Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2010

UMA HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA DE PORTUGAL (Segundo um moderno Cronista da Corte)

 

 

Saiu para o mercado livreiro no final do ano, uma nova História de Portugal. (No desvario do marketing foi  posta a venda a 3ª edição datada de Fevereiro 2010!). Um “tijolo” de 976 páginas dividido em três Partes: Idade Média (séc. XI a XV); Idade Moderna (séc. XV a XVIII); Idade Contemporânea  (séc. XIX a XXI).

 

O meu interesse primordial visava, obviamente, a III Parte. Em especial, procurava saber como o seu autor –Rui Ramos (RR),  historiador já formado em liberdade democrática - iria descrever/analisar um  período histórico que envolveu a nossa  vida,  a geração precedente e determina a dos nossos filhos. Daquilo que de RR tinha lido, colhi a ideia de ser um intelectual competente no seu ofício e  de mentalidade aberta. Para maior curiosidade, confessava-se homem de direita (no jornal Público onde colabora). Estaria na presença de uma avis rara?

 

Relanceando a partir dos Capítulos VI e VII da III Parte,  respeitantes à 1ª República Democrática (1910/1926), desde logo se pode notar que RR admite a tese do “bambúrruio” (do feliz acaso), muito cara aos monárquicos e restantes vencidos, como explicativa do triunfo dos republicanos a 5 de Outubro de 1910. Uma vitória pouca participada, diz. Sem apoio popular significativo; para , mais adiante, vir a admitir que a “ideia  de República” estava generalizada entre o povo e a burguesia patriótica. (A primeira revolta republicana fora em 31 de Janeiro 1891, dezanove anos antes).

 

Mas é só consultando a Cronologia Seleccionada (pág. 861) que é possível percepcionar o desencadeamento imediato dos ataques contra a  recém-nascida República. Aí se lê que logo a 5 de Outubro de 1911, exactamente um escasso ano sobre a proclamação do novo regime,  uma invasão (a que chamam, incursão) a partir da Galiza, de uma coluna armada de exilados comandada pelo capitão de cavalaria Paiva Couceiro (O derrotado na Rotunda), contando com o apoio do governo de Madrid e do rei de Espanha Afonso XIII, tentou provocar o levantamento da população rural/católica do Norte contra a república. A contra-revolução iniciava a sua macabra função de desestabilização e sabotagem. Essa primeira investida foi rechaçada pela tropa fiel e pela população; no entanto, menos de um ano depois, a 6 Junho 1912,  nova “incursão” sofreu igual desaire. Mas os contra-revolucionário continuaram organizados do outro lado da fronteira, ameaçando a república democrática; e sempre com o apoio da monarquia espanhola. Por fim, em 9 Janeiro 1919, tinha o exército português acabado de regressar da Flandres  e das campanhas de África contra os alemães, Paiva Couceiro consegue ocupar a cidade do Porto e aí proclamar a “Monarquia do Norte”. Pouco durou. A República sabia defender-se, como reconhece RR. Quando a reacção monárquica tentou repetir o golpe em Lisboa, o governo mobilizou a população, distribuiu armas aos civis republicanos, cujos destacamentos em conjunto com forças da Marinha, liquidaram a  fugaz “monarquia do Monsanto” numa arrancada que ficou célebre.

 

Na cronologia dos acontecimentos, RR (?) situa o deflagrar da “guerra civil” na sequência da derrota monárquica de 1919. Ora, na verdade, a guerra interna contra a República –a contra-revolução, muito simplesmente – fora declarada e empreendida pelos reaças de todo o matiz, nomeadamente os católicos de obediência eclesiástica, desde a promulgação da Lei de Separação do Estado das Igrejas em 20 de Abril de 1911; isto é, desde que os sectores mais reaccionários e retrógrados do país se aperceberam que o Partido Republicano (PRP) de Afonso Costa iria cumprir, honesta e rigorosamente, os compromissos e as promessas constantes do sua propaganda programática; e onde a Lei da Separação tinha sido - e era - a bandeiras mais flamejante.

 

A contra-revolução visando a destruição da República Democrática de 1910 e a restauração do statu quo ante,  foi feroz, sem tréguas, chegando ao bombismo e ao assassinato político.  Tal qual veio a suceder em 1974-75 contra a Revolução de Abril. Assim, também os “militares moderados” da 2ª década do século passado, conspiraram desde a primeira hora contra a revolução democrática. Em Maio de 1915  os golpistas militares organizados no “movimento das espadas” conseguiram  alcançar o poder; mas foram rapidamente desalojados pela enérgica resposta do povo armado em Lisboa, sob a direcção do PRP. Não desistiram. Recorreram ao assassinato. Na ”noite sangrenta” (19 Outubro 1921)  pereceram às mãos de sicários pagos pela reacção monarco-clerical, o chefe do governo António Granjo (horrorosamente torturado), os heróis da República Machado dos Santos e Carlos da Maia. RR escreve que “os radicais ajustaram contas com os republicanos que, desde 1911, lhes haviam resistido”. (pág. 617). Lê-se ..... e custa a acreditar. O cronista não tem uma palavra de condenação. E chama “radicais” aos contra-revolucionários inimigos da república ! Passa em silêncio as conclusões da  investigação, devida em exclusivo  à dedicação heróica da viúva da Carlos da Maia,  onde ficou apurada a responsabilidade de  elementos destacados da Igreja na conspiração assassina.

