Sexta-feira, 11 de Janeiro de 2008

Os dias loucos do PREC (de 11.3.75 a 25.11.75)

Os Dias Loucos do PREC

 

Vistos por Adelino Gomes e J. P. Castanheira, revistos por J. Varela Gomes

Dois veteranos e conceituados jornalistas - Adelino Gomes (Público) e José Pedro Castanheira (Expresso) - publicaram no passado ano de 2005 numerosas crónicas relativas aos cerca de 9 meses revolucionários vividos em Portugal, trinta anos atrás. Com essas crónicas - diárias no Público, semanais no Expresso - procuravam ao dois jornalistas, não apenas fornecer informação detalhada aos leitores sobre o PREC - Processo Revolucionário Em Curso -, mas também cruzar perspectivas dos acontecimentos ocorridos em 1975; utilizando, para o efeito, no essencial, os textos publicados autonomamente nos dois jornais; acrescentados, na presente edição com enxertos e opiniões de algum relevo.

Neste Abril desencantado de 2006, sob o patrocínio das respectivas entidades patronais e proémio dos dois directores (J. M. Fernandes, pelo Público; H. Monteiro, pelo Expresso) foram então novamente reeditadas, agora em conjunto, as crónicas de 2005 relativas a 1975, em grosso volume de 430 páginas, largamente ilustradas com fotografias do tempo revisitado. Ao volume foi dado o título "Os Dias Loucos do PREC". Não (a)parece claro o critério que presidiu à escolha do adjectivo. Mas acontece uma coisa com os adjectivos: não são inocentes. A semântica, também ela, é ideológica. Questão que, decerto, reaparecerá várias vezes, antes de terminarmos.

Em contrapartida, considero singularmente correcta a opção do anagrama PREC apenas para o período delimitado pelo 11 de Março 1975 - derrota da tentativa golpista de Spínola – e pelo 25 Novembro 1975 - triunfo da contra-revolução. Aliás, eu próprio, em anteriores oportunidades, tenho adoptado essa delimitação. Pois que, em rigor, revolução há só uma: a económico-social. Os contra-revolucionários, as classes reaccionárias em geral, também não têm dúvidas nenhumas a esse respeito. Brincar às manifestações de radicalismo teórico, não incomoda; e sempre diverte a rapaziada maoísta. Tocar na sagrada propriedade é outra história muito diferente... é uma questão de vida ou de morte.

Igualmente correcto foi o abandono da designação revisteira de "Verão Quente". A luta de classes que teve lugar em Portugal durante aqueles nove meses de 1975 foi assunto demasiado sério para consentir conotações de comédia ligeira.

Os autores terminam a sua Introdução apresentando um terceiro olhar, supostamente crítico/criativo. Consta em forma de Prefacio, redigido por um jovem escritor, Gonçalo M. Tavares que, nos anos 74/75, contava apenas 3/4 anos de vida. Conheço a obra desse escritor que aprecio e admiro. Não obstante, receio que o seu olhar, carregado de erudição e de referências literário/filosóficas, pouca mais-valia tenha acrescentado a uma publicação de natureza essencialmente jornalística... arriscando "reduzir os acontecimentos revolucionários ao resultado final de um jogo desportivo", consoante ele próprio, judiciosamente, escreve. O facto é que, quer sejam intelectuais ou gente de cultura comum, filósofos/literatos ou simples jornalistas, todos são influenciados na sua óptica (no seu olhar) por um complexo de motivações, onde as de ordem pessoal/material (reais ou imaginadas) não serão as de menor peso. Vamos então ver a que ponto os dois autores/jornalistas, que já eram gente crescida em 1974-75, conseguiram superar os seus constrangimentos de meio social, de educação, de ordem material... em suma, de classe.

O volume está compartimentado por semanas. São, portanto, 37 capítulos, preenchidos com uma minuciosa cronologia diária. De onde apenas destacaremos os factos/assuntos considerados dignos de comentário; mormente aqueles em que apareço pessoalmente mencionado, fui interveniente, ou testemunha presencial.

