Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

PROMESSAS - PROGRAMAS – PROPOSTAS

        Decorridos que vão, neste sistema democrático da III República, cerca de vinte processos/campanhas eleitorais para escolha de governos nacionais, através de votação em listas partidárias de deputados (supostos representantes dos cidadão eleitores); depois de tão vasta experiência (afora as muitas centenas de eleições autárquicas), parece que deixou de fazer sentido, que seria um absurdo lógico, um infantilismo néscio, continuar a pensar-se em termos de uma jovem e inocente democracia, onde todos estaremos a aprender, etc, etc, blá, blá, blá. 

 

         E no entanto...! O facto é que o discurso político corrente neste ano 2009 de todas as eleições - mormente o emitido pelos partidos do rotativismo burguês/capitalista – apresenta-se como chapa única para desmemoriados, ingénuos impenitentes prontos a serem ludibriados pela vigésima  vez. Começa assim o conto do vigário PS/PSD : ”É preciso que  muitas coisas mudem ....blá, blá, blá.” (Para que tudo fique na mesma, ou pior, resmunga o cidadão eleitor que tem memória e não é parvo).

 

         Na paróquia lusitana, a propaganda eleitoral mais néscia e infantilizada é, sem dúvida, a que adopta a estratégia das promessas. Faz espécie que haja ainda alguém em Portugal que –já nem digo que acredite – mas que perca tempo e paciência a escutar semelhante arenga. Os socialistas do PS são, indiscutivelmente, os “verdadeiros campeões” das promessas eleitorais, desde o 1ºgoverno constitucional da “verdadeira democracia” soarista. Vem aí o paraíso. O bacalhau a pataco. Mais o maná (a mama) de Bruxelas. É fartar vilanagem, rejubilava o pai da “verdadeira”. Estava lançado o mote para a  burguesia restauracionista encher o bandulho Veio depois o oásis de Cavaco no mesmo comprimento de onda. Dupont & Dupont, estão bem um pró outro. Mas a culminância das culminâncias chegou com o vendedor de promessas, capaz de vender frigoríficos aos esquimós. O inefável socialista (tinha que ser), o animador da festa na aldeia,  Zé Sócrates.

 

         Sobre promessas e respectivos vendedores mais ou menos saloios, quero efectivamente acreditar que não vale a pena gastar muita cera. Seria a última das decepções se, por sorte malvada, contra o bom senso e uma elementar lógica, o povo português fosse condenado, no próximo acto eleitoral,  a mais do mesmo.    

        

         Os programas partidários eleitorais têm sido invocados como receituários miraculosos para as maleitas e achaques da lusa Pátria. Comentadores sisudos, damas e cavalheiros às centenas, por grupos selectos ou dispondo de coluna aberta nos trivial media, manifestam-se ansiosos para saudarem a revelação do evangelho salvador do sistema burguês/capitalista. Pois é disso – e apenas disso – que se trata no universo do politicamente correcto.  

 

         Ouço dizer que os participantes nesse circo dos comentadores são generosamente pagos por cada presença televisiva ou artigo publicado. Será essa a motivação suficiente para a generalidade. Muitos deles surgem agora classificados numa nova categoria profissional : comentadores residentes. Isto é, emprego fixo de baixo esforço, vulgo tacho.  Outros haverá que antes procuram notoriedade, candidatos a posta gorda : presidentes (seja do que for), administradores ou gestores de empresas do Estado (idem). Todos preocupados com o porvir: o deles, pessoal, está bem de ver-se; depois, lá ao fundo do túnel, o ideal da dedicação à causa pública Enfim, estão dentro dos parâmetros do “trivial pursuit”  para carreiristas na roleta do rotativismo governativo vigente.

