, porque estamos... em época... em local... numa sociedade governada por critérios de filosofia prática (pragmática, como usam dizer), proponho que, nesta circunstância, o conceito “opção ideológica, ou de classe”, seja substituído por “projecto de vida” ou, melhor ainda, por “ambição de vida”.Aplicando esta rudimentar ferramenta interpretativa no caso-estudo que nos vem ocupando - o intelectual mediático Eduardo Lourenço - algumas indicações generalizantes poderemos ir recolhendo.O futuro filósofo nasceu nos anos 20 (1923), numa aldeia do concelho de Almeida (Guarda), em família modesta, mãe tradicionalmente religiosa, pai militar saído oficial da 1ª Guerra Mundial, sete irmãos. Frequentou, durante seis anos, o Colégio Militar em Lisboa, onde completou o curso dos liceus e dispôs de apoio social (existia, na altura, uma mútua filantrópica). O internato no C. Militar deve ter representado um enorme trauma, a avaliar pela ausência quase total de referências ao período. Licenciou--se em Coimbra (Bacharel em Filosofia), onde se demarcava das correntes intelectuais maioritárias de influência marxista, autoconsiderando-se heterodoxo (1º livro, 1945, “Heterodoxia”). Na primeira oportunidade, cumprindo o destino (sonho! projecto? ambição!?) das populações do interior serrenho emigrou para França... onde casou com uma francesa loira (como sublinha). Instalou-se e leccionava em Nice (Côte d'Azur) no dia 25 de Abril de 1974. A sua carreira posterior é pública e notória.Eduardo Lourenço não é um caso sui generis... nem entre os portugueses em geral, nem entre os intelectuais, onde abundam os estrangeirados de todos os tempos, feitios e capacidades. Pelo contrário, pode considerar-se um caso típico; incluindo, notoriamente, a sua prestação pós-revolução de Abril.A outra precisão necessária diz respeito ao 2ºtermo do enunciado. Por “Prestação Intelectual” apenas temos em mente, nesta circunstância, a obra escrita (ou transcrita) de natureza literária, filosófica, ensaística, crítica.No início deste trabalho, declarou-se que “os núcleos filosófico e literário da obra de E. Lourenço não serão objecto de atenção privilegiada”... a qual esteve focada prioritariamente - como atestam as páginas anteriores - sobre o núcleo de ensaios e comentários relativos à política portuguesa. Todavia, logo se acrescentou que “os campos da história, da política, da cultura e sua filosofia, estão de tal modo imbricados que resulta impossível delimitar-lhes fronteiras impermeáveis ”.Ao abrigo dessa ressalva - e tendo vindo a reconhecer que a figura de EL representa um dos melhores paradigmas/referência (senão o mais completo) do intelectual português nos últimos 60 anos (1945.2005) - permitir-nos-emos algumas considerações finais de carácter mais abrangente... com validade igualmente abrangente, queremos acreditar.A obra de EL aparece (me) dominada pela analogia topográfica do labirinto. Fenómenos intrincados, dédalos mentais, curvas e contracurvas do raciocínio, enleios e súbitas iluminações, etc. Tudo bem. Será a demanda da gnose, a eterna dúvida sistemática dos filósofos e pensadores de todos os tempos.Só que, entretanto, todos nós - intelectuais e leigos - íamos vivendo os restantes 30 anos do regime fascista, uma revolução seguida de imediata contra-revolução restauracionista, mais outros 30 anos de democracia burguesa filofascista, até ao presente Ano V do séc. XXI da era J. Cristo. Neste dilatado espaço de tempo histórico, a totalidade dos intelectuais portugueses fez o seu percurso sem mostrar nenhuma especial dificuldade em se orientar no labirinto das opções ideológicas... acabando, a grande maioria, por se acomodar, mais ou menos confortavelmente, na superveniente sociedade de consumo dominada pela classe burguesa/capitalista. E. Lourenço é disso perfeito exemplo.Há portanto aqui qualquer coisa que não bate certo. Uma flagrante contradição existencial. A uma insistente angústia, proclamada até ao presente com sonoridades dramáticas... “Quem somos ?... Para onde vamos?... Como chegámos a este ponto de desânimo?... A esta maré-baixa de auto-estima?... Etc, etc.” corresponde uma conduta ética de tranquila adaptação ao sistema.O labirinto é então, simplesmente, uma figura de retórica? Ou um simulacro habilidoso, um esconderijo para um pensamento inseguro? Poderá não ser exactamenteassim; mas fica a pairar a sombra dos estigmas do Velho Portugal: uma certa manha camponesa; algum contumaz deslumbramento provinciano; a resignação fatalista que, num plano elevado de cultura, se aproxima da capitulação.Afinal, a famosa “identidade portuguesa”... outro tema obsessivo, agora em moda mediática com público consumidor assegurado. Não se percebe bem se EL a considera imutável, forjada no século dos Descobrimentos, cristalizada na geleira salazarenta; ou se, pelo contrário, essa identidade está sujeita às mutações vulcânicas dos tempos modernos... que tanto assombram o pensador ensaísta. No todo, os dois pontos de vista antagónicos resultam num responso plangente sobre “Aquilo” que EL entende que somos. Confesso estar mais perto desse espírito, do que na possibilidade do surgimento de um mirífico homem-diferente... aqui, neste pátio das traseiras da Europa; ou, valha