Segunda-feira, 29 de Setembro de 2008

T O D O S

Todos ! Muito gostam eles – os neo-democratas paridos pela contra revolução novembrista – de lançar apelos lancinantes à união de todos os portugueses : ricos e pobres, desempregados ou tachistas despudorados, trabalhadores da chapa 500/mês ou gestores a 100 mil/ano, doentes crónicos sem assistência ou pessoal do jet-set, marginais famélicos e burgueses pançudos arrotando fartura, etc, todos unidos e misturados num grande caldeirão de emerdamento estatístico para o Bem da Nação, a Salvação da Pátria; e, nomeadamente, todos juntos no combate heróico contra as malfadadas crises, esse inimigo estrangeiro invejoso do nosso esplendor ao sol.

 

Na realidade, esses frequentes apelos ao colectivo nacional abstracto fazem parte do repertório teatral da classe burguesa dominante. Os respectivos actores e os forçados espectadores dessa farsa burlesca já conhecem de cor as rábulas da peça ... pois vai à cena desde que as comunidades humanas se estabeleceram na base do antagonismo entre os fortes/poderosos e a massa dos súbditos escravizados. O conjunto dos explorados – o Povo, como já em tempos bíblicos era designado – quando ouve a classe dirigente apelar à colaboração de todos para resolver qualquer crise, na guerra ou na paz, pode de antemão estar certo que serão eles a pagar o custo maior nas supostas frentes de unidade nacional...com a vida, a miséria, a fome. O Povo Português está sofrendo experiência actualizada dessa lei intemporal ; pena é que ainda haja quem engula velhas rábulas de cheiro apodrecido, mesmo após os últimos três anos de governação socialista socretina. Com efeito, do alto da sua maioria parlamentar absoluta, o PSS (Partido Suposto Socialista), governa em semi-ditadura por decretos-leis à moda salazarenta; pior ainda, qualquer obscuro sub-secretário, um simples membro de gabinete ministerial emite pareceres, toma decisões; despachos e resoluções aparecem publicados na folha oficial com força de lei. Mal se resguardam as aparências democráticas e constitucionais. Ao que parece, as “trapalhadas” apontadas a anteriores governos, passaram ao patamar superior da licenciosidade administrativa. Até mesmo deixou de fazer sentido, a comédia periódica de apelar ao bom povo português para apertar mais um furo ao cinto, em nome da solidariedade nacional, da suprema redenção do défice, da felicidade de todos. A rábula já não dá para zombar, já nem um manguito provoca. A vontade unânime é que se ponham a andar, desapareçam da cena, antes de serem corridos à batatada por indecente e má figura.

Efectivamente, verifica-se que a retórica democrática de apelar a todos em situações declaradas críticas, está sendo abandonada pela nova ordem neo-liberal conservadora, cujos mentores acham que chegou a hora do autoritarismo puro e duro; e de, uma vez por todas, mandar para o lixo a farsa da conciliação de classes. A esta postura sem máscaras florentinas, há quem lhe chame pré ou para-fascismo. Por cá temos fortes razões para concordar. O império capitalista americano decreta para o mundo e nem lhe passa pela cabeça pedir a opinião dos povos que vai submetendo; os governos satélites - vide Portugal– aplicam religiosamente a doutrina do sumo pontífice americano dentro das respectivas fronteiras nacionais, atiram pela borda fora as formalidades da comédia democrática adoptando, com entusiasmo, o modelo autoritário para-fascista. A questão resolve-se pela manipulação de impostos e escalões de tributação fiscal, redução nos salários reais e nas pensões, preços livres sem controlo, etc, tudo acompanhado pela presença conspícua das polícias de vigilância e defesa do estado (PVDE ! Ó da guarda! Ei-los que voltam).

