Sexta-feira, 11 de Janeiro de 2008

...

(Continuação)

Os conspiradores, conselheiros da (contra) revolução, dinamizados por V. Lourenço, pensaram poder resolver a magna questão da correlação de forças dentro do MFA, na última semana de Julho. Em traços gerais a manobra consistia, num primeiro tempo, em fazer aprovar uma moção de desconfiança a V. Gonçalves, dissolução da 5ª Divisão, etc., por uma assembleia-pirata da Arma de Infantaria realizada na noite de 23 em Mafra, na respectiva Escola Prática. Isso foi conseguido com facilidade pelo manipulador V. Lourenço. Num segundo tempo, urgentemente, tratava-se de fazer aprovar pelo conjunto do Exército, essa mesma moção, Para o efeito, é convocada ad-hoc urna assembleia para a tarde de 24, nas instalações do Centro de Sociologia Militar. E foi aí, nessa data e local, testemunhada por dezenas de presentes, que se deu a cena de violência e desespero protagonizada por Vasco Lourenço, que tanto vos fascina. (Levando-vos a cometer o erro crasso de a situar na sequência imediata do 11 Março). Pois a aprovação da moção, que ele pensava serem favas contadas, foi rejeitada pela maioria, após a intervenção da 5ª Divisão no debate. De cabeça perdida, impedido de me agredir por C. Fabião e outros, espumando de raiva, exclama, apontando na direcção de Manuel Clemente: "A ti ainda posso admitir certas coisas, mas àquele gajo (apontando para mim) hei de acabar por lhe dar um tiro" (pág. 175, ib). Pois é, meus caros cronistas de “Dias Loucos”, a loucura esteve onde sempre está: na classe que fica aterrorizada com a simples ideia de uma revolução efectiva, com a perspectiva - por mais absurda que seja - de vir a perder as "propriedades"; mesmo a miserável courela pendurada em qualquer arriba pedregosa. Pareceria que estava gorado o terceiro e conclusivo tempo do golpe institucional, consoante o plano dos conspiradores; ou seja, apresentar na Assembleia do MFA, marcada com antecedência para 25 Julho, a moção de desconfiança do Exército, supostamente aprovada no dia anterior. Ora, a verdade, é que essa assembleia estava a correr bastante mal para os contra-revolucionários. Vasco Gonçalves, a 5ª Divisão e os militares progressistas, obtinham sistemático vencimento para os seus pontos de vista. A derradeira esperança dos conjurados residia no infiltrado que presidia aos trabalhos: o general Costa Gomes. E tinham razão para confiar nessa toupeira astuciosa até ao fim, até ao 25 Novembro. Foi um espectáculo de tragicomédia, de malabarismos, de desonestidade de processos, de tudo se serviu C. Gomes para desmobilizar a assembleia, para safar os seus homens de mão que estavam escondidos ali ao lado, no Ministério dos Negócios Estrangeiros, e se recusaram a comparecer perante a assembleia soberana em cumprimento de moção da 5ª Divisão aprovada nesse sentido. Sim, tem razão V. Lourenço, citado a pág. 218 nos “Dias Loucos”: "Esta foi a mais dramática de todas as assembleia do MFA, ainda pior que a chamada assembleia selvagem do 11 de Março". Pois foi. Ele sabe do que fala. Do abismo, à borda do qual os salvou, in extremis, o camarada anticomunista contra-revolucionário Francisco Costa Gomes. Foi também a última assembleia institucional. O último alento do MFA revolucionário. A história está devidamente contada, a pág. 179 e seguintes no meu livro de 1981. É pena que tenha escapado aos dois conceituados articulistas. Loucos, houve muitos, sem dúvida... o que, fortemente, vos impressionou até ao presente. Traidores, houve ainda mais... mas isso não parece ter-vos impressionado por aí além. Enfim, sensibilidades...