 

Acrescento apenas só mais um rabo de gato, dos muitos que Rui Ramos deixou de fora no seu breve aperçu (percepção, será uma boa tradução) sobre a I República Democrática Portuguesa. Lembrou-se ele do Integralismo Lusitano - nacionalistas proto fascistas - como “o movimento de maior sucesso conquistando liceus e universidades (Pág.602); eram jovens sobretudo iconoclastas professando um snobismo chique ... e foi essa a sua força perante os governos republicanos” (fim de citação). Lembro-me eu agora que também por cá tivemos essa canalha  contra-revolucionária anti-Abril. Os érmeerres e outros esquerdalhos cheirando a chique e a merda. RR, pelos vistos, apercebeu-se do seu papel histórico.

 

O autor dedica 70 páginas (Cap. XVIII e XIX) ao período de 48 anos de regime ditatorial militar/fascista. Em geral a abordagem continua a pretender ser desprendida, neutral. Por suposto, o historiador como profissional deixa de ter interesses quer individuais, ideológicos ou de classe; converte-se num simples narrador de factos, num cronista.

 

Ora tal como acontece com a cronologia relativa  ao período de 16 anos da 1ª República, também a cronologia dos seguintes 48 anos (pág. 862/4) acaba por fixar os acontecimentos que, do ponto de vista do autor/coordenador da obra, serão os mais marcantes da época. Assim, entre outros, surgem destacados: - Em 1927, fracassa a insurreição armada republicana contra a ditadura militar. Em 1958, a campanha eleitoral de gen. H.Delgado.  O ano ominoso de 1961, que ditou a condenação internacional do fascismo salazarento anunciando a sua próxima derrota histórica, mistura em seis linhas: o assalto ao paquete Stª Maria; início da guerra colonial em Angola; o fracasso da conspiração dos generais; o colapso do exército português na Índia. O assassinato de H.Delgado pela “policia política” em Fev. 1965, está assinalado. A Oposição anti-fascista, o movimento popular e estudantil, a resistência sem igual do PCP, merecem apenas duas referências: em 1945; e, em 1960, a evasão de Peniche.    

 

Estado Novo é a etiqueta que RR usa, quase exclusivamente, para designar o fascismo salazarento. Não tão neutral como isso, é caso para dizer; era da autoria e a sempre usada pelo chefe Manholas.

 

Autoritarismo, é a característica mais negativa que RR encontra no “anterior regime”; junta-lhe, por vezes, um crítico conservadorismo Curiosamente - ou talvez nem tanto – são as duas palavras chave que Jorge Sampaio utilizou em 2002, era Presidente da República, na cerimónia do 28º aniversário do 25 de Abril. Do alto da tribuna  da Assembleia  Parlamentar crismou o fascismo salazarista como “autoritarismo conservador”.

 

A complacência para com o regime fascista (com perdão de V.Exªs) impregna  o texto de Rui Ramos em paralelo com um paternal desdem para com as fraquezas da Oposição e da Resistência. Algo muito parecido com a famosa “tolerância” pregada e praticada por Mário Soares; cujo reverso, indissociável, sempre foi uma severa apreciação de comunistas, esquerda revolucionária ou meramente desalinhada.

 

A compreensão tolerante do cronista pelo regime que “amordaçou  Portugal” perto de meio-século  (a expressão fez a glória do M.Soares oposicionista) manifesta-se em inúmeras observações e comentários. “...não é possível negar que o Estado Novo foi moderado ... os assassínios  foram muito raros e os presos políticos foram sempre poucos “ (pág.652). “Regimes democráticos contemporâneos na Europa  apresentaram contabilidades  repressivas análogas ou piores ,,,”(idem). O pluralismo de opinião, dentro de estreitos e vigiados limites, continuou a ter expressão pública...” (deve ter sido o Soares que rebentou com a mordaça!). Rui Ramos grava em título de parágrafo a maravilhosa conjunção da “Repressão e a persistência do pluralismo”. “Em 1940, Salazar parecia ter o país a seus pés. Além de Presidente do Conselho, era ministro das Finanças, dos Estrangeiros e da Guerra. A oposição estava desmantelada” (pág.662). (Que ganda homem! Até o  Sócrates de Alijó se morde todo de inveja). Segue por aí fora o cronista da corte descrevendo a Obra do estadista, com percentagens e outras camuflagens; e  as acrobacias do genial diplomata, virando a casaca consoante a sorte da guerras...da Mundial, da Fria ...até a Colonial lhe acabar com a peçonha.

