Terça-feira, 21 de Abril de 2009

25 D’ ABRIL - NEM ESQUECER ... NEM PACTUAR

 

João Varela Gomes

 

Um novo aniversário do 25 d’Abril de 1974, uma nova crónica. À minha conta devo já ter escrito pelo menos umas vinte. Uma das primeiras, em 1978, estava no exílio democrático, na República Popular de Moçambique, na situação de refugiado político, pela 2ª vez expulso do Exército. Na vez primeira, em 1962, a autoria coube ao fascismo salazarento.

 

Em todos esses ensejos evocativos vi-me confrontado com a ambiguidade das comemorações. Não apenas das oficiais, valha a verdade. Ver subir às tribunas, encabeçar desfiles, lançar apelos à participação popular, a activos e figadais inimigos da revolução não é para o meu feitio. Dá-me vontade de vomitar.

 

No 7ºaniversário (1981), ainda saneado/expulso das fileiras militares, enviei à Comissão Promotora uma Carta-Aberta onde se pode ler : “Reúnem-se novamente este ano para comemorarem o acto revolucionário de 25 de Abril de 1974, os vencedores e os vencidos em 25 de Novembro de 1975, os saneados e os saneadores, os perseguidos e os perseguidores. No meu entender estar presente seria co-honestar um acordo equívoco, seria autorizar que o meu próprio procedimento pudesse ser rotulado de ambíguo...”  

 

No 10º aniversário (1984), o Diário de Lisboa na véspera da efeméride, transcrevia um extenso artigo, do qual destaco : “Várias comissões celebram diversos 25 de Abris. Em boa verdade, não tão diferentes uns dos outros como nos querem fazer supor. Esta é, aliás, a primeira ambiguidade – e não a menor, certamente – responsável por grande parte do desencanto que permeia a atmosfera comemorativa. Afinal quem é que vamos ver subir às tribunas celebrativas ? Spínola, Freitas do Amaral, Balsemão em companhia da parelha governante Mário Soares/ /Mota Pinto. O “25 de Abril” dos spinolistas, da maioria silenciosa, do putsch do 11 de Março, do bombismo, do terrorismo, do separatismo açoriano. O “25d’Abril” tal como fora preparado e planeado, pelo imperialismo americano para os seus especiais amigos portugueses. Noutro lado, a tribuna da Associação 25 de Abril monopolizada por Vasco Lourenço e os novembristas,  ex-conselheiros aliados do PS, os militares moderados amigos da Nato e do capitalismo ocidental. Celebrar Novembro em Abril é motivo de profundo desencantamento”.

 

No 20ºaniversário (1994) o Expresso publicou-me na Secção Cartas ( e só em 21 Maio) um comentário do qual extraio os seguintes parágrafos : “Causa arrepios ouvir da boca de determinados personagens e seus acólitos, a palavra “revolução” tão licenciosamente proferida nestas comemorações. Que revolução ? Aquela que tenazmente combateram com a ajuda decisiva do imperialismo e através das mais escabrosas alianças com a escumalha da extrema-direita nacional e internacional? A isso chama-se contra-revolução, como vem na mais elementar gramática política. O frenesim comemorativo deste 25 d‘Abril (1994) veio por a descoberto aquilo que se suspeitava, ou já se sabia: que este país está cada vez mais na mesma. O mesmo pessoal, agora acrescentado com o contingente dos arrivistas pós-74. O mesmo provincianismo bacoco, o tradicional sectarismo hipócrita, vigarice e manha, corrupção nas almas, nos negócios, na governação. O quadro político/ideológico de referência recuou para trás do século das luzes. Portugal, que futuro? Mas obviamente a mesma triste sina de sempre, na cauda da Europa, entre as nações mais atrasadas, mendigando ajudas, subsídios, compreensão para o caso específico”.

 

Estão passados 15 anos sobre a sentença atrás lavrada; sendo 10 de governança PS, com o socialista J. Sampaio na presidência. Alguém deu por alguma diferença quanto ao projecto de Abril? Chegados ao 35º aniversário do “dia inicial, inteiro e limpo”, temos a II República Portuguesa  presidida por um democrata acidental, técnico economista pronto a fazer carreira em qualquer regime, completamente alheio às lutas pela liberdade e ao combate antifascista; que, de Abril, até o cheiro dos cravos aborrece. No governo aparece a dirigi-lo um socialista espúrio, engenheiro de aviário, vendedor da banha da cobra, apoiado por  maioria absoluta parlamentar, onde os únicos vestígios de Abril estão representados pelo patético M.Alegre, conspirador contra-revolucionário desde a primeira hora; e por Marques Junior, militar de Abril subalterno  e político subalterno no PS, que lhe paga a fidelidade com sucessivas comissões de deputado anódino.