 As Semanas 21 a 26 correspondem ao período de 29 Julho até à primeira semana de Setembro. A meia derrota sofrida na Assembleia de 25 Julho, atrasara os planos conspirativos. Apesar disso, seguros do respaldo do Presidente da República, esporeados pelos governos NATO e respectivos serviços secretos, os conselheiros da revolução, doublés de conjurados inimigos da (mesma) revolução, redobraram de zelo para ultrapassar o percalço... durante todo o mês de Agosto, até ao Pronunciamento de Tancos (sic, “Dias Loucos”) que, sem a menor dúvida, representa o acto final de sabotagem e destruição do MFA.

O chamado Documento dos 9 (ou Doc. Meio Antunes) é um recurso tornado necessário devido ao insucesso do golpe institucional de 25. Foi elaborado à pressão, feita sentir pelos amigos e agentes das democracias ocidentais. V. Lourenço assina sem ler (pág. 238, “Dias Loucos”). O documento é publicado na 3ª edição do Jornal Novo, pela meia-noite de 7 Agosto (Nada mau, naquela terrível ditadura sem liberdade de imprensa e com ameaças de censura militar... assim dizia - e espalhava pelo mundo - o eminente ilusionista político Dr. Soares). Distribuído pelos quartéis clandestinamente, o que leva a 5ª Divisão a exigir acção disciplinar contra os autores. Foram, teoricamente, suspensos de funções; mas o autor destas linhas, esse sim, foi, efectivamente, saneado da 5ª Divisão, a 12 Agosto. Malabarismo típico do mestre da intriga palaciana Costa Gomes. Dá para aplaudir!

 O bando conspirativo militar, com mais esse sinal verde do comandante supremo, prosseguiu à vontade com a tarefa de desmantelar o MFA e preparar o regresso à velha ordem caserneira. Recebeu o auxílio precioso - mas não inesperado - do desgraçado do Otelo. Escolheu a ocasião para atirar um coice de burro a Vasco Gonçalves, na forma de uma Carta-Aberta, tipo punhalada traiçoeira pelas costas. Este homem podia ter morrido como herói, logo a seguir ao 25 d' Abril. Ainda vivo, vai acabar por morrer desprezado por toda a gente, como um folclórico Comandante Zero.

 Pouco demorou para se verificar a extinção da 5ª Divisão, a 27 Agosto, manu militari, por decisão de um virtual CR e ordem directa de Otelo a Jaime Neves (Jaiminho, como ele o chamava, ternurento). A contestação a Eurico Corvacho, no comando da Região Militar Norte, era encorajada pelo bando conspirador sabotando a acção do respectivo QG. Acabou por ser substituído, a 13 Setembro, depois de Tancos, pelo cripto-fascista Pires Veloso. Todas estas peripécias - e outras mais, que configuram a sabotagem do aparelho militar por instigação do bando contra revolucionário - estão relatadas pormenorizadamente no meu livro de 1981. Nada justifica reproduzi-las aqui, em 2005/2006, visto terem já estado ao dispor dos interessados durante 25 anos. Apenas um apontamento pro domo: a 5ª Divisão, apesar de eliminada por via de assalto e destruição, esteve em Tancos, reclamando a sua participação na Assembleia do MFA, por direito individual dos representantes designados. Eis a reacção tolerante/pluralista de S. Exª o Presidente da República e, por inerência, presidindo ao Pronunciamento: "Não autorizo. Se o cor. Varela Gomes tentar desobedecer será imediatamente preso". Uma vistosa guarda pretoriana, à entrada e ao redor do recinto da assembleia, dava consistência à ameaça. Não saí de Tancos sem deixar o meu protesto (escrito), verberando duramente a atitude de responsáveis nacionais ao mais alto nível, entregando-se a intrigas e conspirações, enquanto tropas estrangeiras invadiam territórios militares sob jurisdição portuguesa (Angola e Timor).

Fica a interrogação dirigida, em especial, aos prezados autores de “Dias Loucos”: Por que será que esta assembleia de Tancos, nunca leva a adjectivação de "selvagem"?

No plano estritamente político, os partidos burgueses e os partidecos esquerdalhos maoístas, exultaram com a derrota de V. Gonçalves. Estava aberto o caminho para a "verdadeira revolução", vociferavam os educadores do povo, M. Soares e A. Matos, exigindo a dissolução imediata do MFA, acabar com o CR, militares para os quartéis... já! Os nove do Bando devem ter começado aí a perceber que não passavam de nove fantoches.

