Quarta-feira, 15 de Julho de 2015

ESCUTA, Eleitor Anónimo: Votaste em mais do mesmo

Publicado em Alentejo Popular Nº 318 (5 Novembro de 2009)

 

Num livro, cuja tradução atingiu as cinco edições no Período Revolucionário, o autor Wilhelm Reich, conversa com o chamado “homem comum”. (John Doe, na figuração anglo/americana; Zé Ninguém, na traduzida adaptação). Em escassas 100 páginas, encontramos um duro libelo de responsabilização individual, um apelo lancinante ao Eleitor Anónimo. (Minha adaptação para efeitos circunstanciais). Respigemos.

 

“Deixas que outros homens assumam o poder em teu nome. Confias aos homens que detêm o poder, mais poder ainda para te representarem. E só demasiado tarde reconheces que te enganaram uma vez mais. Ouvi depois os teus prantos e lamúrias, as imprecações de raiva e desalento. Conheço-te e entendo-te. E vou dizer-te quem és Zé Ninguém, porque acredito na grandeza do teu futuro que, sem dúvida te pertencerá. Por isso mesmo, antes de tudo, olha para ti. Vê-te como realmente és o ”homem médio” o “homem comum”. Ergueste tu próprio os teus tiranos e és tu que os alimentas; apesar de terem arrancado as máscaras, ou talvez por isso mesmo. Eles próprios deixam entender que és uma criatura inferior, incapaz de assumir responsabilidades, e que assim deverás permanecer . E tu nomeia-los novos salvadores e dá-lhes vivas. E é por isso que eu tenho medo de ti Zé Ninguém; um medo sem limites. Porque é de ti que depende o futuro da humanidade. Porque tu és “o povo”, a “opinião pública” e a “consciência social”. Já alguma vez pensaste Zé Ninguém, na responsabilidade gigantesca que estes atributos te conferem? “

 

Dentro do que sei, não existe na cultura popular portuguesa uma personagem equivalente ao John Doe/Zé Ninguém com quem conversa Wilhelm Reich no seu ensaio escrito em 1945. (Viria a morrer em 1957, aos 60 de idade, numa penitenciária americana para onde fora atirado na “caça às bruxas” anticomunista desencadeada por Mccarthy. Cientista de origem germânica, biólogo reputado, vagueara pela Europa sempre perseguido pelo nazis. Em 1939 procurou abrigo nos EUA; os fascistas americanos completaram o trabalho dos nazis hitlerianos).

 

Na realidade, a figura popular que ainda persiste no imaginário nacional é a do Zé Povinho, criada por Bordalo Pinheiro em plena monarquia constitucional, vai para século e meio. Era a de um popular desassombrado, que não se deixava enganar pelos políticos da época, a cujas lérias respondia com um ostensivo manguito. Ora, depois de 50 anos de opressão fascista, e 30 de hipocrisia democrática, o desassombro murchou, o manguito virou gesto mole, envergonhado. Com efeito, nos dias de hoje, o Zé Povinho comentador verrinoso da política doméstica, de peito aberto e risada franca, deixou de existir. O tipo sociológico mais emblemático na sociedade actual é o “Zé politicamente correcto”. Na feira cabisbaixa, segue em rebanho, abdicando dos próprios interesses, Maria vai com as outras.

 

Circula por aí, estranhamente consensual, uma causa explicativa para este fenómeno: o medo! Da esquerda à direita, da burguesia ao proletariado, do universo rural ao urbano, todos parecem concordar com o diagnóstico. Até mesmo observadores e sociólogos estrangeiros, de passagem pelo paraíso democrático português, depressa emitem um parecer concordante: este povo tem medo; vive amedrontado, etc. Numa paralela visão, D. Manuela F. Leite chamou-lhe “asfixia democrática”. Tanta unanimidade deve significar alguma coisa pouco honrosa para a ditosa pátria bem-amada, nestes alvores do séc. XXI.

