Segunda-feira, 24 de Agosto de 2009

V A M P I R O S na D E M O C R A C I A

João Varela Gomes

 

Cantava  Zeca Afonso nos idos da Resistência Antifascista: ”... se alguém se engana com seu ar sisudo e lhes franqueia as portas à chegada, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada”. Pois eles –os vampiros – aí estão de novo empoleirados, impantes, sugando o sangue fresco das gerações já nascidas em liberdade  na vigência de um regime democrático.

De facto, houve alguém na democracia –e foram muitos – que nunca estiveram enganados com o seu ar sisudo - bem pelo contrário - quando lhes franquearam de par-em-par as portas. Logo à chegada confraternizaram com os velhos abutres do antigamente salazarento; e passaram a viver em harmoniosa sociedade com a multidão dos  novos vampiros de plumagem democrática.

 

Com efeito, tem-se verificado que sempre que um dos governos do duopólio burguês/capitalista toma posse já lá chega prenhe de vampirinhos em fúria de gestação. Saltam logo cá para fora cheios de apetite, agarram-se com sofreguidão às tetas do orçamento, sem o menor decoro nem respeito pelas virtudes da democracia que supostamente representam. A cena repete-se, pelo menos de 4 em 4 anos,  à vista de toda uma maioria do eleitorado que parece condescender com o indecoroso espectáculo. Assim tem sucedido desde o 1º governo constitucional partidário PS/Mário Soares, em 1976. Obviamente, nessa altura, o resguardo  ético era maior, as cinzas da revolução ainda fumegavam. M. Soares chamava então “tolerância” à promiscuidade com  vampiros capitalistas, com fascistas e até pides; e fazia dessa virtude grande alarde “democrático”. Bem entendido, a magnifica tolerância funcionava apenas a favor do restauracionismo filofascista; no reverso praticava-se  o ódio e a perseguição aos comunistas, aos revolucionários em geral, aos trabalhadores. Este paradigma – como é bem sabido – manteve-se até aos dias de hoje, atingindo esplendor máximo com as maiorias absolutas de Cavaco; e, agora,  com este discípulo canhestro do socialismo de gaveta ensinado pelo mestre Soares. A cujo magistério inicial  - merece registo - se deve ainda a tradição do favoritismo pessoal e partidário e da  negligência/licenciosidade no uso (e abuso) da res publica.

 

 

A presente quadra eleitoral está proporcionando à generalidade dos portugueses –aos cidadãos eleitores, em especial – um vislumbre objectivo e alargado da promiscuidade existente no nosso País entre o universo da política partidária burguesa/capitalista (PS, PSD, ocasionalmente CDS) e o universo dos negócios mais ou menos ilegais, mais ou menos sujos, mais ou menos fraudulentos.; mas todos em detrimento do Estado, em prejuízo do chamado Tesouro Público; isto é, da riqueza colectiva, daquela que pertence, por direito de nascimento, cultura e trabalho, a todos e cada um dos filhos de uma mesma Pátria/Nação. Os cidadãos conscientes não podem aceitar que um segmento restrito da sociedade enriqueça à custa do empobrecimento geral Designadamente, quando grande número dos  vampiros que prosperam e engordam no regime democrático foram, ou são, dirigentes políticos/ partidários eleitos pelo voto popular. Essa realidade é insultuosa em qualquer democracia decente que mereça um mínimo de respeito. Devia estar debaixo da alçada de uma lei penal específica. Logicamente, deve ser castigada nas urnas. Estamos cá para ver.

 

Ora sucede que, por um conjunto de circunstâncias internas e externas,  a caça aos vampiros tornou-se desporto internacional. O sistema capitalista em crise escolhe um punhado de gordos exemplares  para arcarem com as culpas e a responsabilidades pelo colapso económico /financeiro. São sacrificados para que os negócios prossigam ..... as usual.

 

Seja como for, lá fora como cá dentro, a caçada pôs a descoberto esconderijos e cavernas onde se acoitam os bandos de vampiros, os off-shores e paraísos fiscais onde guardam o saque, a salvo de eventuais arremedos da tolerante justiça da classe deles todos. Em relação ao nosso País, ocorre a coincidência favorável (também as há!) de os escândalos e o alarido à sua volta, terem-se  justaposto ao ano eleitoral. Vampiros e vampiragem converteram-se, ipso facto, em temas  de primeiro plano, em armas importantes no combate eleitoral. Cabe aos partidos e formações políticas isentos dessas práticas nefandas (PCP e Bloco, desde logo) não desdenharem essas armas/argumentos; pois, à partida, conferem uma esmagadora superioridade ética e intelectual.

