Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009

Em ano de eleições - anotações de eventual utilidade

Entrámos no ano das três eleições. A tensão no seio dos partidos políticos – mormente nos partidos da alternância burguesa – irá em crescendo. Em contrapartida, uma elevado percentagem do eleitorado manter-se-á alheia; por inércia anterior, por descrença consolidada.

 

O pessoal que não desiste continuará cumprindo o seu dever. Vai ser, seguramente, o caso do  “Alentejo Popular”. Aí me incluo. Aliás, nem precisarei alterar a orientação geral dos textos que venho alinhavando no nosso bravo semanário. Com efeito, quando comento ou crítico aspectos  da vida nacional, da história das gentes e das mentes, tenho sempre em vista oferecer tópicos de reflexão sobre determinadas questões candentes quer no plano interno, quer na actualidade mundial. Inevitavelmente entrando em contradição com o pensamento dito “politicamente correcto” .

 Neste momento, neste ano de importantes decisões respeitantes ao  futuro próximo do nosso país, a escolha do título em epígrafe obedeceu á intenção de contribuir (eventualmente) para despertar uma reflexão mais demorada, de maior responsabilidade cívica, sobre ao malefícios e as mistificações da governação burguesa que, no presente, leva  etiqueta socialista. Contribuição de modestas ambições.... para que  se cumpram os votos... de eventual utilidade.

 

Deve, no entanto, registar-se que críticas e denúncias das malfeitorias cometidas ou consentidas pelo governo PS estão sendo  lançadas por sectores e personagens da burguesia instalada. Dando de barato os ataques e acusações institucionais dos partidos da direita na oposição; e ainda do contingente dos despeitados sem glória e sem tachos – de que Mário Soares é o arquétipo ; resta um número apreciável de profissionais e intelectuais burgueses que, com admitida sinceridade, desejam que qualquer coisa mude para que as aparências resultem mais decentes. Ou seja, não querem efectivamente, bulir com o sistema; apenas que os adereços e adornos estejam limpinhos e brilhantes para que o bom povo possa aplaudir o espectáculo. Não obstante, é útil ler e ouvir esse grupo de pressão (chamemo-lhe assim); na medida em que, não só  constitui um elemento disruptivo na frente demo-reaça, mas porque representam “opinião autorizada e indiscutível” aos olhos de um vasto eleitorado incrédulo e hesitante. Assim, pode tornar-se útil citar essas abalizadas opiniões em abono de teses da esquerda anti-sistema Exemplificando:  o fiscalista Medina Carreira foi ministro das finanças no 1º governo M.Soares (1976-78), um produto directo da contra-revolução;  trinta anos depois é apoiante de Cavaco à presidência, e presença frequente na televisão. Lá esteve, já este ano, a 3 Janeiro (c/ M.Crespo), reincindindo a 5 (c/Conceição Lino). Dois extensos programas,   onde o entrevistado fez jus à  reputação de não ter papas na língua. Afirmou, entre outras “morteiradas”: existe uma corrupção generalizada que nos condena e empobrece; o País está a saque; a nulidade exuberante do governo; a propaganda do governo cheira a charlatanice, uma banha da cobra ;  a política em Portugal é um nojo; tenho o maior desprezo por quase todos estes políticos....são santolas só com casca; Socrates faz propaganda...não sabe fazer outra coisa; o que se passa na Educação é um crime, uma vergonha; Não há diferença entre estes deputados e os de Salazar. Resume ele: eu tenho medo. Oxalá não haja dinheiro, basta de asneiras. Não consigo acreditar, para os tempos mais próximos, num futuro melhor para Portugal e para os portugueses.

  

Mais explicadinho que isto seria difícil, convenhamos. Contudo, há a considerar que os   porta-vozes da esquerda institucional ou independente não desfrutam de semelhantes oportunidades nas televisões; mas o facto é que os Medinas Carreiras e seus émulos burgueses, deixam assim aberto espaço para um confronto político mais afoito onde se chamem os bois pelos nomes, mesmo até com a rudeza equivalente à pesporrência da fauna socretina. Porventura seria eficaz junto do eleitorado mais duro de ouvido. No entanto, algum trabalho prévio será preciso fazer. Recolher as armas fornecidas por adversários e inimigos; seleccioná-las; distribui-las pelos porta-vozes, em tempo oportuno. Aquilo que se chama, em inglês bem adequado  intelligence. Não é trabalho para curiosos,  para acasos fortuitos... como comigo sucedeu em relação às entrevistas de M. Carreira. Façamos votos para que  essa ferramenta –de eventual utilidade – esteja ao dispor de uma esquerda combativa neste ano de várias  pugnas eleitorais.

