Sábado, 1 de Novembro de 2008

A Burguesia Mundial em Pânico

 

(Revolução em Portugal, 1974-75)

J. Varela Gomes

 

Um novo livro de “revelações” sobre o Período Revolucionário (74/75) foi agora editado, trazendo por título “Carlucci vs Kissinger” e por sub-título “Os EUA e a Revolução Portuguesa”. Na capa figura o nome de dois autores: Bernardino Gomes e Tiago  Moreira de Sá. O primeiro dos nomes chega e sobra para identificar a obra e acautelar a leitura. Bernardino Gomes (BG) é uma personagem de romance de espionagem, do mundo das manobras secretas, lançado de paraquedas na política portuguesa, vindo de nowhere, após o 25 d´Abril. A alguém do PS, deputado na altura, ouvi comentar : Toda a gente sabe no partido que B.Gomes (e Rui Mateus) são os special friends  dos americanos. A nota biográfica constante na badana da capa  confirma o  real significado de “amigos especiais”. Na contra-capa da edição –e, igualmente, na Introdução – os autores reconhecem e agradecem o contributo da Fundação Luso-Americana e de um obscuro Instituto de Relações Internacionais para a realização da obra. O apadrinhamento torna-se ainda mais explícito.

Embora seja sublinhado que... “o objectivo do estudo é avaliar o impacto da actuação norte-americana no resultado final da passagem do regime autoritário (os fascistas agradecem) para a democracia em Portugal”, o facto é que o volume está organizado  segundo o desenrolar dos acontecimentos  revolucionários descritos a bel-prazer. (Note-se que a declaração prévia de limites temáticos em estudo historiográfico resulta, geralmente, num livre-trânsito para omissões fundamentais e/ou inclusões espúrias).

Em consequência cronológica, os autores dedicam o 1º Capítulo ao período de tempo entre o 25 d`Abril  e a crise do 28 Setembro 74. Mas  entram com pézinhos de lã, negando um dos mais venerados e venerandos mitos/dogmas mantidos pelos historiadores “politicamente correctos”: afinal o imperialismo, a norte-américa, a querida CIA....sabia ! “Chegaram a Washington muitas informações nas vésperas do 25 Abril”. (Só nas vésperas? Vá lá, mais um esforço!). O problema, segundo os nossos isentos investigadores da Fundação Luso-Americana, foi que eles (as Cias, as Tias?) não percepcionaram correctamente as informações recebidas. Foi pena! (Percepção, é conceito chave ao longo de todo o livro; uma espécie de manto diáfano a cobrir as evidências mais cruas). Neste caso, relativo aos primórdios do 25`Abril, quer os Cias americanos, quer as Tias portuguesas, não foram capazes de percepcionar a entrada no Tejo, a partir do dia 24 d´Abril, de uma imponente esquadra Nato com 80 navios de guerra, incluindo porta-aviões nucleares, esquadrilhas de aviões de ataque ao solo estacionadas no Montijo, etc; também não percepcionaram a conferência  de imprensa do almirante americano Robert Erly, no dia 23 em Oeiras (veio notícia nos jornais), nem o nome de código das grandes manobras aeronavais com início marcado para a madrugada de 25: Dawn Patrol – Patrulha da Alvorada. A percepção não lhes chegou, igualmente, para entenderem as notícias sobre a entrega de credenciais de novos embaixadores do Reino Unido, da Alemanha Federal, do Brasil nos dias anteriores ao 25 (Por acaso –ai a minha percepção-  os dois últimos eram os chefes dos serviços secretos nos respectivos países). Venho repetindo estas e outra “percepções” há muitos anos ( por ex.: Revista História Nº66, Abril 1984). Menciono-as  aqui, apenas para deixar estabelecido que percepções há muitas ao dispor do freguês; até para o investigador míope enfiado nos arquivos em busca do documento/revelação, sem olhos para porta-aviões; e ainda menos para multidões.

Seja como for, mesmo o cronista a quem o rei encomendou a crónica do seu reinado, deixa transpirar alguma percepção para terceiros curiosos. Nesse sentido, numa primeira leitura, percepciono no estudo recomendado pela Fundação Luso-Americana alguns aspectos que merecem demora. Desde logo, o involuntário efeito que a obra possa ter, na comprometida historiografia portuguesa, nomeadamente a académica. Comprometida entenda-se, com o sistema de poder;  ou seja,  politicamente correcta; o que corresponde, por norma, a intelectualmente castrada. Enfim, há excepções.

