Sábado, 8 de Agosto de 2009

UM CONSPIRADOR BESTIAL !

João Varela Gomes     
Provavelmente, será a exclamação em titulo a que vai ser proferida por qualquer leitor desprevenido – que não  conheça Vasco Lourenço – após leitura, ou mero folhear, do livro/entrevista “No Interior da Revolução” editado em Maio do ano corrente.
      Com efeito, numa longa entrevista (570 páginas) conduzida por Manuela Cruzeiro investigadora do Centro de Documentação 25 d’Abril – Coimbra, o autor entrevistado não se coíbe de dar a entender – e em assumi-lo expressamente – ter sido “o maior” (o Deus ex machina) durante todo o período revolucionário, desde a conspiração que antecedeu a Acção Militar em 25 d’Abril 1974, os 18 meses seguintes até ao Golpe Contra-revolucionário de 25 Novembro 1975, e a consequente consagração e glória pessoal  para o narrador.
      Segundo o herói/protagonista, ele esteve em todas, impôs-se a todos os adversários aos berros e ameaças, venceu todos os confrontos – militares, políticos, homem-a-homem – exibiu a sua prosápia, até mesmo  no Pentágono e no Kremlin! Na gíria popular “não houve pai para ele”; um gajo bestial, em suma !  
      Embora a entrevista agora editada tenha tido lugar em 1995, o que conta é  a data da publicação autorizada, prefaciada, etc. Confesso que 35 anos passados, morta e enterrada a revolução por obra e (des)graça de vários Vasco Lourenços, custa-me escutar este tipo de conversa; fanfarronadas de adolescentes impenitentes, divagações de veteranos reformados enaltecendo façanhas dos tempos áureos. Mais me custa ainda, participar em qualquer espécie de contra ponto com os coveiros da revolução. Já o fiz em diversas ocasiões, verificando à posteriori a completa inutilidade do esforço. Será portanto apenas por descargo de consciência e, principalmente, pela grande consideração que tenho por Manuela Cruzeiro, que vou ajuntar umas poucas observações; procurando limitar-me às situações em que apareço pessoalmente referido.
      Vasco Lourenço (VL) gaba-se, com frequência, ao longo da entrevista, da sua boa memória. Com isso quer, naturalmente, dar a entender que tudo o que recorda traz o selo da absoluta veracidade. Analisemos então a mercadoria oral com a recomendada cautela.
      A páginas 440 o narrador, questionado pelos dados precisos que M.Cruzeiro lhe coloca, passa pela rama a Assembleia do Exército que teve lugar em 24 Julho 75; aliás convocada, à balda, pelo próprio VL, como peça da conspiração em que estava empenhado. A moção proposta consistia na dissolução da 5ªDivisão e no afastamento de V. Gonçalves. Extraordinariamente, admite não ter presente os pormenores da reunião; que a troca de palavras foi tão azeda que se decidiu pela retirada estratégica..... “retiro a proposta por não estar para aturar crianças”. Ora essa reunião está descrita no livro de m/autoria “A contra-revolução de fachada socialista”, publicado em 1981, numa edição de dois/três mil exemplares. Aí se lê que a moção de VL foi vencida na argumentação e na votação final; VL no auge do desespero desata aos insultos, gera-se um grande pandemónio (“talvez o maior registado em reuniões do MFA”); com o “manipulador de assembleias” (como o chamei na altura) a fazer menção de se atirar a contra mim e  a exclamar para Duran Clemente que se tinha interposto “A ti posso admitir algumas coisas, mas àquele gajo hei-de acabar por lhe dar um tiro”.
     VL,  com a sua memória suposta fotográfica, situa essa cena de iminente confronto físico, numa reunião no dia 12 Março 75, que eu teria convocado e a que presidiria, destinada à escolha de novos membros para o Conselho da Revolução. Essa é a versão apócrifa de uma reunião convocada e manipulada por VL (mais uma), que levou de vencida,  tendo conseguido nomear para o CR   fieis comparsas, alguns quiçá implicados no golpe do dia 11. Não, não me pôs na rua com a ameaça de me “enfiar cadeiras pela cabeça abaixo”, Saí, isso sim, enjoado com tanta manipulação e baixa intriga.    
     Não vou perder mais tempo a rebater uma a uma as certezas, as façanhas, as opiniões, os palpites de  VL sobre a revolução portuguesa. Nos três decénios entretanto decorridos já escrevi centenas de paginas, publiquei vários livros, assinei dezenas de comentários. Do ponto de vista pessoal esqueci agravos. Mas do ponto de vista patriótico e revolucionário nada esqueço e nada perdoo. VL sabe ser essa a minha posição.
     A determinada altura do processo, o conspirador emérito agora entrevistado, aos berros (modo de expressão habitual, segundo o texto) atira-me à  cara com a afirmação de “não admitir que haja alguém que se considere mais revolucionário que ele”. Meses depois, quando a revolução é esmagada, afirma-se como um dos vencedores do 25 de Novembro. Porventura,  o principal. No final da entrevista (2009/pág.549) ainda tem a ousadia de declarar “Em minha opinião, estavam criadas condições para uma verdadeira política de esquerda”. Manuela Cruzeiro não conseguiu reprimir o espanto : “Desculpe interromper, mas foi justamente o contrário de tudo isso que aconteceu !” Não se atrapalha o cronista : “Voltamos ao problema das pessoas. A começar no Pinheiro de Azevedo...”.
