Quinta-feira, 23 de Julho de 2015

Da Tirania Neo-Liberal

Utilizei – deliberadamente – o antigo conceito grego tirania  - ou governo despótico- lá pelos idos dos 500 aos mil anos ac (antes  de nascer J.Cristo). Para os filósofos  de então, a tirania era considerado o sistema de governo mais nefasto e condenável na escala da “justiça social”.

Sabe-se que esse tema  -a justiça- e a correlativa procura/ definição do “homem justo”, foram  obsessão na cultura clássica grega; e ainda hoje/agora presidem ao julgamento ético na chamada civilização ocidental/cristã, graças ao monumental espólio literário/documental  que chegou  aos hodiernos tempos. Com efeito, o pensamento filosófico da Cristandade Ocidental e seus impérios  (nomeadeamente no campo social-político) e noutras religiões/crenças,  devem o mais válido das suas doutrinas aos pensadores da antiguidade clássica......e não a supostas revelações divino/proféticas.

Vejamos, no campo restrito da governação da cidade-estado. Era ponto assente: - o governo arbitrário/abusador do tirano, acabará substituido por uma oligarquia (de facções e partidos de interesses); que, por sua vez, mais cedo ou mais tarde, serão arredados do poder por uma democracia  (o goveno de muitos, em teoria). Ambas as alternativas, segundo a corrente filosófica dominante (Sócrates-Platão-Aristóteles), revelar-se-ão corruptas e interesseiras; nenhum desses governos cuidará verdadeiramente dos interesses do povo. Uma nova tirania surgirá, capciosa ou fatalmente. É o famoso “Eterno Retorno”, expressão descoberta! atribuída na era moderna, a F.Nietzsche (1844-1900).

Contudo, mais curioso ainda, é tropeçar nos Diálogos de Platão com personagens cuja ideologia, opiniões politicas, sentimentos pessoais e etc,  parecem uma  duplicata dessa seita de párvulos neo-liberais que por aí andam a empurrar o mundo super-tecnológico para as trevas da idade neo-lítica.

(Recorde-se, brevemente, que os Diálogos são escritos de facto por Platão, mas que ele jura e trejura que as palavras e frases saíram da boca do seu querido e adorado mestre Sócrates: ele seria apenas o escriba, incluindo da célebre Apologia proferida por Sócrates pouco antes de ingerir a cicuta, antecipando-se á sentença do tribunal onde estava a ser julgado por sedicioso).

Entretanto, demoremo-nos no diálogo “A República” de Platão/Sócrates (ou vice-versa). Dois dos intervenientes, os jovens Trasímaco e Polemarco de suas graças ...... então  não é que os sacaninhas são directos antepassados dos jotinhas labregos da sufulrosa e mal-cheirosa geração dos “traidores democráticos” do Novembro 75 em Portugal!?  

Diz Polemarco a abrir (Livro I-Secçao2): “Fazer o que é justo, ou Justiça, consiste –em suma- em beneficiar os amigos e prejudicar os inimigos”.Carrega Trasímaco (Secção3) “aquilo que é certo, ou justo, é aquilo que está no interesse da parte mais forte”. Sócrates argumenta com paciência dialéctica; mas os jótinhas gregos no séc.4º ac queriam deixar bem explicadinha a sua visão da vida. Pois vamos conhecê-la. Tem um  especial interesse e espantosa actualidade. Os nacionais jótinhas neo-liberais no recreio de S.Bento,  os arrivistas do “arco do poder” ficam retratados ao vivo a milhares de anos do aclamado progresso/sucesso da civilização. Afinal, sangue do mesmo sangue, a mesma ganância e egoísmo, maldade  e violência, a mesma impostura.

Na Secção 4-Livro I do diálogo “A República”, Trasímaco faz um pequeno discurso:

“Na sua opinião, a justiça é uma virtude para os covardemente simplórios e para os ingénuos. As pessoas só levam vidas “justas” porque são ignorantes e porque temem agir de outra maneira. Para os homens fortes e inteligentes, a injustiça é muito mais vantajosa. Nas questões de comércios e noutros cometimentos, o homem injusto é de longe mais bem sucedido: ele esquiva-se aos impostos, apropria-se dos fundos públicos e, de modo geral, leva uma vida bastante mais preenchida e feliz que o homem justo.

