Terça-feira, 2 de Setembro de 2008

A BANALIDADE DA IMPOSTURA

 

                                                               J. Varela Gomes
Ana Arendt, filósofa e ensaísta judia/alemã, que conseguiu escapar do III Reich hitleriano em 1938, esteve presente no julgamento do criminoso nazi Eichmann, realizado em Jerusalém/Israel no ano de 1961. O perseguidor dos judeus - como ficou conhecido- tinha sido raptado pelos serviços secretos israelitas (Mossad) na Argentina, país para onde se evadira após a derrota da Alemanha nazi. Ana Arendt estava em Jerusalém na qualidade de correspondente da revista americana New Yorker.
O resultado dessa experiência jornalística foi convertido em livro editado em 1963 (ed. port. de 2003), levando como sub-título original “Uma reportagem sobre a banalidade do mal”.(A report on the banality of evil) ; expressão que traduzia aquilo que mais impressionou a autora, ao observar a conduta do réu durante dezenas de sessões do tribunal. O acusado, responsável pela eliminação de cinco milhões de seres humanos (judeus, mas não todos), revelava-se um sujeito banal, considerando-se apenas um funcionário zeloso, estrito cumpridor de ordens superiores, alheio ao conteúdo das mesmas, sem nutrir qualquer ódio em relação às vítimas; e cujo maior desgosto, que levou para o cadafalso, foi não ter sido promovido acima de ten-coronel na hierarquia das SS. A.Arendt atribui-lhe total ausência de pensamento reflexivo, de consciência da realidade, de genialidade demoníaca, ou sequer maldosa... .em suma, um sujeito banal; o que a levou a interessar-se “pelos contornos morais da participação de pessoas respeitáveis, ditas normais”, em regimes e situações em que, igualmente banais eram os crimes contra a liberdade e os mais elementares direitos humanos.
Ora, a tese da “banalidade do mal”, embora apresentada debaixo de um ponto de vista filosófico como lição e nunca como atenuante na condenação de Eichmann e de todos os outros responsáveis nazis, suscitou críticas ásperas designadamente por parte do guardiães do Holocausto ;  para os quais o extermínio dos judeus decretado por Hitler, constituiu o “mal absoluto”. Mas onde a controvérsia atingiu maior amplitude, foi quando a autora põe em causa a sociedade do seu pais natal ; não só durante o período nazi, mas também na posterior democracia presidida por Adenauer e tutelada pelos vencedores ocidentais. Transcrevendo : “E a sociedade alemã, com os seus oitenta milhões de pessoas, tinha-se defendido da realidade dos factos exactamente da mesma maneira, com a mesma auto-ilusão, as mesmas mentiras e a mesma estupidez que eram agora parte integrante da mentalidade de Eichmann...... De tal modo que hoje, dezoito anos volvidos sobre o colapso do regime nazi, quando o conteúdo exacto dessas mentiras se encontra quase totalmente esquecido (eu diria: recalcado) ainda é por vezes difícil acreditar que a mentira não se haja tornado parte integrante do carácter alemão”. (Em aparte: No maravilhoso mundo da banal democracia neocon, desabafos de semelhante teor chegam para votar ao ostracismo o mais prestigiado dos filósofos)
 
O exórdio foi um pouco alargado, mas o leitor decerto entendeu onde se pretendia chegar : projectar no caso português as reflexões de AA sobre os efeitos da banalidade do mal no carácter nacional e no das pessoas, ditas normais; quer no antigamente fascista, quer no presentemente demo reaça. Sem ignorar as evidentes diferenças de escala; embora as diferenças de género não sejam tão flagrantes. Não tivemos por cá câmaras de gás ou extermínio programado de raças consideradas inferiores; a banalidade do fascismo português foi, naturalmente, mais caseira; todavia durou 48 anos, contra os 12 do nazismo hitleriano (de 1933 a 45). Quanto aos efeitos sobre a identidade nacional e sobre as “pessoas respeitáveis” (isto é, a burguesada gorda) penso ser lícito o paralelismo.