 

Não vem aqui ao caso aprofundar a análise dessa nódoa na identidade nacional, a que os 50 anos de sujeição fascista e outras ancestralidades inquisitoriais não serão, evidentemente, alheias. Limitar-me-ei a sublinhar um sintoma bem mais concreto que o difuso conceito do medo, até pelos efeitos directos que teve nos recentes mapas eleitorais : a cobardia cívica.

 

Poderia, em nome da neo-delicadeza sócretina, optar por definir o sintoma de maneira mais amável: por exemplo, indiferença cívica; ou preguiça; ou descrença no sistema. Mas W. Reich não me perdoaria. Por que ele –e eu – queremos acordar em ti, cidadão comum, o sentido da responsabilidade cívica. Antes de tudo, olha para ti Vê-te como realmente és: um cobardolas quanto baste, procurando sombra e encosto ao poder onde quer que o vislumbres.

 

Uma das manifestações mais notórias da tua cobardia, Zé Anónimo, é o teu gosto pelo anonimato. E nesse aspecto, o sistema eleitoral democrático do voto secreto facilita a tua vida. Para efeitos de escrutínio o teu voto é anónimo. Se te abstens ou votas em branco, o teu nome não será divulgado; e podes sempre dizer, posteriormente, que votaste neste ou naquele partido que, de momento, mais te convém nomear. Aliás, já sucedeu coisa idêntica em 1985/95 (governos PSD). Também então a hostilidade popular contra Cavaco se afigurava esmagadora; mas foi ganhando eleições sucessivas. Posteriormente, não se encontrava uma única pessoa capaz de confessar que tinha votado em mais do mesmo.         0

 

O ciclo eleitoral que terminou a 11 de Outubro deixou um travo amargo; que corresponde à decepção provocada pelo insuficiente castigo infligido a Sócrates & Cª pelo eleitorado. Em particular pelo Eleitor Anónimo, que votou em mais do mesmo, talvez pensando - ou impelido a pensar – que era útil/necessário escolher o mal menor. Efectivamente, a secreta esperança da esquerda partidária e ideológica baseava-se numa realidade que parecia consistente : a enorme vaga de descontentamento popular que varria o País após 4,5 anos de governação arbitrária do PS, as centenas de milhar de desempregados, sectores inteiros de profissionais e funcionários num movimento de protesto sem paralelo, corrupção e abusos expostos na praça pública. E no entanto, conforme se verificou, nesse contexto social/político extraordinariamente favorável, a decisão dos eleitores foi contra-corrente; e constituiu, senão surpresa, pelo menos perplexidade.  

 

Erros na direcção da campanha, decerto os houve. No meu entender o mais negativo de todos, foi o de ser perdido a orientação estratégica à priori vencedora: seria a de ter mantido a pretérita governação socialista sempre presa na barra do tribunal, sofrendo julgamento impiedoso. O que teria implicado evitar a todo o custo deixar-se enredar nas malhas das promessas e dos programas para o ver vamos.(TGVês e aeroportos, por favor ! !) Nessa táctica ilusiva, Zé Sócrates mostrou ser mestre; sabendo bem, por experiência acumulada que, para o criminoso, o prevaricador, o culpado, olvidar o passado equivale à absolvição.

 

Mas ....Escuta, Eleitor Anónimo: qualquer que tenha sido a orientação das campanhas partidárias, isso em nada altera ou diminui a tua responsabilidade cívica; que ficou irremediavelmente comprometida quando votaste contra os interesses dos desafortunados em geral e dos trabalhadores, classe a que tu próprio, cidadão comum, pertences.