Entretanto, deve fazer-se notar que os autores escreveram as notícias/crónicas agora reeditadas em 2005, trinta anos afastados dos acontecimentos que pretendem revisitar. Não se trata, por conseguinte, de reportagens, ou de observações directas por eles recolhidas. Muito se disse e se escreveu nesse lapso de tempo de trinta anos. Aquilo que resultou foi, indubitavelmente, produto de demorada digestão, de influências várias. Uma delas, citada mais de uma vez por J. P. Castanheira, terá sido a obra da académica Maria Inácia Rezola "Os Militares na Revolução de Abril", tese de doutoramento defendida em Julho de 2004. Dada essa circunstância - e se para tanto me sobrar o engenho e a disposição - juntarei ao presente texto um Aditamento sobre a tese da doutorada autora.

Na realidade - fatalmente - os autores de “Dias Loucos …” fazem uso de materiais pós-datados. Eu próprio escrevi centenas de páginas sobre o período revolucionário, em livros e publicações diversas. Nomeadamente, sobre o tema que abre o volume que estamos apreciando. Ou seja: Semana 1 - O Golpe de 11 de Março.

Uma história bastante mal contada, valha a verdade. A fonte informativa parece ter sido o trabalho/tese de M. I. Rezola acima referido, a págs. 128 e seguintes. Meus caros: após 30 anos de acumulação de provas - e da prova do tempo - não é aceitável cobrir com um diáfano manto de dúvidas e ambiguidades a verdade nua dos factos. A resistência do RALIS e a intervenção decisiva da 5ª Divisão na derrota do golpe e fuga de Spínola, não vos merecem destaque... assim como a estranha inércia operacional da Presidência da República, do Estado Maior do Exército, do Copcon e de grande número de elementos da Coordenadora do MFA. Em contrapartida abundam as historietas e alusões de duplo sentido, relativas a "listas de matanças", a "reuniões tumultuosas", a "assembleias selvagens", sobre quem foi culpado pela exigência dos fuzilamentos, etc.. Por favor! A fixação sobre epifenómenos e fait divers caracteriza as reportagens de rua; parece querer amesquinhar um confronto dramático, charneira da revolução portuguesa. Prezados autores de “Dias Loucos”: a Assembleia do MFA que teve lugar na noite de 11 e madrugada de 12 Março 1975 - a justo título famosa - foi uma assembleia de dramatismo e grandeza como poucas terá havido na História de Portugal. Em que o Povo pediu contas aos poderosos e responsabilizou os dirigentes pela inércia e frouxidão que iam causando a perda a Revolução. E se me coube a mim, na ocasião, levantar a voz do Povo, disso sinto um imenso orgulho.

Outra história muito mal contada (na sequência da anterior) respeita à reunião, na noite de 12, onde se aprovaram os nomes para o futuro CR - Conselho da Revolução. A versão constante de “Dias Loucos” foi nitidamente colhida em M. I. Rezola (pág. 135). Visto ter participado nessa reunião, posso garantir que não existiram "listas prévias" apresentadas pela 5ª Divisão. Houve, isso sim, várias propostas e sugestões orais. Entre elas, alguém pronunciou o meu nome... para o CR naturalmente, pois não estavam em causa cargos militares. Eu próprio sugeri Dinis de Almeida, Duran Clemente e Salgueiro Maia. É verdade que Vasco Lourenço reagiu desabridamente, aumentando as nossas suspeitas (5ª Divisão) sobre as estranhas posições de apatia assumidas por ele e outros elementos no dia do golpe spinolista. Trocaram-se palavras violentas mas não se chegou a vias de facto. (Esse episódio ocorreu – definitivamente, e sem a menor dúvida - na Assembleia do Exército realizada quatro meses depois, a 25 de Julho). V. Lourenço manipulou de forma afrontosa a reunião. O objectivo manifesto era "limitar as avarias", recuperar de qualquer maneira, sem olhar a meios, os efeitos da derrota revolucionária infligida ao golpe spinolista na véspera, pelo RALIS e pela 5ª Divisão. De múltiplas trafulhices e outras tantas vigarices consistiu a condução dos trabalhos nessa reunião... essa sim, "selvagem". Até mesmo a lista congeminada por V. Lourenço - e que fora aprovada em atmosfera "tumultuosa" – apareceu modificada na imprensa do dia seguinte, e teve ainda que sofrer outras rectificações, acréscimo de nomes, etc. Uma trapalhada muito pouco dignificante, manobras e intrigas de bastidores de obscuras intenções; tomadas claras quando, daí a um par de dias, a chefia da 5ª Divisão foi convocada pelo novel CR, para ser ouvida como arguida por "usurpação de funções", em plenário presidido por C. Gomes. Aspecto irónico da situação: o novo órgão de soberania devia a sua existência, em grande parte, à nossa intervenção no dia 11 de Março. Outro aspecto "irónico" (catastrófico, como se iria revelar): ali sentados, como conselheiros juízes, estavam uns tantos "moderados" que já se tinham passado, ou estavam prestes a passar-se, para o campo da conspiração contra-revolucionária.