No entanto no Portugal contemporâneo, do antes e do depois de 74, o mal metafísico, o mal absoluto das teodiceias, radical e diabólico, mesmo o mal já banalizado de A.Arendt, nenhum deles ocupou por aí além a mente dos pensadores nacionais. Quanto ao povo dos brandos costumes, o mau olhado das bruxas ou as tentações do mafarrico, continuam a ser exorcizados por via dos bentinhos e rezas medievais; mais a modernice de Fátima com os votos cumpridos a rastejar de joelhos Com efeito, o mal filosófico pouco interessa ao cidadão comum. Além disso, julgo poder afirmar que o que mais horrorizou a autora da “Banalidade do Mal”, no balanço que fez ao julgamento do criminoso nazi, não foi a existência do mal em si, mas o facto de ter passado a ser “coisa banal” no quadro ético e cultural das (modernas?) sociedades humanas. Para a filósofa A.Arendt tornou-se inaceitável conviver resignadamente com a banalidade do mal, como sendo essa a lei natural da vida; e a isso acomodar a consciência, quer individual quer colectiva. O conceito judaico/cristão do “mal absoluto” (em rigor, do idealismo ocidental, pelo menos até Kant), que ainda dominou o seu grande ensaio sobre “As Origens do Totalitarismo” (ed.1950), aparece como que banalizado nesta obra de 1963 após o julgamento de Eichmann. Dir-se-ia decomposto/multifacetado, devolvido à responsabilidade de homens e mulheres e não dos deuses e dogmas sagrados. Claro que os demiurgos escolásticos e os vigilantes do “politicamente correcto” não lhe perdoaram esse desvio/correcção no sentido humanista. Creio porém, que a questão metafísica ficou colocada ao nível do entendimento e dos interesses do banal cidadão; de todos nós que estamos habitando este planeta em regressão política e cultural para antigos e novos absolutismos.
 
          O “mal português” (a designação não é minha) é um tema recorrente nos meios pensantes nacionais obcecados pelo que chamam o enigma da identidade da nação lusa e dos seus nativos. Pode dizer-se que não se passa um mês sem que o assunto não volte à baila. Nas centenas de opiniões que se ouvem ou lêem, o suposto mal ontológico de que sofre a sociedade portuguesa surge decomposto em diversas e alegadas manifestações. Na realidade, tornaram-se banais – excessivamente banais - essas análises e denúncias. Recordo, a título de exemplo: ) o medo, não exactamente cobardia e esta menos física que cívica; ) a resignação, o fatalismo, o respeitinho, o deixa andar/sempre foi assim; ) a mesquinhez, a inveja, o alarvismo; ) o menosprezo pelo esforço, pelo conhecimento, pelo trabalho honesto e os direitos de quem trabalha ; ) o egoísmo e a hipocrisia; etc. etc. Também se tornaram banalidades, temas ético/sociológicos como a corrupção, os abusos de poder, o alargamento do fosso entre ricos e pobres, o desemprego, a debandada emigratória, os desastres no sistema educativo e a ruína do todo o serviço público, etc, etc.
         Ora, o aspecto insólito da banalidade/conceito que despertou o horror de A.Arendt ao contactar de perto com os crimes de um –concreto- criminoso nazi, reside na surpreendente facilidade com que as mais estranhas situações, fenómenos ou comportamentos que, num primeiro contacto provocam instintiva repugnância e condenação, acabam por ser assimiladas pelos indivíduos e sociedade como coisa inócua, de importância trivial, logo que se tornam objecto de repetição publicitária insistente. Qualquer pessoa sabe do que estamos a falar. Toda a gente sabe como as modas mais extravagantes podem ser entranhadas no gosto das massas, mesmo das mais conservadoras (”Primeiro estranha-se depois entranha-se”, dizia o inevitável Pessoa).