      E assim, também para nosso espanto, fica explicado o triunfo da contra-revolução restauracionista e filofascista portuguesa nos idos de 1975!! Método expedito, nível 4. (Correspondente à 4ª classe do ensino obrigatório). Mas que serve perfeitamente para apagar da cena da luta política/luta de classes no Portugal revolucionário de 1974-75, as questões mais comprometedoras para os vencedores finais. Em especial as que dizem respeito à decisiva ingerência externa; nomeadamente a do imperialismo americano e seus satélites europeus. Ora, na memória fotográfica de VL, nem sequer ficou impresso o papel do embaixador Carlucci, que dirigiu a estratégia   contra revolucionária no terreno, conduzindo os “moderados” militares no Grupo dos 9 e os paisanos do PS  pelos caminhos escabrosos da traição. A entrevistadora M. Cruzeiro ainda  conseguiu forçar uma questão sobre a NATO (pág.400) e as visitas “dissuadoras” da 6ª Esquadra americana ao Tejo, coincidindo com todos os momentos cruciais do processo (Logo no glorioso  25 d’Abril, aqui estavam em força). Coincidências, concorda vivamente VL. E mais não disse. A teoria das coincidências tem, entre outras, a utilidade de encerrar o caso da revolução portuguesa em vaso fechado. Uma luta de galos na capoeira doméstica; metáfora que, aliás, deve traduzir o pensamento de VL e restantes  vencedores do 25 Novembro. Mas, mais espantoso ainda, é verificar-se que esta visão “científica e descomprometida”, vem sendo adoptada por historiadores de capelo e borla da nossa praça académica!
     O voluntarismo -a acção do príncipe- (VL abona-se em Maquiavel no Capítulo final, pág 560) eis, segundo o cronista, a chave mestra para explicar a revolução portuguesa e seu funesto desfecho; subentendendo-se que o príncipe é ele, Vasco Loureço. Tendo criado esse cenário auto-glorificador, VL não deve admirar-se das reacções negativas que provocou e venha a provocar. Gabarola, é a qualificação mais suave que lhe aplicam. (Ele próprio admite, a pág, 349, vir a ser acusado de “presunção ou bazófia”). Quanto a mim, prefiro antes reconhecer no enorme ego exibido por VL, um caso que se tornou banal entre os “vencedores” do restauracionismo contra revolucionário; os arrivistas da democracia, em sentido amplo. Conhecemos o género. Eles andam por aí, satisfeitíssimos consigo próprios (VL afirma-o repetidas vezes), nunca se enganaram, nem se arrependem de nada. Temos M.Soares como arquétipo; Sócrates como epígono. Todavia, apesar de tudo, no campeonato dos vencedores da contra-revolução, VL tem mais motivos para se ufanar do que essas duas flores do “verdadeiro” socialismo  (o da gaveta).
       No entanto, com franqueza, seja-me permitido exprobar ao magnífico herói da burguesia filofascista, determinados excessos de memória; que aparentam ser fruto de um solipsismo bacoco de que, pelos vistos, continua a sofrer, 35 anos após a exaltação revolucionária. Concretamente, refiro a memória/palpite, a memória para amesquinhar quem lhe faz sombra; e a desmemória (neologismo criado por M. Cruzeiro), espécie de salto à vara por cima  de evidências incómodas   que possam pôr em causa fantasias ardilosas, ou beliscar  vaidades.
      Folheando um pouco  a entrevista/livro, vou apenas deter-me à  menção do meu nome, ou da 5ªDivisão. Pág. 254: o episódio da m/prisão, um curto mês sobre o derrube do fascismo. VL descreve-se como o herói da m/libertação. Eu estaria em pânico, invocando os meus amigos comunistas e com receio de ser morto. Contra palpite : Ele lá saberá, pois pertencia ao gabinete do Jaime Silvério Marques, autor da armadilha. (O episódio consta em várias publicações minhas e de outros, vai para mais de 25 anos). A pág. 257: “O Varela Gomes não se livra da fama de ter estado na origem da saída de muitos documentos importantes ....dos arquivos da PIDE directamente para Moscovo”. Contra palpite: VL e seus amigos socialistas estarão da origem do desvio de 10 maços de documentos da Presidência do Conselho descobertos recentemente em Massamá/Queluz. Cap. XII – 11 de Março 75.  Hoje (sic !!), estou mais inclinado de que foi o KGB a provocar o golpe (pág.368). Varela Gomes e a 5ªDivisdão tentaram aparecer como os principais responsáveis pelo falhanço do golpe (pág.364)....porque tinham ligações com o Partido Comunista que por sua vez as tinha com o KGB (pág.373), etc. Os dislates amontoam-se. Contra palpite: VL e seus amigos socialistas estariam envolvidos no golpe. Através da CIA tinham tido conhecimento da data. Puseram-se a salvo. O silêncio quase absoluto do rei de todas as Assembleias, (como VL se considera) na efectuada na noite de 11/12, traduzia o pânico em que se encontrava temendo vir a ser denunciado.
