Domingo, 29 de Junho de 2008

Eudardo Lourenço - Do intelectual heterodoxo pouco restou

Eduardo Lourenço é um intelectual de celebrados méritos, nomeadamente no País Português. Muito presente no “espaço público”, no circuito dos prémios e homenagens, ouvido com frequência pelos media, com aceitação generalizada nos meios académicos, alvo de estudos, teses e mestrados. Um intelectual de - e com - sucesso.
Trata-se de uma situação de facto, inegável. Vamos considerá-la, desde já, como traduzindo um juízo de valor positivo, cuja abrangência atravessará vários extractos e classes da sociedade. Por outras palavras, a obra de E. Lourenço colhe um amplo consenso que ultrapassa os círculos especializados do pensamento filosófico, literário, ou sociológico. Está assim convertido em figura pública, sendo frequentemente instado a dar a sua opinião sobre os mais variados assuntos; não apenas nos meios de comunicação social, mas também em conferências, congressos, fóruns, etc. Um intelectual no sistema. O que é diferente - desejo frisá-lo - de um intelectual do sistema.
Esse lugar, que ocupa com relevo, converte E. Lourenço num caso estudo de a problemática de “O Intelectual perante a Política”. Tema que, hoje em dia, no dealbar do séc. XXI, em plena globalização imperialista/capitalista, readquiriu estatuto de primeira instância.
De forma consensual, considera-se a obra de E. Lourenço distribuída por três núcleos essenciais: Filosofia - Literatura - Política. Também é incondicional, entre os especialistas lourencianos, admitir que esses três núcleos básicos se entrelaçam e se interdeterminam. Consequência inevitável num “penseur d’occasion” (citado em M. M. Cruzeiro); outros há que o olham como a consciência crítica da personalidade (ou alma) portuguesa; e há quem realce as suas deambulações pelos domínios da mitologia, esse território indefinido entre o cognitivo e o imaginário. Literato sem dúvida, na medida em que nos livros está a sua principal fonte de sabedoria... e é pela palavra escrita que melhor transmite o seu pensamento No entanto, a “classificação” que melhor abrange toda a sua multifacetada curiosidade intelectual será a de ensaísta; ou, numa alternativa de uso habitual, a de filósofo da cultura.
No todo, são 60 anos de labor intelectual intenso e ininterrupto, a que correspondem 39 livros publicados, mais 5 em co-autoria, e 1481 referências/entradas constantes na exaustiva “Bibliografia Geral” elaborada por Maria Manuel Batista (MMB), inserta no seu estudo “Eduardo Lourenço - A paixão de compreender”, ed. ASA, Jan. 2003 (570 pág.) (catalogação essa que será utilizada como guia/referência ao longo de todo o presente texto).
Ora bem. Dentro do objectivo parcial traçado para o presente texto -”O Intelectual perante a Política” - a abordagem da obra de E. Lourenço que se apresenta óbvia será, primacialmente feita através do núcleo de ensaios e comentários sobre a política portuguesa. Conjunto relativamente volumoso que poderíamos reduzir a uma “leitura da história e da política nacional, segundo o pensador/filósofo E. Lourenço”; ou ainda, cingindo mais de perto, sobre a prestação do intelectual engagé nalutapolíticaemPortugal, antesedepoisdoderrubamento do fascismo a 25de Abril1974.
Nesse sentido, pretendemos tornar claro que os núcleos filosófico/literário da obra de E. Lourenço não serão objecto de atenção privilegiada. Com efeito, o autor destas linhas não se considera suficientemente habilitado nessas áreas, para delas extrair conclusões relevantes. Todavia, também se torna evidente que os campos da história, da política, da cultura e sua filosofia estão de tal modo imbricados, que resulta impossível delimitar-lhes fronteiras impermeáveis. Isso mesmo se verifica na extensíssima bibliografia de E. Lourenço, em particular em muitos dos ensaios, entrevistas et varia.
Posto isto, deveríamos, em rigor, começar por rever as primeiras reflexões (documentadas) onde se manifesta o interesse do filósofo ensaísta pelos avatares da política nacional. São referentes à crise de 1958, que ficou conhecida popularmente por “As eleições do gen. Delgado”.
No entanto, considero indispensável procurar estabelecer a localização político/ideológica de E. Lourenço naquela data: em 1958 completava 35 anos de idade, era já um académico com provas dadas. Exilado voluntário em França, E. Lourenço pertencia à grande massa da intelectualidade portuguesa da época, em oposição contra o regime fascista salazarento. Na verdade, era raro encontrar um homem/mulher de cultura que se confessasse partidário do chamado Estado Novo. Quando tal sucedia, eram votados ao desprezo pelos colegas de grémio ou ofício. Naturalmente eram diversos os graus de militância e empenhamento na luta política... desde intelectuais comunistas na clandestinidade, até libertários de café sem consequências. Mas o clima geral, o universo cultural português em 1958, era claramente antifascista (Ou antisalazarista, antiditatorial... ao gosto do cliente democrático actual). E. Lourenço assumia, na altura, taxativamente, posição idêntica à da grande maioria da “inteligência portuguesa”.
A sua trajectória biográfica (também ) é comum. Nascido em aldeia do distrito da Guarda, filho de família numerosa de modestas posses, meio rural religioso, vem cursar o liceu (o actual secundário) para Lisboa, no Colégio Militar. (O pai era militar, provavelmente antigo combatente na 1ª Guerra Mundial). Foi aluno de aproveitamento regular; mas o trauma da transplantação de um meio familiar rural para um internamento escolar militarizado deve ter sido muito profundo; a avaliar pela ausência de qualquer menção a esse período da sua vida, incluindo nas biografias autorizadas. Frequentou o ensino superior em Coimbra onde, em 1946, completou a licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas. Fica cooptado como assistente da cadeira de Filosofia entre 1947 e 1953. Durante os cerca de 13 anos em que permaneceu ligado à Universidade de Coimbra, Ed. Lourenço contactou de perto com as correntes artísticas de inspiração marxista/comunista; nomeadamente, o neo-realismo e seus expoentes: A. Feijó, J. Namorado, Carlos de Oliveira, Cochofel, Sidónio Muralha, M. Dionísio e outros. Escreveu na revista Vértice, em 45-46; para a Seara Nova, sob pseudónimo, em 47-48.