 Mas infelizmente, isso não sucede apenas com as modas. Sucede também em assuntos da mais extrema importância para a vida da humanidade e do planeta que ela habita. Torna-se ocioso lembrar como ainda galopam à rédea solta, nesta época de deslumbramentos tecnológicos - como continuam banalizados - os 4 Cavaleiros do bíblico Apocalipse : a Guerra (agora preventiva); a Fome (na abundância); a Peste (das drogas e dos virus); a Insânia (que provoca a morte e a devastação). 
Pode mesmo afirmar-se que - dentro do quadro das ideias – a banalização do mal metafísico/ bíblico/abstracto, ainda ocupa e incomoda a inteligência e a consciência da elite ocidental judaico-cristã. Ora quando a crítica se manifesta através da representação mental do real, estamos em pleno idealismo. A banalidade das ideias sobrepõe-se à realidade banal da existência humana. Assim foi no largo espaço da chamada civilização ocidental/cristã até aos meados do séc. XVIII; altura em que o iluminismo e o racionalismo começaram a soltar os espíritos. Abreviando: a filosofia materialista ganhou terreno ao idealismo; a luta de classes vem a impor-se como explicação básica da história da humanidade. Resulta que os “males” concretos de natureza material, com origem na exploração do homem pelo homem que afligem e oprimem quatro/quintos da população do planeta Terra desde primórdios distantes, têm nomes correntes, responsáveis de carne e osso ...não se trata de entidades divinas, de conceitos abstractos ... não se trata do mal cósmico, cuja banalização tanto chocou a intelectual académica de formação idealista Hannah Arendt, em Jerusálem, quando confrontada pelo mal muito real de um sistema político que levou a doutrina da dominação de classe ao extermínio físico de classes consideradas inferiores.            
A nível global, nos dias que correm de hegemonia americana, os males correntes que assolam o mundo são bem conhecidos, até porque - e isto deve ficar sublinhado – estão banalizados, converteram-se em banalidades entranhadas no senso comum, por acção da classe dominante; cuja representação máxima é assumida globalmente pelo imperialismo agressivo dos EUA. Banalidades, como o capitalismo selvagem sem freio nem limites éticos, travestido de neo-liberalismo e de neo-conservadorismo; banalidades como o direito da super potência intervir, inclusive pela força, contra as nações e povos que não se submetam às suas ordens; banalidades, como o controlo securitário de pessoas em transito, ou alegadamente suspeitos; banalidades, como uma Nova Ordem de contornos fascistas, que se perfila pela Europa sem já levantar estranheza, nem por parte dos intelectuais de suposta independência político/partidária; etc.
Contudo, é em relação à sociedade portuguesa que mais interessa e se torna urgente, examinar os efeitos nefastos da deliquescência em banalidade dos gravíssimos atentatos do actual governo socialista contra a democracia lato sensu, contra a classe laboral assalariada, em particular. Desde logo, o desemprego de 500 mil ou mais trabalhadores é assunto de rotina; que os seus direitos não sejam respeitados na hora do despedimento colectivo também não incomoda os exmºs governantes; perseguir delegados sindicais é desporto banal para capitalistas e comissários partidários (vulgo, gestores públicos); desconsiderar funcionários, professores, militares passa por banalidade reformista; as trapalhadas e trapalhices governamentais são reduzidas a meros lapsos; também as roubalheiras, as derrapagens nos contractos, as engenharias financeiras, a invenção de multas e impostos, a nomeação de amigos para as famosas “unidades de missão”, para administradores bancários; etc, etc. O rol da transmutação em banalidades inofensivas de verdadeiras afrontas à Constituição, de autênticos crimes de lesa-Estado não tem fim no historial da governação burguesa    Poder-se-á admitir que a sistemática redução ao banal dos efeitos nocivos das medidas anti-populares de Sócrates & Cª constitui parte integrante da política “socialista” de total apoio à classe conservadora/capitalista e de completa submissão aos interesses do imperialismo. Para ter êxito nessa estratégia tem vindo a contar com o apoio dos ricos, dos que isso se julgam ou aspiram a ser, dos políticos que enriquecem (classe dos novos ricos), dos desgraçados explorados que tiram o barrete   ao patrão ou ao cacique local. Mas além deste núcleo duro reaccionário da sociedade portuguesa, que Salazares e póstumos só vieram reforçar, a \burguesia contra-revolucionária novembrista encontrou surpreendentes aliados em importantes sectores da chamada intelectualidade; em especial, entre o pessoal letrado que trabalha ou colabora nos meios de comunicação. Em grande medida, pode afirmar-se que os media nacionais estão dominados pelas hostes do “politicamente correcto” (vulgo, reaças & afins); obedecendo, com entranhada dedicação, à estratégia neo-con/neo-lib dos governos burgueses/capitalistas; incluindo, reduzir ao banal, a coisa sem importância, tudo aquilo que possa incomodar S.Excelências, os políticos governantes, mais patronato explorador.