No plano da agitação contra-revolucionária e violência anticomunista, o diário de “Dias Loucos” transmite uma panorâmica suficientemente elucidativa: estado de Guerra Civil larvar, com o poder na rua em grande parte do País, Ilhas adjacentes, Angola e Timor; só possível pela passividade, pela cumplicidade, digamos mesmo por instigação oriunda de dentro do próprio Movimento das Forças Armadas. Nova interrogação aqui se levanta: por que será que os "contras" nunca identificam a Guerra Civil que estão ateando e se fingem aterrorizados com semelhante hipótese? Bem, neste caso a explicação pode ser simples; assim a modos do ladrão ou do assassino que, depois de cometer o crime, sai a correr gritando para a multidão aparvalhada: agarra que é bandido.

Tive oportunidade de presenciar, em Agosto de 1975 (dia 16), o ataque organizado pela reacção clerical-fascista, em Alcobaça, contra um comício do PCP, previamente anunciado com a participação de A. Cunhal (pág. 206/7, ib). O pavilhão foi cercado, começou a ser alvejado com pedras e depois com tiros. A segurança do PCP decidiu - e bem - que era preciso sair para o exterior e quebrar o cerco. Ao fim de cerca de três horas e meia de luta e correrias os terroristas estavam desbaratados, o cerco levantado e uns dez prisioneiros atestavam a vitória dos sitiados. Finalmente, passadas quase cinco horas após ter sido pedida protecção às autoridades militares, chegava um pequeno destacamento das Caldas da Rainha. O capitão, ainda antes de ouvir qualquer coisa, já estava a declarar que não podia fazer nada sem ordens superiores. Entregaram-lhe os prisioneiros... que devem ter sido largados, ali ao virar da esquina. Dentro do pavilhão gimnodesportivo de Alcobaça encontrava-se, curiosamente, gente preparada para assistir a um desenlace diametralmente inverso ao ocorrido. Marvine Howe, agente da CIA, colunista do NY Times, nas horas vagas madrinha do PS português e amiga íntima de Mário Soares; um enviado especial do Daily Telegraph; um contingente excepcionalmente numeroso de latagões louros com potentes objectivas a tiracolo etc., etc., ... Engraçado, não é? Como, com um único exemplo, fica a nu toda a trama, toda a mentira, toda a infâmia da campanha montada contra a revolução portuguesa... e como teria sido simples correr com a canalha mercenária que andava mascarada de povo por conta dos caciques locais... se menos traição houvera e mais audácia tivesse havido.

Na Semana 26 há noticia do "Comité para a Defesa da Democracia em Portugal" Reúne-se em Londres, muito solícito pela saúde da democracia portuguesa - após 50 anos de encantamento com a ditadura fascista de Salazar/Caetano - a nata dos dirigentes políticos, procuradores do capitalismo europeu: H. Wilson, O. Palme, F. Miterrand, o "nosso socialista" M. Soares e Willy Brandt, eleito presidente de um sub-comité da Solidariedade. (O Tal Canal por onde escorria o cacau para a contra revolução, e cujos cheques mantinham alta a fé democrática dos nossos socialistas, campeões da liberdade pluralista). Perguntando novamente: mas, se isto não é ingerência estrangeira, então como se chamará?

