Sábado, 1 de Novembro de 2008

LICENCIOSIDADE E LIBERTINAGEM

J. Varela Gomes

 

Os dois conceitos em título, poderiam parecer  demasiado pejorativos para caracterizar o exercício do poder, ou a  simples actividade política; em especial, no caso de  regimes que se prezam de democráticos. Entretanto, a presente crise global financeira, veio trazer a descoberto, exactamente, a licenciosidade e a libertinagem com que a burguesia capitalista (suposta democrática) administra os negócios do mundo, com total impunidade e desfaçatez

Ora, semelhante tipo de governação vem fazendo escola em Portugal desde 1976, com o 1º executivo constitucional dirigido por M. Soares. Durante 32 anos, o país “politicamente correcto” foi desculpando os excessos licenciosos e libertinos (jovem e ingénua democracia!); foi-os tolerando (pois se até os pides foram ressarcidos!); suportando-os (o exemplo vem de fora!); até que a crise (virtuosa senhora!) tornou a escandaleira  insuportável e intolerável.   

Verifica-se pois, que neste campeonato de abastardamento dos valores fundadores do capitalismo liberal burguês, a jovem e galante democracia portuguesa chegou, velozmente em apenas três décadas, ao pelotão de frente; com o requinte adicional de o fazer por intermédio de um governo de esquerda, socialista de sua graça. Embora, qualquer economista de meia-tijela conheça a fase libertária do moderno sistema capitalista no séc. XIX; com a ficção do comércio livre, mais a invisível (e marota) mãozinha para equilibrar o coiso do mercado entre a oferta e a procura; passando pela comédia de repudiar o Estado em público e amá-lo em privado.

 As duas consignas que mais furor provocaram naquela época – “laisser faire, laisser passer” ,  enrichissez-vous” – já eram um convite claro à licenciosidade e à libertinagem nos negócios. O neo-liberalismo, ao ser adoptado como religião pelo império americano, retomou agora esse convite à escala planetária. Com os resultados que estão a ficar à vista.

 Além disso, a actual crise financeira global deixa irremediavelmente desacreditados alguns dos dogmas sagrados da doutrina capitalista liberal. O destaque vai, sem dúvida, para a destruição do mito de ser possível alcançar progresso e justiça social através da livre iniciativa individual ou empresarial, e da consequente luta (concorrência) pela primazia. Acreditar em tamanho milagre, seria nada conhecer da natureza humana. Mas é claro que os pais da luminosa receita (Adam Smith & Cª, pelos idos de setecentos) sabiam bem que na sociedade dos humanos impera a cupidez e a ganância. Eles próprios, membros da nova classe ascendente - a burguesia- pretendiam o mesmo: dominar a sociedade. Depressa aprenderam que tinham que conquistar/controlar o poder político.

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O sistema capitalista liberal, na actual fase  neo-libertária, acaba de sofrer um grave colapso; digamos, uma espécie de a.v.c. profundo, cujas sequelas desejamos ( e fazemos votos) sejam irremediáveis. Desde já perdeu a face. Ridicularizou-se a si próprio. As malditas nacionalizações foram acolhidas como panaceia salvadora; o Estado, monstro horroroso, foi saudado como bom samaritano, amigo fiel na hora das aflições. Sem vergonha na cara - luxo que sempre dispensaram – os bravos burgueses radicais das amplas liberdades e mínima presença estatal, deitaram pela borda fora os sacrossantos princípios da sua fé doutrinária.

 Trafulhas de raça, pantomineiros por vocação. Das américas às carrazedas transmontanas. O nosso Primeiro apressou-se a condenar os delírios do liberalismo, a sublinhar os perigos da ausência do Estado na regulação do sector  financeiro. Verdadeiro artista! Cavalga a onda da crise com o mesma certeza e arrogância com que anunciava há escassas semanas uma era de prosperidade garantida pela iniciativa privada, uma felicidade sem peias para empresários e consumidores.  