Semana 2 - "O Motor da Revolução" é, como os autores de “Dias Loucos” avaliam, o hipotético papel desempenhado pelo Conselho da Revolução. Trinta anos depois? Por favor! Aliás, semelhante opinião coincide com a da Drª Rezola, na obra citada, pág.13 (a senhora parece estar a converter-se no oráculo dos autores/jornalistas). Na realidade, um motor com graves defeitos de fabrico, que só funcionou quando ao serviço da "moderação contra-revolucionária". Pouco consta nos “Dias Loucos” relativamente à liberdade vigiada e às várias intimidações disciplinares a que ficou sujeita a 5ª Divisão, a partir da farsa do tribunal "conselheiral". Surge apenas (Semana 4) uma curta referência a um nado-morto Tribunal Revolucionário, supostamente destinado a julgar os golpistas spinolistas. Mais poeira para ocultar manobras sabotadoras. Tornaram-se sistemáticas. A história, aliás já contada em livro meu (“A Contra-Revolução de Fachada Socialista”, edição Ler Editora - Dez. 1981), do qual foram vendidos e distribuídos cerca de dez mil exemplares (quem não o enxergou de desvio de visão deve sofrer), é a seguinte: a 5ª Divisão ficara encarregada, na histórica assembleia de 11/12, de orientar o inquérito aos acontecimentos daquele dia de 11 de Março; para presidente da respectiva comissão foi ali indigitado o coronel Ribeiro Simões, da 5ª Divisão; os obstáculos à sua acção surgiram logo de imediato; a 25 Março foram destacados pelo CR dois "controleiros" da investigação, os conselheiros capitão V. Lourenço e major Costa Neves; não aceitando semelhante tutela, demite-se ipso facto o coronel R. Simões; perante a nossa indignação e protesto ainda se conseguiu fazer nomear, para substituir R. Simões, um outro oficial digno, honesto e antifascista de longa data (por isso mesmo, por ser honesto, competente e antifascista, nunca chegou a ser promovido a general... Costa Gomes e seus muchachos moderados não andavam a dormir na forma... podeis crer!). Nunca a 5ª Divisão teve dúvidas, desde o primeiro momento, quanto à missão dos controleiros do CR: travar a investigação sobre o envolvimento do Partido Socialista no golpe. Chegou a ser publicado um Relatório Preliminar do Inquérito. Depois do 25 Novembro, todo o volumoso processo desapareceu. Algumas peças, repescadas à última hora, constam no "Livro Branco da 5ª Divisão", por mim dado à estampa em 1984.