Período de (10) Semanas, entre Tancos (2/5 Set.) e o Golpe do 25 de Novembro: Depois da encenação/golpaça de Tancos pareceria que a questão do poder político estava resolvida. No plano militar, o "gonçalvismo" (a esquerda militar revolucionária), ficara formalmente liquidada; no plano político/partidário, os partidos burgueses contra-revolucionários sentavam-se como vencedores, à mesa do VI Governo (Pinheiro de Azevedo). No entanto, o facto é que não se verificou uma imediata "exploração do sucesso", conforme recomendam os manuais de estratégia. Por um conjunto de razões, onde, certamente, avultariam as contradições entre os grupos conjurados; em especial, no grupo dos conspiradores militares (Bando dos 9 e adesivos) que depressa se descobriram reféns das alianças escabrosas que tinham estabelecido com os extremistas da direita e do esquerdismo. Com efeito, as forças populares pareciam dominar a "Comuna de Lisboa": além da FUR, principalmente os SUV (criados logo a seguir a Tancos), aterrorizavam a burguesia militar e civil; e não apenas cá dentro, em Portugal. Para mais atrapalhar, tinham elegido o Copcon como força de choque para implantar o Poder Popular; e Otelo (embora à revelia do próprio) como chefe e líder dessa nova fase do revolucionismo popular. Ora os MFA golpistas contavam com a fidelidade do comandante do Copcon! A verdade é que foram precisos quase três meses para resolver a crise das contradições conspirativas e vencer os últimos redutos da resistência antigolpista. Nessa derradeira luta, também participou a "extinta" 5ª Divisão. Um documento importante foi difundido em 27 Outubro 1975: "Carta Aberta ao Gen. Costa Gomes", no qual se denunciava "a alta responsabilidade do gen. Costa Gomes na crise político-militar do Verão de 75, que preparava o regresso da burguesia ao poder". Foram, na altura, distribuídos milhares de exemplares desse folheto de 24 páginas, cujo fac-simile integra o meu livro de 1981 já citado. (É pena dele não terem tomado conhecimento os revisitadores do PREC). Nesse mesmo intervalo de tempo vários comunicados das Comissões de Vigilância Revolucionária das Forças Armadas foram iniciativa da "clandestina" 5ª Divisão. É um mérito que reivindicamos, ter assim contribuído para atemorizar a facção militar vencedora de Tancos, até para além da data prevista para a independência de Angola.

(Abro parêntesis para estranhar uma insólita reportagem fotográfica que ocupa duas inteiras páginas de “Dias Loucos” (328-9), mostrando V. Gonçalves e família na praia do Guincho, em fins de Setembro 75, já depois de ter abandonado o governo. De informação não se trata, obviamente. Será pretensa contra-informação? Com validade até 2005/06!? Ele há coisas que nem o diabo entende!).

Neste período - nos últimos 80 Dias Loucos do PREC - foi indiscutível o clima de pré- guerra civil que se viveu em Portugal. Eram diárias as provocações da direita e extrema-direita, mais comparsas ocasionais, loucos, muito loucos, ou fingindo que eram loucos. Terrorismo, bombismo, mortos e feridos, vandalismo e incêndios, deserção em massa do oficialato aviador, complôs independentistas, preparativos de intervenção estrangeira, etc... não faltam notícias alarmantes nas páginas finais de “Dias Loucos”. Na Madeira, por exemplo (pág. 337), no dia 8 de Outubro já eram readmitidos os fascistas saneados pós 25 de Abril e expulsos da ilha os comunistas ou, simplesmente, disso conotados. A esquerda populista convoca a "maior manifestação operária de sempre" para S. Bento - a 13 Novembro - põe cerco à  Assembleia sem obstrução policial... e dispersa, após negociações e promessas, aos gritos de Vitória, Vitória. Restavam os militares, como derradeira esperança revolucionária, isolados num último reduto de duvidosa consistência (Copcon), num papel que, em elementar lógica de luta de classes, não lhes incumbe. O desfecho final, duas semanas depois, tal como veio a acontecer, estava à vista.

Timor era invadido pela Indonésia em 17 Outubro. Adelino Gomes encontrava-se lá na altura e pode testemunhar a (in)disposição combativa do governador, outro militar da confiança pessoal de C. Gomes, cooptado pelo MFA.