 

Muitas mais cerejas iremos tirar do cesto das anotações. Ou vice versa. Puxemos por outra qualquer; elas estão tão entrelaçadas! Sai a questão da confiança dos portugueses no sistema político, tema que está sendo recorrentemente invocado pelo 1º Ministro Sócrates, como bandeira partidária conquistada por ele e pelo executivo socialista; e como argumento máximo da propaganda por uma nova maioria absoluta.

 

O homem  alucinou ! O poder absoluto subiu-lhe à cabeça ! O gajo é um pantomineiro de estalo. Por aí fora. São pontos de vista que alastram pelo País fora à medida que aumenta o número  de portugueses afectados  pelo desastre da governação socialista. O triunfalismo socrático apoia-se, segundo o próprio, nas sondagens de opinião. Até às legislativas vão suceder-se dezenas, através de um ano anunciado como super tempestuoso. Ver-se-á então onde vai parar o homem alucinado.

 

Entretanto, o homem tem vindo a alucinar  progressivamente. Neste momento ele julga-se “o sistema”. Assim a modos de um Salazar durante decénios, de um  A.J.Jardim ao vivo; dois exemplares castiços, para só  ficarmos  por cá, entre os alienados da paróquia, verificando que a terra  lusa é propícia ao desenvolvimento da espécie daninha. Ele já  está em propaganda eleitoral como se as próximas legislativas fossem o plebiscito do partido único e ele o  líder predestinado.  Repetindo a trágico-comédia dos  “chefes políticos” possuídos pelo delírio do poder o sujeito pensa,  convictamente, que o povo o adora; que o vai  eleger uma e outra vez, por maioria absoluta, que os portugueses têm uma confiança inabalável na sua chefia....e nele próprio. (Isso é mais que pressuposto no universo dos alienados).

                    

Passemos de relance, com raiva contida, pelo substantivo abrangente “os portugueses”, de uso corrente por ditadores e afins e tão ao gosto dos  dirigentes demoreaças logo que se alçam ao poder. A expressão mais refinada salta quando anunciam sacrifícios e responsabilidades; nessa altura é da praxe o “todos”. (Já aludi a esse tique de demagogia barata noutra ocasião). Sócrates - como Cavaco, Sampaio, Soares, etc -   não falha. No subconsciente da politicagem burguesa, os portugueses –todos, não eles- são figurados como uma massa indistinta de vultos, de gente mansa e ordeira, tementes a deus e à autoridade estabelecida. Um rebanho. Assim pensava Salazar. Classes sociais não contam, ricos e pobres, velhos e jovens, analfabetos e letrados, desempregados e tachistas, etc,  tudo para o mesmo saco  na mundovisão patriótica da “classe política” que nos governa e ao mundo. Um mundo binário, dual, simples : os que mandam e os que obedecem. Os exploradores e os explorados, na visão de um tal Marx. Ora, dúvida não pode existir em que lado está - e onde anseia ficar - o “adorado” Sócrates  e a camarilha socialista que confiscou em seu proveito o aparelho do Estado.

 

Quando ao fim de três anos  de governo suposto/socialista o seu líder entra em campanha eleitoral jogando como trunfo decisivo a confiança dos  portugueses (todos!?) na sua pessoa e na equipa que dirige, um incrédulo espanto apossa-se do espectador/eleitor mais desprevenido. Há sobejos motivos para isso. Imensa gente, desempregados, famílias, trabalhadores, profissionais, estudantes, pelas cidades e pelos campo, ficam com a ideia que o homem perdeu completamente a noção do real, que não anda por cá, está vivendo numa tresloucada ilusão.  Num outro fortuito acaso de zapping televisivo apanhei um programa/debate onde se apreciava orçamento. Às tantas, o representante da direita parlamentar, respondendo ao membro do governo presente, de mãos na cabeça (literalmente) exclamava : Confiança no governo !? Mas isso é uma afirmação extraordinária. Contra todos os dados existentes. O senhor não conhece as estatísticas, os relatórios nacionais e de origem externa, dando conta do recuo de Portugal em quase todos os indicadores de desenvolvimento e progresso? Particularmente nestes últimos três anos? Etc. Pois é. Até mesmo a assumida direita cristã/capitalista leva as mãos à cabeça. Por muitas e melhores razões cabe à esquerda ideológica e política bradar aos céus, atirar na cara de Sócrates & Cª. com a indignação que se manifesta nas ruas e nos locais de trabalho, onde os epítetos mais suaves são os de mentirosos e aldrabões.