Na Semana 4, vem mencionada uma conferência de imprensa do embaixador americano Carlucci: "A CIA não teve, nem terá, qualquer ingerência nos assuntos internos portugueses". Ponto final. Todavia, procurando a coluna original de Adelino Gomes (Público, 14 Março 2005), aí se lê a acusação ínsita no semanário francês "Témoignage Chrétien", edição de 6 de Março 75 (cinco dias antes do golpe, fixem bem esses olhos), de que "Spínola recebera luz verde do embaixador dos EUA, Frank Carlucci". Mas mais e melhor: nessa mesma coluna/crónica, A. Gomes sublinha que 30 anos depois, exactamente a 11 de Março de 2005, em cerimónia comemorativa realizada em Lisboa, F. Carlucci é condecorado com a Medalha da Defesa Nacional pelo então ministro da pasta, Paulo Portas. E esta, hein!? Eis uma fotografia que deveria ter merecido relevo de página inteira nos “Dias Loucos”. Pois que representa o esclarecimento final - após 30 anos de digestão reflexiva - sobre quem foi o "verdadeiro herói" do 11 de Março para a burguesia reaccionária portuguesa. Nada mais, nada menos que o embaixador americano! (E não é que o homem vai repetir a façanha no 25 Novembro!!).

Semana 5 – Aparece esclarecida a questão polémica do apelo ao Voto em Branco; o qual, durante largos anos, foi atribuído a propósitos maquiavélicos da 5ª Divisão. Vem a pág. 65: "O principal teórico foi César de Oliveira, dissidente do MES. A ideia foi logo adoptada pela 5ª Divisão através de Ramiro Correia". Por uma razão muito válida, aliás: As equipas da Dinamização Cultural espalhadas pelo país comunicavam que as populações estavam confundindo o apoio do MFA ao socialismo, como indicação de voto no Partido Socialista. R. Correia percebeu que tínhamos andado a pôr os ovos no ninho do cuco. Mas não foi a tempo. (Saramago retomou a ideia do voto em branco no seu romanceado "Ensaio sobre a Lucidez", edição 2004).

Na Semana 6 de “Dias Loucos”, nota-se o "louco entusiasmo" dos autores pela estreia do diário "Jornal Novo". Com efeito! Pago pelos capitalistas da CUF! Em nome e como fautor, do verdadeiro socialismo pluralista! Seria para troçar do pagode? Quanto a mim, sempre o tenho identificado como "O Jornal dos Renegados" (V. G., "Em Nome da Ética", ed. 2004). Foi óptima ideia transcrever a Lista da Des(Honra) dos jornalistas e colaboradores: ficaram amarrados ao salário da traição. Duas objecções: nunca tive conhecimento nem, definitivamente, acho verosímil, que F. Piteira Santos tenha feito parte desse elenco de vendidos; J. M. Barroso era, na altura, capitão miliciano, prestando serviço na 5ª Divisão. A inclusão do seu nome tem pois de ser apócrifa. Provavelmente para garantir futura carreira no original regime do socialismo capitalista (ou vice-versa) onde ainda hoje, todos eles, jornalistas e intelectuais ditos independentes – que mais não foram que tarefeiros pagos pela CUF ao serviço da contra-revolução - prosperam, engordam… e cheiram a putrefacção.

A Semana 7 e todo o mês de Abril foram dominados pela campanha e eleições para a Constituinte. Em 20 de Abril, “Os Dias Loucos” regista boicotes e agressões contra o PCP em Cantanhede e localidades de Entre-Douro-e-Minho; assalto ao Centro de Trabalho em Famalicão por "200 aderentes do CDS". Rádio Vaticano recomenda (emissão de 17 Abril), e os bispos e a padralhada reaccionária por todo o norte do País repetem: "Os católicos portugueses não devem dar o seu voto a partidos cujas opiniões e métodos são incompatíveis com as determinações cristãs..." (pág. 78, ibidem).

As Semanas 8, 9, 10, 11 e 12 - todo o mês de Maio - foram, na perspectiva de “Dias Loucos”, dominadas pelo chamado "Caso República". Uma manipulação indecorosa, a que toda a imprensa reaccionária mundial deu enorme e desproporcionada cobertura. A manobra desinformativa - onde a mão da ClA entrava pelos olhos dentro - consistia em acusar o PCP de pretender tomar de assalto o vespertino lisboeta, feudo do Partido Socialista, com o objectivo último de acabar com a liberdade de imprensa em Portugal!

