Sábado, 22 de Novembro de 2008

FASCISTA FOI - Deixou Herdeiros

J. Varela Gomes

          Trata-se do Manholas Salazar e do regime fascista que personificou. Trata-se também –disso nos vamos ocupar – de um exaustivo trabalho de investigação histórica desenvolvido em mais de dez anos pelo consagrado académico Manuel Loff, da Universidade do Porto; e agora disponível no circuito livreiro com edição parcial ( e são 954 páginas!). O volume traz por título “O NOSSO SÉCULO É FASCISTA”; sentença dogmática proferida pelo ditador português após a vitória da cruzada anticomunista em Espanha (de que o fascismo salazarista se arrogava parte); e quando os exércitos nazis dominavam toda a Europa, parecendo vencedores finais aos olhos maravilhados de Franco e Salazar, de seus acólitos e partidários.

         A escolha do título não se resume à denúncia provocatória do aclamado “genial estadista” ; simultaneamente, dá a entender qual a tarefa a que se propõe o investigador/autor: desmontar a impostura ainda corrente - em meios académicos (!), político/democráticos (!!), comunicacionais públicos e privados (!), etc - de se procurar converter 48 anos de regime ditatorial fascista, num lapso episódico da Historia Pátria; não apenas sob o ponto de vista temporal, mas como se tivesse consistido numa governação inócua que não teria sequer oprimido os cidadãos e cerceado as liberdades fundamentais. Um mero “autoritarismo conservador”, na famosa definição de Jorge Sampaio, quando Presidente (democrático!) da República.

         O trabalho de M. Loff resulta na desmistificação completa das teses complacentes com a “banalidade” da ditadura fascista/salazarista; as quais – por incrível que pareça - ainda por aí voltejam. Desde logo, pondo em causa a honestidade intelectual de quem as acolhe; questionando, para além disso, o ethos (a vertente moral) da encoberta identidade portuguesa.

O mais recorrente desses mitos de intenção branqueadora – melhor seria chamá-los trapaças – consiste em negar o carácter fascista do salazarismo. Através de contorcionismos semânticos, de contrafacções históricas, de grosseiras omissões e falsificações, tenta-se erguer o mito de “Salazar, o Melhor Português de Sempre”. Lembram-se os leitores, certamente. Essa pantomina é recente, esteve em cena na RTP 1/Canal Estatal, durante todo o primeiro trimestre da 2007, martelando propaganda fascista horas a fio.

         A tese de doutoramento de M.Loff ( que o volume agora publicado, sintetiza) estabelece irrefutavelmente a genealogia do salazarismo. Contrariando a lenda corrente que considera o fascismo italiano a fonte inspiradora, fica demonstrado - com enorme apoio documental e bibliográfico – a filiação ideológica do Estado Novo ao modelo da Nova Ordem germano/nazi. A adopção da respectiva doutrina e organização concretiza-se, em Portugal, a partir de 1936/38. As afinidades e as relações cúmplices do Estado Novo com o regime sanguinário de Franco, merecem estudo alargado; em menor escala, são abordados casos de outros regimes nacionais que adoptaram o figurino totalitário da Nova Ordem nazi, da Hungria, ao Brasil. O autor segue alguns desses casos –incluindo o português - até aos nossos dias. E fica alarmado, com justa razão, perante a insistente vaga branqueadora dos antigos regimes fascistas e seus protagonistas; particularmente, em países que sofreram essa opressão totalitária.

Mas não só. Ao ouvir a repetição obsessiva do apelo à mudança, pela boca de qualquer actual carreirista da política partidária em Portugal ou alhures, um sinal de alarme soa no meu espírito. Sim, lembro-me da Nova Ordem, do Estado Novo, da Nação Nova, Novas Eras , Vida Nova, etc, etc. Deu no que deu! Agora, remoçaram os “neues” nazis em neos capitalistas: neo-liberais/neo-conservadores. Uma Nova Ordem Económica, global, anunciam eles; onde participará uma Nova Europa, polvilhada de bases militares americanas. Mudanças ? Reformas? Pelas mãos desta gente? Berlousconi, Sarkozy, Durão Barroso, Sócrates, cuja caricatura já reina na Madeira? Só de pensar nisso até assusta! A paranóia autoritária, o confisco partidário da administração pública, o ódio aos trabalhadores, prenuncia o ditador, o herdeiro presuntivo da NeueOrdnung nazi. Ou, na adaptação paroquial lusitana, o herdeiro ideológico do Estado Novo, modelo rural Manholas.

          O estudo e reflexão de M.Loff sobre o Século XX, que Salazar proclamava até 1942/43 inevitavelmente fascista, adquire nesta primeira década do séc. XXI, face à realidade da Nova Ordem Imperialista Americana, uma flagrante pertinência. O investigador/historiador, em numerosos passos do seu extenso trabalho, vê-se arrastado para o confronto com o século XXI; em especial, quando está em causa o trajecto paralelo (e fraterno) dos dois fascismos ibéricos, franquismo e salazarismo; ambos, para trágica infelicidade dos respectivos povos, tendo persistido mais 30 anos à derrota do nazi/fascismo. As “hermandades” (no texto) ideológicas, (filosóficas em geral), mesmo de representação estética e cénica, permitem (au autor) desenhar uma coerência global entre as várias experiências que “se sentiram, como se sentiram os governos ibéricos, particípesde uma Nova Ordem”. Uma “comunidade ideológica”, afirma noutro passo, resultante da co-opção dos conceitos e projecto da Neue Ordnung germano/nazi e do corporativismo italo/fascista. Mas o que deveras incomoda o autor, considerando ”intolerável no mundo Pós-Auschwitz”, é a sobrevivência dos regimes fascistas de Franco e Salazar na Península Ibérica. Não podemos estar mais de acordo : constitui mancha infamante e indelével na Paz Democrática, cristã ocidental..