E publicou o primeiro livro Heterodoxia I, em 1949 - Coimbra Editora. Um conjunto de textos onde marcava distâncias relativamente às duas ortodoxias (daí o título escolhido), que considerava dominantes, na altura: a fascista do Estado Novo; e a marxista na Resistência e Oposição. Segundo Nelson de Matos (em Cartografia Imaginária, coord. M. M. Batista - 2004) o livro foi considerado uma (tentativa de) cisão no movimento neo-realista; e, por esse facto, teria sido ignorado. O afastamento de E. Lourenço para o estrangeiro reforçou o silêncio sobre o livro e seu autor. Na decisão de exílio em França, razões de natureza política devem ter pesado: reinava grande agitação no meio académico desde 1945, na sequência da vitória das democracias ocidentais sobre o nazi-fascismo, com prisões de dirigentes associativos (S. Zenha e outros), incremento da vigilância e repressão policial, etc.; E. Lourenço corria sério risco de também vir a ser envolvido na perseguição aos “ subversivos”; nessas circunstâncias, a carreira de assistente universitário contratado, não se afigurava com muito futuro. Como dezenas (centenas) de milhares de compatriotas, E. Lourenço abandonou o País para procurar (como “eles” - os mesmos - continuam a entoar, 50 anos passados) “uma vida melhor”.
No entanto, E. Lourenço manteve-se sempre ligado à cultura e à inteligência portuguesa: colaborando, por exemplo, na Revista de Filosofia (1954); nas cinco publicações da série Unicórnio (de 51 a 56); no Suplemento Arte e Cultura do Comércio do Porto, até 1959. Praticamente todas essas participações - e várias outras avulsas - versaram temas de arte, literatura, crítica e debate de ideias, filosofia e filósofos. Pouco, ou quase nada, sobre política, sociologia ou história.
Há quem diga - Miguel Real, ibidem -que o texto de 1958, intitulado “O Exército, ou a Cortina da Ordem” constitui o primeiro ensaio escrito de E. Lourenço da sua directa e frontal oposição ao regime político do Estado Novo. Sendo assim, o interesse concreto de E. Lourenço pela problemática da acção política em Portugal foi despertado pela grande crise e agitação popular de 1958, relacionada com as eleições presidenciais em que participou o gen. H. Delgado, como candidato comum da Oposição Democrática. Todavia, o texto acima citado só foi conhecido (publicado) após o 25 de Abril, constituindo a I Parte dum volume editado pela Arcádia em Novembro de 1975, que levou o título de “Os Militares e o Poder”. A II Parte do livro em questão reúne 6 textos, mas todos escritos e publicados na imprensa em 1975; portanto fora da sequência cronológica que estamos seguindo.
Quanto à I Parte, de 1958: Trata-se de considerações, relativamente superficiais, sobre a incompatibilidade entre o intelectual e os militares... senão aversão, diz; o mito, originado pela Rev. Francesa, da Instituição Militar como Nação em Armas; a fascização do Exército português por obra de um simples capitão (Santos Costa)... e o falso apolitismo cloroformista; etc. Por último, a irrupção do gen. Delgado na. cena política... marcou o fim da invisibilidade das Forças Armadas. Tese central do texto: as outra duas “cortinas de invisibilidade” seriam objecto de outros ensaios (não efectuados): a do Incenso = Igreja e a do Dinheiro = Burguesia. De caminho, reconhece... o intelectual não abdica de uma escolha política... as (suas) opções são, na quase totalidade, de carácter negativo e abstracto.
Em 1959, no Brasil, onde E. Lourenço se encontrava leccionando na Universidade da Baía, escreve dois textos de intervenção política: “A Nova República deve nascer adulta”; e, já em 1960, “Brasil - Caução do colonialismo português”. Refere o já citado Miguel Real: ...o empenhamento político de E. Lourenço a favor de um regime democrático em Portugal, no período entre as décadas de 50 e 60, como que teria ficado ocultado se não tivessem sido publicados nos jornais “Portugal Democrático” e “Portugal Livre,” ambos de S. Paulo, Brasil. Seja como for, apareceram publicados na 1ª Parte do volume “O Fascismo Nunca Existiu”, ed. D.Quixote - Junho 1976. O primeiro - que saiu no Brasil assinado Criticus - está dividido em dois capítulos. No Cap. I, impera o desalento - a “derrota” eleitoral de H. Delgado estava recente. Procurando eco em F. Pessoa, sublinha a Passividade nacional, o Conformismo, etc. Alarga-se numa crítica severa ao “mais perfeito dos regimes reaccionários do séc. XX”, o Regime da Avestruz. Aponta uma certa classe, arcaica e hipócrita, que se agarrou a Salazar como seu messias salvador. O Cap. II faz o contraponto exaltando a “paixão positiva” e recomendando o “diálogo nacional”... pois a Nova República deve nascer sem ressentimentos. (Estaria E. Lourenço preconizando uma prévia absolvição do fascismo?). O destino das ”nossas províncias ultramarinas” ... a grande catástrofe a que o Estado Novo nos está conduzindo. E, para rematar... Se a Nova República falhasse o seu futuro, voltaria de novo. Poupemos essa vingança ao fantasma de Salazar. (E. Lourenço ainda aí está para nos poder dizer se já vislumbrou, de volta, o fantasma. E há quanto tempo.).
O segundo texto, também redigido no Brasil, consiste quase somente numa rigorosa condenação da viagem a Lisboa do presidente brasileiro Kubitschek em 1960, por ocasião de umas patrióticas Comemorações Henriquinas. Classificando-a - com justa razão - como caução ao colonialismo português e uma importante vitória política e diplomática para Salazar.
Neste mesmo volume (Publicações D. Quixote -1976) está incluído um 3º texto anterior ao 25 de Abril. O autor refere-se-lhe nos seguintes termos, no pequeno prólogo, esse sim datado de Vence (sul de França), 18 de Junho 1976: ... de todos os textos de que se compõe este livro, nenhum me parece merecer um interesse mais plausível que a carta de 1969 escrita e nunca publicada ao que então era a oposição portuguesa já dividida e semente fatal da divisão futura. Parececoisa escrita, como Necessária e Inútil Justificação, aliás epígrafe que o próprio E. Lourenço escolheu. Dá para pensar esta “Carta fechada às oposições portuguesas”, enviada a pessoa amiga em vésperas das eleições de 1969 e não publicada (Em nota de pé de página). Recordemos as circunstâncias: “primavera marcelista”... já um tanto outonal; oito anos de guerra em África; realização da farsa eleitoral quadrienal, em que a Oposição se apresenta dividida entre a CDE - Comissão Democrática Eleitoral e a CEUD - Comissão Eleitoral Unitária Democrática. Na citada carta, E. Lourenço coteja duas notas políticas emitidas por cada uma das candidaturas evitando identificá-las politicamente... embora fosse do conhecimento geral que a CDE era “inspirada” pelo PCP, e a CEUD pela oposição burguesa de toga (M. Soares, S. Zenha, Sousa Tavares, etc.). E. Lourenço mostra clara preferência pela proposta dos advogados A hipocrisia visceral do discurso político da CDE salta aos olhos do menos prevenido. Pelo contrário, exprime a sua simpatia pela proposição implícita da CEUD de um socialismo de aspecto humano. Traça considerações sobre a simetria dos reflexos entre o Regime e a Oposição; a “obscuridade hipócrita” que denota nos documentos de ambas as oposições (que parece afectar o seu próprio texto); profere novos avisos em relação ao problema africano. Entretanto, a determinado passo, reconhece - a CEUD entrou, de algum modo, no sistema que a “abertura” do Regime tornou mais maleável, como o provam - se provarem - as futuras eleições. Em resumo, a carta de 1969 enviada de Nice a 1 de Outubro (não publicada na altura) afirma uma tomada de partido A Democracia é politicamente partidária, já assim pensava (e escrevia) dez anos antes, então no Brasil. Achou E. Lourenço que a sua tomada de posição (partidária) merecia um interesse mais plausível (o adjectivo é dele) em Junho de 1976 ! Ver-se-á porquê.