Caros autores de “Dias Loucos”: se já em 1975 foi logo reconhecido que o teatro montado na rua durante dias a fio não passava de uma farsa para consumo externo, seria normal que na vossa recapitulação em 2005, a inventona surgisse desmascarada. Sabia-se - e ficou apurado – que a iniciativa do conflito laboral pertenceu aos tipógrafos maoístas de maioria UDP. O PCP não meteu prego nem estopa no caso. (É curioso notar que a administração socialista do República passou a incluir o padre Agostinho Jardim Gonçalves (pág. 116, ib.), irmão do banqueiro da Opus Dei, refugiado em Madrid, então sede do MDLP/ELP). Na rua, a vociferação anticomunista do MRPP e doutros marginais, centenas de jornalistas estrangeiros, a rapaziada das embaixadas ocidentais... e, entrando no Tejo, a 28 de Maio, a infalível fada madrinha do socialismo soarista e das liberdades democráticas: a esquadra da NATO.

Desmentindo as falsidades propagadas pela reacção nacional liderada pelo PS, e as veiculadas pela Internacional Socialista e pela imprensa capitalista mundial, novos jornais de orientação anticomunista e contra-revolucionária nasciam como cogumelos, nesse Maio de 1975, fazendo coro com o Expresso e o Jornal Novo: A Rua (fascista); O Tempo (neofascista); Nova Terra (católico); O Jornal (pseudo independente - PS); Luta (órgão oficial do PS); Luta Popular (órgão oficial do MRPP); etc. Nas escolas a pequena canalha maoista, filhos de burgueses e fascistas, destruía mobiliário e laboratórios, estabelecia o caos, implantava a "revolução cultural", o fim dos exames e as passagens administrativas O anticomunismo caceteiro e fradesco alastrava pelo norte e centro do território, com assaltos e incêndios das instalações do PCP e do MDP; na

Madeira e nos Açores o terrorismo independentista amedrontava as populações. No Conselho da Revolução, os elementos conspiradores do Bando Moderado ganhavam posições de importância decisiva: com a manhosa concordância do Gen. Costa Gomes, fizeram-se nomear para o comando das Regiões Militares, justificando assim o aumento para 30 do número dos conselheiros, com elementos da sua confiança.

Semanas 13, 14, 15 e 16 - Mês de Junho 75. Que abre, nos “Dias Loucos”, com mais uma história muito mal contadinha, benza-vos Deus: a desestabilização independentista nos Açores (S. Miguel). Só possível pela cumplicidade do governador militar (e representante do MFA, em cúmulo de traição) coronel Altino de Magalhães, oficial da confiança pessoal de Costa Gomes e por ele nomeado para o cargo em Janeiro de 1975, apesar de vários avisos e objecções... com destaque para as de Rosa Coutinho que o tinha saneado de Angola por suspeita de envolvimento conspirativo com a reacção local. Aos gritos de "Independência, independência" frente ao Quartel-General, o bando separatista exige a demissão do governador civil António Borges Coutinho, membro de uma das famílias mais antigas de S. Miguel, antifascista de longa data e nomeado para o cargo logo em seguida ao 25 de Abril. Meu amigo desde 1958, telefonou-me no auge da crise (4 ou 5 Junho): "É preciso que cá venhas. Isto aqui está muito mau". Contacto de imediato Belém e disponibilizo-me para ir. O CR (C. Gomes, V. Lourenço) não hesita: decide enviar o açoreano Canto e Castro, cúmplice e amigo dos "FLAS - Frente de Libertação dos Açores". Borges Coutinho demite-se. Os Açores ficam nas mãos dos contra revolucionários. A conspiração do bando moderado do MFA averba mais uma vitória.

(Altino progrediu no generalato, sempre acarinhado pelo CR e devidamente condecorado pelos governos burgueses. Canto e Castro manteve-se no CR até à respectiva extinção em 1982. No ano seguinte é condenado a 5 anos de prisão por fraude na obtenção de subsídios). Meus Caros: todos estes elementos eram do conhecimento público em 2005, quando da publicação original dos vossos “Dias Loucos”. Constam no livro da minha autoria, edição 1981, já citado. Igualmente Borges Coutinho (Coelho! para A. Gomes) esclareceu o sucedido em S. Miguel, em diversas oportunidades, por escrito e em entrevistas. Só não sabe, quem não quer.