 

Não há, convenhamos, muitos motivos para festejar – no sentido corrente, de saudar com alegria – o “nosso” 25 de Abril; o da explosão popular, o de ter sonhado com a redenção possível de um povo amarfanhado por meio-século de opressão e reles ditadura. Esperança atraiçoada,  sonho amesquinhado, desfigurado por incessantes golpes de um ódio que não cansa, desferidos pela burguesia corrupto/capitalista restaurada no poder desde Novembro de 75; e  representada pelos partidos políticos contra-revolucionários, cujos governos, apostados em destruir as (correctamente) chamadas “Conquistas de Abril”, conduziram Portugal para o pântano ético/político/económico em que  hoje está  mergulhado. Os democratas contra-revolucionários converteram-se em novos-ricos à custa do erário público e de tranquibérnias sem conta. Juntos com a  burguesia filofascista do antigamente constituem a actual classe dominante. São inimigos de Abril, da classe trabalhadora, de uma sociedade justa e equilibrada. Perderam o direito de comemorar o 25 de Abril. Ide festejar o 25 Novembro. E  lá o vosso lugar, é lá que a vilanagem está a engordar sugando o sangue, o ânimo, a alegria de viver da geração que viu nascer o sol da liberdade; e que - para desgraça nossa, da pátria portuguesa - deixa os  filhos, as  gerações vindouras, defrontando um horizonte cerrado, uma nova “apagada e vil tristeza”.  

 

Neste já longo lapso de tempo de 35 anos muitos mitos de falso brilhantismo  foram-se revestindo de azebre. Diversos heróis aclamados pelo entusiasmo popular durante o processo revolucionário (PREC) revelaram possuir pés de barro, convicções dúbias, predisposição para o compromisso levada até à traição. Ingénuas ilusões (outras nem tanto) desvanecidas ficaram ante a dura realidade da reacção burguesa de orientação capitalista/liberal. Não fazem falta. O 25 de Abril –em rigor, “A Revolução”  não precisa de ilusões para permanecer eternamente na história do povo português como um dos momentos mais belos e exaltantes da sua existência secular como nação. Em todo o século XX , talvez nem a 1ª República de 1910, tenha provocado uma explosão colectiva tão forte, um surto tão alvoraçado de patriotismo e esperança. Os 500 dias da Revolução de Abril em Portugal, em termos de emoção e empenhamento popular, ombreiam com os mil dias da revolução chilena de Allende, com a república espanhola vencedora das eleições de 1936. 

  

 

Nós, homens e mulheres de esquerda ideológica, pela liberdade, pela igualdade e justiça social, orgulhamo-nos desse Abril da revolução popular. Com naturalidade - no campo da honestidade intelectual e na percepção dos ocultos interesses de classe - temos reduzido os vencedores da contra-revolução ao seu deplorável papel de videirinhos e carreiristas na política burguesa democrática. Tarefa facilitada, não só pela exibição ulterior dessa gente no devorismo com que se atiraram à fazenda pública; mas também com o recurso a um certo número de obras nacionais e estrangeiras publicadas em anos recentes sobre a situação portuguesa a partir de 1974. Alguns desses trabalhos utilizam fontes e documentação inéditas, nomeadamente de arquivos oficiais americanos; que deixam a descoberto as enormes  responsabilidades e cumplicidades de formações e entidades portuguesas na sabotagem e na traição a Abril e aos ideais de redenção ética/política, para sempre associados à sua memória.  Como é sobejamente sabido, as duas formações pontas-de-lança do imperialismo na ofensiva contra a Revolução de Abril, foram o Partido Socialista e o grupo de militares do MFA designado  por “Grupo dos Nove”.

 

Ora, esta realidade introduz uma amarga ambiguidade nas celebrações do 25 d’Abril. Seguramente, a mais dolorosa para todos nós, que acreditámos nas suas virtudes e nas virtualidades do acto revolucionário ocorrido naquele dia do ano - tão distante! tão distante!- de 1974. O simples facto de ter que suportar em todos os aniversários a homenagem à “falecida pelos causadores do seu passamento já seria suficientemente penoso;  mas os cavalheiros afirmam-se da família, usurpam a cabeceira, botam discurso, armam-se em donos da casa, reclamam heranças e paternidades. São descarados. Em suma, se não são provocadores, imitam muito bem.

 

Na verdade fica a dúvida. O que têm em mente, qual a intenção obscura que leva os vencedores  contra-revolucionários a quererem apossar-se da nostalgia do povo trabalhador, do povo de esquerda pelos “dias mais felizes das suas vidas”? Logicamente deveriam satisfazer-se com as cerimónias oficiais, discursatas e medalhinhas para cumprir o calendário; e um ou outro cravo vermelho, desmaiado. Descerem à rua, misturarem-se com o pessoal da ferrugem, somos todos uns gajos porreiros, está tudo esquecido!?  Não meus meninos,  essa cantiga já não pega. Vocês só esquecem aquilo que não vos interessa recordar. Isto é, todas as indignidades que cometeram em nome da “verdadeira democracia”. De resto continuam a perseguir a classe trabalhadora, a enviar contingentes de tropa neo-colonizadora para o Kossovo ou para o Afeganistão, a encherem a mula à custa da miséria do povo, acumulando indecentes privilégios e regalias. A vossa adesão às manifestações populares do 25 d’Abril é demasiado contraditória para ser sincera.