Em Angola, o exército português só se manifestava na caça aos comunistas do MPLA (J. Neves dixit), enquanto a invasão progredia pelo norte e sul. Chega-se a 11 Novembro, dia da independência - com a FNLA no Kifandongo e os sul africanos no Cambanbe - o MPLA proclama o nascimento do novo País. A representação oficial portuguesa (VI Governo do MFA, P. Azevedo) não esteve presente. No avião que a transportava, sobrevoando Luanda, pareceu-lhe (ou melhor, quis parecer-lhe) que a cidade estava sendo conquistada por zairotas e sul-africanos. Resolveu dar meia volta. Novamente, os entreguistas moderados que já tinham apostado na intervenção imperialista em Timor, estavam fazendo o jogo dos EUA. Efectivamente, a independência de Angola só foi reconhecida por Portugal meses depois, desvendando um dos principais objectivos da golpaça de Tancos.

A jornada do 25 de Novembro está contada em “Dias Loucos”, segundo a versão oficial, abstendo-se os autores de considerações analíticas. Por meu lado, já me pronunciei exaustivamente a esse respeito em livros e artigos. Inclusivé no Expresso/rev. 25 Nov., 2000.

Podíamos acabar a presente recensão na pág. 398 do vosso álbum de 2005/06. Uma grande fotografia de Duran Clemente aos microfones da RTP, que tinha ocupado em nome da Revolução... cuja última imagem, a que ficou para a História, a que ficará para Sempre, foi a de um rosto da 5ª Divisão. Glória aos militares revolucionários que não traíram a confiança do Povo, que até ao último minuto ocuparam o seu posto na primeira linha de combate pela libertação de Portugal de séculos de obscurantismo; de submissão a regimes e governos que só pretendiam - como pretendem - perpetuar a desigualdade social e a exploração das massas trabalhadoras. 

Podiam, por seu lado, os autores do álbum em recensão, tê-lo acabado com outra imagem forte: a do vencedor oficial do 25 Novembro, R. Eanes, de patilhas e óculos escuros (à Pinochet), tendo em fundo as ruas desertas de Lisboa, habitadas apenas pelo medo, frustração e luto. Seria a imagem desoladora do estado de sítio, contrastando brutalmente com a alegria e o entusiasmo popular no 25 de Abril de 1974. Ora, como perfeitamente sabem os dois veteranos jornalistas, uma imagem vale bem mil palavras... Seria a mais verdadeira e reveladora crítica do 25 Novembro. Podeis crer.

Observações Finais – Após termos folheado, sublinhado e anotado com razoável atenção o volume “Os Dias Loucos do PREC”, impõem-se algumas observações genéricas, digamos, de ordem propedêutica.

Desde logo, uma evidência óbvia que não deve ser escamoteada: a obra é, por definição, um trabalho de jornalismo, efectuado por profissionais jornalistas. Ou seja, não se trata de um estudo académico, de responsabilidade histórica, ou historiográfica. O seu estatuto é, portanto, menor. Em teoria, o jornalismo consiste numa mensagem descritiva. O foto-jornalismo traduz esse conceito em estado puro. A foto fala por si só. Olhando para ela, o observador tira as suas conclusões... se nisso estiver interessado, ou para tanto tiver capacidade. O mesmo se aplica ao leitor da notícia escrita. Ele é o julgador; não compete ao jornalista esse papel. Em rigor teórico, o jornalista não emite opinião, não toma partido. A notícia é neutral. Factual.

Ora, na realidade, todos nós sabemos que as coisas humanas... as ideias, as atitudes, as opções sentimentais ou ideológicas, os impulsos do carácter e da natureza pessoal, etc., ... contêm uma inevitável carga subjectiva. De maior ou menor peso, consoante o domínio da mente sobre o irracional; consoante a capacidade de resistir aos valores e constrangimentos mundanos. É a famosa "circunstância", que a sociedade cria... e que a sociedade (classe) dominante procura converter em lei de dominação. O resultado final acaba, com muita (demasiada) frequência, afectado por essa circunstância social.

