Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

CORRUPÇÃO, filha Dilecta da Contra-Revolução

 

 

 

 

 

Sim, eu sei. Os leitores sabem. Toda a gente sabe. O fenómeno social da corrupção é mais antigo que a Sé de Braga; mais antigo mesmo que as Pirâmides do Egipto.

 

 

 

Dos remotos gregos chegou até aos nossos dias o diálogo “A República” redigido por Platão vai para 25 séculos; onde o mestre Sócrates tenta “fazer compreender” que só com o fim da corrupção os homens poderiam alcançar um estado (governo) justo. Os interlocutores do filósofo eram dois jovens - que por aí ainda andam, tirocinando nos partidos burgueses; PS, PSD, ou perto. Trasímaco e Protágoras se chamavam então. E então – como agora – afirmavam que “o objectivo do governante é beneficiar-se a si próprio e aos amigos; e prejudicar os inimigos ... (ele) apropria-se dos fundos públicos e leva uma vida mais feliz e preenchida que o homem justo (leia-se honesto)”.Pois já era assim há 25 séculos, estamos cientes. Porém, é do tempo hodierno que interessa aqui falar. Concretamente, da magnifica II República Democrática Portuguesa. (Ou III República, sem mais, se se incluir o meio-século de ditadura fascista).

 

A questão essencial que se coloca cifra-se em averiguar por que razão – ou razões – a antiquíssima e fatal corrupção se desenvolveu tão viçosa e robusta nesta nossa modernaça democracia euro-globalizada.

 

O momento parece ser de grande alarme e angústia – maxime entre a classe política – em relação ao alastramento do cancro corruptivo por toda a sociedade nativa. Segundo o que é dito e repetido pelos meios de comunicação social, por dezenas da comentadores mais ou menos conspícuos, inclusive por governantes com altas responsabilidades presentes e passadas, a corrupção em Portugal atingiu tais proporções que ameaça a própria existência da Nação! Estranho catastrofismo este, quando manifestado pela classe usufrutuária das práticas que ora condena ! Não dá para acreditar em rebates de consciência provindos dessa banda! Cheira a esturro, cheira a ilusionismo.

 

Com efeito, a gente honesta que ainda sobrevive neste país português vem alertando para o avanço e a banalização das práticas corruptivas, desde a chamada “normalização” política; isto é, desde o triunfo dos reaças (os contras) na contra-revolução de Novembro 75/76. Sem eco nos media, está bem de ver; pois faz parte do sistema  democrático burguês a obliteração discriminatória, a técnica manholas de “não tomar conhecimento”.

 

Aqui, no Alentejo Popular, tenho dedicado ao tema da corrupção  cerca de uma vintena de páginas. Em Junho 2004 (Nº40) o texto levava por título “A Corrupção Democratizada”, onde já então se assinalava uma “revoada de alegadas preocupações relativas aos malefícios da corrupção” ; Vários outros textos se juntaram, sobre abusos e privilégios, promiscuidades e impunidade, licenciosidade e libertinagem, saque e extorsão da fazenda pública, etc; em Dezembro 2008, o título foi “Da Corrupção à Alucinação”. E, em Junho do corrente ano “Corruptocracia”, a coincidir com esta nova campanha de combate à corrupção,  empreendida com o habitual alarido pela burguesia nacional; onde o que mais se ouve  são apelos e exortações responsabilizando “todos”; múltiplas comissões serão criadas, abundante legislação não faltará. Enfim, o cenário fica montado, com cortina desinformativa a condizer. De antemão sabemos o destino deste teatro. Novamente, a montanha nem um rato vai parir. O que eles querem mesmo é distrair  a malta.