        
          Efectivamente, parece existir uma contradição digna de registo entre o invocado interesse pelos programas partidários eleitorais e a pobreza e escassez dos debates  de ideias; sobretudo ao nível superior de confronto  ideológico. Mas essa contradição pode ser só aparente; pois a táctica de fugir ao debate de ideias  é tradicional nas formações políticas que advogam o  pragmatismo/oportunismo ideológico. Vício costumeiro no Partido Socialista Português, latente no PSD e restante direita. Ora a presente  crise do sistema e ideologia neo-liberal, ainda mais obriga os partidos eleitoralistas da burguesia nacional a evitarem qualquer esboço de um confronto de ideias de que sairiam  fatalmente humilhadas. Em consequência estamos assistindo a uma campanha morna de deliberado meio-gás, onde os programas partidários nem citados estão sendo e as ideias salvadoras cada vez mais se assemelham às promessas tontas de Zé Sócrates. Nestas circunstâncias, se a esquerda político/partidária conseguir forçar o debate ideológico, o resultado ser-lhe-á altamente favorável.
 
         Por estes dias acompanhei um debate na TV participado por meia-dúzia dos habituais políticos/comentadores. Entre eles uma dama de extenso e saltitante currículo e ainda no activo disputando conchegos. Às tantas irrompe-lhe da alma a exclamação do pensamento/programa político da burguesia portuguesa : “Mas dêem-nos ideias. Estou compradora de ideias”. Prezada senhora : eis-me ao seu serviço. Aliás, na senda de uma ideia mestra do alegado engenheiro (200 paus por nascituro a receber ao atingirem a maioridade). A minha variante –ainda mais genial – seria substituir o fundo pecuniário pela oferta de um carro ....a receber aos 18 anos, bem entendido. De uma assentada resolver-se-ia a crise nacional/ mundial da indústria automóvel, o desemprego, etc. Em resumo: uma nova era para o capitalismo! Que me diz à ideia? Oferta gratuita que fica ao dispor dos engenheiros e financeiros socialistas e sócio-democratas; a qual –passe a imodéstia – penso ser mais rendosa (imensos lugares de administradores) que os “magalhães”, as três auto-estradas Lisboa-Porto, a energia solar que consome electricidade, etc. Como se nota, a esquerda não regateia auxílio à burguesia exploradora, logo que esta manifesta uma desesperada carência de ideias salvadoras.     
 
         Ridicularizar é fácil. Ridicularizar a fixação da classe política burguesa pelas ideias avulsas, pelos fait divers,  pelas inovações parolas, dá um certo gozo, sem dúvida. Mas atenção. Por detrás da parolice está a   manha dos politicos manholas portugueses, os herdeiros dos frades e fradiques que foram reduzindo Portugal a uma corte de aldeia. Não lhes falta conversa fiada sobre questões desviantes de lana caprina; em contraste com uma rigorosa circunspecção  quanto aos assuntos de importância  e interesse colectivo. Os quais - ao que dizem - não são assuntos para ser discutidos na praça pública. (Não queriam mais nada; na bagunça das eleições!). A escola salazarenta revela-se bem enraizada nesta democracia filofascista. Aníbal Cavaco e Manuela F. Leite, cópias fieis; Zé Sócrates & sua trupe, imitações em loiça das Caldas.
 
         Decididamente, considero que a designação de Propostas é mais adequada em ocasião de escolhas eleitorais, (por cidadãos chamados um-a-um, pelo seu nome, à boca da urna de voto) que a mais consagrada designação de Programa. A CDU utiliza ambos os termos mas, acertadamente,  não os confunde. Com efeito, parece mais directo e objectivo o conceito de proposta (Concorda ou não concorda  com esta solução? Em relação àquela?), que a de programa (Vamos lá estudar essa declaração de intenções). Na verdade, a fórmula programática parece mais destinada a iniciados; enquanto que a primeira se dirige aos indolentes/ cépticos, aos resignados/acomodados. À tal massa de abstencionistas potenciais a recuperar para o  mais elementar dos deveres de participação democrática; ou seja, o exercício pelo voto de uma  opinião pessoal, um sinal de quem está vivo e pertence à comunidade onde nasceu ou que adoptou.
 