Entretanto o terrorismo anticomunista/anti-MFA intensificava-se. Em particular na Região Militar Centro (Coimbra), onde a missão do "MFA moderado", general graduado Franco Charais, era exactamente igual à do Altino nos Açores: colaborar com a reacção contra-revolucionária. Também em Angola/Luanda a situação se deteriora em clima de guerra civil, sendo Alto-Comissário o general da Força Aérea Silva Cardoso, outro oficial da grande confiança de Costa Gomes, por ele nomeado para o cargo em Janeiro 75, substituindo R. Coutinho que não agradava à reacção colonial. A estratégia para Angola, era uma indefinida "neutralidade activa", inventada por C. Gomes; e que, traduzida em termos práticos, consistia em "deixar andar"... a conspiração internacional contra Angola orientada no terreno pela CIA e pela BOSS sul africana. (John Stockwell, "A'CIA contra Angola", ed. Ulmeiro 79).

A 13 de Junho, uma Resolução do CR nomeia a Comissão do MFA para acompanhamento dos trabalhos da Assembleia. Constituinte (pág. 160, “Dias Loucos”). Missão da mais alta importância revolucionária, que foi despachada como trivial assunto administrativo, apesar da insistente candidatura da 5ª Divisão. Novo golpe de intriga palaciana, de intenção sabotadora contra-revolucionária que passa ignorado pelos historiógrafos amadores e profissionais. Da acção dos anónimos/anódinos militares nomeados, jamais houve notícia.

A 24 Junho (pág. 178, “Dias Loucos”), na sequência da ofensiva do CR contra a 5ª Divisão, é destituído da respectiva chefia o coronel Robin de Andrade, grande amigo meu desde os bancos do Colégio Militar, aliados em vários episódios da luta antifascista, sólido e leal apoio no 11 de Março e em todos os conflitos subsequentes com o CR. Por isso tudo foi substituído por um conselheiro, cuja missão seria controlar a 5ª Divisão. Enganaram-se. Ramiro Correia era um revolucionário sincero, honesto, homem de carácter e de cultura... não podia deixar de ficar meu amigo... até à sua trágica morte, em Moçambique... os dois juntos no exílio, em Agosto de 1977... e eu, destroçado, aos pés das urnas... dele, da mulher e do filho mais pequeno.

(Robin de Andrade não foi promovido ao generalato, para o que reunia todas as condições requeridas... e mais algumas. Como todos os militares antifascistas tinha ficha na PIDE. Essas informações, de classificação secreta, eram do conhecimento de um número muito restrito de oficiais do Estado Maior, que trabalhavam no serviço especial de informações do Ministério da Defesa, criado depois do início da Guerra Colonial. O general Costa Gomes sempre esteve ligado a esse departamento, integrado também pela PIDE (era detentor do respectivo crachat de ouro, não esquecer); Ferreira da Cunha, seu chefe de gabinete durante todo o período revolucionário, estava colocado nesse Serviço de Documentação Estrangeira, à data do 25 de Abril. Posso asseverar - e tenho-o feito em várias ocasiões - que nenhum oficial com ficha de suspeito na PIDE foi promovido pelo poder militar do MFA, ou do Conselho da Revolução. Essas fichas estiveram sempre nas mãos de Costa Gomes/Ferreira da Cunha e serviram para discriminar todos os militares antifascistas de postos de comando e chefia. Uma orientação subterrânea, manhosa (em suma, pidesca) que sabotou completamente a indispensável renovação das Forças Armadas; em última análise, sabotou o que foi chamado "motor da revolução", na ilusão historiográfica da Drª Rezola.