 

Porém, a corrupção é uma realidade de tal maneira notória e  irrecusável, um polvo tão visível, que forçou a classe burguesa dominante a tomar conhecimento, a condená-lo como chaga social. Mas, embora a sua existência  esteja reconhecida, um outro importante aspecto permanece tabu; o qual, consiste em reconhecer que a corrupção está “entranhada” no corpo social português, em particular, no corpus político/partidário. Faz parte inextricável, do ADN da II Democracia Portuguesa  instaurada sob a égide da contra-revolução. Semelhante nascimento acarretou consequências e explica, nas presentes circunstâncias, a impossibilidade de extirpar o cancro e reformar o sistema.

 

Poder-se-á, filosoficamente, lembrar que corrupção sempre houve e haverá, nas sociedades organizadas pelo bicho homem. E logo, o menino esperto  acrescentaria que em todas as democracias, modelo ocidental/ cristão, no abençoado mundo global dos nossos dias, a corrupção tem direitos de cidade; e nem por isso tem impedido o progresso da civilização rumo aos radiosos espaços cósmicos. Pois é, pois é, essa observação é pertinente e abre novas pistas.

 

Em primeiro lugar, há a considerar que nas chamadas democracias ocidentais o poder está na posse de uma determinada classe social:  a burguesia, como é sabido; que essa classe professa a doutrina liberal da economia de mercado e do comércio livre; que nos últimos trinta anos a corrente liberal dominante tem sido a do ultra liberalismo, a do “laissez faire,laiissez passer” elevado a expoente máximo; que essa degenerescência nada tem a ver com os princípios e os ideais fundadores das primeiras  democracias modernas, mas é sim o resultado de um capitalismo sem freio ético, onde a corrupção impera na sociedade burguesa e nas  relações desta com o Estado representativo.

 

Em segundo lugar, há a considerar que a  II República Democrática Portuguesa foi implantada após meio-século de  enquistamento obsoleto em ditadura fascista, seguida  de explosão popular revolucionária, sufocada 19 meses depois por uma conspiração contra-revolucionária instigada e   apoiada pelo imperialismo capitalista que avassala o mundo da modernidade sem fronteiras... e sem ética.  

 

As forças políticas militares e partidárias que triunfaram em 25 Novembro 1975 apelidam a contra-revolução de que foram autores, de “normalização”. Para efeitos dialécticos, a classificação até serve na perfeição.  Qual norma? A do antecedente fascista? (que apelidam, com pudor de herdeiros, anterior regime). A norma imposta pelos imperialistas americanos ? (principais mentores da conspiração). Foram ambas, sem dúvida, modelo imposto e inspiração seguida pelos auto cognominados pais da II Democracia.

 

Irrelevante é, para conspiradores natos, a letra da Constituição. (Pois se até mesmo ainda lá consta, após 6 revisões, “ abrir caminho para uma sociedade socialista”!! E as coisas lindas que lá estão nos  10 Princípios Fundamentais que incubem ao Estado! Só mesmo lido, porque contado ninguém acreditaria).  Relevante, isso sim, para a nossa demonstração de que a corrupção é filha congénita e muito querida da contra-revolução fundadora da II República Democrática Portuguesa, são as acções e a conduta dos representantes do povo,  as políticas, que servem,  as ambições e as servidões que os norteiam.

 

Em livro que publiquei por ocasião de cumprir o  meu octogésimo (Maio 2004) abordei  com alguma extensão a temática Ética e Política, destacando o papel primacial de Mário Soares/Partido Socialista, não apenas na contra-revolução, mas também como fundador de um original                                                           socialismo subordinado aos interesses  económicos da classe dominante. Chamei-lhe então O Grande Corruptor. Justificando a seguir: “a) converteu o exercício do poder político num jogo de gavetas de conveniência; b) estabeleceu o modelo da carreira política  num meio de assegurara ascensão social e o usufruto de privilégios pessoais; c) proclamou-se o profeta da tolerância ... para apenas a aplicar aos abusos dos apaniguados, de capitalistas e empresários, de renegados e esquerdalhos; d) redefiniu o rumo para a nova democracia socialista : É fartar vilanagem”.