         Por muito distante que pareça estar a conquista da cidade fraternal, o imobilismo absoluto é a resposta estúpida, a atitude de um cúmplice com a maldade do mundo. Como bem faz notar a esquerda partidária (PS não mora aqui) se 20% nos seus resultados eleitorais já constituem o espectro que tira o sono à direita neo-liberal, então 25 ou 30%  chegariam para a endoidar. Não será a vitória final, ali adiante ao virar da esquina, mas iria/irá pôr em respeito  toda essa cambada de exploradores, corruptos, traficantes, aldrabões, vampiros sugadores, que infestam a atmosfera política e social das democracias burguesas/capitalistas e as convertem numa selva de voraz ganância sem rei nem roque.
 
         A talho de foice, passando os olhos pela imprensa generalista recente, nota-se um empertigamento (passe o termo) na opinião e nos comentários relativos ao momento político/eleitoral. Sinal positivo, que é de saudar, de encorajar e –com a devida vénia- de glosar em alguns casos. Aqueles que possuam potencial despertador de mentes adormecidas.
 
        Para primeira anotação aponto um artigo do economista F.Sarsfield Cabral (Público, 10 Agosto pp), ironicamente intitulado “Querida Corrupção”. Escreve o autor: “Os políticos dizem-se preocupados com a corrupção, claro. Mas estarão mesmo? Não parece. (...) A classe política e os aparelhos partidários revelam fraco empenho em combater a sério a corrupção. Percebe-se porquê (...) Não existe em Portugal uma consciência ética forte que censure a corrupção (....) o aumento da promiscuidade entre política e negócios ..é.. um dos pontos negativos do governo Sócrates.”. Termina o autor :  “.... repetindo o que tida a gente sabe, é prioritário tirar a justiça portuguesa da lentidão e da ineficácia em que se atolou. Uma justiça assim não ajuda a combater a corrupção”. De uma penada, um ilustre comentador mediático (residente?) aborda dois temas - corrupção e justiça – que a esquerda político/partidária tem, seguramente, incluídos na sua agenda eleitoral. Existem inúmeros exemplos de casos concretos em ambos os temas, cuja divulgação em campanha contêm – em m/entender - muito maior poder esclarecedor que horas de “parte vaga” (É preciso mudar....aumentar a produtividade, as receitas...diminuir o défice, a burocracia...reformar a saúde, a educação ... e o raio que os parta também). A denúncia de situações concretas da corrupção e da injustiça burguesa, constitui um instrumento pronto a usar e o mais eficaz para demolir o  que resta do edifício de mentiras e da demagogia bacoca do alegado engenheiro  e dos economistas engenhocas do bando capitalista. Além disso, insistir nessa orientação táctica é, não só recusar o combate/debate no pântano da  parte vaga,  como ainda evitar as armadilhas da conversa de chacha.  (Fait divers, dizem eles), São TGV que ninguém vê, aeroportos suspensos das nuvens, obras de Stª Engrácia inauguradas  vezes sem conta, com previstos reajustamentos no horizonte, etc. Eles e elas, adoram projectos gigantescos, atirarem com milhões sugados do erário público para os bolsos sem fundo de amigos privados/ou-nem-tanto, oferecendo-lhes gestão simplex, sem  controlo nem prazo.
 
         Nem de propósito. O professor Santana Carrilho (Público, 19.08.09,  apoiando-se em trabalho da jornalista Clara Viana na edição do dia 16) desmonta uma dessas modernas “empresas majestáticas”: “Parque Escolar, EPE”, um investimento de 2,5 mil milhões de euros. Nota justamente, S.Carrilho que uma “Entidade Pública Empresarial” é uma coisa híbrida , promíscua (como as fundações modernas, sublinha) que retiram do saco público, directamente ou por expediente, todo o dinheiro, incluindo para cobrir a quota dos privados no empreendimento. Na realidade, o Estado é o verdadeiro e único dono da coisa; a coisa EPE, não passa de  um subterfúgio, um logro, para que o próprio Estado (burguês/capitalista) possa escapar às  leis que  regem as instituições .... do  próprio Estado !!  Através desta esperteza saloia – no mínimo, anti-constitucional, provável figura criminal – os executivos governamentais (PS; PSD; CDS, vampiros da mesma estirpe) – nomeiam os corpos gerentes que, a seu bel-prazer, podem fixar o salário, as regalias, o modelo de gestão; dispõem de  isenção de taxas, de poderes para  tributar, embargar, decretar demolições e expropriações. Em cúmulo de privilégio, os trabalhadores/administradores da  EPE têm direito a patrocínio judiciário gratuito por advogado contractado/pago pela empresa. Os estabelecimentos escolares não foram tidos nem achados, sobre  obras e alterações. Arquitectos convidados por ajuste directo (que já embolsaram 20 milhões €)  podem traçar e retraçar no património imoliliário público como se  propriedade privada fosse.
 