 

No contexto de luta eleitoral, terá que ficar destacada a ligação dos grandes bandos de vampiros (gangs, no inglês da moda) aos partidos  burgueses da governança democrática. Aliás - é essencial realçar - são mais que ligações: trata-se de uma   pública e notória promiscuidade, comentada diariamente nos media, objecto de generalizada condenação (Em muitos casos: a hipocrisia é a vénia que o vício presta à virtude).

 

No decurso das três décadas de regime democrático, os vampiros dos partidos burgueses/capitalistas que têm governado o País, foram ocupando feudos da administração do Estado, nas autarquias, nas empresas públicas e suas variantes, multiplicando nichos e ninhos, criando uma rede de interesses  ilícitos e abusivos que desafiam qualquer controlo e provocaram danos irreparáveis na estrutura e na autoridade do Estado. Os vampiros na democracia comem tudo e não deixam nada. Ultrapassaram em 30 anos, o pior dos cenários imaginado por Zeca Afonso na sua canção.

 

Na duocracia alternadeira do regime português sobressaem, obviamente, duas “famílias” de vampiros políticos. A que nasceu e prosperou no seio do PS; e aquela  que se instalou à sombra e protecção do PSD. Não são famílias desavindas ou adversas, longe disso. Repartem o bolo ... rotativamente. As maiorias absolutas representam períodos áureos de engorda e de crescimento numérico e territorial do vampirismo partidário. Com Socrates novos recordes  tem sido atingidos. O Banco de Portugal, a Caixa Geral, Galp, EDP, PT, etc, etc, regorgitam de vampiros, amigos e compadres do chefe. A carreira de A.Vara é clássica : de empregado de balcão a administrador da CG Depósitos, duplica prémios, vencimento e pensão a seu bel-prazer. A mesma libertinagem  na TAP, nas Entidades,  Empresas, Observatórios e outras bizarrias,  onde os dinheiro públicos (dos contribuintes) cobre todos os défices e o horizonte dos abusos parece não ter limites. Anote-se que igual filosofia governativa norteou Cavaco quando dispôs de maioria absoluta entre 1987-95. O “cavaquismo” ficou a designar  o surto de enriquecimento rápido facultado pelos dinheiros frescos da CEE e pelas privatizações  dos bens nacionalizados pela revolução; do que  beneficiou grande número dos dirigentes do PSD, gente de origem humilde ( como soe dizer-se); mas com  apetite de pedir meças a qualquer vampiro socialista, doutorado em Macau na arte de sacudir as patacas das últimas árvores  do império.

 

Entretanto, voltando às coincidências favoráveis - ou seja, a crise mundial e a abertura da caça aos vampiros em Portugal – vamos passar os olhos pelas considerações de um intelectual super-mediático da nossa praça (J. Pacheco Pereira, jornal Público, 11Julho pp) “...sobre a responsabilidade dos partidos políticos naquilo que de ilegal fazem os seus dirigentes, em particular nos crimes que envolvem o exercício do poder”.(ipsis verbis). Ou: “Os partidos que são os esteios da democracia portuguesa –PS,PSD, PP – convivem sem dificuldade com práticas que dão origem a carreiras que desembocam no crime. São escolas de crime e devem ser considerados responsáveis pelos crimes praticados pelos seus altos dirigentes” (Saldanha Sanches, Expresso, 15 Jul.pp).  Ora toma, que já almoçaste! Soares, Guterres, Cavaco, P.Portas, D.Barroso, Socrates  têm razão para amaldiçoar a crise. Até os confrades os querem amarrar ao pelourinho!

 

Poder-se-iam extrair vários outros mimos de semelhante  teor (“as carreiras criminosas começam nas jotas”), quer do texto de P. Pereira, quer da glosa de S. Sanches. Este último mostra-se estupefacto pelo silêncio que acolheu as acusações da P.Pereira. ...como se fossem meras banalidades. “Ninguém ligou, ninguém se indignou, ninguém o ameaçou com um processo por difamaçao”. Pois não, meu caro. E você nem sabe da missa  a metade (ou não quer saber). Nós, que continuamos na resistência anti(ameaça)fascista ...desse silêncio estamos surdos.

 

Ora, embora estando colocado na praça  pública o debate sobre a responsabilidade criminosa dos partidos e seus dirigentes na promiscuidade política/negócios, não devemos esperar, neste capítulo, alteração de monta no funcionamento do sistema democrático vigente. Quanto muito, uma ou outra cosmética ocasional. Um Isaltino condenado em tribunal, mas continuando imperturbável, à sombra de sucessivos recursos, a sua carreira de vampiro credenciado. Arguidos em processos de corrupção são incluídos em listas partidárias como futuros “representantes da Nação”. O Alberto João solta uma gargalhada de desprezo alvar, seguro da  sua absoluta impunidade. A patroa do PSD  diz que assuntos de corrupção não são para ser debatidos em campanhas eleitorais. Socrates segue o conselho. Podem os vampiros dormir descansados, de consciência tranquila (como é  da praxe), nas cavernas de Ali-Bábá,  em companhia de outros morcegos hematófagos. Lá para as calendas gregas, o Conselho da Prevenção da Corrupção (tal coisa existe mesmo, imagine-se!!), mais auditorias externas pagas a peso de ouro, comissões e missões após dezenas de estágios no estrangeiro exótico, irão então, calmamente, debruçar-se sobre o momentoso problema. Haja tolerância. Eles são todos gajos porreiros,  frades da mesma confraria.