Antes de entrarmos no período do 25 de Abril falta registar mais um outro ensaio de temática política... os únicos que estamos recenseando “Situação Africana e Consciência Nacional”, escrito entre 1961/63, “conservado inédito por motivos óbvios”. É um texto longo - 45/50 páginas - reproduzido depois em “Cadernos Critério 2”. Tinha começado a guerra em Angola... mas E. .Lourenço já anteriormente (cf. texto de 1959) mostrara estar atento à questão das colónias africanas. Verbera às oposições adoptarem uma óptica paralela à do regime; isto é, uma óptica metropolitana. Afirma com segurança: O problema da colonização é o problema do País (pág.31). Embora não ignoremos as declarações políticas que a Oposição (ou Oposições) têm formulado... uma filosofia geral anticolonialista. E cita em abono, o eng. Cunha Leal, o Rumo à Vitória e... o prof. Adriano Moreira!! No capítulo “Retrato (póstumo) do nosso colonialismo inocente “, EL tenta decifrar “o labirinto da consciência colonialista portuguesa”, esperando um milagre: a hipertrofia nacionalista de pequena Nação, a crença na inocência e na originalidade da nossa presença em África, etc. No Cap. II, comenta largamente, a “celebrada filosofia da colonização portuguesa”. Até pouco África era terra de desterro; com Salazar é terra de salvação... É, aliás, este sentimento de uma visceral unidade de destino - quando o é apenas para uma classe privilegiada incapaz de encontrar uma saída positiva para as contradições que a estrangulam- que serve de alma à actual ideologia portuguesa (pág.41). Continua: Não se louva a nossa burguesia, protegida e inconsciente até ao delírio, do “bom povo português”, tão humilde, exactamente como se louva da tranquilidade do nosso negro? (pág. 45).
Creio não existir mais nenhum ensaio de natureza política escrito por E. Lourenço na época fascista; isto é, até ao 25 de Abril. Manteve, evidentemente, intensa actividade intelectual nos domínios filosófico, artístico, literário e correlativos. Idem, em matéria de colaboração com revistas e órgãos de imprensa especializados.
Há, no entanto, uma dessas revistas que penso ser de interesse destacar. Refiro-   -me ao “Tempo e o Modo”... por ser representativa do pensamento cultural/crítico dos “católicos progressistas” que apareciam, assim, entre 1960-70, aliados à oposição antifascista contra o regime. E. Lourenço colaborou - com temas de natureza literária, bem entendido - em vários números mensais até à dissolução da revista em 1970; que aconteceu por obra de um núcleo infiltrado de maoístas (mrpp), através de provocações anti-PCP, nunca devidamente explicadas pelos associados católicos. Um deles - Alçada Baptista, aliás o fundador e proprietário da revista - acabou, desastradamente, em vésperas do 25 de Abril, por publicar um livro de elogio e homenagem a Marcelo Caetano.
E então, do cerrado horizonte da ditadura fascista, da feira cabisbaixa, do cerco e exílio da acção, surge luminosa a “divina surpresa”, “Esta é a madrugada que (nós) eu esperava. O dia inicial, inteiro e limpo”. A madrugada libertadora do 25 de Abril de 1974.
Para os intelectuais portugueses - no maior (e no melhor) número – foi um dia de júbilo. E. Lourenço, certamente, entre eles. Contagiado pelo entusiasmo colectivo, foi com “alguma paixão e fervor” que cedeu à “antiga tentação” de intervir no suspenso debate político.
O corpo principal dessas intervenções constitui a segunda parte do título “O Fascismo Nunca Existiu” (Pub. D. Quixote, ed. Julho 1976). Cobre o período de Maio 75 a Maio 76. Dois anos durante o quais tudo se decidiu Em termos grandiloquentes, o destino da Pátria, a classe vencedora, etc. Porém, sem qualquer dúvida, para o objectivo que nos está ocupando - a intervenção do intelectual Eduardo Lourenço na área política - são os mais importantes. Definitivamente. L’homme en situation, em situação existencialista irrepetível... na vida do sujeito E. Lourenço... na existência da Nação portuguesa. L’homme en tant qu’il agit (Camus?), livre no cumprimento da uma (sua) convicção, livre na avaliação do acto categórico - isto é, moral - em que intervém.
Nesta perspectiva, as 23 intervenções de Ed. Lourenço na imprensa, durante o espaço de tempo do processo revolucionário, seleccionadas e recolhidas no volume mencionado, merecem uma especial atenção. Os anos de brasa da revolução marcaram com selo identitário quem neles viveu. Marcado a fogo, talvez só a morte o apagará.
O 1º artigo de opinião desta série do tempo revolucionário, foi publicado no Diário de Lisboa, a 11 Maio 74. Consiste num aviso aos oportunistas... sangrando-se o autor em saúde. No 2º, também no DL, em Julho, aborda a questão africana (que o preocupava desde 1961 - ver atrás) Num extenso texto de 14 páginas, avalia as possibilidades da perspectiva federalista de Spínola; o perigo do “entreguismo”; o problema da permanência dos brancos em África. Na sequência (pág.88), emite a opinião: O 25 de Abril não é uma Revolução; nem parece vir a sê-lo. Segue-se um artigo no D. Not0ícias (Ag. 74) no qual Ed. Lourenço acusa a Igreja de se ter situado - em Pastoral entretanto difundida - ainda mais à direita que durante o fascismo. Identifica-se (pág.94): como pouco suspeito de ternura excessiva em relação ao marxismo. Num outro texto extenso, escrito em Set. 74, e “não publicado por conselho amigo”, retoma a reflexão sobre “o destino do ultramar português”; abrindo e fechando com vénia ao gen. Spínola e não poupando os arautos da descolonização acelerada
, nomeando M. Soares e A. Santos. Desenvolve uma das ideias/trocadilho que lhe dão gosto: “O Império que Nunca Existiu”.