Naturalmente, tais acções devem ser cometidas em larga escala. Arrebatar bolsas, ou fazer roubos insignificantes não é de modo algum vantajoso. Pois uma pessoa sozinha  é apanhada e castigada. Mas se alguém consegue submeter à sua autoridade o conjunto dos cidadãos e torná-los escravos, então não existirá qualquer receio de ser apanhado. Em resumo, a vida do tirano é de longe a melhor”.

Que tal, ein? Até parece o Passos a falar! Ou o outro, agora na gaiola. Ou o Durão, agora num poleirão!Ao Santana saíu-lhe o euromilhões. São todos uns sabichões .....o que rima com vilões e outras coisas em ões. (Não sei porquê, veio-me ao espírito o nome do filósofo Ali Bábá....talvez por ter muitos admiradores lá prós lados do “Arco do Poder”. Será nome de casino? Ou de academia, para os muitos Trasímacos e Polemarcos deste maravilhoso mundo global da tirania capitalista neo-liberal?).

Entretanto, o planeta foi girando: a Renascença da civilização cristã-ocidental estava ao virar da esquina, em particular na península italiana, com os seus artistas, homens de génio e engenho mais a desenfreada ambição do poder. Nesse campo, de disputa e intriga política, distingue-se “um educador do povo” de seu nome Niccolo Machiavelli (1469-1527) que goza duma singular notoriedade até aos dias de hoje, também aqui entre a ambiciosa classe política cá do sítio. A moral do seu discurso, o”maquiavelismo” ( O fim justifica os meios) agrada sobremaneira aos governantes & acólicos do quintal lusitano e tem sido usado  com afinco e devoção nos 40 anos do regime demo-crático/demo-partidário (demo de demónio).

Sucede até –merecendo o devido destaque- que os dois mais destacados governantes, nos últimos anos, desta desastrosa II República demo– José Pinto de Sousa (arrogado Sócrates)  e Pedro Passos Coelho - são eminentes maquiavélicos, não apenas na práxis política e no carácter pessoal, mas também revelando-se leitores  aplicados de O Príncipe, o famoso manual operativo dos políticos sem escrúpulos. Príncipe, como o primeiro inter pares , o ditador, o poder absoluto, o tirano em resumo.

Ensina Maquiavel aos arrivistas/ carreiristas, em 26 Capítulos, folheando a esmo: “O príncipe deve ter o entendimento treinado para virar conforme os ventos da fortuna e a mutabilidade das coisas lhe ordenem – deve ser o mais generoso possivel com aquilo que não lhe pertence, pois   esbanjar os bens alheios, além de não te tirar a boa fama ainda ta acrescenta – o novo príncipe deve logo mostrar ferocitá (a vitalidade do animal selvagem); Da crueldade e da clemência: é mais seguro ser temido que amado, pois o amor quebra-se, mas o medo mantém-se. Nunca faltaram a um príncipe pretextos legítimos para justificar a sua falta de palavra. Nâo existe maneira mais segura de submeter uma provincia conquistada do que arruinando-a. Convém fazer o mal todo de uma vez para o tornar menos amargo;e o bem, pouco a pouco, para melhor ser apreciado. Sendo a fortuna mutável, pois é mulher, para a conservar submissa é necessário bater-lhe e contrariá-la.

Esta pequena amostra do pensamento de Maquiavel, são extractos da sua obra mestra O Príncipe, publicada post-mortem em 1532 (m.1527); e, desde então, aclamada como livro sagrado de instruções por todos os canalhas que ambicionam o poder. É fantástico: o livreco não passa de um amontoado de esterco filosófico, exaltando o cinismo na politica e a falta de escrúpulos para  políticos e candidatos. Todavia, é forçoso verificar que os conselhos maquiavélicos atingiram  a moderna classe politica, suposta democrática. Em Portugal inclusivé. Por exemplo, quantas vezes ouvimos o ex-princípe Pinto de Sousa, agora recluso 44 na cadeia de Évora, gabar-se, clamar bem alto a sua ferocidade? Que era um animal feroz? Revelando-se assim leitor e discípulo aplicado.

Também, temos de reconhecer, que o novo princípe Passos Coelho (& Cª) está cumprindo a máxima maquiavélica “fazer o mal todo duma  vez, com violência brutal, e o bem pouco a pouco ... até esquecer”.