       Mas não se imagine que existe apenas um ou dois exemplares de EPM – Empresas Públicoprivadas Majestáticas (Proposta de nova sigla; ao gosto da transparência demo-burguesa). Elas proliferam como cogumelos; até 27 Setembro os socialistas, amigos e companheiros, aguardam farta colheita.
 
Um outro caso de pilhagem majestática, merecedor de denúncia na presente emergência eleitoral, será o das “Estradas de Portugal, EPE”. O pouco  que vem a lume, dá para sobressaltar o menos patriota dos cidadãos; aquele que se diz indiferente à política e suas eleições. Eis uma poderosa razão para não esquecer agitar estes monstruosos casos de vampirismo partidário. Há muitos outros, iguais ou parecidos: no Banco de Portugal, na Caixa Geral, na GALP, na TAP, na mutilada CP com dezenas e dezenas de gestores; nas Zonas Ribeirinhas, na Qren, nos Pin ... os vampiros afiam o dente  na alucinação saqueadora do património da Nação, tarefa onde se acotovelam as clientelas da classe política burguesa/libertária que governa o País há três décadas.             
 
Promessas, Programas, Propostas, facilmente derivam para o vago;  a  parte vaga da propaganda. Nisso são mestres os demagogos da direita partidária. O que mais os atemoriza, no contexto da actual campanha eleitoral, é a exposição e o debate sobre  casos concretos de espoliação e esbanjamento de recursos públicos, como os acima nomeados. O campo do concreto é o campo de morte da duocracia burguesa. Fogem dele como o diabo da cruz. Solertemente, citam estatísticas, percentagens, quadros comparativos; e insistem na economia teórica e abstracta - o Economês - como  tema principal, senão único, do confronto eleitoral
 
A posição da esquerda político/partidária é exactamente contrária. A de não abandonar o terreno vantajoso do concreto. Mantê-los aí debaixo de fogo. Chamando um precioso testemunho: o dos trabalhadores dessas empresas, de antes e depois do estatuto majestático, de sindicalistas, de reformados e ex-funcionários. Quero crer que esta abordagem terá um efeito esclarecedor muito positivo no eleitorado; em particular no descrente e desmotivado.

 

O compêndio de História de Portugal nos meus tempos de curso liceal (meados do séc. XX), atribuía ao rei João II, quando subiu ao trono em 1481 (aos 26 anos) o seguinte desabafo : ”Sou rei; mas apenas das estradas e caminhos de Portugal”. Com efeito, recebia de seu pai, um reino “privatizado” na posse da grande fidalguia, do alto clero, de familiares e favoritos . O antecessor, Afonso V, tinha sido um rei contra revolucionário (remember Alfarrobeira), neo-liberal na época; isto é, esbanjador e desleixado. Assim a modos dos nossos “primêros”, desde o majestático Soares; estes modernaços lideres democráticos, nem estradas nem caminhos deixam na posse do Estado Republicano!
 
O  jovem João II resolveu a situação com rapidez : expropriou os mais ricos, mandou matar os recalcitrantes e, ele próprio apunhalou o cunhado, duque de Viseu (Cavaquistão, terra fértil em salazares). Por um curto reinado de  14 anos (morreu aos 40) ficou consagrado na História como o melhor rei português de todos os tempos, o obreiro da odisseia marítima lusitana. À qual devemos ainda  o que resta da  grandeza do nome Portugal. 
 
Lisboa, 26 Agosto, 2009
publicado por samizdat às 11:35
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