 Em semelhante contexto, de harmoniosa acomodação, em que a esterilização do real, as injustiças e desgraças da vida dos portugueses aparecem convertidas em banalidades (preocupações para descartar ao virar da esquina), permito-me reavivar uma antiga e clássica banalidade da actividade política que, de tão entranhada está no caráceter das nações e dos indivíduos, que já nem o nome é pronunciado. Refiro-me à “Banalidade da Impostura”, título que adoptei para o presente arrazoado.
Chegada a humanidade ao ano dois mil e oito contados a partir da morte de J. Cristo, julgo não ser necessário demonstrar que a impostura nas relações internacionais e na actividade de cada governo, eleito democraticamente (ou nem tanto), já nem questionada é. Isso representa, em certo aspecto (o deles), uma situação muito confortável para a actual ordem universal burguesa/capitalista. George W. Bush, dono das armas de destruição maciça, general das guerras preventivas, mal abre a boca, logo todo o mundo conta com mais uma mentira, uma nova impostura. Mas o homem não se importa. E tem razão. Ao exercício do poder político burguês está de tal maneira associada (entranhada) a banalidade da impostura que já ninguém estranha, e raros manifestam indignação. Valerá a pena na nossa terra, na nossa democracia, citar nomes ? Será Durão Barroso o exemplo máximo da impostura política portuguesa? Mário Soares ? Sócrates, prometedora medalha d’ouro da modalidade? Desfiaríamos algumas dezenas de nomes de ilustres democratas. O que aliás não lhes faria qualquer diferença. Estamos no reino da banalidade. Exactamente : da indiferença.
No entanto, quero pensar que a impostura praticada pelos dirigentes politico/partidários portugueses quando alçados a alguma espécie de poder, possue caracteristicas tão castiças, tão desbragadas - tipo vendedor de banha da cobra em feira de aldeia - que suscitam mais dó, riso e nojo que indiferença. As famosas reformas da Administração Pública. Uma impostura? Sem dúvida; para encobrir perseguições, abrir vagas para correligionários, manipular estatisticas; criar centenas de “unidades de missão”, uma banalidade que se traduz na licenciosidade com despesas em lugar de as suprimir. Milhares de postos de trabalhos, prometidos e esfumados, salários congelados, ”arrecadar” dinheiro inventando impostos, fiscalizações e coimas próprias de esbirros medievais, penhoras a miseráveis contribuintes em contraste com prescrições para ricos; etc, etc. Quem subscreve estas e muitas outras imposturas e as transforma em banalidades ? Ao mesmos de sempre. E continuam a ser designados pelo mesmo nome : o de impostores.  
 
                        Lisboa, 18 de Agosto, 2008-08-18
                                     fez) J. Varela Gomes
publicado por samizdat às 21:57
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