 Mário Soares, outro socialista de fina raça, também famoso pela rapidez de adaptação aos ventos predominantes, escreve no DN de 21 Out.: ”....a mais grave de todas as crises, é a crise moral, a crise dos valores; ou melhor, da falta deles....a negação da ética....a impunidade da corrupção...numa sociedade individualista, egoísta e consumista ...em que o dinheiro conta como supremo valor.” Fim de citação. Minha alma está parva! Mário Soares, o re-descobridor do socialismo! Após tantos anos perdido de amores pelo Tio Sam, nas delícias do capitalismo de rosto humano, distribuindo (e recebendo) prebendas e magnificências , etc! Que lhe sucedeu na estrada de Damasco? É tão duro assim o caminho para o Panteão ?

  O facto é que a “conversão” soarística me ia roubando o tema. Mas, uma muito maior  antiguidade (e coerência) na contestação à iniquidade do sistema capitalista, devolve-me o fio do discurso. O qual conduz a uma  sequela do tipo cancerígeno capaz de produzir a morte do organismo

Retomando. A actual crise financeira/económica global desencadeou, no plano da luta ideológica, â escala universal, um movimento de criticismo condenatório do sistema burguês/capitalista como não há noticia em memória de viventes. Um ajuste de contas de enorme violência, em nome da justiça social, do igual direito a uma vida decente para qualquer ser humano. Assiste-se à denúncia vigorosa da oligarquia burguesa dos ricos, classe exploradora sem escrúpulos nem princípios, responsável pela  divisão da sociedade entre uma ínfima percentagem de privilegiados  e multidões inumeráveis de excluídos. Surge a revelação de abusos sem conta, de regalias e salários obscenos empalmados pelos gestores do capital; revelações e escândalos que estão suscitando a ira e a crescente revolta das massas trabalhadoras. Por enquanto, não está definido, a nível mundial, o desenlace do presente choque ideológico. Dependerá, naturalmente, de várias circunstâncias objectivas; e da inteligência e força de ânimo daqueles que se colocam , de alma limpa e recta intenção, ao lado  dos oprimidos e explorados, dos desprotegidos e desventurados.

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Nós por cá, neste cantinho privilegiado do  paraíso terreal (já Tomás  assim dizia), fomos dos primeiros a alancar (é a nossa sina) com as maravilhas do capitalismo libertário, por obra e (des)graça de socialistas e sócio-democratas. Logo com Soares, vencedor da contra-revolução, aceitando os ditames do FMI; depois, com demo-reaças de igual estirpe, Balsemão, Cavaco, Guterres, Barroso, etc; até nos cair em triste sorte esta flor da charneca, usurpador de nominativo honesto. Todos eles -galeria de susto- contribuíram com empenho e denodo para converter Portugal num oásis para gente endinheirada, jogadores de golfe e de casino; moderno Versailles num oceano de paisagem ardida, vegetal e humana. Dois subprodutos desse modelo de sociedade foram medrando com vigor, mercê da simpática tolerância concedida pelos executivos da  classe burguesa: designadamente, a licenciosidade e a libertinagem .

Nessas circunstâncias, torna-se lícito afirmar que este pequeno país das descobertas, descobriu o caminho para as delícias do capitalismo libertário  antes de muitas e poderosas nações. A bem dizer, logo a seguir ao Chile de Pinochet (e por idêntica e manifesta causa). Pioneira foi a sôfrega burguesia portuguesa na sua adesão entusiástica aos princípios doutrinários do neoliberalismo económico/financeiro veiculados pelo FMI; apesar dos entraves e limitações consignados na Constituição de 1976, ainda com fortes raízes na revolução. Mas quem não se lembra das viagens faraónicas/ridículas de Mário Soares no seu decénio presidencial; da sua famosa tolerância restauracionista, traduzida em larguesas para   fascistas, pides e toda a escória contra-revolucionária. Representava-se como um rei magnânimo, dono e senhor do Estado/Nação, dissipador de prebendas a amigos e cortesãos. Fez escola. Fundou a democracia da licenciosidade prosseguida até hoje. Até à presente fase socretina da libertinagem em roda livre.

Por conseguinte, em certa medida, pode considerar-se que o caminho para o actual crise  do  capitalismo libertário foi uma descoberta precoce do génio político da burguesia lusitana.  Antecipando, em décadas, o colapso da doutrina  neo-lib/neo-com;  que só agora –em 2008~ foi reconhecido pelas grandes potências económicas, igualmente vítimas –lá  como cá- da licenciosidade das suas elites e da libertinagem dos seus agentes político/económicos. Trata-se de uma gloriola da burguesia nacional, que ninguém decerto regateia, e que fica apropriado florão nos brasões dos partidos socialista e sócio-democrático.