Abre-se um hiato temporal; e só 8 meses depois, em Maio de 1975, volta Ed. Lourenço a intervir no campo político. E de que maneira! Vestindo a camisola do Partido Socialista, em artigo publicado no “Portugal Socialista” de 9 de Maio, no qual saúda “o nosso partido” (duas vezes) pela maioria eleitoral obtida nas eleições destinadas à Assembleia Constituinte. Trata-se de uma indiscutível declaração pública de adesão... num momento de vitória. Teremos então, a partir de Maio 75, o intelectual heterodoxo Ed. Lourenço, crítico acerado de sinédrios, escolas e doutrinas, convertido em membro mais ou menos ortodoxo, de um partido político? Ver-se-á. Desde logo, no texto de ingresso do neófito, verifica-se grande entusiasmo triunfalista e claro incitamento ao seu partido para “concretizar rapidamente a vitória nas urnas”. (Na verdade, parece haver aqui um certo ímpeto golpista...!).
De Maio de 1975 a Janeiro de 1976, Ed. Lourenço escreveu no “Jornal Novo”(com uma única excepção, em Out., na “Luta”, novo órgão do PS). Ora a escolha preferencial por um diário fundado, financiado e propriedade do grupo capitalista/fascista da CUF/Melos com o evidente propósito de desestabilizar o processo revolucionário e a vida interna do País, levanta enorme perplexidade quanto ao verdadeiro propósito do intelectual/ensaísta Ed. Lourenço ao misturar-se com esse tipo de gente. Um pensador com 50 anos completados, geralmente respeitado, a fazer fretes à contra-revolução num pasquim capitalista? Dá que pensar. E Muito!
Os três primeiros artigos de Ed. Lourenço no JN resumem-se a uma polémica travada com outro intelectual, Ed. Prado Coelho, sobre a “pureza” dos respectivos socialismos. Defende o “socialismo impuro” do PS e de M. Soares, contra o que chama socialismo dogmático de EPC, na altura oportuno filiado no PCP. O ataque aos comunistas está dentro dos parâmetros da estratégia PS, de “uma revolução possível”, em contraste com o projecto bolchevique atribuído ao PCP. Tudo bem. Diálogo de intelectuais bem-educados jogando xadrez, enquanto os turcos seljúcidas assaltavam as muralhas de Constantinopla. Pois que, em Agosto de 1975, o País já estava a arder, os caceteiros da direita e da Igreja pró-fascista dedicavam-se, impunemente - no norte, no centro e nas ilhas - a destruir sedes dos partidos de esquerda e a perseguir e maltratar os seus militantes.
Contra a Igreja ainda reagiu, violentamente, E. Lourenço, em artigo de 16 de Agosto, “Lembranças de Bernanos para o Arcebispo de Braga”. Ouvi-lhe ontem na televisão francesa a voz e identifiquei a imagem que a produzia. É o sacerdote fascista em todo o seu esplendor (pág. 146). No coração desse Minho, onde Vossa Exª. Rev.ª (D. Francisco Maria da Silva) é o pastor fanático... e o arauto da contra-revolução (pág.147). Mas mesmo aqui EL não esquece o remoque aos comunistas que provocaram, com requintes de inconsciência, o lobo secular da reacção.
E. Lourenço continua escrevendo no JN. A 4 Set. em título “O Camarada Vasco” desenvolve uma rigorosa crítica à permanência de Vasco Gonçalves à frente do Governo Provisório, defendendo com veemência as posições do PS e dos “moderados” militares, etc. (V. Gonçalves foi destituído, nesse mesmo dia em Tancos. EL escrevia de Dinard/França, com data de 29 Agosto). EL passa pelo “25 Novembro” instalado em França, donde telefona para o JN a 1 Dezembro (publicado em 3) congratulando-se com o triunfo dos socialistas realistas e com o fim do circo político. De caminho, aproveita para começar a castigar os autores principais da intervenção cirúrgica do 25 de Abril (que), salvo excepções, nem pelos dedos de uma só mão se contam os que possuíam envergadura política (pág. 160; sublinhado meu). Paradoxalmente, na mesma página, parece lamentar que os homens da Revolução (não tivessem) arcado com a responsabilidade plena do processo revolucionário... Acrescenta... Espero que não seja um Termidor, quer dizer, o princípio do fim da própria Revolução (pág. 168). Acertou! Foi mesmo.
O pequeno ensaio cujo título - supostamente irónico - foi adoptado para o conjunto do volume “O Fascismo Nunca Existiu”, foi tambémescritonoremansodadouce France”, e “Publicado no Jornal Novo, em fins de Janeiro de 1976, nas vésperas da defenestração de Artur Portela Filho”. Talcomo vemexplicadonopé-de-página177. Com efeito, A. Portela, director do JN, foi posto na rua pelo patrão Melo que, esse sim, não ficou com dúvidas filosóficas sobre o significado do 25 Novembro. O serviço contra-revolucionário estava feito... para a rua, pela janela, com um pontapé no traseiro, os intelectuais assalariados para a tarefa. EL nota, confuso e perturbado, que Neste mesmo jornal, com todas as letras, Marcelo Rebelo de Sousa... ousou escrever do 25 de Abril... um golpismo entre outros... E que se espera, já sem pejo nem peias, a almejada reposição do feliz sistema que nos regia (pág.182). Com pânico póstumo, manifesta-se assim o nosso filósofo, a partir França, a 25 Janeiro 1976... mas já o caldo estava entornado. Embora tendo perdido a tribuna do JN, não desistiu EL de intervir politicamente através da imprensa nacional... agora devidamente saneada e na posse dos “verdadeiros socialistas democratas”. No Diário de Notícias, de 27 de Fevereiro, dá conselhos aos retornados. Ainda de Vence, na mesma data, para “O Jornal” (querido hebdomadário do seu - dele - partido) num texto mais sério condena os manejos magistrais (sic) da União Soviética em Angola... este Alcácer Quibir sem restauração possível. De caminho: o que já ninguém ousa intitular “revolução portuguesa”... a ex-revolução portuguesa. Etc. Mais considerações labirínticas, com toque desalentador e apocalíptico sobre a realidade portuguesa, todas ditadas do retiro mediterrâneo, para o Expresso, “Diário Popular”, de novo para “O Jornal”, a 9 Abril sobre O Fascismo que “Nunca Existiu”. Numa cabriola dialéctica (pág. 234) deixa sugerido que o comunismo terá sido... o mais autêntico oxigénio do antigo regime.
Encerrando o volume , escreve já em Lisboa no 1º de Maio de 1976, um artigo de opinião para o DN (sai a 4), sobre Ressentimento e Colonização. O ressentimento é um labirinto, assim começa o texto. De labirintos, de infinitos labirintos, está repleto o cérebro - e a escrita - de Eduardo Lourenço. Neles se deleita o autor na sua “paixão de compreender”. Nem sempre com proveito para as causas que abraça, valha a verdade.
 
Eduardo Lourenço continuou pelos anos de 1976-77-78 empenhado no comentário político com intervenção activa no espaço público; concretamente, na imprensa nacional e, eventualmente, na francesa. Dessas intervenções, 52 estão reunidas no volume “O Complexo de Marx - Ou o Fim do Desafio Português” - Pub. D. Quixote; 1979.
