Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

OS NEO-MAQUIAVÉLICOS

De uma maneira geral, pode dizer-se que o pessoal que está na cena política partidária burguesa a partir de 1974 tem feito as suas carreiras dentro dos parâmetros de um maquiavelismo adaptado à circunstância democrática. Um Maquiavel  entendido como moderno realismo, ainda mais  libertário e sem escrúpulos que o original; a que chamo neo-maquiavelismo, na senda dos neos de que tanto se ufanam: neo-liberais, neo-conservadores, neo-velhos, neos da treta.

     

Note-se que nem todo esse pessoal “nasceu” para a militância política após o 25 d’Abril. Apreciável número vinha do antigamente, da resistência antifascista lato sensu. De imediato, acode o exemplo dos históricos socialistas que - em tributo a Maquiavel - rapidamente meteram o socialismo na gaveta; dos maoístas em histeria verbal, que logo se agacharam como galinhas de capoeira, em nome do realismo maquiavélico; e vários outros.    
 

      Uns e outros - os do antigamente e os que renegaram no 2º dia da revolução – foram-se escondendo no pragmatismo, no anticomunismo, etc. Mas, na sequência do trambolhão do capitalismo neo-liberal, atiraram p’rás malvas as máscaras e os eufemismos, assumindo por inteiro a sua Ética à Maquiavel ; em boa verdade, aquela que lhes vai na alma, lhes serve o carácter  e lhes tem norteado as carreiras de sucesso e pecúnia.

 

      Dá  para suspeitar que a vasta maioria dos neo-maquiavélicos que ocupam a cena política/empresarial, da fama ou da riqueza, alguma vez tenha lido, ou sequer folheado, o aclamado autor florentino que viveu entre os séc. XV e XVI (1469/1527). Mas isso em nada impediu que, desde então, as sucessivas vagas de arrivistas ao assalto, não tenham percepcionado a filosofia de Maquiavel como excelente viático para o seu avanço na escala social.

 

     Por suposto, a adopção de Maquiavel, pela burguesia exploradora capitalista baseia-se na sua obra póstuma “O Príncipe” (redigida em 1520, publicada em 1532). Através de versões sumárias e citações avulsas fora-de-contexto mas  que fizeram a glória (póstuma) do autor, concluíram (correctamente) existir uma clara analogia entre o Príncipe renascentista e o Triunfador político/milionário dos modernos tempos. Com efeito, pouco difere o breviário ético por ambos adoptado. Uma máxima doutrinária ficou colada ao conceito de maquiavelismo: “Os fins justificam os meios”, quer na política quer nos negócios. Nesse sentido o autor escolhe para modelos didácticos dois condottieri de baixa moral e alta ambição - César Bórgia e Francisco Sforza – mimoseando-os com abundantes conselhos : o  príncipe seguirá os seus desígnios com tenacidade, sem escrúpulos de consciência; com realismo, sem se prender a princípios nem a ideologias,  visando apenas a eficácia; empregará mais a esperteza e a manha que a força; deve ter o entendimento treinado para virar conforme os ventos da fortuna e a mutabilidade das coisas lhe ordenem; convém ser o mais generoso possível com aquilo que não lhe pertence, pois esbanjar os bens alheios ainda lhe acrescenta a boa fama; usará uma linguagem enérgica e colorida, a ironia e o sarcasmo: deve evidenciar a ferocitá (a impetuasidade do animal selvagem); “Não existe maneira mais segura de garantir uma província conquistada do que arruinando-a” ( em Cap. V– “De como se devem governar as Cidades Conquistadas que antes viviam segundo as sua leis”); etc, etc.

 

      O leitor está, decerto, abismado ante o cinismo de Maquiavel. Mas isso constitui, exactamente, uma das afinidades  que mais encanta os neo-maquiavélicos da globalização américo/capitalista! Aliás, o cinismo e a hipocrisia  sempre foram imagens de marca da classe burguesa dominante. Nós por cá, nesta mimosa democracia burguesa libertária, bem conhecemos o género. Os anais desta III República estão repletos de exemplos.