O estudo tenta demonstrar – com sucesso e com razão, admita-se – que a intervenção americana em Portugal, no decurso do processo revolucionário, foi decisiva para vitória da contra-revolução. Isso é feito (confessado) com  naturalidade, de forma totalmente desinibida. As conspirações com os políticos reaccionários e os militares ditos moderados são descritas como procedimento trivial, mera rotina. Ora o à-vontade usado nessa petição de princípio, contrasta frontalmente com a posição cobarde adoptada - inda hoje, já lá vão 30 anos – pelos políticos e militares conspiradores de 74/75, que negam, negam tudo, foram uns inocentes, nem conheciam o Carlucci, e a Cia ....era uma coisa inventada pelos comunistas, não era?. Os nossos magníficos historiadores académicos/mediáticos (quase todos: chapa 4em5) sempre a cantar a compasso e a escrever a tanto-à-linha. vão ficar enrascados com as “revelações” de Bernardino & Cª. A minha percepção é de que vão assobiar para o lado; na velha receita de “não tomar conhecimento”; ou não fossem eles burgueses de lei, entre acomodados e agachados.

A figura que surge mais destacada, o vencedor do confronto “Carlucci vs Kissinger” é, sem dúvida, o embaixador americano em Lisboa. Na percepção dos autores, os serviços secretos (a CIA) foram os grandes responsáveis pelo sucesso da contra-revolução; o Departamento do Estado (Negócios Estrangeiros) e o respectivo conselheiro (Kissinger) estariam de cabeça perdida, após o 11 de Março 75, considerando Portugal nas mãos dos comunistas. Para o responsável máximo pela estratégia do império capitalista, pelos destinos da burguesia a nível planetário, ... “a revolução portuguesa podia destruir todo o sistema de defesa ocidental construído após a II Guerra Mundial...; contagiar o resto da Europa, destruir a Aliança Atlântica, etc “ (pág. 185 e seguintes). O embaixador em Lisboa tentava acalmá-lo. Tinha os seus contactos já muito adiantados com o partido socialista. A bem dizer diários, com Mário Soares. No entanto, surpreendentemente, a personagem que é “percepcionada” como o elemento chave da conspiração contra-revolucionária é Melo Antunes. Para muita gente (onde me incluo) será esta a maior revelação produzida pelos quatro anos do estudo luso-americano agora publicado. Na realidade, Soares foi sempre apresentado como o campeão dos americanos (émulo do quinhentista Cristóvão de Moura). Foi destronado dessa glória? Assim parece. Por outro lado, até há data, Victor Alves foi sendo considerado o militar conspirador mais íntimo da embaixada e do embaixador. Há declarações do próprio  Carlucci nesse sentido. Enfim ! Esta rapaziada dos serviços secretos toca a música que  agrada a quem a paga, em cada ocasião

Dada a natureza do presente apontamento, vou acabar por aqui o escrutínio do trabalho de Bernardino Gomes & Cª. Provavelmente nem sequer o merece; seguramente não perfuraria a muralha censória comandada pelos demo-reaças, lacaios do imperialismo (como soía dizer-se), os restauracionistas de novembro.

Mas deixo nota – a modos de sugestão para hipotético investigador não-comprometido – de alguns aspectos e temas fundamentais que os autores acharam conveniente minimizar, ou ocultar. A justificação matreira seria do género: A pesquisa tinha um objectivo limitado. Pois é, pois é; nós sabemos que é ainda preciso deixar muito esterco a apodrecer.

Por exemplo, um dos temas mais escamoteado no análise do processo contra-revolucionário português é a importância do papel provocatório e desestabilizador das formações esquerdistas; com absoluto destaque para o MRPP. Logo no próprio dia 25 d´Abril; no fim festejaram na rua o 25 Novembro como o triunfo da “verdadeira revolução”. Passando pelo greve dos telefones e outras; casos República e Renascença; congresso do CDS no Porto; assalto à embaixada de Espanha; cerco à Assembleia,etc. Na minha “percepção”, a intervenção do MRPP indicia uma organização com dependência Píde anterior; e, depois, sob o controlo central imperialista, através da Cia, naturalmente.