Em contrapartida, podem as nossas forças e formações políticas da oposição aos governos burgueses, mais a “sociedade decente” (o conjunto dos cidadãos que não abdicam dos princípios da honestidade e de uma  justiça equitativa tendente à redução das desigualdades sociais), vangloriarem-se da longevidade da sua luta, na denúncia constante da deriva libertária/libertina da democracia portuguesa, que se manifestou logo de imediato com os primeiros governos contra-revolucionários em 75/76, até explodir na vigente libertinagem socialista /socretina. Durante os últimos 32 anos assistiu-se em Portugal, a uma espécie de anteacto, em teatro de aldeia, da degradação e colapso do capitalismo libertário; fenómeno só agora (ao que parece!)  percepcionado pelo  poderoso mundo livre da altíssima tecnologia informativa; e para isso, ainda foi preciso o estrondo  de derrocada financeira e o escândalo dos magníficos gestores a escaparem-se com o dinheiro metido no cu das calças. Na realidade, eles não são tão estúpidos como parecem. Videirinhos, ladrões de casaca, peritos na extorsão do suor da classe trabalhadora. Lá fora manipulando as bolsas do crédito e dos petróleos; cá dentro na vigarice do compadrio tradicional; todos sócios no mesmo negócio de saque e exploração.   

Com efeito, cá pelo sítio, o capitalismo libertário exibe-se há décadas sem disfarce nem pudor Temos até uma versão acabada que podemos, oferecer para estudo aos nóbeis da econimia global: concretamente, o modelo que funciona na Pérola do Atlântico, debaixo da demo-monarquia do Alberto J. Jardim. Uma preciosa amostra do futuro radioso que espera a burguesia acomodada. Julgam  improvável o maravilhoso mundo livre cair numa dessas ? Olhe que não, olhe que não. Nem falemos do passado recente. Olhe que já por aí andam, de novo, por essa Europa tão ufana dos seus pergaminhos, uns farsantes apalhaçados que pedem meças ao Alberto João. Entre outros: Berlousconi, Sarkozy, pelas Polónias e nas Áustrias (onde nasceu um  tal Adolfo, palhaço inofensivo para os sábios da época). E no Cótinente luso-cubano? Parece que sim, também por cá anda um alegado engenheiro, exímio surfista nas ondas da crise e das reformas.

 

Em Portugal, o sistema partidário burguês capitalista navega num oceano de desconfiança e repúdio. A indignação que presentemente varre o mundo das democracias ocidentais, quando a crise financeira tornou ofuscante  a licenciosidade e a libertinagem das respectivas direcções políticas, já há muito domina o estado de espírito da população portuguesa. Ultimamente, a desmoralização está alastrando por todos os sectores da sociedade. A maioria absoluta do Partido (Suposto) Socialista já reveste formas de paranóia autoritária. Os abusos do poder, os tráficos de influência, o confisco partidário dos serviços públicos e respectiva privatização sem rei nem roque, compadrios e corrupção de norte a sul, acumulação de benefícios, pensões e regalias pela classe política, etc, etc. Toda uma soma enorme de escândalos que dão brado mas que permanecem impunes, estão despertando indignação e revolta generalizadas. A opinião da rua, do cidadão comum, nos media, através de centenas de blogs pela internet , denota um crescente sentimento insurreccional.

Avizinha-se um dilatado período eleitoral. Cumpre à  Oposição Democrática Portuguesa, como em tempos de outrora, impulsionar esse movimento patriótico com firmeza e sem contemplações; designadamente, em relação a ilusórios frentismos, (onde M.Alegre é cromo). Em meu entender, firmeza na presente situação política nacional –e internacional- consiste, essencialmente, em pedir contas aos responsáveis pela libertinagem e licenciosidade  que conduziram ao aviltamento dos valores democráticos, à miséria e à ruína  em largos sectores da população, ao enriquecimento afrontoso de uma minoria. Haverá coragem na denúncia -   caso a caso, nome a nome. Ou não haverá oposição digna do momento. 

 

                                   Lisboa, 28 Outubro, 2008

 

                                      Fez) J. Varela Gomes

 

publicado por samizdat às 19:02
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