Ora aí está. A conclusão é minha! (Vou cobrar direitos de autor). Ou seja: o virus do abjecto cinismo maquiavélico (nascido na circunstância da Renascença italiana do séc.XVI, onde no próprio Vaticano reinava a libertinagem sem barreiras ético/morais); esse virus maligno/vicioso/criminoso, impregna o catecismo ideológico do Admirável Império Neo-Liberal no sec.XXI. Não faltam comprovações, experiências em vários países e governos por esse império global fora  de tiranias capitalistas, confessando-se obedientes catecúmenos dessa ideologia de saque e empobrecimento. Podemos situar a estreia do neoliberalismo na arena da luta ideológica no mundo global moderno, em 1973, com o golpe fascista de Pinochet, assassinatos e destruição ... e o bando dos “Chicago Boys” capitaneados pelo  profeta Milton Friedman voando para o Chile prontos a colaborar/dirigir o governo do novo princípe/ditador/tirano na refundação de um mercado sem peias, privatizações em todos sectores, etc,etc; conhecemos  bem a estória e os seus catastróficos resultados.

A partir do ensaio chileno, na esteira e no enquadramento  da Operação Condor (tenebrosa e sanguinária contra-revolução geral  militaristta nos países da América Latina organizada pelos EUA/CIA ) a doutrina neo-liberal  de rapina, empobrecimento, privatizações, etc, foi conquistando mercados e continentes. Seguiu-se a  velha Europa com a bruxa inglesa Margaret Tatcher (grande amiga de Pinochet e de Grobatchev!). Fiquemos por aqui. Já em 1976, o 1º governo da II Democracia Portuguesa, chefe M.Soares, estava agachado a pedir empréstimos ao FMI, em nome de leais préstimos contra-revolucionários.

Na hipótese de algum leitor desejar maior informação sobre  “The Shock Doctrine/Disaster Capitalism” recomendo a obra assim titulada pela autora Naomi Klein. (A qual, note-se, 1ªedição-2007, cita Maquiavél ao lado de M.Friedman no Cap.3) Está também on-line num You Tube de 71 min. com legendas em português. Há ainda uma edição 2012-Lua de Papel, da obra “Liberdade para Escolher” do casal de “missionários evangélicos” Milton e Rose Friedman.

Vamos admitir que, pelo menos, uma dezena de políticos portugueses em exercicio de funções governativas –PSD- conhece algo do catecismo neo-liberal; tendo em conta que o respectivo Governo,  produziu toneladas de legislação em estrita obediência aos dogmas doutrinários. Claro, que estiveram por cá largos meses  os Chicago boys, mascarados de troikas, nuvens de assessores e outros infiltrados, bem instalados e melhor remunerados pelo manso contribuinte democrático. Enfim, era inevitável e irrevogável, como eles dizem. A nossa classe política também viajou pelo mundo à fartazana, amanhou-se com belos tachos e reformas. Nada de mesquinharias e misérias; isso é para o Zé Povo, que já vem habituado desde o Salazar.

E assim chegámos ao principal sujeito do discurso: o Zé Povinho e  a Ti Maria e Família com 200 euros/mês´.

 Discurso por discurso, veio-me à lembrança um livrinho que já vai na 7ª edição, com traduções noutros países. Tem por título, exactamente:   Discurso sobre o filho-da-puta

O autor Alberto Pimenta adverte logo de início que filho-da-puta é apenas um modo de mal-dizer (isto é, o bom nome das “senhoras mães não está em causa); mas que o filho-da-puta existe em todos os lugares, isso é um facto ... excepto nos dicionários como  ironicamente  escreve. Ora,  todos nós sabemos que a expressão é vernáculo popular português, ofensivo contra alguém e instituições considerados de mau caracter ou más intenções. Confesso que a uso muitas vezes nos meus solilóquios e indignações públicas tendo sempre como alvo os governantes e apaniguados  que levaram Portugal  a este estado de degradação ético/moral, ruína empobrecimento e miséria. Malditos sejam, todos os filhos-da-puta, “que estão construindo os amanhãs como pontes para ontem”.( in A.Pim.).

 

                                     Lisboa, 20 Junho 2015-06-21

                                          Fez) J. Varela Gomes

publicado por samizdat às 07:05
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