     Para amostra já chega. Para aquilatar (ironizando) da  elevação e do rigor científico posto na análise histórica - ao cabo de 35 anos !! de digestão intelectual - pelo assumido patrão/herói (boss, fica mais na cor) de todo o processo de traição para a democracia. (Ressalvo: em lugar de traição pode ler-se transição). A história dos palpites, junta-se à das coincidências.
     Sobre o pendor para tentar diminuir e ofender adversários, já alguns reagiram. Não foram lapsos, é feitio, diz o narrador de si próprio, a páginas tantas da longa entrevista. Na minha opinião,  o personagem que resulta mais maltratado é Otelo. Insidiosamente, entre repetidas afirmações de amizade inquebrantável, resta um Otelo marioneta de VL, um indivíduo indeciso, ao sabor das circunstâncias, da vontade da personalidade mais forte que  o pressione no  último momento. Fica um retrato lastimoso, que de modo algum se encaixa com o do festejado herói do 25 d’Abril; o comandante impávido da insurreição militar, para quem o insucesso da tentativa anterior em 16 Março em nada alterou a determinação. Entre esses dois Otelos não existe paralelo. Será apenas um enigma psicológico ?
     Mistérios e mais mistérios. Sobre os quais VL salta à vara com a ligeireza de um acrobata de muitas conspirações, golpes de rins e branqueamentos mnemónicos. VL sabe muito mais do que aquilo  de que achou conveniente lembrar-se. A desmemória funciona como a face oculta da memória. É inconcebível acreditar que lhe passou ao lado a grande ofensiva internacional contra a revolução portuguesa. No Grupo dos 9, onde pontificava, estavam Victor Alves,  íntimo do embaixador americano Carlucci; Melo Antunes, agente secreto de Kissinger (cf. ed. D.Quixote, 2008) ; e outros, ligados à rede bombista, às milícias armadas, ao independentismo nos arquipélagos insulares, etc. Não deu por nada? Abençoada inocência! No seu extenso panegírico biográfico também pouco ou nada consta quanto aos seis anos (1976-82) de conselheirismo liquidatário. Os berros deixaram de se ouvir, a paz de espírito e a tranquilidade da consciência passaram a ser  apanágio do truculento herói. E assim termina, com final feliz para o próprio, a história do conspirador bestial  que mais contribuiu para que Abril se transformasse em Novembro. 
     A entrevistadora Drª M. Manuela Cruzeiro em frequentes ocasiões, inclusive no prefácio da  presente edição em Nov. 2009, faz notar que a história oral não é, por natureza, consensual. Sem dúvida; trata-se de uma narrativa eminentemente personalizada. Um instrumento subsidiário, de importância relativa, que deixa em aberto pistas para ulterior confirmação e eventual exploração.
     Claro que o entrevistado não pode ser largado em roda livre. M. Cruzeiro monta, para cada entrevista (e já são 4 as publicadas em livro) um percurso muito bem estudado  com passagens obrigatórias pelos pontos cruciais; mas também  procurando evitar excessos de entusiasmo. Acredito que, no caso  presente, a velocidade egocêntrica de Vasco Lourenço lhe tenha criado problemas especiais, Quanto a mim, se acidentes houve e  feridos se queixam (não é o meu caso) a responsabilidade cabe toda ao narrador que não obedeceu aos sinais de trânsito para que a entrevistadora tentava chamar-lhe a atenção.
     Curiosamente (ou nem tanto assim), essa corrida de campeão desenfreado acabou por desenhar, com nitidez, o perfil psico/sociológico do protagonista. Como ele, repetidamente, se proclama o maior, o nº1, modelo e espírito do MFA , assim autoriza a que observadores, bem ou mal intencionados, tomem o símbolo pelo todo; invoquem o que ele diz como expressão e prova da verdade dos factos. Esse é o eventual desastre; o perigo que espreita o uso desabusado da história oral. (Segundo o jornal Público -8.7.09- foi assinado um protocolo entre a Ass. 25 d’Abril, a Fundação M. Soares, ISCTE e Univ. Nova, para recolha da história oral. VL irá contactar os militares a ouvir. Ficou-lhe o jeito. Espera-se o pior).   
     Vasco Lourenço pode imaginar que ao apresentar-se como o herói do processo revolucionário /contra-revolucionário granjeia a admiração e o respeito dos seus compatriotas; que assegura um lugar de relevo na história. Não creio que isso vá suceder, nem isso me interessa. Do que tenho a certeza é que esta sua exibição megalómana, agora caída no domínio público, vai atingir em cheio o pouco que ainda resta do capital de prestígio e simpatia pelo  MFA ;  além de oferecer aos inimigos do 25 d’Abril campo fértil para o denegrir. 
 Lisboa, 16 de Julho,2009
publicado por samizdat às 07:43
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