Uma segunda observação - de igual aparência óbvia - consiste em reconhecer que o trabalho relativo a”Os Dias Loucos do PREC”, realizado em 2005/2006, trinta anos sobre os acontecimentos, obedeceu a um determinado (!?) propósito retrospectivo. Aliás, são os dois promotores da publicação (Público e Expresso) que, em nota de apresentação do volume confessam ter sido norteados por grandes ambições. Dizem a abrir, Henrique Monteiro (director do Expresso) e J. M. Fernandes (idem, Público) pretender cumprir "um desígnio próprio dos jornais de referência: ajudar à fixação da história... trazer a lume novos dados... nova e interessante informação... acrescentar... etc". Ora semelhante "carta de intenções", quando afirma a desmedida ambição de fixar a história, ultrapassa em muito o estatuto jornalístico (Atitude um tanto excessiva, meus caros. Não deve o sapateiro ir além da chinela.) Acresce que os dois ilustres directores denunciam qual é o seu propósito retrospectivo, declarando ab initio: "Portugal esteve à beira da guerra civil entre a liberdade e um novo totalitarismo". Fica determinado todo um programa de análise; por outras palavras... o gato escondido ficou com rabo de fora. E lá se vai a desapaixonada objectividade da obra jornalística! Tenham paciência, mas não resisto; sendo do conhecimento geral a vossa empenhada militância juvenil maoísta (1975), será que ainda o totalitarismo Pol Pot, vos atormenta o sono e a consciência? Não quero acreditar! No presente radioso do neo-liberalismo americano, acomodados às delícias do capitalismo consumista, o propósito dos directores/promotores de “Os Dias Loucos” teria de ser - decerto que foi - politicamente correcto: isto é, tentar fixar para a história a versão dos contra-revolucionários, vencedores do 25 Novembro 1975. E viva Mao e a Revolução Cultural, que tão bons dividendos pagou - e vai pagando - aos seus arrependidos.

No entanto, na Introdução assinada por Adelino Gomes e J. P. Castanheira, ambos declaram explicitamente: "Isto não é pois um livro de história. Antes pretende ser um mergulho na história de Portugal contada no presente... uma revisitação". Embora admitindo a existência de duas abordagens diferenciadas: no Público, mais noticiosa; no Expresso, mais interpretativa, o facto é que a tese do "mergulho no passado" fica bastante prejudicada, quando simultaneamente se reconhece ter havido alterações nos artigos publicados em 2005, com recurso a testemunhos posteriores e mesmo entrevistas a protagonistas. Na realidade, parece confirmar-se que o produto final foi um digesto de demorada reconstituição, com um propósito deliberado. Creio que essa digestão não foi inteiramente feliz. Em particular, em relação a todos os episódios e acontecimentos em que fui protagonista ou testemunha presencial, conforme atrás foram assinalados. São mencionadas algumas influências recentes, com relevo para a académica M.

Inácia Rezola, cuja tese de doutoramento de 2004, aparece abundantemente citada por J. P. Castanheira. Em próxima oportunidade, me ocuparei das teses defendidas por essa investigadora na obra lançada no mercado sob o título de "Os Militares na Revolução de Abril".

Dentro do escopo que mais cabe a uma obra de carácter jornalístico, não me custa realçar - e já o fiz noutra ocasião - o mérito e a utilidade da recolha do enorme volume de material informativo reunido pelos autores em “Os Dias Loucos do PREC”. Não será o menor dos méritos terem, destarte, retirado argumentos aos eternos queixosos (e a muitos farsantes) que sempre justificam a sua pretensa ignorância sobre a Revolução de 1974-75, pela inexistência ou escassez de informação. Pois aí têm, outro extenso repositório. Haja capacidade de cada um, em desbravar o terreno e extrair conclusões... isentas de ideias preconceituadas e dos efeitos corrosivos da má consciência.

A finalizar, merece destaque uma observação metodológica dos autores, incluída na comum Introdução: Ninguém pode garantir que uma ditadura esperava os portugueses se o 25 Novembro não tivesse travado a cavalgada revolucionária. Pois não. Assim o bom senso analítico corrige os postulados fanáticos dos cristãos-novos do capitalismo neo-liberal. Além disso, apraz ver considerado como um dado adquirido o facto de caber ao 25 de Novembro a responsabilidade histórica de ter travado a Revolução Portuguesa.

Por outro lado, poderia ter sido omitida a frase de OteIo, em 1999: "O 25 Novembro retomou a pureza do espírito do 25 de Abril". Não havia necessidade. Haja comiseração.