          M.Loff estigmatiza “o mais despudorado pragmatismo” revelado pelos regimes fascista ibéricos após a derrota dos exércitos do totalitarismo nazi/fascista. Chama a Franco e Salazar “autênticos camaleões políticos”. Na verdade, mais despudorado ainda foi o recrutamento para a frentecapitalista/anticomunista das duas ditaduras ibéricas a que, de imediato, procederam as democracias ocidentais. Sim, o Manholas era capaz de renegar crenças e princípios para se manter no poder. Nisso também fez escola. Deixou herdeiros. Eles aí estão, última fornada, no governo dito socialista do alegado eng. Sócrates, revelando-se camaleões políticos tão bons ou melhores que os mestres fascistas do antigamente.

 

         O historiador probo e de independente julgamento, o investigador meticuloso e exaustivo Manuel Loff, teria fatalmente de se confrontar com a historiografia fascista; cujas fortes ramificações se encontram ainda hoje (2008) bem presentes no corpus historicus nacional que domina o ensino académico, a produção de doutrina e a investigação sobre o acontecido ; com incidência especial no relativo à obra aqui compulsada. O Cap. 3 analisa e castiga a Revisão historicista da História promovida e imposta pelo regime salazarista no sentido de eliminar textos e preconceitos pouco amistosos, de exaltar a grandeza e a singularidade de Portugal, etc. Conhecemos o género. Eles ainda andam por aí: os cronistas/historiadores ao serviço do poder partidário burguês, porta-vozes da visão optimista do governo em exercício. Democratas serão, como a fruta no tempo; mas herdeiros se revelam dos tiques do acomodamento (politicamente correcto, é a expressão eufemística). M. Loff denuncia o servilismo de um João Ameal nos anos 40; mas também cita a manipulação póstuma (em 2000!!) por um Manuel Lucena, transformando o salazarismo e seu chefe num “peculiar antifascismo na luta contra influência ítalo-alemã na Peninsula”. Várias outras aberrações branqueadoras se podem ler. Ao autor custa-lhe aceitar que dignatários do fascismo como Freitas do Amaral, (ou Adriano Moreira, Veiga Simão, Hermano Saraiva, etc) sejam reverenciados pelo regime democrático, contaminando a atmosfera sócio/política; e, bastante pior que isso, dando testemunho vivo que os 48 anos de fascismo salazarento foram um lapso episódico banal na História da Nação,   assimilado, sem problemas, pela chamada identidade portuguesa e perfeitamente integrado na sociedade democrática.

         Vemo-nos na triste contingência de ser obrigados a reconhecer que, sob a actual governação (suposta) socialista foi atingido um grau superior dessa assimilação filofascista; traduzida, na prática, num neo-autoritarismo totalitário no exercício do poder político. Isso nota-se em todos os domínios. Poder-se-ia destacar a comunicação social, onde os tiques de subserviência ao poder parecem já restabelecidos. Mas, como estamos acompanhando M.Loff pelos difíceis caminhos do historicismo, cabe aqui deixar aviso que o “totalitarismo socialista” de Sócrates & Parceiros tem em mira o campo de história e suas fábricas académicas. O que se passa no Departamento de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, chefiado por António Reis (ponta-de-lança do PS, grão-mestre da Maçonaria, etc), suscita larga apreensão. Fábrica de contrafacção histórica para o branqeamento do fascismo salazarento? Há indícios.   

Salazar em pessoa, re-escrevia para a história, emendava ou mandava emendar documentos e correspondência (ó sacrilégio! fanáticos do espólio escrito), fixava normas metodológicas aos futuros historiadores, declarava em 1945, em desespero de sobrevivência, que o Estado Novo era a ”verdadeira democracia”. Consta em “O NOSSO SÉCULO É FASCISTA”

O estudo/tese de M. Loff concorre, talvez como nenhum outro até há data, para desmistificar as contrafacções relativas a um edulcorado “anterior regime”, que por aí circulam impudicamente. Além disso abre inúmeras pistas de reflexão, convida ulteriores investigações e desenvolvimentos, estimula o combate pela reposição da verdade histórica. Combater a complacência pelo antigo fascismo, denunciar o filofascismo encapotado sob trajes académicos, de comentadores avençados, ou do respeitinho politicamente correcto, é prevenir um neo-fascismo que já incuba no regaço do neo-liberalismo global.

Creio ser esta uma das lições mais importantes transmitida pelo magnifico trabalho de Manuel Loff. Gostaria de poder concluir - num remate feliz –que, nesse sentido e consequência, vai ser grande a repercussão da obra agora publicada. Infelizmente, as condições pré-totalitárias em que vivemos, por cá e no mundo, não sustentam essa hipótese. No entanto, esta frente da luta ideológica –o desmascaramento do salazarismo- não pode ser abandonada. M.Loff marca, com louvor e distinção, poderosa presença nessa primeira linha do combate antifascista. Felicitações são devidas ao investigador/historiador. Saudações deixamos ao antifascista, companheiro na mesma trincheira.

publicado por samizdat às 16:56
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