 

     À cabeça, como é devido, o príncipe fundador, Mário Soares de seu nome.   (Marocas, de cognome). O poder acima de tudo e de todas as coisas. Conquistá-lo e conservá-lo  por qualquer meio ... maquiavélico, foi o desígnio supremo. Disposto até a aliar-se ao diabo, disse-o e provou-o. “Feio, feio em política, é perder”, frase que lhe é atribuída e que faria inveja ao próprio Maquiavel. O qual recomenda ao seu ideal príncipe apresentar-se majestoso e magnificente. Mas foi o Marocas  no  apogeu das suas viagens faraónicas, rodeado por comitiva manuelina de aduladores e penduras, deslumbrando o mundo e os indígenas das Ilhas Seychelles! Colocando a democracia portuguesa, quinhentos anos após, na rota do grande Gama! É obra! É de Príncipe !

 

      No entanto, apesar  de ter dado tão boas provas como  discípulo aplicado de Messere Niccolo Mchiavelli, vai acabar os seus dias sem ceptro nem coroa. Mas resta-lhe a glória - que ninguém lhe disputa – de  ter marcado indelevelmente, a II Democracia Republicana Portuguesa com o vírus do neo-maquiavelismo, que ficou infectando a vida política e social e a própria alma da Nação até ao presente.

 

      A lição do “fundador” aproveitou as vagas seguintes  de ambiciosos sem freio e oportunistas esfaimados. Uns mais, outros menos, os condottieri (soldados/políticos de fortuna, que só combatem por interesse pessoal) fizeram escola, constituem o grosso das hostes partidárias burguesas. Vem ao caso sublinhar que no Portugal democrático, até ao actual governo, o príncipe que conquistou  a “província” mais notória e o cargo mais rendoso, foi um condottiere de pura linhagem maquiavélica: Durão Barroso, da extrema-esquerda maoísta a presidente da União Europeia! Isto sim, isto é carreira de Príncipe! De fazer torcer-se e retorcer-se de raiva e despeito o Marocas,  mestre iniciático. Além disso, a fenomenal ascensão do rapazola provocador do MRPP, traduz o alto valor estimativo que o império américo/capitalista atribuiu aos serviços prestados     pela rapaziada da “revolução cultural” na contra-revolução mundial, nomeadamente na situação portuguesa entre 1974-76.

 

      Mas, estamos a tempo de olhar para a situação portuguesa actual. Um partido burguês de etiqueta socialista, no governo há 4 anos e meio, gozando de  maioria absoluta sob a batuta autoritária de José  Sócrates; aguarda avaliação do eleitorado sobre desempenho pretérito e destino futuro, a 27 do corrente mês de Setembro.

 

      Ora –não sei se os leitores se deram conta – este Sócrates, na existente circunstância democrática, bem entendido, ajusta-se à figura do príncipe, tal como Maquiavel  a idealizou nos primórdios da Renascença italiana. Um condottiere, sem dúvida; enfim, não um César Bórgia, filho do Papa de Roma; mas serve bem para comparar com o perfil de um Sforza, montanhês do Trás-os-Montes lá do sítio, com  olhos ávidos sobre a cidade a conquistar.

 

     O percurso de Sócrates, como se sabe, mal deu para curso. A duras penas, lá conseguiu parturejar um diploma de engenheiro, com prática de arquitecto de aldeia. Mas nem disso precisava, valha a verdade; Sforza, seu protótipo, não precisou de adereços académicos para se tornar duque de Milão. Determinação feroz (ferocitá, no original), obsessão pelo mando e poder, escrúpulos, princípios e ideologia que bastem para alcançar o objectivo final, eis os talentos essenciais para o príncipe. Quem o diz é Maquiavel. Quem os ostenta é Sócrates; ainda nos lembramos quando ele se auto intitulava “animal feroz”. No período pré-eleitoral, debaixo de adversos ventos da fortuna, teve que vestir a pele de cordeiro vitimizado. Olhe que o mestre avisa que quando o príncipe exibe fraqueza está abrindo a própria cova! Esqueceu uma das máximas mais célebres do maquiavelismo : “Para conservar o poder convém ser mais temido que amado”.

