Segunda-feira, 29 de Setembro de 2008

A SOCIEDADE DOS QUATRO/QUINTOS

J. Varela Gomes Creio que a expressão/conceito em título foi utilizada, em primeira mão, pela chamada Escola de Chicago; um núcleo de académicos economistas/sociólogos, cujo radicalismo liberal constitui a base da política de globalização imposta actualmente ao mundo pelo imperialismo americano. Em termos vulgares, esse conceito estabelece que as sociedades humanas após a era industrial, tendem (a bem ou a mal, manda o império) a organizar-se num sistema social dividido entre 1/5 da população vivendo na abastança e 4/5 na precariedade. Pode parecer muito crua, rudimentar e cínica essa doutrina ; mas o facto –o incontornável facto – é que ela vem sendo implementada através do globo, a descoberto e à vista de todos; da velha Europa da magna carta e das marselhesas, às pequenas nações caudatárias; como aqui se verifica, neste nosso pitoresco socialismo demo-reaça. Na realidade, os doutrinadores da sociedade dos 4/5, não fazem segredo, muito menos escondem a sua influência nas opções neo-liberais do novos senhores do mundo. O mentor dos Chicago boys ( assim são conhecidos) Milton Friedman, mereceu o prémio Nobel da Economia em 1976 . A sua teoria já então tinha dado frutuosas provas. Imaginam aonde ? Pois no Chile, com Pinochet. Efectivamente, os boys de Chicago foram o braço economista da Operação Condor, uma das maiores ofensivas terroristas do séc. XX, lançada pela CIA contra os povos da América Latina em nome da cruzada anticomunista. Consistiu na implantação de ditaduras sanguinárias no Chile, Argentina, Uruguai, Nicarágua, Brasil, etc, com muitos milhares de assassinados, desaparecidos e torturados. Os Chicago boys participaram entusiasticamente em toda a Operação Condor; O Chile foi o laboratório para as reformas ultra liberais da Escola de Chicago, a cobaia para a privatização total da economia. Na década seguinte (anos 80) com R. Reagan nos EUA e M. Tatcher no Reino Unido, triunfava a globalização da economia neoliberal capitalista e da política neoconservadora de ataque à classe laboral organizada, procurando reduzir os trabalhadores à condição medieval de jornaleiros descartáveis. A fórmula/conceito de uma futura sociedade ideal dividida entre 1/5 de ricos e 4/5 de pobres - exploradores e explorados, na visão de um tal Marx - traduz, cruelmente, um sonho/objectivo perpétuo das classes dominantes em toda a história da humanidade; digamos mesmo, desde a sua primitiva organização em sociedades tribais. Na era moderna, no estertor do ancien régime, a partir de meados do séc. XVIII, ainda com o poder absoluto dos reis, e sua corte de favoritos e de fidalgos proprietários de terras e servos, o sistema social corresponderia a esse quociente de um/quinto de poderosos e abastados, para uma massa de quatro/quintos de famélicos, explorados/escravizados. Ora, é esse o modelo da sociedade – que, à primeira vista, nos parece pesadelo de loucos – que o hodierno capitalismo sonha restaurar quando se afirma, sem complexos, neo conservador. Basta consultar as páginas da Internet relativas a alguns textos, notícias e comentários sobre esses supostos loucos, para se ficar arrepiado com as respectivas doutrinas e propósitos neo-retro. Concluem que, ainda no presente século, a produção de bens e serviços virá a necessitar apenas de um fracção mínima de operadores; numa economia de tecnologia avançada, a classe operária desaparecerá. Debatem, com tranquilo cinismo, a melhor forma de entreter as massas dos desocupados e como mantê-los numa ilusória felicidade. O Império Romano fascina-os como modelo; particularmente, a receita de “pão e circo”, com que domesticavam a plebe. A televisão, o futebol, os computadores, sexo e discoteca, etc, são as alternativas actuais. A Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana., a cúria papal, o luxo e a riqueza nas catedrais enquanto no terreiro a multidão ajoelha resignada.....esse sim, é o paraíso neo-liberal na terra. A um céptico que argumentava que num modelo desses não