***

O lançamento no mercado de “Os Dias Loucos” teve lugar nas instalações do semanário Expresso, em cerimónia formal realizada a 18 Abril 06, perante algumas dezenas de convidados. Teria sido um acontecimento banal de marketing livreiro, não fora o significativo elenco de personalidades que se deram ao cuidado de se deslocarem a Carnaxide. Nas primeiras filas (foto Público, ed. 19 Abril), dois ex-presidentes, M. Soares e R. Eanes; os líderes dos partidos políticos burgueses, incluindo J. Sócrates; o presidente da Assembleia, J. Gama e o da Câmara de Lisboa. No aglomerado de militares reformados (excluindo uma meia dúzia fora do baralho) estavam todos os notáveis novembristas. Mais pessoal da área do PS e ex-maoístas.

Ora não há dúvida que os aplausos de semelhante plateia representaram aprovação, digamos mesmo apadrinhamento, da obra apresentada e de seus autores... que sobre ela falaram na ocasião. Poderá acrescentar-se - numa certa perspectiva - que a frente anticomunista que liquidou a Revolução Portuguesa em 25 Novembro 1975, aproveitou a oportunidade, três décadas passadas, para afirmar que continua pronta para nova cruzada contra-revolucionária, que lhe garanta os privilégios e os direitos, entretanto mal adquiridos.

Mas houve um pormenor que ilumina toda a cena. Refiro-me à personagem que foi escolhida para fazer a apresentação do livro. Martha La Cal, correspondente da revista americana Time, era, já antes de 1974, apontada nos meios da oposição antifascista, como agente da ClA. No entanto, julgo que nunca ninguém lhe viu o cartão profissional. Nem, na verdade, a senhora teria categoria para tanto. Quanto muito foi familiar dessa Santa Casa... no sentido dado aos informadores do Santo Oficio, nos bons e velhos tempos da Inquisição e da olvidada PIDE. Mas da fama não se livrou. Andam por aí ainda muitos jornalistas que frequentaram a sua casa no Dafundo, onde decerto encontraram outros correspondentes de imprensa americana, também alegadamente pertencentes à Companhia. Lembram-se da Marvine Howe? Coitada, já faleceu. Tão patriota, a inocente senhora! Quase tanto como o Carlucci. Um importante embaixador, agente da ClA? Que calúnia! (Só mesmo de comunas).

Quem se teria lembrado de Martha La Cal (então não é que parece mesmo nome de romance de espionagem?!) para apresentadora de “Os Dias Loucos”? A resposta plausível é a de ter sido a mesma pessoa que convidou o Carlucci para coroar Mário Soares rei da festa Globos de Ouro da SlC, em 1997, no Coliseu dos Recreios. Alegadamente, o patrão da SIC/Expresso, Dr. Pinto Balsemão, ex-primeiro ministro do Portugal Democrático. Claro que houve, nesta cerimónia de 2006, uma real diminuição de estatuto, relativamente à apoteose do Coliseu. Carlucci foi o chefe da orquestra golpista do 25 de Novembro; dona Marta, mesmo agora 30 anos por cima, deve ser apenas 2ª violinista aposentada. Enfim! Foi o que se pôde arranjar, em época de crise, Portugal relegado para a categoria mais baixa do campeonato mundial.

Para rematar, confesso, que esta "cereja em cima do bolo" me faz arrepender de algum benefício de dúvida que prodigalizei ao longo da recensão de “Os Dias Loucos”. A versão sobre o PREC aí contida, ficou definitivamente capturada pela cavernícola reacção portuguesa, contra-revolucionária, miguelista, caceteira, clerical. (Finalmente: o regresso ao séc. XIX, que tanto fascina a elite prá frentex do simplex das tecnologias internéticas). Lamento o facto, porque isso vai afectar a credibilidade do trabalho, e o prestígio dos seus autores. É, também, caso para dizer:

Não havia necessidade.

Lisboa, Agosto de 2006

Fez) J. Varela Gomes

publicado por samizdat às 22:45
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