 

     Seria um exercício interessante tentar apurar quanto do  maquiavelismo exibido por  Sócrates na sua acção governativa é fruto de instinto natural, ou resultado de alguma reflexão apoiada; inclusive na obra  de  Maquiavel “O Príncipe”, que temos vindo a referir. À primeira vista o sujeito não parece dado a leituras. Mas surpresas também as há. Acresce o facto  que muitas das atitudes e decisões de Sócrates parecem seguir à letra os conselhos de Maquiavel aos seus discípulos. Não é só a ferocitá : a impetuosidade do animal feroz no discurso e na acção ; mas, “vender o que não lhe pertence”, não é, exactamente, aquilo que o PS/Sócrates tem feito desbaratando o património nacional ? e “a melhor maneira de garantir uma província conquistada é arruiná-la“, não é exactamente aquilo que o PS/Sócrates tem feito com os departamentos (províncias) da Administração Pública do Estado? Não destruiu, inclusive usando o temor/terror recomendado pelo mestre florentino, o aparelho do Estado, partidarizando-o na quase totalidade ? Este aprendiz de artes maquiavélicas revelou-se mais papista que o papa. Atrás de si vai deixar um mar de escombros; herança igual à de muitos  outros da mesma laia e da mesma escola.

 

     Infelizmente a mensagem/síntese da Ética à Maquiavel –triunfar  a qualquer preço- chegou até aos dias-de-hoje, recuperada pela burguesia neo-liberal/retro-conservadora em crise de  filosofia doutrinária. Do príncipe/condottiere renascentista, passando do Rei-Sol (L’Etat c’est moi) a Napoleão imperador (são 773 as anotações que fez no seu exemplar de “O Príncipe”) chegámos aos tempos modernos, aos príncipes da indústria e da especulação financeira,  às principescas  vedetas do cinema, do rock, aos campeões do desporto, gente que professa o individualismo neo-maquiavélico sem disso se aperceber; apenas  por que é o que se usa - e é correcto usar - no império burguês/capitalista.

 

     Tornou-se dominante na sociedade actual o culto do herói, a crença na virtude do individualismo; traduzida em chavões imbecis mil vezes repetidos : querer é poder; a vontade ( fé, determinação) remove montanhas; o sucesso é a medida de todas as coisas (principalmente, na política e nos negócios, dizem os neo-maquiavélicos); a fortuna –porque é mulher!- bafeja os audaciosos; e outras imbecilidades do mesmo jaez.

 

      Assim vai o mundo e vão as mentes. Todavia ainda custa verificar que a classe pensante (nas artes, nas letras, nas ciências) pareça, também ela, fascinada por este tardio neo-maquiavelismo. E de acordo se comporte  no quadro da participação pessoal/cívica; afora as honrosas excepções. Sucede que os “intelectuais” são convidados às dezenas – ou centenas, em períodos eleitorais – para perorarem na televisão; sem dúvida, o palco da   maior audiência possível. E lá vão eles, contentes e prestativos, fazer o  número “politicamente correcto” com que contava a estação patrocinadora.  Num aspecto é raro falharem: toda a atenção sobre a personalidade dos lideres, dos chefes, dos heróis vedetas, sobre o combate dos pugilistas/políticos, o que ficou KO, o que ganhou aos pontos; luta livre, luta individual, só isso interessa, só isso é marketing. O resto é paisagem. O povo o que gosta é disso, afirmam os especialistas. Vamos servir-lhes o que eles comem.

 

           Os especialistas multiplicam-se como coelhos. Eram simplesmente, comentadores ou analistas; agora são politólogos, sociólogos, estrategas, historiadores encartados. Quanto a mim, os mais nocivos são estes últimos.

 

     Para a grande maioria deles, a história dos povos, das nações, da humanidade, não é uma ciência dialéctica, mas a crónica realista “à Maquiavel” das façanhas dos vencedores ; reis, imperadores, aventureiros da guerra e da fortuna, ditadores e golpistas, espertalhões e oportunistas da democracia.