De certo modo, deve notar-se que o alegado engenheiro Sócrates não é o governante português pioneiro na adesão às novas doutrinas do conservadorismo autoritário (ou vice-versa). Pois foi exactamente assim - “autoritarismo conservador”- que o preclaro ex-anti-fascista Jorge Sampaio, na função de Presidente da República, em discurso oficial na Assembleia Legislativa de 25 de Abril 2002 se permitiu redefinir o período de 48 anos de ditadura fascista/ salazarenta. Por essa e outras terá sido recompensado com o cargo de alto-comissário da ONU para a tuberculose ! (Pelos vistos, lá como cá, os bachareis são pau para toda a obra). Um outro ex-socialista, o inefável Guterres, tendo-se aventurado pela via do pulso forte com o seu “habituem-se”, teve que fugir envergonhado. Mas também acabou recompensado noutro alto cadeirão de comissário da ONU. (È um fartar de comissários políticos nesta abençoada democracia global).

No entanto, a retórica do todos – o sofisma da fachada da igualdade dos cidadãos perante a lei (Art. 13º da Constituição) – continua a servir de argumento para a classe governante procurar fugir à responsabilidade dos seus actos e decisões.; nomeadamente, sempre que a coisas correm mal, sempre que a má-gestão resulta em calamidade e escândalo. Nessas circunstâncias - frequentes – as culpas e os custos são logo “democraticamente” atribuídas a todos ; mas quando o poder burguês inaugura obra ou inventa um sucesso - isto é, onde há algum proveito em termos de propaganda - nessa altura acaba-se a democracia do colectivo. Cumpre-se a conhecida regra da exploração capitalista : os prejuízos são pagos por todos; o lucro fica para a casta dominante.

A modalidade soft (passe o anglicismo, em moda) do cinismo burguês em matéria do balanço sacrifícios/benefícios surge na invocatória “É preciso que todos...”, muito utilizada por políticos e comentadores, nomeadamente, da velha geração dos ex-progressistas de esquerda (ou da esquerda ex-progressista). Em pose de professores catedráticos, a ser ou haver, é chamada a atenção para a responsabilidade que todos temos (nós, as pessoas comuns) em relação à sociedade. Cada especialista ensina e comina : sobre a cultura, a educação a economia doméstica, o civismo, não poluir os passeios e a atmosfera, como atravessar as ruas, etc. Uma longa lista de deveres, politicamente correctos, que ninguém deve descurar para redenção da apagada e vil tristeza em que vive a Pátria de Camões O ex-presidente Jorge Sampaio foi um apaixonado especialista deste tipo de apelo “ao todos que há dentro da culpa da cada um” (desculpem lá, isto até parece alta ontologia). Ainda tenho no ouvido o som estrídulo do “é preciso que todos”, com que fulminava os relapsos pecadores dos deveres da cidadania. (Ah! Se todos seguissem os conselhos dos sábios governantes, acabávamos todos em comissários da ONU).

O argumento que postula ser de todos a responsabilidade pelos males da Pátria ( e do mundo) criaria uma admirável sociedade igualitária onde nenhum governante jamais chegaria a responder pelos seus actos e decisões. Uma sociedade de inocentes, com impunidade garantida Que conveniente! A culpa morreria sempre solteira....como aliás, vem sucedendo neste nosso oásis luso/madeirense, bem integrado que ele está no universo liberal/conservador; o qual, sob a protecção do escudo anti-missil americano, está convertido em neo paraíso terreal povoado por seres angélicos sem culpa nem ganância. Fascistas, pides, informadores e contra-revolucionátios, agradecem comovidos Ámen.

Claro, que ocorrem situações desagradáveis, actos concretos, em que se torna logicamente impossível atribuir responsabilidades a todos e cada um. Por exemplo : as leis e respectivos regulamentos, posturas, deliberações, despachos, etc, são produzidos e aprovados por deputados (com nome registado em acta), na maior parte das vezes ao arrepio dos programas e promessas eleitorais (Por favor, não culpem dessas manigâncias a Tia Ermelinda, lá dos Brejos de Mafamude) ;o desemprego, a precariedade, um Código do Trabalho terrorista, etc, decerto não foram iniciativa do Sr Carlos, aqui do bairro, octogenário e pensionista do escalão mais baixo; as vendas ao desbarato do património nacional, ou a sua transferência para privados, são assinadas por governantes dos partidos burgueses em tirocínio para administradores das empresas compradoras; as famosas derrapagens financeiras em obras públicas, as ruinosas participações do Estado nas mais variadas empresas falidas, são negócios só para gente fina; e o mesmo sucede nos despedimentos colectivos, quando as empresas fecham as portas, anunciam redução de despesas...sem que os trabalhadores sejam ouvidos ou achados, etc.