Até final de 1977 são cerca de 30 os artigos de opinião publicados no semanário OPÇÃO. Rebento directo do Jornal Novo, o Nº 0 apareceu a 22 de Abril de 1976, na véspera das 1ªs eleições legislativas. Lá figura o mesmo director - Artur Portela Filho - e vários outros redactores e colaboradores provenientes do diário financiado pelo Grupo CUF/Melos. Entre os transferidos contava-se Ed. Lourenço. No Editorial de apresentação, a nova revista define-se como “semanário de esquerda para um projecto socialista simultaneamente audacioso e viável”. Para que não haja dúvidas, M. Soares em destaque fotográfico desde o primeiro número. Sobre qual a origem do financiamento não há noticia; mas o PS nadava em dinheiro oferecido às mãos cheias pelos “partidos irmãos” da cruzada anticomunista.
Seria tarefa fastidiosa proceder a uma recensão crítica - um a um - dos artigos escritos por EL nesses três anos... período correspondente à implantação do restauracionismo filo-fascista, consequência lógica do golpe contra-revolucionário do 25 Novembro 75. Aliás, as posições assumidas durante o combate aberto de 74-75 possuem um significado categórico muito superior às “acomodações” posteriores. E no entanto, para a finalidade restrita de apreciação da trajectória político/ideológica de E. Lourenço, algum interesse haverá. Veremos em que medida conseguiremos acompanhar o comentarista através do labirinto em que se compraz.
Em louvor de um socialismo-outro, EL colabora logo nos dois primeiros números da nova revista. No nº3 elogia M. Barroso, em nome da ética (!). Cita R. Eanes no n.º 9 (24 Junho76): “Ou o País se encontra ou se perde”; continuando interessado nas eleições presidenciais, comenta Estamos diante de uma situação catastrófica. (Mas onde diabo, eu já ouvi isto? Espera aí! Todos os anos, quase todos os meses - até agora Junho de 2005 - pela boca dos nossos queridos governantes democratas!).
Entretanto, façamos uma pausa para folhear a colecção da Revista onde escrevia EL; a qual, por suposto, devia ser lida pelo colaborador assíduo. Logo na Opção nº 1, José Sasportes (tinha sido subdirector do Jornal Novo), pergunta, com falsa angústia, em título gordo: Onde estão os Nove? Empalmados, claro, feito o servicinho à burguesia ingrata. Na Opção nº 2, uma maldade de jornalista atrevido: “ Votos contados com a Nato à vista”. Uma força naval imperialista tinha, de facto, entrado no Tejo para garantir a vitória da democracia deles. Nos nº 4 a 9 (24.06.76) notícias da recuperação capitalista: Pinto de Magalhães de volta ao seu banco; os latifundiários despojados exigem e recuperam, etc. Grande entrevista a Carlucci; separatismo nos Açores; bombismo e atentados; etc, etc. Isto é, notícias do seu País não faltavam ao exilado voluntário nos Alpes-Marítimos franceses; mais que suficientes para tomar consciência que, em Portugal, o restauracionismo estava em marcha acelerada, a reacção à solta, sob a batuta governativa do mestre socialista Soares. O sonho revolucionário utópico/viável, mítico/pragmático, apresentava-se bastante esfarrapado seis meses após a saudada reposição da “verdadeira democracia”. Permaneceu EL entrincheirado no seu labirinto teórico assistindo à derrocada, alheio ao seu significado? Não, absolutamente. Seria injusto afirmá-lo.
Escolhe o “Monde Diplomatique” (Out. 76) para reconhecer “O Fim do Desafio Português”; texto redigido (segundo nota de pé de página) em Julho. EL proclama à Europa (em francês) que a equívoca revolução portuguesa chegara à hora de balanço. Faltou-lhe nervo para concluir: balanço liquidatário. Coloca piedosamente nas mãos do PS o que resta de uma revolução. Ou seja: mesmo as últimas moedas vão para o bandido. Classifica de insólita e desconcertante a ficção política que se desenrola à beira do Tejo. Permita-me, ilustre pensador: ficção para diletantes... foi alegre multidão. Outros houve - embora bastante menos - que se jogaram inteiros no tal desafio.
No n º 30 da Opção (18 Nov. 76) ocupa-se da defesa do “Melo-Antunismo” (o que quer que isso tenha sido); com especial vigor do seu epónimo, alvo do ódio de classe da direita, segundo afirma. O neutralismo militar é uma fábula. Olhe que não! O próprio M. Antunes era adepto da dissolução do MFA e do regresso dos militares aos quartéis (ver grande entrevista de M. M. Cruzeiro, ed. Campo de Letras - 2002).
Porque a Europa será socialista ou não será, sentencia de modo peremptório, a 4 Dez, nº 34. Modo de dizer bastante frequente em EL, mas que se ajusta mal num pensador analítico. A seguir, porém, em Poética Política (Opção 37, 7.01.77) conclui o artigo com uma dúvida: Talvez a Política não releve da ciência (sobretudo da bem nebulosa “ciência política”) mas de uma espécie de poética apta a integrar aquela parte de imaginário que nunca mereceu atenção aos analistas “positivos” e “científicos” da aventura humana. Entende-se que EL valoriza mais o poético que o positivo ou científico. É bem capaz de ser assim.
Observa, em sucessivos artigos para o D. Popular (Março/Abril/Maio), com apreensão e mesmo alarme, as manifestações provocatórias e triunfalistas da direita saudosista; a crescente onda de anticomunismo patológico, “à chilena”, fazendo lembrar os piores momentos do Verão 75. Não poupa o partido da sua preferência discordando abertamente da histeria anticomunista nos ataques do PS ao PCP e à Intersindical. Se a Intersindical é o que é, à história da resistência da classe trabalhadora - uma das mais duras e inglórias do mundo ocidental - o deve (D. Pop., 24.05.77 e Opção Nº 55).
Em Agosto de 77 (Opção Nº 67) EL rende-se à evidência em artigo intitulado O Triunfo da Social-Democracia. A partir da noite de 22 de Julho o PS, enquanto partido do governo, é prisioneiro do PSD. Refere-se à aprovação conjunta da nova Lei da Reforma Agrária (a famosa Lei Barreto) e protocolo de colaboração entre os dois partidos. Restauração por que espera, já sem complexos, toda uma parte da sociedade portuguesa, nostálgica dos “bons velhos tempos” (pág. 126, sublinhado meu). Um pequeno ensaio, Socialismo e “Nova Filosofia”, é publicado em dois números da Opção, Nºs 74 e 75, de Set. 77. A nova filosofia, apresentada e representada por Bernard-Henry Lévy; vomitando na praça pública uma ideologia recente - o maoísmo, imprecando contra o marxismo... e fazendo as delícias da burguesia bem pensante europeia.