 

      Ilustrando o género : Há meia dúzia de anos, a um desses mestres de ciência política, ouvi afirmar, em sessão pública, que Salazar venceu sempre os adversários antifascistas porque era mais “esperto” que todos eles. O sujeito foi um dos entusiastas de eleição do Manholas para o trono RTP do “maior (sacana/espertalhão) português de sempre”. Na presente conjuntura eleitoral, continua com lugar assegurado nos media nacionais e privados, recebido com respeitosa vénia.

 

       Um outro catedrático de ciência política da mesma laia e na escola da “esperteza”, Adriano Moreira, antigo figurão do fascismo, é hoje (quase aos 90 de idade)  mestre reverenciado de democracia geo-ética. Logo em 1977 fez publicar, do Brasil onde se tinha refugiado, um ensaio de conotação maquiavélica “O Novíssimo Príncipe”. O emérito professor elegeu um colectivo, as Forças Armadas, como o anti-herói do 25 d’Abril ! O homem devia estar tão traumatizado que tresleu Maquiavel, o glorificador da acção individual na feitura da história. Ora, ilustre intelectual para todas as estações: em 1977 já tinha  disponível, pronto a usar, o Novíssimo Príncipe Contra-revolucionáro, o Dinossauro Excelentíssimo Mário Soares! Ambos sois, seguramente dois bons espíritos reencontrados. Ambos merecem uma coroa principesca como condottieri campeões do neo-maquiavelismo.  
 

 

     José  Sócrates não será recordado – para desgosto seu – como um príncipe maquiavélico de envergadura comparável aos dois expoentes atrás mencionados. Entretanto, a Nação portuguesa, no conjunto global, desceu à categoria periférica. Sócrates está bem nessa dimensão. Chico esperto, vendedor de feira, já dele foi dito, justamente. O seu perfil de ambicioso autista corresponde ao modelo pimba do novíssimo príncipe da novíssima burguesia pimba 

 

     Contudo, convém lembrar que o príncipe de Maquiavel foi, no séc.XVI, um herói  “revolucionário”; na medida  em que afirmava a vontade  individual contra a realeza  de graça divina e o privilégio de berço da fidalguia. Em contrapartida, para os actuais neo-maquiavélicos só interessam os fins, a vitória, o triunfo a qualquer preço sem olhar aos meios. Essa é a ética predominante na cultura burguesa hodierna. Daí resulta que os príncipes da política e  os gangsters de sucesso suscitam igual admiração; as prostitutas de luxo e os artistas laureados o mesmo aplauso. 

 

      Neste quadro de valores, o jogo eleitoral está qo nível de um campeonato desportivo. Dirigentes, treinadores e jogadores afirmam ambição sem limites, a vontade de ganhar e a força de acreditar, garantem êxitos e futuros radiosos, prometem  muitos golos, taças e glórias, trabalho duro e  amor à pátria e à camisola, cada jogo um combate decisivo, só a vitória interessa, etc, etc.

 

          José Sócrates, também conhecido no meio pelo Zé Promessas, possui todas as características do  treinador feroz que não olha a processos nem a delicadezas para vencer. Mas as últimas quatro épocas correram-lhe mal.  Mesmo bastante mal. Adeptos, público em geral, populações inteiras, estão fartos de lhe aturarem as fanfarronadas, a demagogia, a incompetência. Vai para casa Zé Sócrates, volta para a aldeia donde nunca devias ter saído, limita-te a treinar o clube lá da terra, não tens tamanho nem cabeça para maiores intentos. 
 

 

                                         Lisboa, 15 Setembro, 2009

publicado por samizdat às 12:31
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Outubro 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
31


.posts recentes

. Descomemorando o 25 de No...

. No aniversário da morte d...

. Da Tirania Neo-Liberal ...

. ESCUTA, Eleitor Anónimo: ...

. NO 40º ANIVERSÁRIO - Sob ...

. A revolução portuguesa e ...

. CAUSA: 25 Novembro 1975; ...

. Beja 1962 - Evocação de u...

. UMA HISTÓRIA CONTEMPORÂ...

. UMA HISTÓRIA CONTEMPORÂ...

.arquivos

. Outubro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Março 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Dezembro 2011

. Fevereiro 2010

. Dezembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Abril 2009

. Janeiro 2009

. Novembro 2008

. Setembro 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Abril 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

blogs SAPO

.subscrever feeds