 

Com frequência, a televisão mostra grupos de trabalhadores junto a fábricas e locais de trabalho, olhando desalentados para as portas fechadas, onde tu e mais alguém da tua família trabalharam anos a fio; e até chegaram a pensar que a casa era em parte vossa. Procurei nos mapas eleitorais os resultados do escrutínio em localidades sedes de industrias e/ou elevada actividade económica, com grandes escolas, hospitais, instituições de numerosos colaboradores. Tenho-te a dizer, Zé Eleitor, que me custou concluir que mesmo em círculos eleitorais onde a falta da emprego e os despedimentos se contam aos milhares, o teu voto, ou   se quedou pela abstenção, ou foi oferecido aos que te estão empurrando para a miséria e o desespero. Revertendo a Wilhelm Reich: E tu nomeia-los novos salvadores e dá-lhes votos. E é por isso que eu tenho pena de ti, Zé Ninguém/Eleitor Anónimo; uma pena sem limites.      

 

O novo elenco executivo chefiado por Sócrates provocou um coro de apreciações muito pouco lisongeiras, desde os comentadores avençados aos políticos de serviço. Os porta vozes partidários reconhecem o mais do mesmo, a evolução na continuidade da velha tradição salazarenta. Os augúrios apresentam-se nada auspiciosos.

 

Em contrapartida, no arraial socialista parece reinar a convicção optimista de que vai ser canja dar a volta, caso-a-caso, à maioria numérica da oposição parlamentar. Em particular, Sócrates, cujo ego e arrogância estão obviamente inflamados pelo sucesso da manobra eleitoral. Manteve o núcleo duro dos fieis yesmen, acrescido doutra metade de anónimos ministros tecnocratas destinados a simples executantes da vontade do chefe. Manterá –podemos estar certos – todos os aparatchiks, controleiros, homens-de-mão, informadores, etc, com que enxameou a Administração do Estado, as empresas públicas e semi-públicas. Figuras nefastas como Constâncios, Varas, galpistas e teleconos, às centenas, mercê da sua fidelidade canina, continuarão a gozar bela vida dos “direitos adquiridos”. A transfiguração do animal feroz em paciente negociador ficará em banho maria, debaixo da capa do Tartufo de fé democrática. Mais perto estará o modelo manholas/soares. O lema dos fanáticos pelo poder absoluto é “aguentar”; aguentar a todo o custo, aliando-se ao diabo se preciso for. Esse catecismo foi o seguido pelo Manholas Salazar e declarou-o Soares Manholas. Teremos agora um Sócrates Manholas? O anonimato e o segredo fazem parte desse modelo. “Fazê-la pela calada”, já as nossas avózinhas toscavam nos hipócritas da sacristia. Actualizando: nos hipócritas da democracia.

 

A questão do anonimato em democracia representativa, à luz da diáfana transparência de que cada um se louva, mereceria longas palavras. Atalhando; e dando de barato que o executivo governamental possa ser preenchido apenas por pessoas da confiança do 1º ministro, já não é admissível que os “representantes do povo soberano” - o poder legislativo – seja constituído, na maior percentagem, por indivíduos totalmente desconhecidos do eleitorado, inclusive quanto ao currículo e às habilitações que os recomendam para a função.

 

Trata-se, na realidade, da subversão da essência do sistema democrático representativo, tal como o conceberam os filósofos de oitocentos e os patriarcas da primeira das modernas constituições burguesas: a americana, em 1776. Ora dessa subversão, não tomam conhecimento os sábios do direito constitucional, nem os protagonistas do sistema. (Pudera não! Tens-lhes rendido uma vidinha opípara.) Argumentam que o mesmo se passa em todo o globalizado mundo capitalista. (Pudera não! São todos farinha do mesmo saco).

 

Limitemo-nos porém, à nossa portuguesa circunstância. Num novo parlamento de “mandatados pelo povo” (dizem eles, sem se rirem) mais de metade são estreantes. Na sessão inaugural de Outubro pp, no relance televisivo, pareciam escolares no regresso às aulas. Não sabiam os lugares respectivos; e muito menos saberiam qual o circulo que representavam. Refiro, sem hesitar, os dois agrupamentos mais numerosos, pois cada vez mais se parecem com associações para fins carreiristas. Um deputado do PSD tomou posse e largou o mandato meia-hora depois. Um outro, muito jovem e esfuziante, quando perguntado por uma jornalista como encarava a nova função, respondeu presunçoso que transitava de director-geral; três ou quatro do PS transitavam de 10 anos em Bruxelas; aliás, quase todos estavam, em “trânsito” de cadeira para cadeirão, de tacho para gamela, de deputados para ministros, de assessores para secretários de estado e vice-versa, numa dança buliçosa de clube de privilegiados. Uma desconhecida ex-deputada socialista, num suplemento/revista, em pose de modelo, confessava-se “jeitosa”; e que antes do mandato como representante do povo fora chefe de gabinete de um qualquer ministro. Deu-lhe jeito.