A partir de meados de Nov. 77 e até Jan. 78, será regular a colaboração de EL na Opção e no D. Popular. Consuma-se a decepção com o “socialismo” do PS e do respectivo patrão. Em sentido prático, considera morta e enterrada a Revolução do 25 de Abril. As forças da direita, com o PSD à cabeça, comandam efectivamente a política portuguesa. Por qualquer razão, não assinala a derrota parlamentar do I Governo Constitucional a 7 Dez 77, seguida da formação do escabroso II Governo - coligação entre o PS/M Soares e o CDS/F Amaral (posse a 30 Jan. 78). A Revolução não se suicidou... foi suicidada, escreve a pág. 151. Condena a experiência M Soares/PS sem uma onça sequer do ideal socialista, mas também por incapacidade técnica... Numdesnorteamentopatético - Março/Abril/Maio 78 - deposita as derradeiras esperanças nas Forças Armadas (!), no presidencialismo de Eanes (!!); redige o epitáfio da revolução portuguesa Revolução Abortada... ou Impossível para a revista francesa Esprit, mas que apareceu primeiro publicada na revista (!) “Abril” Nº 4, Maio 78. Um documento donde se extrai mais verdade sobre o autor, do que sobre a verdade da revolução.
Em 23 Maio 78, no D. Pop., assinala desalentado: a dramática situação histórica e política em que Portugal se encontra após 4 anos de experiência democrática. Como observador vivendo no exterior comenta: É doloroso assistir à degradação fulminante da nossa imagem. Ed. Lourenço chama a M. Soares hábil homem do séc. XIX... contorcionista absoluto; que, no fundo, pretende a totalidade do poder (3 Ag, D. Pop.). O II Governo Constitucional (PS/CDS) é destituído (“dispensado”) por iniciativa de R. Eanes; em finais de Julho, Ed. Lourenço volta a apostar no Presidente da República... para salvar o “socialismo português.
O volume “O Complexo de Marx” termina com um extenso ensaio (24 pág.) sobre a Crise Geral do Socialismo, publicadono D. Pop. em Dezembro de 78. A obsessão pelo PCP permanece intensa. Um novo governo - PSD, dirigido por Mota Pinto - toma posse em Novembro 1978. E. Lourenço fica mergulhado numa grande confusão: custa-lhe aceitar que no quadro de uma Constituição - filha de uma falecida revolução de ideais socialistas - passe a existir um governo da direita, caucionado pelo Presidente da República... o D. Sebastião de Eduardo Lourenço, sua esperança derradeira para a salvação do mítico “socialismo-outro”. Um Portugal redimido na aventura e na glória dos descobrimentos ideológicos!
 
Tendo percorrido, até final de 1978, na companhia de Eduardo Lourenço, de uma forma relativamente circunstanciada, a sua intervenção na luta política (de classes) ocorrida em Portugal nesse período - através de numerosos textos de opinião com implícitas tomadas de posição - poderia eu pensar ser a altura de tirar conclusões e encerrar o tema. Sucede, no entanto, que Ed. Lourenço continuou empenhado - até ao presente (2005) - em manifestar a sua opinião crítica sobre as avatares da política doméstica; e, a espaços, internacional. Com consagração oficial, tribuna aberta em qualquer orgão da comunicação social, prémios, comendas, etc. Um novo “corifeu”, como lhe chama M. M. Cruzeiro em livro que lhe dedica (ed. Notícias, 1998).
Nestas circunstâncias, acho necessário relancear - sucintamente, embora - o itinerário posterior do nosso filósofo interventor. Itinerário político/ideológico, entenda--se. Em terrenos de cultura literária e artística sou apenas um amador entre muitos. Contudo, desde logo, o ensaio/estrela de Eduardo Lourenço, o consagrado “Labirinto da Saudade”– Psicanálise Mítica do Destino Português – levanta algumas dificuldades de localização temática. Filosofia da cultura? História como mitologia? O facto é que no terço final do texto (de 44 pág.) estamos no “25 de Abril”, suas consequências, seus traumas, etc. E nesse território não sou estrangeiro.
O ensaio que granjeou a Ed. Lourenço a invulgar visibilidade mediática de que desfruta na sociedade burguesa/capitalista portuguesa (dita “sociedade civil”) foi publicado em 1978, pela editora D. Quixote. Seguiram-se cinco edições; outra pelo Círculo de Leitores (1998); e na Gradiva, a partir de 2000. Um indiscutível sucesso editorial.
O Labirinto é, quase sempre, apresentado como uma reflexão original sobre a “identidade portuguesa”; mas que é feita apoiando-se numa cronologia historiográfica determinada. De facto, desde cerca de metade do texto, a atenção do autor gira à volta do “profundo traumatismo” que teria sido provocado pela “derrocada abrupta do império colonial” (pág. 46, da 3ª ed. Gradiva-2004). Ou seja, EL tenta compaginar um processo psicoanalítico com uma visão histórica pessoal, onde avulta a sua (antiga) fixação no factor império. Enleando-se num labirinto reflexivo de dois comprimentos de onda, de improvável coincidência. O que, aliás, lhe foi apontado por vários críticos nos anos posteriores. Com efeito, o conspecto historiográfico adoptado no “Labirinto da Saudade” torna esse ensaio parte e sequência da intervenção política do autor na vida pública portuguesa; a cuja intervenção constitui, exactamente, o tema parcial e exclusivo que aqui nos ocupa.
Poder-se-ia, página a página, apontar e debater a solidez dos postulados históricos/historiográficos em que se baseia a construção do Labirinto; e daí, pôr em causa a validade do teorema místico lourenceano. Não o faremos, pois isso não se enquadra no propósito geral enunciado. No entanto, impõe-se - minimamente - deixar esclarecido que a escola de pensamento filosófico de Eduardo Lourenço nada tem a ver com o materialismo histórico marxista; e, ainda menos, com a teoria da luta de classes. São posições que ele tem assumido desde a universidade. Igualmente se tem demarcado do existencialismo ateu de Sartre e Camus. Numa primeira fase - segundo os especialistas - o filósofo Eduardo Lourenço terá sido atraído pela fenomenologia germânica. Husserl, em particular. Foi discípulo - ao que creio - de Paul Ricoeur (falecido em 2005, aos 92 anos), filósofo francês ligado ao movimento do “personalismo cristão” de Emmanuel Mounier e da revista Esprit. O facto - de certa maneira curioso - é que EL, num precoce 1969, fazia publicar no Esprit um artigo já intitulado “Le Labyrinte de la ‘Saudade’” (em M. M. Cruzeiro, bibliografia livro citado). Na altura, EL também colaborava na revista portuguesa “O Tempo e o Modo”, da mesma inspiração católica/progressista. Ainda por curiosidade, se anota que o escritor mexicano Octávio Paz (Nobel em 1990) é autor, em 1950(!), do ensaio “El labirinto de la Soledad”.