Semanas 17, 18, 19 e 20 (Mês de Julho 1975): Nas sínteses semanais de J. P. Castanheira (Expresso) e nas diárias de Adelino Gomes (Público) acumulam-se notícias e referências que, no seu conjunto, configuram um quadro de crescente ofensiva contra-revolucionária em todas as frentes: político/partidária; político/militar; agitação e terrorismo; intervenção da Igreja na cruzada anticomunista; pressão do capitalismo e da reacção internacional; ingerência imperialista em Angola e Timor, as últimas parcelas do império colonial ainda debaixo da soberania portuguesa. Um quadro desta natureza sugere, no mínimo, a existência de uma qualquer coordenação de âmbito internacional na ofensiva destabilizadora a que estava sendo submetido o nosso País. Relatar simplesmente factos e acontecimentos, em 2005/6, parece muito pouco para se dar a entender o significado da mobilização geral imperialista/capitalista contra a Revolução Portuguesa.

O Partido Socialista decide, no dia 11, abandonar o IV Governo Provisório, insistindo no Caso República, como pretexto e prova suficiente de que em Portugal não existia liberdade de imprensa... ergo, a "ditadura comunista" vinha a caminho. "Acudam-nos capitalistas do mundo livre". Cabala ridícula, já totalmente desmontada, na altura. Por exemplo (pág.196, “Dias Loucos”) o enviado especial do Le Monde - Dominique Pouchin (gente amiga do Dr. Soares) reconhecia que a comissão de trabalhadores que usurpara a redacção do República era "vagamente mao/populista". Isto é, esquerdalhos provocadores, sem qualquer ligação ao PCP. Aliás, a pág. 206 (idem), vem citado F. Miterrand (quem diria!): “Acreditarei nos que choram (agora) pelas liberdades em Portugal, (quando nunca falaram delas durante os cinquenta anos de ditadura) se também chorarem pelas liberdades em Espanha”.

A 17, é a vez do PPD sair do governo. Os "independentes", J. Sampaio e J. Cravinho, capitaneados pelo "capitão d'Abril" Melo Antunes, deixam também V. Gonçalves a falar sozinho. Enquanto esta intriga/provocação se desenvolvia, os partidos burgueses contra-revolucionários, com o PS à cabeça, multiplicavam comícios por todo o País, atacando o MFA e a "ditadura comunista" de V. Gonçalves. Simultaneamente, os bispos de Aveiro, Braga, Bragança e restante clero caceteiro/incendiário incitavam a populaça a acabar com os comunistas (pág. 197, ib.) a continuarem a destruir-lhes as sedes e outras instalações... enquanto o Papa reza ao Altíssimo ("Quotidien de Paris", citado pág. 173, ib.) para que “a solidariedade fraterna ajude a Igreja Católica em Portugal". Fala-se da marcha sobre a Comuna de Lisboa, para coincidir com a manifestação convocada pelo PS, para 19, na Alameda. O ELP ataca em Bragança. Spínola, no Brasil, clama por levantamento popular. Motins, assaltos, incêndios, agressões e mesmo assassinatos em Aveiro, Alcobaça, S. João da Madeira, Rio Maior e outras localidades do centro do País, só possíveis pela passividade/cumplicidade das forças militares locais, contando com a cobertura do QG de Coimbra. Marcha sobre Luanda, por Holden Roberto e colonialistas portugueses anunciada para 22 (pág. 220, ib); outra marcha, esta sobre Angra do Heroísmo, a 23 (idem). Mobilização de milícias populares, é ameaça do PPD (Emílio Guerreiro), do MRPP (Arnaldo Matos) e doutros palhaços; etc... A 26, os EUA avisam a União Soviética (pág. 224, ib); finalmente, a esquadra da NATO marca manobras para a costa portuguesa. Isto é, a burguesada nacional, com o apoio do capitalismo imperialista, preparava a guerra civil em Portugal.

Ora também neste mês de Julho 75, certos episódios bastante significativos surgem muito mal contadinhos nas páginas de “Dias Loucos”. Que podiam (deviam) ter sido descritos numa versão mais actualizada (verdadeira) em 2005 (Consta já no meu livro de 1981, a pág. 172 e seguintes, a descrição detalhada). Atendendo a que vos dais ao cuidado de citar obra recentíssima (Rezola 2006, em pág. 218, “Dias Loucos”), vejo-me forçado a repor a verdade dalguns factos.

(Continua no post seguinte)

publicado por samizdat às 22:58
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