Insistir no estúpido absurdo de que todos, governantes e governados, partilham erros e fracassos, só merece escárnio. Fica à vista a intenção encapotada de diluir as responsabilidades da casta dirigente pela totalidade dos concidadãos; desse modo, safarem-se impunes, um a um, com o saco cheio de prebendas, côngruas e proventos não especificados, esfregando as mãos de contentes, na ideia que a plebe –o odiado povo dos trabalhadores; os restantes quatro/quintos da população – não passa de um rebanho de parvos. Meus caros: os “restantes” conhecem-vos de ginjeira. Está mais que sabido – e bem à vista – aquilo que a classe burguesa procura quando se dedica à política profissional: “encher a mula”, na velha expressão popular que vem das épocas da conquista e saque.

Entrar na política para tratar da vidinha e enriquecer era uma posição que ainda envergonhava os avoengos. A escola moderna do neoliberalismo global, pelo contrário; assume que esse é o nobre propósito do político ambicioso. Os tempos mudam, assim justificam e se absolvem os amesendados no sistema. Pois, pois, o sistema ! Tem as costas largas. E as leis, com seus buracos e falhas, também constituem óptima justificação para aqueles mesmos que as fizeram. As circunstâncias! Outra boa malha.....históricas, económicas, meteorológicas, informáticas, psicológicas ....podem ser infinitas as circunstâncias que servem de desculpa aos charlatães.

Os tempos mudam! Ouve-se todos os dias, a modos de chavão/argumento para qualquer oportunista vira-casacas! Não há parvalhão nenhum, homem público/cidadão privado, que não use essa néscia metafísica para desculpar desonestidades e cobardias, julgando exibir a mais ilustrada das sabedorias. É obrigatório citar Camões; como se “todo o mundo é feito de mudança” fosse um viático para a libertinagem reformista dos demo-reaças da actualidade. Nem o soneto completo vocês leram, ó falsários impenitentes! Na segunda quadra, logo diz Camões “continuamente vemos novidades ... diferentes em tudo da esperança”; e remata desiludido, que “afora este mudar-se cada dia”, o que “mor espanto” lhe causa é “que não se muda já como soía”. Como era costume, quer ele dizer; no tempo da boa governação. Ao invés do que se passava naquele longo e funéreo reinado de João III, a caminho de Alcácer Quibir.

Ora, afinal, até parece que Luís de Camões estava profetizando o tempo actual de desalento e baixa estima em que vivem os portugueses ....todos juntos atirados para dentro do caldeirão retórico, onde os políticos da burguesia pretendem esconder os abusos que cometem, os privilégios que decretam em benefício da própria classe; mais o ódio que dedicam a perseguir e rebaixar a classe dos trabalhadores assalariados.

Ora TODOS nós, os quatro/quintos restantes, vos devolvem em desprezo e juros acrescidos, os sentimentos que norteiam as vossas políticas governativas passo a passo mais próximas de um programa neo-fascista.

Lisboa 10 Setembro, 2008-09-11

publicado por samizdat às 09:16
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Outubro 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
31


.posts recentes

. Descomemorando o 25 de No...

. No aniversário da morte d...

. Da Tirania Neo-Liberal ...

. ESCUTA, Eleitor Anónimo: ...

. NO 40º ANIVERSÁRIO - Sob ...

. A revolução portuguesa e ...

. CAUSA: 25 Novembro 1975; ...

. Beja 1962 - Evocação de u...

. UMA HISTÓRIA CONTEMPORÂ...

. UMA HISTÓRIA CONTEMPORÂ...

.arquivos

. Outubro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Março 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Dezembro 2011

. Fevereiro 2010

. Dezembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Abril 2009

. Janeiro 2009

. Novembro 2008

. Setembro 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Abril 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

blogs SAPO

.subscrever feeds