 

Contudo, a questão da confiança nas políticas da burguesia e nos políticos que as advogam e defendem merece  algumas anotações suplementares ....de eventual utilidade. Desde logo, convém frisar que do ponto de vista da esquerda ideológica  não se coloca a questão de uma maior ou menor confiança; a lógica posição da esquerda é a de desconfiança total, instintiva e absoluta em relação a toda e qualquer medida proposta ou levada a efeito pelo governo demoreaça de José Sócrates. Três anos de comédia de enganos, chegam e sobejam para aquilatar da qualidade traiçoeira do bicho e da matilha. Nesta altura, neste ano em que se decidirá o futuro próximo do país, as ilusões –se as houve – estão desfeitas. Nenhum dirigente político ou sindical se deixará apanhar pela velha e relha rasteira do “ diga lá qual é a vossa alternativa; apresente soluções”. A esquerda não tem que oferecer soluções a inimigos ou antagonistas; muito menos em tempo de guerra ou de luta decisiva. De momento, a missão é essencialmente  desacreditar  e tornar a desacreditar,  a governação calamitosa do Partido Socialista  nos últimos três anos. Não faltam armas e material para o efeito; antes pelo contrário. E deixar claro perante o eleitorado que um novo governo se obrigará a reverter as medidas mais danosas e as  pseudo-reformas da equipa socretina.

 

Anotada, embora sumariamente, a cartilha respeitante à confiança que os portugueses depositam na orientação governativa da maioria absoluta socialista, resta o capítulo relativo à confiança nos agentes ao serviço dessa política. Avaliar da (in)competência de cada um e dos respectivos podres seria tarefa monumental, descabida no contexto. E no entanto!...No entanto, há que reconhecer que é no descrédito individual que mais se alicerça o sentimento de desconfiança do eleitor comum. Os abusos e privilégios que exiba qualquer um que detenha uma parcela de poder – ministros, deputados, autarcas, a multidão dos assessores, consultores, chefes, chefinhos e chefões, etc – está, por natureza da função pública, sob o exame interessado dos cidadãos e da comunicação social. Trata-se de vigilância legítima, inerente à  democracia e, como tal, deve ser respeitada. Mas o facto, o lamentável facto, é que a nossa rapaziada política comporta-se como se estivesse ainda no recreio da escola primária. Dando escândalos sobre escândalos. Alguns, enfim, de menos importância; outros do foro criminal. No caso do partido socialista –objectivo prioritário nestas anotações- onde abundam os carreiristas, mais os arrivistas, os paraquedistas e os oportunistas de toda a pelagem, a licenciosidade e a libertinagem atingiram, na presente legislatura, novos máximos. A imprensa, a internet, a vox populi comentam sem cessar. Este quadro concorre decisivamente para o descrédito do actual governo; mas também de todo o sistema democrático de representação partidária. Para evitar acusações avulsas e generalizantes seria, de eventual utilidade, a divulgação  das “carreiras políticas” de algumas personagens proeminentes da burguesia partidária; com destaque para as do pessoal  do partido que almeja tornar-se único e eterno no poder democrático. Seria uma das tarefas da acima mencionada intelligence. Detalhando quanto custa ao erário público cada uma dessas personagens : em remuneração de funções,   mais subsídios de residência, transportes e outros, abonos de viagens e deslocações, viatura oficial, telefones, etc, serviços especiais de apoio social (ver site Presidência do Conselho); nunca esquecendo a acumulação de pensões pagas pela Caixa Geral de Aposentações. Há quem confesse pelo menos três; por junto, anda por aí muito político carreirista permanente ou ocasional, que limpa mais de 10 mil €/mês. Extraídos da vida e do trabalho de uma população pobre, com trabalho precário e futuro incerto. A quem Sócrates & Associados recomendam poupanças. Malandragem!

 

Portugal, uma imensa Madeira! eis o sonho de Socrates e dos socretinos. Vamos dar cabo dele (o sonho). E porque as culpas são do sistema - assim se desculpam eles - vamos dedicar-lhe (ao sistema) umas novas   Anotações de Eventual Utilidade, em próxima edição.

publicado por samizdat às 16:58
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