haverá consumidores, um dos neo sábios ensina: Num hipotético País com 150 milhões de habitantes, quatro/quintos (ou seja 120 milhões) estão reduzidos ao rendimento mínimo; haverá, portanto 30 milhões de ricos e muito ricos. Ora, remata o neo sábio: um mercado com 30 milhões de pessoas com elevado poder de compra, é suficiente para sustentar uma economia próspera. Maria Antonieta no ancien régime, não diria melhor. Embora pareça coisa de tarados, os neocons andam por aí, a desregular o mundo, desde a experiência Pinochet. De caminho, convém lembrar que um tal Hitler foi considerado um paranóico sem futuro; e lá arrastou 80 milhões de germânicos ilustrados numa das maiores catástrofes doutrinárias da história. Agora, há quem pense em Bush & Associados como estúpidos transitórios; no entanto, existem muitíssimos mais tarados nos EUA/séc.XXI que na Alemanha/séc.XX. Convém não esquecer. Voltando à nossa santa terrinha. Só um cego pode dizer que nada vê, no actual reformismo socretino, nenhum decalque do modelo e da doutrina dos boys de Chicago .... aqui, por obra e desgraça de um governo SS/Suposto Socialista. Aqui, a hipocrisia e o cinismo da burguesia capitalista entra pelos olhos dentro. Não há que fugir: a classe dirigente deste pequeno pais periférico, acaba sempre por se distinguir pela negativa : mais rasca, mais manhosa, mais mercenária que qualquer outra. O sonho dos “poetas” do partido socialista, tal como vem sendo concretizado através das alegadas reformas, obedece – nitidamente, indiscutivelmente - ao esquema neo lib/neo con. Ou seja, uma sociedade dividida entre 1/5 – 2 milhões de gajos ricos; e 4/5 - 8 milhões de precários. O sonho dos socialistas renegados pede meças à “cidade de Deus” dos seráficos da Opus Dei aquartelados no PSD, compagina-se perfeitamente com as guerras e bombardeamentos preventivos do império americano. Aliás, neo conservadorismo, além de constituir um paradoxo semântico imbecil, denuncia e psicanalisa o sonho : regressar ao passado, aos bons velhos tempos em que um fosso intransponível defendia a classe fidalga do cheiro incómodo e da “inveja”, da classe popular. A contra-revolução portuguesa de 1975/76 trouxe à cena pública e política um sem-número de arrivistas e labregos ( dois em um, por norma) ; somados à legião dos renegados ideológicos (ex-radicais esquerdistas; ex-socialistas utópicos; ex-maoistas, comunistas, trotsquistas, etc) todos juntos num oportunismo mercenário, têm governado o país integrados numa frente burguesa capitalista cujo objectivo político (inconfessado, mas nem tanto) é a restauração de um modelo de sociedade conservadora aristocrática : concretamente, a sociedade dos quatro/quintos, assim designada pelos mentores teóricos de globalização demo-liberal, nesta nossa época de alta tecnologia e viagens espaciais. É possível – tudo é possível – que uma parte dos agentes desta política, dos entusiastas pelo invisível progresso que estamos vivendo (progresso às arrecuas, ou de frente para trás), esteja de boa-fé, tenha propósitos honestos e até saia mais pobre após passagem pelo poder. A designação original “sociedade dos 4/5” aparece posteriormente substituída pelo seu recíproco “sociedade dos 2/10”; ou ainda dos 20% . A proporção matemática é igual, mas – não de todo inocentemente –converte a minoria em excepção. Ora, confesso, que esse rácio dos 20% , me serve há muito, para distinguir as excepções dentro da sociedade burguesa capitalista. Por exemplo : nuca direi que todos os burgueses são reaccionários, manhosos, egoístas e hipócritas; ou que todos odeiam a classe trabalhadora, etc, etc. Nada disso ! Aplico a chapa dos 20% : o que dá 20 burgueses decentes em 100, ou 1 em 5. Sobre a classe política demo-capitalista, aplicando a mesma chapa, encontraremos 20 tipos (em 100) que merecem crédito; os restantes 80...bem, são aquilo que está à vista. E muitas vezes fico pensando que os 20% são demasiado generosos. Lisboa, 26 Setembro 2008-09-27
publicado por samizdat às 09:24
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