a verdade, em qualquer outra parte do mundo. Enfim, quero acreditar que a recomendação socrática: ”Primeiro, conhece-te a ti próprio” tenha refreado, de algum modo, os delírios/delícias intelectuais, respeitantes à epopeia democrática da pequena burguesia nacional, que emergiu triunfante no 25 Novembro 75. Aquela que... “a caminho do socialismo” (outra paixão funesta de EL)... logo virou à direita a caminho do bem-estar e sucesso individual.A obra do nosso consagrado ensaísta está recheada de alusões a mitos imaginários, a sonhos imperiais, medos, traumas, glórias. O que, provavelmente, traduz o clima de nevoeiro racional em que este nosso bom povo temente à Santa Igreja e ao Poder Constituído, tem permanecido mergulhado durante séculos. Tudo bem. Só que esse mundo adormecido/fossilizado foi brutalmente sacudido pela ameaça de uma revolução social “ao vivo”, provocada pelo 25 de Abril 74. E então todos os nefelibatas acordaram esbaforidos: os intelectuais que sonhavam com a revolução ideal (deles); a burguesia reaccionária que, de calças na mão, fugiu para Espanhas e Brasis; a pequena burguesia meio-reaça, apavorada com a sorte dos dois palmos de terra, lá nas fragas serranas. Foi um ver se te avias, como é sabido. Foram numerosos os que abandonaram mitos e ilusões e se alistaram nas forças contra-revolucionárias sob comando da dupla Carlucci/Soares. Entre eles, intelectuais não faltaram. E. Lourenço incluído, com militância destacada (ver Aporia 3). Venceram em 25 Novembro, abrindo as portas ao regime indecoroso de corrupção e saque partidário, que hoje criticam angustiados. (Simulando labirintos indecifráveis?). Esse foi o trauma, O Grande Trauma histórico que ainda hoje atormenta a memória e a (baixa) consciência da burguesia restaurada. (EL procura situá-lo no fim do mito imperial ... a independência das colónias). A classe dominante - a burguesada do ancien régime, filhos, herdeiros e dependentes - nem quer ouvir falar da Revolução; e, muito menos, recordar o cagaço, o miserável papel que desempenharam na altura. O mínimo preço que os intelectuais mediáticos têm que pagar para continuarem a ser acarinhados pelo sistema, é o effacement desse período. O olvido total. “O 25 de Abril Nunca Existiu”, escreveu E. Lourenço, em 1976, como de ironia insuperável se tratasse. Pois tornou-se realidade pouco depois... até aos dias de agora. E mantenha cuidado: o 25 de Novembro, ainda menos existiu no catecismo vigente do “politicamente correcto”. Para terminar, de modo circular, este extenso comentário subordinado ao tema genérico: O Intelectual perante a Política, nada mais adequado que ir buscar um outro intelectual mediático português de fama equiparável a E. Lourenço e mesma aculturação afrancesada: Eduardo Prado Coelho. Por feliz coincidência escreve ele no jornal “Público” de 19 de Agosto corrente, estava eu em vias de fechar o texto. Transcrevendo: “Hoje grande parte dos intelectuais é apolítica ou situa-se claramente à direita, sem que isso seja ideologicamente pertinente. Tem a ver com a evolução em sentido único do pensamento económico e com o facto dos esquemas económicos dominarem o pensamento em geral. Hoje, não há propriamente ideologia: por outras palavras, a ideologia é a economia”. Fimde citação. Dá para estarrecer... e para compreender até que ponto tem que se rebaixar um intelectual de inegável capacidade cultural, para ser aceite pela burguesia analfabeta que detém o poder económico. Podia resumir-se o pensamento ético do intelectual E. Prado Coelho numa simples frase: “A minha ideologia é o dinheiro. Recomendo-a”. É o cinismo em todo o seu esplendor. Sem labirintos nem hesitações. Faz escola por todo o mundo globalizado democrático/capitalista. Sim, ainda há intelectuais que resistem. Entre nós e em muitos países. Mas estão cercados e isolados.Eduardo Lourenço não está, certamente, próximo da posição de E. Prado Coelho, que representa uma situação limite de total capitulação ideológica e intelectual.Todavia, num plano diferente - dialéctico -, uma derradeira dúvida perpassa pelo espírito do escriba deste texto. A seguinte: se um observador profundamente empenhado de corpo e alma na realidade política portuguesa - como EL -, cujas análises nesse domínio não conseguiram manter-se isentas de influência ideológica e político/partidária, conseguirá noutras disciplinas sociais - arte, literatura, filosofia - exercer um magistério crítico de baixo (inócuo) teor de subjectividade. Pode ser que sim... pode ser que não. Mas creio que é legítimo deixar colocada essa “dúvida razoável”. Em Tempo. Sinto que tenho de me desculpar perante os eventuais leitores, do uso excessivo de francesismos. Querocrerquefuivítimade um efeito mimético... que atinge o indígena enraízado, quando se atreve a comentar um literato de créditos firmados na estranja. O mesmo efeito pode ser responsável por um (involuntário) arremedo do estilo labiríntico... que não é, de todo, o meu. Um raciocínio claro-escuro que propõe muitos atalhos, deixando incógnito qual deles conduzirá à saída. Disso, igualmente me penitencio. Lisboa, Agosto de 2005 Fez) J. Varela Gomes

publicado por samizdat às 16:39
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