Teremos portanto, nos anos 70, um Eduardo Lourenço ainda atraído pelo “paradigma fenomenológico”, com a implícita exigência do rigor analítico de olhar para além - para mais dentro - da representação exterior da “coisa”, procurando a sua essência substancial - o nómeno - através de véus e labirintos. A psicanálise clínica/freudiana exemplifica bem a aplicação desses princípios. EL, de certo modo, inventa uma variante mística/sociológica.
Porém, se no campo de filosofia abstracta (pura) as dificuldades labirínticas podem constituir um desafio estimulante, já no campo da reflexão político/histórica - feita para o homem e à sua medida, onde a existência precede, decididamente, a essência - a “incomodidade “ de Eduardo Lourenço ir-se-á, progressivamente, acentuando.
A Psicanálise Mística do Destino Português, datada de 1978, está pejada de palavras e expressões (e, naturalmente, dos respectivos conceitos) do léxico idealista/freudiano: traumas... muitos; mitologias... diversas; metáforas e símbolos; utopias e sonhos; imaginários e evasões ficcionais; crenças irrealistas e saudosismos; milagre e impotência; etc. Por seu lado, a revisitação da história de Portugal em que se apoia o consagrado texto de EL, também segue a pista do imaginário, da representação mitológica, tão ao estilo e ao gosto literário/filosófico do autor. Assim, aí abundam os impérios míticos, a épica dos Lusíadas, os delírios de Vieira, o Pessoa da mensagem... até ao trauma da liquidação do último império (o colonial), resultante da revolução de Abril. Em toda a arquitectura da obra não há lugar para qualquer menção das causas e objectivos económicos da expansão marítima, da violência da conquista e do terror da cristianização, da ignóbil e desastrosa expulsão dos judeus, das perseguições do Santo Ofício, do tráfico dos negros escravos de África para os Brasis, etc. Esses foram os traumas dos “outros”. Com eles podemos nós bem, banhados pelo misticismo e pela boa consciência de construtores e herdeiros de impérios.
A época moderna ocupa o terço final do Labirinto. É curioso verificar como um intelectual que tinha - escassos dois anos antes - castigado sarcasticamente “O Fascismo que Nunca Existiu” (para Fascistas & Filhos), não consiga, por ele próprio, escrever uma só vez a palavra Fascismo nas 44 páginas do texto. Lá aparece “o anterior regime”, “o salazarismo”, o Estado Novo... até ao requinte de “o posterior regime”, quando observa o meio século fascista a partir da I República. Às tantas (pág. 48 da edição Gradiva) define o regime fascista como poder autoritário e semitotalitário. (definição que fez escola, até utilizada pelo actual PR).
No entanto, deve ficar expresso que Eduardo Lourenço nunca ignorou a realidade da existência da Revolução de Abril; em contraste nítido com o seu confrade filósofo José Gil - e com centenas de outros intelectuais, da praça lusitana, que mais não recordam de que um sobressalto! “A beata e hipócrita burguesia nacional” merece-lhe referências desprimorosas neste exame psicanalítico. Mas pode concluir-se que são as insuficiências e carências da revolução que mais o decepcionam. Quase a terminar, culpabiliza a revolução (em sentido amplo) “pela rapidez assombrosa com que procedeu à descolonização e aceitou as independências”. (A Grande Questão, O Grande Trauma para o pensador/intérprete da mística nacionalista portuguesa). Entenda-se que, no entender de EL, em 1978, o Partido Socialista compartilhava responsabilidades e objectivos revolucionários! Ainda levanta a dúvida (pág.61): Se a revolução de Abril sucumbir... O observador conceituado não reparava no assassinato de Abril, na perseguição aos revolucionários, no regresso e reinstalação no poder dos fascistas exilados. Sim, essa é a maior carência, a mais assombrosa deficiência da visão histórico/filosófica do ensaísta Eduardo Lourenço na sua Psicanálise: não conseguiu ver, não inscreveu na sua base de dados - tal-qualmente como José Gil - o fenómeno dialéctico, sobejamente identificado, da contra-revolução.
 
No mesmo ano em que apareceu o Labirinto da Saudade, EL publicou um texto da mesma índole - “Repensar Portugal” - (Rev. Abril nº2 - Março 78), no qual continua a revolver as questões da imagem e identidade, lamentando a reduzida participação da “classe intelectual” (sic) na “autognose” colectiva nacional. Mostra preocupação - num apontamento inédito - “com os preconceitos passionais, resultado do reflexo político/ideológico”.
Numa linha de pensamento mais interventiva, escreve o Prefácio ao livro de Otelo Saraiva de Carvalho, “Alvorada em Abril”... “ a três anos de distância em maré baixa duma boa parte das esperanças de renovação profunda” (Vence, Nov. 1977). Merece destaque a seguinte interrogação ali deixada por EL: “Há alguma coisa de comum entre o personagem que ocupou o centro da vida nacional (após Abril 74) e o jovem e desconhecido capitão que pacientemente, com um sangue-frio e uma candura que toca as raias do inconcebível, foi tecendo entre o 16 de Março e o 25 de Abril, os fios quebrados do que parecia condenado a mais um fracasso sem remissão?”. (O sublinhado é meu). Tem razão o ilustre ensaísta. Esse parece ser um dos grandes prodígios do 25 de Abril. Sempre quis acreditar que só é possível explicá-lo dentro de parâmetros exclusivamente psicológicos... e que essa impávida determinação de Otelo constitui o mais extraordinário mérito que lhe cabe em todo o processo do 25 de Abril, antes e depois e passando pela jornada da vitória.
 
Vamos agora dar um salto até 1996. Porquê esse ano? Porque é o ano do “triunfo” de Eduardo Lourenço. Triunfo literário, social e público; e, consequentemente, também pessoal. Consagração perante a “sociedade civil” portuguesa (e não só); ou seja, a burguesia capitalista representando o “sistema”... que é sua criação e usufruto.
No discurso de apresentação e elogio por ocasião do doutoramento honoris causa de E. Lourenço na Universidade de Coimbra (Maio de 96), o apresentador (Carlos Reis, prestigiado académico) enumerou: “....recentes distinções: homenagens e condecorações várias; doutoramento pela Univ. Federal do Rio de Janeiro; prémio D. Dinis concedido pela Fundação Casa de Mateus; a atribuição (há menos de oito dias) do Prémio Camões, distinção máxima a suscitar no premiado, por essa e outras razões, a máxima surpresa, expressamente confessada. Em França já tinha obtido o Prémio de Ensaio Charles Veillon (1988) e a Legião de Honra (           ). Note-se que o Prémio Camões é, em Portugal, na área cultural, o de maior valor pecuniário.