 

Povo, povo que lavas no rio, foste tu que lhes deste beijinhos nos mercados e o voto nas urnas.

 

Nesta legislatura está prevista mais uma revisão constitucional. A oitava ou nona, ao que julgo. Nem o mais ingénuo observador do panorama político nacional pode esperar qualquer reformulação, num sentido ético ou duma maior justiça social: ) quer no sistema de representatividade democrática; ) quer na delimitação de poderes; ) quer na moralização da vida colectiva.

 

Nos três capítulos apontados a ilusão reformista acaba antes de começar esbarrando contra a sólida muralha dos “privilégios adquiridos”, aonde se junta a maioria parlamentar burguesa. Aliança essa fácil de mobilizar e com que conta Sócrates para se aguentar no quadriénio seguinte. Nada, ou quase nada, será efectivado quanto ao combate à corrupção, aos privilégios e favoritismo, aos abusos e respectiva impunidade. “Não queriam mais nada! Tirem o cavalinho da chuva!” Será esse o invariável tipo de resposta que a maioria do parlamento recém eleito dará às propostas da oposição de esquerda.

 

Não se duvida da postura combativa dessa oposição; em particular, o PCP/Verdes, com longas provas dadas dentro e fora de S.Bento. Palco aberto, verdadeiramente público graças à televisão, e onde os mandatados pelo povo eleitor deviam mostrar o que valem. No entanto, como é notório, nos dois partidos de maior presença, há muitos que só fazem número, entram mudos e saem calados.

 

Os partidos contestatários da ordem burguesa/capitalista estão, certamente, em S.Bento sem ilusões quanto à sua capacidade em condicionar a orientação de classe dos governos de maioria. Na tribuna que conquistaram – de audiência nacional, torno a sublinhar – a acção mais profícua que se lhes oferece desempenhar é a da fiscalização implacável, uma-a-uma, das decisões, medidas e iniciativas do governo. Sem perder tempos de intervenção com assuntos inconsequentes, evitando as armadilhas em que a manha socialista é perita.

 

Logo na primeira semana de exercício, o chefe Sócrates dá sinal de que a política do “mais do mesmo” está para continuar. Nomeia, em momento de suposta crise – um governo sumptuoso em termos de efectivo (16+38= 54), a multiplicar por assessorias de várias centenas de boys e girls, frota automóvel, indiscriminadas ajudas de custo, subsídios e benesses, etc. Um governo de assalto ao aparelho do Estado. Exactamente como o anterior. Pois que um dos objectivos supremos da ambição socretina foi - e, pelos começos, continua a ser- a destruição do Estado/Administração Pública independente do domínio partidário, tal como pressupõe a Constituição; substituindo-o pelo arremedo em re-formação, controlado por comissários partidários (secretários de Estado) e capturado por um partido eternizado no poder (nacional socialista, apetece dizer).

 

A denúncia desta enorme subversão do Estado de Direito Democrático mal foi ouvida no decorrer das pretéritas campanhas eleitorais. Não poderá passar, como simples fait-divers, na actual legislatura. Certamente será discutida a fundo e com seriedade pelos parlamentares eleitos em nome da esquerda ideológica e partidária. Talvez então o Eleitor Anónimo realize a irresponsabilidade do seu voto timorato.    

 

                                 Lisboa, 30 Outubro, 2009

 

                                           ass) J. Varela Gomes

publicado por samizdat às 21:50
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