 

Todavia, a intervenção dos partidos e dos políticos honestos, neste exacto momento pré-eleitoral interno e de crise mundial do capitalismo consiste, precisamente, em quebrar essa táctica de apatia e dilação de que a burguesia usa e abusa para iludir o povo eleitor. Quero crer que a situação de fragilidade em que se encontra o sistema capitalista oferece condições excepcionais para uma denúncia vigorosa da promiscuidade existente entre os governos burgueses e as máfias capitalistas. No caso português, essas condições apresentam-se particularmente favoráveis.

 

Na realidade, a burguesia capitalista está confrontada com acusações e situações de flagrantes crimes económicos ( falências fraudulentas, fuga aos impostos, tráfico de influências, lavagem de dinheiro, roubo puro e simples, etc) que, além de  implicarem uns tantos  agentes prevaricadores expiatórios, puseram em causa –estrondosamente e sem remissão -  a credibilidade (o bom nome) do sistema liberal da economia de mercado. Ficou feita, sem apelo nem agravo, a demonstração da promiscuidade sistémica, dos conluios desonestos entre os sisudos financeiros/ economistas e os políticos/ demagogos da burguesia. Os governos e os partidos da governação democrática, designadamente no nosso País, estão comprometidos dos pés à cabeça, nessa conspiração contra os direitos e os interesses do cidadão comum. Dirigentes partidários em uníssono com empresários e administradores de grupos económicos tentam desesperadamente, negar a evidência, desviar as atenções para as trivialidades. Para os fait-divers, como eles amam dizer;  com a preciosa e prestimosa colaboração dos media ao serviço do “politicamente correcto”. O futebol é receita garantida; a gripe de A a Z também dá jeito.

 

Mas há uma instituição da máxima relevância nacional, que os vampiros da política partidária burguesa conquistaram para sua caverna residencial; e onde continuam instalados sem, aparentemente,  serem denunciados ou sequer incomodados. Trata-se, nem mais nem menos, do Estado. Ou seja, por miúdos, o conjunto dos organismos necessários para manter a solidez, a saúde e  a perenidade do corpo da Nação. Para além dos partidos, note-se bem; para além da ganância de políticos arrivistas, autênticos vampiros, que pela liberdade e direitos  democráticos do povo onde nasceram, nunca sacrificaram um átomo do seu egoísmo.    

 

Em teoria, a função pública é independente do poder político/ partidário. Sabe-se, no entanto,  como esse principio constitucional/ democrático foi convertido em farsa nesta III República Portuguesa. Os executivos eleitos desde 1976 passaram a entender que o voto popular lhes conferia direito de abuso e posse sobre o aparelho do Estado,  respectivos  funcionários, bens e propriedades. Procedem como donos e senhores, particularmente na Administração Pública; e nesta, nas áreas das Finanças, Orçamento e Património. Ao terminar o consulado de Socrates &  socretinos,  há organismos do Estado irrecuperavelmente  desvitalizados  ... estamos a falar de vampiros, note-se. Nas famosas reformas executadas e anunciadas deve procurar-se o escondido ovo de Colombo: a alienação do património. Ele lá está, gato escondido com rabo de fora, na última em data (semana passada): a das Forças Armadas.

 

A crise actual dos “sagrados” valores do capitalismo liberal, levou já alguns espíritos  mais avançados a sugerirem que numa eventual revisão constitucional seja incluída a moldura penal para crimes de abuso de poder e malversação no exercício de cargos políticos. Tudo bem. (Embora a eventualidade de tal suceder, no regime vigente,  me pareça zero).

Não obstante, como o tempo é de cerejas (eleitorais) acrescentaria que esses crimes (e outros conexos) fossem considerados de lesa Estado/Nação, ou mesmo de lesa-Pátria. E que, após investigação de iniciativa cívica sobre as lesões sofridas pela Administração Pública, seja decretada a exterminação higiénica de todos os vampiros incrustados nos organismos do Estado por via partidária. A Nação exangue agradeceria.

 

Lisboa, 6 Agosto, 2009

publicado por samizdat às 15:16
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