 

Simultaneamente, RR vai apagando, ou mesmo rebaixando, a Resistência Anti-Fascista nas sua várias vertentes. Na circunstância não há vagar- e em nenhuma haverá interesse - para esmiuçar a perversa tolerância democrática dos anticomunistas/contra-revolucionários que a si próprios se têm apelidado de “moderados”.

 

Limitar-me-ei a três linhas na pág. 477. “No princípio de 1959,alguns militantes católicos e monárquicos entraram numa conspiração militar que, como as outras desde 1945, nunca saiu”. Usando a fórmula sintáxica de  RR, direi que ... não é possível negar que o objectivo dessa pequena nota pretende apenas apoucar as revoltas militares contra a ditadura; e, de caminho, rebaixar também a participação de sectores católicos e monárquicos na luta antifascista. Um historiador de ofício não pode tomar partido; muito menos para amesquinhar manifestações de revolta contra ditaduras e tiranias. Quando o faz ... denuncia-se. 

 

“Revolta da Sé” foi como ficou registada nos anais da luta antifascista esta tentativa gorada de Março 1959. Era sequela directa e repúdio pela farsa eleitoral do ano anterior (H.Delgado). Honra a quem se rebelou, sacrificou vidas e carreiras. Vários militares e civis foram presos e julgados, muitos outros conseguiram iludir a retaliação governamental Francisco Sousa Tavares foi o monárquico mais empenhado; Manuel Serra o rebelde dirigente católico de sempre. Dos militares lembro, os então, capitães Luís Vicente da Silva, Amilcar Domingues, e o cmdt Vasco Costa Santos, ainda entre nós; Xavier de Brito e outros mais na GNR. Todos nos respectivos quartéis prontos a actuar. O julgamento em Tribunal Militar - como  instituído era desde séculos -  teve a presidi-lo dois íntegros oficiais que me apraz, aqui e agora, nomear: os coronéis de artilharia Teixeira de Almeida e Rui da Cunha. Em memória, como homenagem e exemplo. Pois receio bem que  depois da “normalização” contra-revolucionária de 75/76 essa espécie de militares,  já então rara,  entrou em vias de completa extinção.

 

Os cronistas da corte só curam dos vencedores, é bem sabido. São orgulhosamente pragmáticos. Quando se trata de contestação ou revolta contra poderes ou interesses estabelecidos, apagam da história os dissidentes e os rebeldes. No Portugal da II República é esse o timbre da historiografia oficial, quer académica. quer mediática.

 

No entanto, Rui Ramos força a nota e assim abre o jogo. No sentido, em que 50 anos da existência de uma Pátria – que é a nossa – vividos sob o jugo de uma das mais duradouras ditaduras contemporâneas, aparecem narrados como um fait divers  (um episódio, um contratempo, um percalço) sem consequências de maior. Escreve a pág. 653: “O regime assentava mais no conformismo que na mobilização”; devendo ler-se, imposição política. Síntese da opinião do autor/historiador sobre o lapso de 50 anos, apresentado como um mero  “interregno fascista”! Mas o conformismo - ilustre investigador   doutorado em Oxford - era o medo. É o medo que ficou incrustado no carácter conformista, submisso e humilde, do português comum na democracia de hoje. O medo que qualquer observador estrangeiro logo detecta num primeiro contacto com a realidade nacional. RR decerto também o sabe. Nem  escapa à maioria dos sociólogos, dos intelectuais portugueses em geral. Está na moda, na boca dos críticos mediáticos que por aí abundam.. O fascismo não foi uma banalidade, meu caro. Foi uma calamidade, E algum respeito deve haver para aqueles que nunca se conformaram nem se conformam. Distinguindo, como é justo, os comunistas portugueses sempre na 1ª linha do combate e do sacrifício.

 

Torna-se indispensável uma 2ª Parte desta recensão,  de modo a cobrir os Cap. X e XI – “A Revolução do 25 de Abril” e “Uma Democracia europeia”. Os leitores terão a paciência  de aturar o meu “inconformismo” em próximo artigo.

 

publicado por samizdat às 09:10
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1 comentário:
De amigos do concelho de aviz a 23 de Fevereiro de 2010 às 15:18


É em defesa da cultura que convido todos os interessados a participarem nos VIII Jogos Florais de Avis, uma iniciativa dos Amigos do Concelho de Aviz – Associação Cultural e cujo regulamento pode ser consultado em: www.aca.com.sapo.pt
Fernando Máximo


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