Entretanto, nesse lapso de 14 anos (de 1982 a 96) vão progressivamente diminuindo, em número e frequência, os comentários de EL sobre as flutuações da política interna portuguesa. Ainda n’ “O Jornal”, meia dúzia no “Expresso” e “Diário de Notícias”. Em 1985 participa no seminário promovido pela Associação 25 de Abril sob o tema genérico “A Condição Militar”. As considerações que elabora tornam-se cada vez mais teóricas e literárias, publicadas de preferência no “Jornal de Letras, Artes e Ideias”; a partir de 1989, na revista quadrimestral “Finisterra” por ele fundada e dirigida; Revista de Reflexão e Crítica, cujo 1º número tem por tema “O Socialismo do Futuro”. A problemática europeia - a Europa desencantada, como lhe chama - ocupa a maior parte da atenção crítica do ensaísta português estrangeirado radicado em França.
Durante ao anos 90, um autor difícil - labiríntico/apocalíptico - como Eduardo Lourenço, cujo percurso era mais conhecido e apreciado nos meios académicos e literatos, passa a ser objecto (daquilo que se pode chamar) de uma vasta campanha de promoção/marketing; em que não faltaram as grandes entrevistas; conferências publicitadas; colóquios; suplementos e teses; comemorações; traduções nas principais línguas “ocidentais”; etc. Campanha que obteve evidente êxito, convertendo EL num astro do firmamento mediático, consultado respeitosamente sobre os mais variados assuntos.
De 98 em diante até aos dias de hoje, as glórias e glorificações de EL continuaram em ritmo sustentado. Na verdade, correspondendo a uma produção intelectual intensa e vultosa nos campos literário e ensaístico; coadjuvada por um protagonismo assíduo nos diversos eventos de projecção pública, através dos quais marca presença a “comunidade da cultura”, entre nós e pelo estrangeiro. Além disto, sucederam-se as edições e reedições, as entrevistas programadas; e até mesmo documentários televisivos periodicamente retransmitidos. Duas das distinções de que EL foi alvo nesta mudança de século, são de indispensável registo: em 2000 é cooptado como administrador da Fundação Gulbenkian; em 2004 (salvo erro) é “coroado”, em palco, personagem do ano, no Festival Globos de Ouro promovido pela SIC (cujo dono é o conhecido empresário F. Balsemão, fundador do PSD e ex-1º ministro em 19 ).
Em princípio - como já foi dito e repetido - a cogitação intelectual stritu sensu de EL (que aparece frenética após consulta à bibliografia respectiva) está fora dos limites e da área da competência da presente recensão. Sucede porém que, em numerosas ocasiões, o frenesim gnoseológico de EL o leva a misturar toda a paleta argumentária; literatura com política, filosofia com história, ou amálgamas várias. Tudo bem; é a liberdade cognitiva. Mas que resulta em arrastar igualmente o leitor/comentador (que estas linhas escreve) para fora dos seus preestabelecidos limites.
Entretanto vamos pegar em 3 volumes de textos de EL, recentemente editados e/ou reeditados, que calha estarem aqui ao alcance da mão.
“Europa Desencantada” ; 1ª ed. 1999; 2ª ed. Fev. 2005
“Destroços”; 1ª ed. Março 2004
“A Nau de Ícaro”; 1ª ed. 1998; 3ª ed. 2004
Todos estes três volumes são colectâneas de artigos e ensaios originalmente publicados na imprensa, ou revistas nacionais e estrangeiras (francesas, na maior parte). Alguns textos são bastante antigos; p. ex. de 1972, em Destroços. Praticamente em nenhum dos três volumes se encontra qualquer referência a assuntos da actualidade política portuguesa. Os quais, nestes últimos anos, além de raros estão, ao que parece, reservados para a revista “Visão” (herdeira e continuadora do semanário “O Jornal”, fundado em 1975 como orgão PS). Coincidindo a colaboração de EL com efemérides comemorativas; ou em comunicações relativas a balanços retroactivos.
Em resumo, indo ao que mais interessa: no diagrama do intervencionismo engagé de EL na luta política em Portugal, os picos mais altos correspondem ao período 1974- -76; até 1982 a cota ainda é alta; vai caindo progressivamente, atingindo o zero técnico por volta da passagem do século. Diga-se desde já que o traçado desta “curva de empenhamento” tem óbvia importância para a tese que pretendemos demonstrar.
Torna-se também importante deixar sublinhado que, nas várias reedições do pensamento lourenciano dadas recentemente à estampa (anos 2000), revestem-se de especial interesse os novos prefácios do autor. Desde logo, o pequeno prólogo para uma das últimas reedições do consagrado “Labirinto da Saudade”, com data de Out. 2000, enviado de Vence, 22 anos após a 1ª edição de 1978. O título escolhido por EL para essa actualizada apresentação do afamado texto é, em si mesmo, deveras elucidativo: “Para uma Revisitação Improvável”. Desenvolvendo a ideia, EL deixa-nos assombrados. O autor parece querer renegar o filho dilecto do seu intelecto, adulto de 22 anos de existência, em pleno sucesso editorial, rodeado dos aplausos da sociedade de consumo burguesa /capitalista! “.... o  país que há vinte e dois anos podia justificar um livro como O Labirinto já não existe. Nestas duas décadas... mudámos, literalmente,... de mundo... porque o mundo conheceu uma metamorfose sem precedentes. Já não habitamos o mesmo planeta... Portugal nunca sofreu metamorfose comparável à dos últimos vinte anos. E acrescenta: Muitos encontrarão o diagnóstico alucinatório. Com efeito!! Com efeito, emérito pensador, procurar sair do labirinto pela via do apocalipse, remete para o desespero filosófico, para a inutilidade do esforço despendido a tentar compreender o destino da humanidade... a descortinar o futuro do País, da Europa, do Ocidente, do próprio planeta.
Ora num outro prefácio, escrito no mesmo local apenas dois meses decorridos, (para 2ª ed. “Europa Desencantada”, Vence, 26 Dez. 2000) deparamo-nos com um inverosímil volte-face nas perspectivas sombrias/desencantadas de EL. Consegue ver: “...uma espécie de milagre português. Um milagre que vinha a caminho há três décadas, mas que a adesão à Europa potenciou. E faz uma pergunta que o projecta completamente desfocado (a ele, alcandorado nos contrafortes dos Alpes, contemplando o azul mediterrânico) da realidade nacional neste ano de 2005, de todos os desânimos, numa maré baixa sem precedentes: Por que motivo, nós vivemos em termos de “autoestima” como se fôssemos o mais paradisíaco dos povos?
Pois é, prezado “penseur d’occasion”: os oráculos, os profetas, os corifeus lançados em hipérboles de ramos divergentes, correm o risco de serem apanhados fora do compasso histórico. Consequência inevitável de optarem pelo tempo irreal dos sonhos e dos mitos.
 
publicado por samizdat às 16:40
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