Também a importância do papel da Igreja católica na desestabilização revolucionária, incluindo incitação ao terrorismo e atentatos, aparece reduzida a una ou duas simples alusões. Em contraste com o largo espaço dedicado à mobilização da burguesia europeia : rios de dinheiro para os partidos reaças e conspiradores num Portugal oprimido por “terrível ditadura comunista”; planos de apoio aos partidos políticos anticomunistas, ao Grupo Militar dos 9, à imprensa mercenária; nuvens de infiltrados, agentes, missões secretas (pág.246), ou menos secretas - equipas de televisão estrangeiras sempre presentes  na mínima provocação contra-revolucionária; etc. Planos para uma eventual independência dos Açores ocupam numerosas páginas; igualmente “O plano de contingência americano para a guerra civil portuguesa” (pág,329 e seguintes). O ponto 5 do Capítulo V, na rubrica “Apoio americano à restruturação das Forças Armadas”, após o 25 Novembro, limita-se a referir os montantes em dólares de uma vaga “assistência militar”. Mas todo o mundo sabe o que isso significou no Chile, no Brasil, etc: um depuração feroz  nos quadros, particularmente no oficialato; promoções por escolha ideológica, o célebre perfil do militar anticomunista, etc. Eis um tema de indiscutível importância, por isso rodeado de todos os interditos. Poucas probabilidades tem de chegar a ser investigado por algum historiador nacional. Apesar dos autores deixarem certas “percepções” inspiradoras; tais como: “O apoio militar ... às Forças Armadas portuguesas ... com o objectivo de as integrar crescentemente na Nato  retirando-as de cena política” (pág.401). Noutras passagens, Ramalho Eanes aparece como o candidato da equipa militar americana que trabalhava com Carlucci. Nas conclusões finais, o apoio militar ao “Grupo dos 9”,se necessário, é expressamente citado no âmbito do 1º eixo prioritário da acção dos EUA na transição democrática portuguesa.

 

Como atrás foi dito, uma investigação de carácter histórico, apadrinhada pela Fundação Luso-Americana, com a autoria de um special american friend, merece apenas um crédito limitado e cauteloso. No entanto, os autores multiplicam  as “percepções” (e a falta delas). Autorizo-me ao uso do conceito.

Tenho sobre o insucesso da Revolução Portuguesa de 1974-75 uma “percepção” que vem sendo consolidada desde o 25 Novembro 75 até ao presente. Consiste em considerar que o Processo Revolucionário Português - mormente depois da derrota infligida ao golpe de Spínola em 11 Março 75 – provocou o pânico generalizado entre a burguesia ocidental, arrastada numa onda de paranóia anticomunista. (Lideres mundiais “perderam a cabeça”, como  é “percepcionado” pelos autores). Em consequência, os governos capitalistas - membros da Nato e não só- desencadearam uma formidável mobilização sem olhar a meios ou a alvos, desde incentivos ao terrorismo, a planos de ataque aéreo para destruir a “Comuna de Lisboa”.

Ter resistido 19 meses, com bandeiras erguidas, perante uma ofensiva de semelhante envergadura é título de glória para Revolução e para os revolucionários; nas páginas da História deste pequeno país de Portugal, isso brilhará para sempre.

Foi caso único nos tempos modernos. Só na Revolução Francesa e na Soviética, fidalgos e burgueses fugiram de calças na mão, como aqui assistimos  em 74-75. E ainda hoje tremem de cagaço e ódio, num pânico que ficou reflexo inextinguível.

Não meus amigos, não há razão para penitências masoquistas. Excessos e erros, quando os houve, bem minúsculos os ”percepcionamos” frente  ao poderio das esquadras Nato, das manobras de sabotagem e das traições internas. O orgulho pertence-nos. Devemos reivindicá-lo em todas as circunstâncias. Pela honra da grei.

 

                           Lisboa, 12 de Outubro, 2008

                               Fez) J. Varela Gomes

 

publicado por samizdat às 18:55
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