 

Mensagem que tem sido perfeitamente compreendida e  levada a cabo com afinco desde então, pela reinstalada burguesia fascista pelos arrivistas dos partidos burgueses e seus apparatchiks e pelos radicais esquerdistas reciclados. Os pais da democracia – sempre em 1º lugar o Grande Pai Soares -    têm dado o exemplo. Quase todos eles estão ricos, muitíssimo bem aposentados, indemnizados, devidamente ressarcidos e recompensados. A Dona Corrupção também vai bem, obrigado; e recomenda-se.

 

A corrupção específica de que nos estamos ocupando é aquela que diz respeito ao governo da polis. A corrupção no (e do) sistema político; ou, mais simplesmente, a corrupção política. Este tipo de corrupção nasce da permeabilidade do Estado, a interesses alheios/contrários ao interesse da comunidade  (nacional, local, etc). A designação de promiscuidade,  muitas vezes usada, remete mais directamente para a conduta delituosa dos agentes do Estado; quer no campo executivo/governamental; quer na administração pública, municipal,  na justiça e fiscalidade, etc. No Portugal democrático a corrupção/promiscuidade entre os governantes e os negócios privados, é pública e notória, assunto de escândalos contínuos, objecto de chacota e reprovação,  da rua aos salões. A classe política desceu ao nível zero no respeito e na consideração dos cidadãos. Em cada dez há um honesto, diz o povo. Trata-se de uma generalização demasiado injusta (a minha chapa é de 1/5); mas é fruto da impunidade dos prevaricadores, dos privilégios indecentes que acumulam, dos abusos provocatórios  que cometem sem correctivo nem censura. Ao fim de 35 anos de regime burguês-capitalista a rede de interesses, compromissos, cumplicidades, entre a classe política  e o mundo capitalista dos negócios é de tal modo apertada e sólida que constitui um todo único. Não há reforma, entidades reguladoras, fiscalização independente, que tenha força para rebentar com essa couraça.

 

Conforme venho dizendo, é orgânica a unidade existente entre governo burguês/capitalismo/corrupção; nasceu nas vascas da contra-revolução de Novembro, foi apadrinhada pelo imperialismo  corrupto/ capitalista; os respectivos pais putativos e parentela por aí andam, anafados, arrotando prosperidade e defendendo o statu quo com unhas e dentes. (Aliando-se ao diabo se preciso for, como diziam e fizeram quando do Grande Cagaço de  74-75). Chegado a este ponto, vejo-me em condições de poder “revolucionar” o velho aforismo, mil vezes repetido, a saber “O poder corrompe; o poder absoluto corrompe absolutamente “. O caso português introduz uma variante capital : pois antes de se instalarem no poder já os contra revolucionários de Novembro estavam absolutamente corrompidos. Tinham vendido a alma ao diabo. Não foram portanto corrompidos pelo poder. Aconteceu o inverso: foram eles quem corrompeu a novel democracia portuguesa. Deixaram modelo, fizeram escola. Os discípulos aí estão, no enriquecimento ilícito, na disputa de tachos e gamelas, na troca de cunhas e favores; em suma, praticando nos  variáveis graus do mestrado em corrupção. Tiveram bons professores.

 

Para terminar, uma outra observação suscitada pelo tema corrupção. Um dos grandes mistérios “científicos” do capitalismo liberal, que já preocupava Adam Smith, consiste na identificação da enigmática “mão invisível” que, miraculosamente, estabelece o equilíbrio entre a oferta e a procura, fazendo com que a economia burguesa corra sobre carris no TGV do lucro. Pois eu tenho a resposta. Creio que é digna do prémio Nobel da Economia. Mesmo assim, desdenhando essa consagração, vou revelar a magna descoberta : a mão invisível da economia liberal é, nem mais nem menos !..... a querida corrupção. E com esta me vou, pela porta grande.

 

Lisboa,  17 Dezembro, 2009

 

publicado por samizdat às 12:28
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