 

Na circunstância da comemoração de novo aniversário de Abril, convém recordar que a contrafacção da história é um desporto em que os intelectuais lacaios do “politicamente correcto” se tornaram exímios. No mundo ocidental têm disso fama e proveito. Aqui, neste bisonho e manhoso  cantinho sudoeste da Europa, os artistas revelam-se como insólitos admiradores e restauradores do passado recente; do meio-século anterior à libertação de Abril. Do fascismo, concretamente. É vê-los, os políticos burgueses, os intelectuais de serviço, os comentadores avençados, uma chusma enorme de oficiantes do “anterior regime”, proclamando tolerância para fachos e pides, curvando-se em vénias perante os fósseis do salazarismo, filhos e afilhados, promovendo um caudal de edições, de estudos, de homenagens, até de concursos, sobre esses “velhos e bons tempos”. Essa memória, eles, os inimigos e adversários de Abril, não a esquecem. Em contrapartida, não suportam ouvir falar na revolução ou na resistência antifascista; são temas que consideram pertencer ao museu morto.

 

De facto, na “campanha negra” (Socrates dixit) de branqueamento e reverência pelo “anterior regime” - em simultâneo com o apagamento da memória da resistência e revolução - ocupa lugar de relevo a contrafacção da história; e, obviamente, da sua memória. No presente momento, debaixo da inspiração ideológica do governo socialista/capitalista/socretino, funciona na Universidade Nova de Lisboa/Departamento de História  Contemporânea um virtual Directório da Contrafacção,  dirigido pelo Prof. Dr. António Reis, membro fundador do PS, grão-mestre da maçonaria, activo e fiel prosélito da ortodoxia socialista (seja ela qual for). Sobre a luta antifascista, os estudos mais desenvolvidos (devidamente premiados) apoiam-se em documentação da Pide e apreciações dos respectivos agentes. Sobre a revolução de Abril....o melhor é nem tomar conhecimento.

 

Na semana anterior a este 35ºaniversário, o Estado Democrático Português, o respectivo Presidente da República e o governo eleito decidiram, ao que consta por proposta das chefias das Forças Armadas, promover, a título excepcional, a major general o coronel reformado (73 anos) Jaime Neves. O únicos raros precedentes de idênticas promoções foram a título honorífico.

 

Jaime Neves foi o executante operacional do 25 Novembro. Não se lhe conhecem outros títulos de recomendação. Sobre essa sinistra personagem tive ocasião de escrever (Expresso, 25 Novembro, 2000) : “O grande herói do 25 Novembro contra-revolucionário é Jaime Neves. Nem com uma candeia se arranjaria melhor figura simbólica. Militar de poucas letras, centurião da guerra colonial, anticomunista primário, rude de modos e companhias, representa o típico campeão da direita mais cavernícola “A distinção já consumada (TV, 16 corrente) “não pode deixar de ser considerada como uma afronta ao projecto libertador de Abril” (Nota PCP , 8 corrente). Assim é, sem sombra de dúvida. Afronta deliberada , parte integrante da campanha negra de Sócrates, contando com o aplauso do PR. Alguns políticos burgueses e outros comentadores avençados, mais malandros que  tolos, justificam a sujeira com os façanhas do centurião na guerra colonial. Trinta e cinco anos volvidos, querer glorificar uma guerra injusta, uma guerra perdida? Tenham vergonha! Por coincidência num aniversário do 25 d’Abril? Trata-se de uma pura provocação política/ideológica de inimigos de Abril, de fascistas póstumos, com os quais seria uma desonra pactuar em cerimónias comemorativas.

 

Na situação assim criada, no decurso da celebração da efeméride, não pode esquecer-se uma afirmação de censura e protesto em relação à conduta de órgãos de soberania neste assunto, que traduz menoscabo pelo espírito da Constituição e pelo consignado Dia da Liberdade, e de desprezo pelos sentimentos patrióticos de milhões de portugueses; dando um sinal de ameaça à democracia extremamente perigoso.

 

E depois vamos então mostrar que ninguém consegue fazer-nos esquecer o dia mais feliz das nossas vidas, da vida de um século da nossa Pátria.

 

Novos Abris voltarão a florir para vocês, rapazes e raparigas  a que esta gente gananciosa e cínica está fechando o horizonte. Lutai por isso. Acreditai !
publicado por samizdat às 16:49
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